Embora a literatura angolana se tenha formado em cidades-porto, por estranho que isso pareça não criou muitas ligações diegéticas ou temáticas às cidades com que se envolvia pelo tráfego marítimo.
Estudo isso, com particular ênfase para as primeiras três décadas do século XX, começando pela contextualização globalizante e concentrando-me sobre um extrato social específico – o de uma comunidade urbana de colonizados, intermediária entre o mundo rural e a cultura global que se ia formando. E encontro as exceções possíveis.
“Deus construiu Jerusalém como um marinheiro velho”
“Jerusalém é uma cidade portuária à beira da
eternidade”
(Yehuda Amichai. Yerushalayim, 1967)
1.
É hoje consensual o
papel desempenhado pelas cidades-porto na dinamização cultural dos meios
envolventes – a tal ponto que não pede citações. Ele foi diversificado, se
considerarmos o seu peso nas redefinições identitárias e de cidadania, nas
resiliências, analogias e assimilações interagindo com o dinamismo da imprensa
de outras cidades-porto e de outros países.
Justamente a imprensa
desempenhou, em todo esse cenário, a partir do século XIX, um papel
incontornável e, simultaneamente, de reflexão (de espelho) e veículo das
contraditórias movimentações culturais, políticas e sociais a que os portos, no
mínimo, traziam sal e pimenta.
Um estudo como Cities in motion: urban life and
cosmopolitanism in Southeast Asia, 1920–1940, de Su Lin Lewis
O livro do professor
de Bristol nos permite olhar para simples cidades-porto de Angola como pequenos
exemplos a comparar com o que se passava no sudeste asiático. Esse contraste
confirma, salvaguardadas proporções e especificidades, o acerto das proposições
e análises do autor, em parte extensíveis aos portos comerciais angolanos.
Em Angola, o período
em questão (1920-1940) se caracterizou por um contexto específico, mas
articulado com processos globais. O contexto possui caraterísticas enumeráveis:
1.
A
aceleração do comércio transatlântico aberto (com abertura de portos ao
comércio internacional), realizando-se principalmente por via marítima.
2.
A
aceleração das comunicações mundiais agregando-se, também e ainda, aos espaços
portuários. Incluímos aqui as primeiras emissões de rádio, cujo pioneirismo
coube à zona urbana de Benguela-Lobito e justamente nesses anos.
3.
A
abertura do novo porto do Lobito (aberto à exploração comercial em 1928),
modernamente concebido (o antigo, sem grande movimentação, fora criado em 1847),
no litoral-centro do país; é de realçar que essa abertura estava articulada à
concretização do Caminho de Ferro de Benguela[1],
desenvolvendo-se como alternativa ao espaço portuário de Luanda.
4.
O
conjunto (porto e caminho de ferro) criava, para o trânsito comercial, a
travessia de todo o centro da colónia, do litoral para Leste, visando o
escoamento das riquezas do interior africano, a par da aceleração do comércio
interno.
5.
Consequentemente
se gerava e dinamizava um macro-espaço urbano alargado que envolvia a nova cidade
do Lobito, a antiga cidade de Benguela e a antiga vila mercantil da Catumbela.
O conjunto ocupava (e ocupa) um território de cerca de 30 km’s ao longo da
faixa litoral. A tal macro-espaço urbano se juntava a vila pesqueira da Baía
Farta (cerca de 29 km’s a sul de Benguela) acolhendo comunidades emigrantes de
caboverdianos e madeirenses, ambos com currículos especializados em navegação.
6.
A
circulação de imprensa e de bibliografia (sobretudo anglófonas) relativas à
defesa dos direitos dos negros; esta circulação dinamizava culturalmente as
elites locais em Luanda e, com menor impacto, nos portos pesqueiros de Cabinda
e de Porto Amboim (Benguela Velha, na nomenclatura antiga).
7.
A
globalização das artes do espetáculo, a par da divulgação fascinada das
invenções tecnológicas. Essa globalização trazia já muitos produtos e padrões
artísticos típicos dos EUA (por exemplo a mudança mais rápida nas sequências
dos filmes de ação; a densidade e liberdade instrumentais do jazz; a
mitificação de atores e cantores, incluindo ‘vozes negras’, ‘dançarinas negras’
e ‘estrelas de cinema’ também ‘negras’.
8.
A mais
rápida implementação de uma estrutura administrativa colonial, estendida a todo
o território hoje angolano e cada vez mais baseada em funcionários vindos de
Portugal.
9.
A fulminante
concentração de poder económico e político no novo segmento colonial e nos
altos funcionários enviados por Lisboa; a paralela e consequente proletarização
das elites locais antigas.
10. O ainda consequente engajamento
profissional de filhos das antigas elites locais nas companhias de navegação
comercial
11. O fim das revoltas ‘indígenas’ contra a
dominação portuguesa, a par da implementação do ‘Estado Novo’ em Portugal (por
extensão, nas colónias, embora durante algum tempo sem polícia política).
12. O estabelecimento de um pacto colonial com
representantes dos ‘filhos da terra’, identificados com a unificada Liga
Nacional Africana, legalmente reconhecida pela nova ditadura.
