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Escrita e literatura em Angola e Congo nos séculos XVI e XVII

Os padres, por via do ensino, deram um contributo fulcral para a prática da escrita e, mesmo, da escrita artística nas colónias em geral. Angola foi particularmente ilustrativa neste caso. Do magistério jesuíta veio o plano pioneiro de uma obra que, não sendo intrinsecamente literária, ficaria abrangida pelo que, por esse tempo, se convencionava chamar de ‘Belas Letras’. O projeto realizou-se na última década do século XVI. Surge indissociavelmente ligado a ele o nome do provin­cial eborense Pêro Rodrigues, fundador ou mentor do Colégio de Luanda. Vejamos um pouco da sua história, apenas o suficiente para perce­bermos que, em dado momento, ela converge para um projeto literário que se vai coroar na biografia de Anchieta, mas a­pós a passagem por Angola e o plano de uma História da colónia. Entrou o Provincial na Companhia em 1556. O ensino de Letras Humanas por cinco anos, e o de Latim, que leu no Colégio de Braga (onde foi Reitor por sete anos) [1] , decerto contri­buíram para ...

As produções literárias em periódicos das cidades-porto de Luanda e Benguela-Lobito (1920-1940)

  Embora a literatura angolana se tenha formado em cidades-porto, por estranho que isso pareça não criou muitas ligações diegéticas ou temáticas às cidades com que se envolvia pelo tráfego marítimo. Estudo isso, com particular ênfase para as primeiras três décadas do século XX, começando pela contextualização globalizante e concentrando-me sobre um extrato social específico – o de uma comunidade urbana de colonizados, intermediária entre o mundo rural e a cultura global que se ia formando. E encontro as exceções possíveis.  

Uma língua portuguesa

Têm estes reinos de Angola lioens, tigres e onças; há lioens de casta real com gadelha na cabeça e maçaroca na cola como os de Africa, de que o Autor vio alguns neste reino e no de Portugal tambem, principalmente em a Corte e sempre real e leal Villa Viçoza em o Paço do Serenissimo Duque de Bragança, vindo ali hum de Africa de casta real, ainda novel, mandado de presente ao nosso Principe, o qual andava por aquella populoza e nobre villa em cadeas prezo; o qual foi crescendo e fazendo das suas, com que se mandou recolher a huma grande gayola de madeira chapeada toda de ferro; e fez-se tão feroz, que se temeo arrombasse a prizão, e sahido fora fizesse muito damno; com que mandou o Excellentissimo Senhor fazerlhe hum espaçoso pateo ou leoneira de mui altas paredes, com porta e janellas de fortes grades, com huma talanqueira corrida por diante pella banda de fora, porque não tivesse lugar de botar a garra, e lhe não chegasse ninguem vendoo de fora; tendo huma caza forte por de traz com se...

Novas estórias de antologia - Luanda

António Fonseca publicou, em 2008, no INALD (então por si dirigido), a coletânea Contos de antologia : reflexões, contos e provérbios . Como se expõe logo de início, trata-se de uma obra que resulta de um programa radiofónico, iniciado em "Fevereiro ou Março de 1978". Para o que vou dizer é fundamental citar a intenção do programa: pretendia-se a existência de um programa que tratasse de questões ligadas à valorização da Tradição Oral Africana e, particularmente, angolana.  Mais adiante se diz, ainda no espírito de época:  cremos que, analisados os problemas que hoje se colocam à Cultura Nacional, o lançamento do programa terá sido uma forma de reconhecimento que na Cultura Nacional residem os fundamentos em que se ergue a Nação Angolana.  O autor sabia  que a literatura oral não se desenvolve apenas nas comunidades tradicionais nem apenas nas línguas nacionais e que por vezes incorpora elementos oriundos de outras histórias e de outras culturas e algu...