É muito provável que a mente humana siga procedimentos básicos, primários, ou fundamentais, que nos orientam nos mais diversos campos de atividade. A psicologia conhece alguns deles há muito tempo. Na perceção, como na cognição, como na arte, operamos por comparações, analogias e contrastes. Os olhos dirigem-se primeiro para onde há mais luz; o discurso dirige-se primeiro para o que marcadores emotivos assinalam como mais importante; o foco da nossa atenção dirige-se primeiro para onde há movimento. Ao fazermos isto, já estamos a trabalhar em contraste (portanto a comparar, é o que contrasta com o 'fundo' - que assim se torna fundo - que nos atrai a atenção). Também já estamos a fazer conotações (intuitivas, claro, ou mesmo instintivas - usando os termos com muita imprecisão. Olhamos para a luz, o movimento, o que nos emociona, porque automaticamente isso é conotado com perigo, vida, alimento - ou seja, com a procura de equilíbrio interno e harmonia na relação com a origem dos estímulos). Agora, porém, não estava só a pensar nisso (contraste, olhar primeiro luz e movimento, falar primeiro do que a emoção torna mais vivo). Estava a pensar em outro procedimento comum, primário, estruturante.
Algumas crianças, perante um pequeno monte de doces, retiram o de cima e vão tirando os outros depois, a pouco e pouco; tirado o de cima, os da camada logo a seguir ficam expostos e vão saindo um por um, como também vão saindo camada por camada até nada ficar. Outras crianças irão tirando um de baixo, outro em seguida, outro em seguida, a ver se conseguem o mais tarde possível retirar aquele que desfaz o monte. Umas terceiras procuram tirar logo aquele que fará cair todos de uma vez e riem-se.
Este simples e despretensioso jogo adocicado obedece a três tipos de estratégia que vamos encontrar em muitas outras atividades, individuais e sociais (até ao ponto em que possamos tratá-las de maneira distinta). Veja-se, por exemplo, como cai ou se derruba um sistema ou regime político. Por vezes, tira-se logo o docinho de cima; na política, isso pode significar que a camada logo abaixo cai também, ou não. Os docinhos de segunda linha, ou da primeira a seguir ao cabeça, podem organizar-se de maneira a suavizar as aparências e manterem-se no poder, ou podem eles próprios, para não perderem tudo, eliminar o chefe porque realmente é já esse grupo, essa oligarquia, quem domina o sistema ou o regime e o chefe tinha-se tornado apenas um ícone. Nesse caso, como em outros, a fraqueza dos que se opõem aconselha a seguir a outra estratégia: por baixo, vão-se comendo os docinhos que não fazem cair o monte e, por isso, não ficaram tão vigiados. Há de chegar-se àquele que, embora também despercebido a partir de cima, faz cair o monte. No entanto, se a força dos opositores atingir um nível apenas um bocado abaixo da igualdade, eles podem confrontar o regime ou o sistema exigindo ou forçando a retirada de mais um docinho dos de cima, para deglutição geral dos desesperados, e vão ganhando força por aí, na medida em que a sua força de pressão se torna visível para todos os outros oprimidos. Um por um retiram os docinhos das camadas superiores e o regime, ou o sistema, vai se desfigurando. Daí pode resultar simplesmente a desfiguração do sistema, que depois continuará sofrendo transformações graduais até que o seu funcionamento já não tem quase relação com o anterior. Quando, porém, o movimento oposicionista possui inteligência suficiente para isso e o movimento governista se distrai já tanto com o poder que não se apercebe das falhas, tira-se um docinho de baixo, daqueles que fazem despoletar primaveras árabes e cai tudo de uma vez. Ou não: o poder assusta-se, usa as suas armas, mata, esfola, prende, cala e obriga todos a aceitarem tudo novamente. Porém, nesse caso, já não é o tal montinho de doces que gerou o regime ou sistema e que o sustentava, há uma coligação forçada, um reforço de arames farpados evitando que rolem pelo chão os elementos de si já desligados uns dos outros.
Agora vamos olhar para a criatividade e a cognição de uma vez e podemos formar exemplos a partir das artes ou das ciências ou das filosofias e das teorias, quem sabe até podemos pensar em teologia e revelação.
O mito mais duradouro e fascinante quanto à criatividade e à cognição é o da iluminação, do insight. É o equivalente, no estudo dos processos cognitivos e criativos, à revelação divina, instantânea, mística, transcendente e inenarrável. É um mito e uma verdade, por isso volta-se constantemente a falar nele. Às vezes essa revelação fica escrita, ou sugerida, logo no começo de um ensaio ou de um livro, sendo tudo o que vem a seguir o desenvolvimento da descoberta.
