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Mensagens

Falas e contações - apontamento genológico

  Em tempos hoje recuados, Luandino Vieira chamava de “estórias” as suas narrativas. Ele talvez se inspirasse na diferença entre story e history , mas a sua atitude tinha um antecendente, nesse tempo ainda próximo. Em Cabo Verde, António Aurélio Gonçalves, por alguns considerado o maior, ou um dos maiores contistas africanos, chamava as suas narrativas de “noveletas”. Nem contos, nem novelas, portanto, mas “noveletas”.   As designações dão sinal da clara desadequação entre as divisões clássicas dos géneros literários europeus, as divisões tradicionais dos géneros das oraturas, e a produção contemporânea escrita, que se coloca nem numa nem na outra dessas ‘divisões’ com seus generais e suas marchas militares. As aproximações à linguagem quotidiana e citadina tiveram mais relação com isso do que se pensa quando se nota que o facto não costuma ser referido nesse contexto. Por outro lado, a nossa focagem desse processo fica desfocada por uma crítica fixada no princípio de que...

Antologias no século XXI: para quê? para quem? Sessão no CITCEM da Fac. de Letras da Univ. do Porto

Com que sentido, propósito e contexto em vista os antologiadores antologiam? Quais as motivações? Após a publicação, que reflexões suscitam comentários e análises? Qual o tipo de cobertura que se pretendia com cada antologia?  Estas questões nos orientaram na Oficina de investigação científica   do CITCEM (Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória ) da Fac. de Letras da Univ. do Porto, a convite do Prof. Francisco Topa. A reprodução das falas: Participação angolana: Abreu Paxe, Carlos Ferreira, Francisco Soares (por ordem alfabética)

Apontamento sobre a pregação de D.ª Beatriz Kimpa Vita

  (retrato de D.ª Beatriz extraído ao relatório de Bernardo da Gallo. V.  L. Jadin, « Le Congo et la secte des Antoniens », in  Bull, de l’Inst. Hist. Belge de Rome,  fasc. XXXIII (1961). Foto reproduzida em  https://www.ufrgs.br/africanas/beatriz-kimpa-vita-1684-1706/ )   Em várias passagens referi já o caso de D.ª Beatriz Kimpa Vita, figura precoce extraordinária e que terá gozado de dotes oratórios invulgares. O que nos pode interessar, numa abordagem das zonas de sombra da formação de uma comunidade literária e de suas margens, é o que deriva da sua colocação, do seu lugar entre a cultura escrita do Livro (ou seja, da Bíblia , que circulava, por fragmentos e interpretações-traduções, na oralidade), e uma tessitura de oralidade e de iconicidade na qual se cruzavam referências bíblicas, do cristianismo europeu, com o sistema de crenças, de ritos e de valores do antigo reino do Kongo (Congo), já de si uma plataforma de ascendências várias (as loc...

Exílios - aos amigos moçambicanos

  EXÍLIOS: COMEÇO POR AGRADECER     Aos meus amigos moçambicanos. A Gabriela Ruivo Trindade A Nara Vidal A Japone Arijuane À FILQ     Boa tarde e boa noite.   Começo por agradecer a todas as pessoas aqui presentes e às que tornaram possível este encontro. Segue um abraço especial de parabéns para Amosse Mucavele e seus companheiros pela dedicação à causa áspera e forte (Humberto da Silvan), nobre e acre da literatura e, em particular, à causa da literatura em Moçambique.   Parafraseando Tomás Jorge, hoje a minha voz é de búzio […] hoje não trago nada para dizer . A nossa história foi tecida com prisões, exílios e combates. É por isso difícil aprendermos a paz. A paz interior, a que não precisa de ordem, mas de liberdade e de harmonização. Do regresso da ausência de si mesmo (Henrique Guerra).   São geralmente conhecidos os principais exílios da luta pela independência, na tentativa de resgatar o que não foi poss...

O jardim das delícias

É muito provável que a mente humana siga procedimentos básicos, primários, ou fundamentais, que nos orientam nos mais diversos campos de atividade. A psicologia conhece alguns deles há muito tempo. Na perceção, como na cognição, como na arte, operamos por comparações, analogias e contrastes. Os olhos dirigem-se primeiro para onde há mais luz; o discurso dirige-se primeiro para o que marcadores emotivos assinalam como mais importante; o foco da nossa atenção dirige-se primeiro para onde há movimento. Ao fazermos isto, já estamos a trabalhar em contraste (portanto a comparar, é o que contrasta com o 'fundo' - que assim se torna fundo - que nos atrai a atenção). Também já estamos a fazer conotações (intuitivas, claro, ou mesmo instintivas - usando os termos com muita imprecisão. Olhamos para a luz, o movimento, o que nos emociona, porque automaticamente isso é conotado com perigo, vida, alimento - ou seja, com a procura de equilíbrio interno e harmonia na relação com a origem dos ...