Nas narrativas místicas, ou teológico-filosóficas, ou iniciáticas, há um processo de pequenas descobertas que vão marcando e orientando o percurso do protagonista (ou protagonizado, tornado protagonista por quem dirige o desfile das circunstâncias – Deus ou qualquer outro nome-conceito que o substitua, que desempenhe as mesmas funções narrativas). A seguir à revelação mística, à revelação da verdade, o herói do conhecimento pode retornar ao mundo. Facto por facto, fenómeno por fenómeno, ele irá vendo o que estava oculto neste mundo e mostrando-nos que este é outro, não como nos habituámos a olhar a partir da verdade velha, simplesmente repetida no banco das escolas. Outra vezes isso ficará a cargo do leitor e pára-se na revelação. O que despoleta a revelação é um docinho que, retirado ao monte, faz esboroar o edifício todo e então se revela a estrela viva sobre a qual estava erguido. Esse edifício todo alguns chamam de ego, outros de condicionamento, enfim, esse edifício todo é a imagem que tínhamos do mundo e de nós no munndo sem questioná-lo e sem nos questionarmos. No momento em que o ‘nosso mundo’ cai, temos uma oportunidade única (e talvez instantânea) de o vermos com os olhos bem abertos e sem controlo dos circuitos neuronais automatizados. Isso abre para um intenso momento criativo e cognitivo que pode levar vários nomes, desde reconhecimento até iluminação ou gestalten (sendo aconselhável aportuguesar o termo colocando re- antes, o mesmo do inglês reset).
Mas alguns psicólogos, metódicos, irão lembrar-nos o tal “desfile das circunstâncias” orquestrado pelo Deus-narrador-instrutor do nosso herói. Vão recordar-nos que houve, ao longo do percurso, vários docinhos que foram sendo retirados, obrigando-nos a reconfigurações provisórias que nos preparavam para a queda e a revelação finais do que era o ‘nosso mundo’ que ‘desabou’. Também nos lembrarão que, depois da revelação, essa re-visão do mundo opera uma série de pequenas gestalten, pequenos reset, ou seja, reconfigurações que examinam a possível expressão do que vimos ou pressentimos ou intuímos e, dessa forma, nos levarão a reconfigurar o mundo numa obra, numa sequência mais ambiciosa e detalhada.
Por vezes, ainda nos dirão tais psicólogos e com sua dose de razão, nem chega a dar-se o insight. Vamos só retirando um docinho, depois outro, sem desconfigurarmos o regime ou o sistema, operando apenas pequenas reestruturações no conjunto. Isso tudo, quem me lê, poderá confrontar com a estrutura das revoluções científicas do sr. Kuhn. Nas artes, as obras que derivam da grande iluminação, transcendental ou totalmente re-estruturante, refundam um mundo, abrem uma época, uma literatura, dão começo a uma religião, originam uma utopia que vai guiar os políticos por mais realistas que sejam. Depois, pequenas obras irão reformulando, preenchendo e reestruturando o mundo que se iniciou naquele big-bang, até que o docinho de cima cai de novo.
Outra aplicação do procedimento se dá nas narrativas literárias, como também nas mentiras em família, dentro do casal, entre pais e filhos ou filhos e pais: ou a verdade se desvela de uma vez, num choque, porque sucedeu qualquer coisa que torna incontornável a desilusão, Ou se vai desvelando pouco a pouco e, nesse caso, ou se coze uma meia-verdade consensual, ou chegamos àquele ponto em que finalmente vamos percebendo o que se passou... O mesmo acontece, então, nas narrativas policiais, ou nos romances em que pode haver ou não desenlace, quero dizer, o desenlace pode ser clássico, após uma peripécia (retirada do docinho que faz desabar a colina das delícias), ou não chega a haver desenlace mas, no final, a constatação de que, realmente, as coisas acabaram mudando...
Não vale a pena repetir-me, fazer versões ou citar muitos exemplos interessantes, obras de pormenor e requinte, conversões e reconversões extraordinárias. Não porque eu seja um profeta ou mero candidato a isso, não, só devo terminar aqui porque já disse o que tinha a dizer. A leitura, não sendo mero passatempo nem passando por olhos cansados, caminhará dentro de cada um e nas conversas para um insight, ou para a retirada dos docinhos de base, ou para saborear os da camada intermédia, quem sabe. Ocorre-me só dizer que este processo, comum a todas as atividades humanas, explica bem como se dão os encontros (ao mesmo tempo choques e fusões) de culturas e como tais encontros, originando semioses de fronteira, nos tornam transculturais. Venham, portanto, as famílias, ensaiem a vossa culinária e vamos enriquecê-la provando os pratos uns dos outros e trocando especiarias e, quem sabe, descobrindo maneiras novas de cozinhar novas delícias. Até que, das antigas famílias, irão surgir outras pela mistura dos paladares e das línguas.

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