Em tal contexto, a segunda
explosão de imprensa privada escrita (houvera outra no último terço do século
XIX) foi protagonizada pelo renovado e ampliado segmento colonial. Os filhos da
terra, em nítido recuo, verão extinguir-se os poucos títulos que lhes eram
afetos e ficarão reduzidos, nas décadas dos trinta e dos quarenta, a um único
periódico regular, a revista Angola, órgão
oficial da Liga Nacional Africana.
Alguns ‘filhos do
país’ conseguirão colaborar pontualmente nos jornais da elite colonial,
compensando assim a escassez de meios de comunicação por si controlados e a,
também pontual, colaboração de colonos na revista Angola. As
participações dos ‘nativos’ foram, na maioria dos casos, esporádicas e, no
contexto do jornalismo colonial, obviamente cautelosas. A situação só foi
superada, na prática, a partir de 1949, com o advento da segunda fase da
revista Cultura (dirigida por Eugénio
Ferreira a partir de janeiro de 1947) e, depois, na efémera revista Mensagem – a voz dos naturais de Angola,
cujo primeiro número saiu em 1951 e consolidou, definitivamente, a poética
nacionalista urbana.
Neste quadro, as colaborações
literárias na imprensa das cidades-porto de Luanda e Benguela-Lobito foram
feitas, principalmente, por colonos e se revestiam de cariz equivalente quando os
colaboradores eram colonizados urbanos
Uma ténue diferença
marcava a fronteira entre os coloniais portugueses e africanos. Era o
alinhamento, mesmo que subtil, do segundo segmento por classificações oriundas
dos EUA e do mundo de língua inglesa, para o qual ‘negro’ significava ‘não-branco’
e de ‘sangue’ negro (quer dizer: e descendente de pessoas com a pele ‘negra’).
Essa diferenciação permitia aos “africanos” afirmarem-se como grupo destacado
(colando os adjetivos ‘africano’ e ‘negro’, mesmo que se tratasse de mestiços cultural
e geneticamente). Uma vez formado o grupo sob a nomenclatura ‘racial’ (da cor
da pele, da ‘pele de cor’) ele reivindicava os seus direitos na mesma
sociedade, tal como faziam os negros norte-americanos e, no nosso caso, sem questionar
que houvesse colonialismo. O importante era que os ‘negros’ ou ‘africanos’ não
fossem discriminados. Assim se tranquilizava o policiamento político do
salazarismo ao mesmo tempo que se defendia os interesses de um escol de
inequívoca raiz local.
Essa diferença era,
portanto, uma consequência já da penetração de ‘africanos’ e ‘negros’ nos
transportes marítimos transatlânticos. Uma consequência, também, do facto de
Luanda ser um dos mais importantes portos da costa ocidental africana ao sul do
Saara.
É sintomático ter a
revista Angola, da Liga Nacional Africana, comentado as obras
apresentadas a concurso para o prémio da literatura colonial de 1934

Gastão de Sousa Dias,
que recebeu o primeiro prémio de literatura colonial (1926), com África
portentosa
Tratava-se, claro, de
promover, para os filhos da terra, a possibilidade de ascender a um prémio
oficial, prestigiado e compensador, usando para isso uma adesão oficial e
consignada ao projeto do império português. O significativo é que se confundisse,
ou juntasse, o colonial e o branco ao colonizado e ao negro, como se não
houvesse, mesmo, distinção. No entanto, a distinção reforçava-se em outras
páginas da revista Angola e nos periódicos coloniais. Uma vez que os
modelos artísticos e a defesa de uma moral conservadora eram partilhados por
ambas as partes, a equiparação dos dois segmentos em concurso parecia natural.
Já em 1939, o jovem
poeta Geraldo Bessa Victor escreveria novo artigo, na revista da Liga,
intitulado “A chamada literatura colonial”. Aí procurava definir a espécie, na
sequência de uma recensão por ele feita meses antes. Ele entendia que a
literatura de motivação africana, ou mesmo negra, não era necessariamente
colonial, podia ser só portuguesa, ou só estrangeira. Tratava-se, aí, de tomar
motivos africanos para alimentar uma intriga, ou ficção, que não resultava
necessariamente de vivência em África. Literatura colonial, angolana ou
portuguesa, “será a que trouxer, com a psicologia da África, o reflexo da
expansão portuguesa” – passagem que transcrevia da sua dita recensão e que se
acordava aos propósitos do concurso, estabelecidos em portaria de 1926. No
fecho do artigo, retomava a definição, dando como “consciência” e “amor da
verdadeira literatura colonial portuguesa” aquele “fecundo espírito de verdade
e a eterna verdade do espírito, que fizeram a grandeza e a devoção da realidade
do Império Português”
Para satisfazer os
critérios técnicos dominantes da nova elite colonial, as colaborações
literárias dos colonizados, mesmo quando envolviam motivos e denúncias raciais
(como no caso de Geraldo Bessa Victor), correspondiam aos moldes formais praticados
pelos colonos em geral. Esses moldes, por sua vez, estavam atrasados em relação
às vanguardas europeias e só a partir de 1949 se deu a viragem definitiva para
os critérios de composição modernistas e da ‘literatura negra’. O alongamento,
na colónia, de critérios estéticos atrasados, pese embora o contributo arejado
de Tomás Vieira da Cruz, indiciava um público leitor anquilosado. Os autores
exploravam esse gosto retrasado para garantirem público imediato, o que se pode
ver na maioria das colaborações líricas da revista Angola das décadas de
1930 e de 1940, subscritas por Jorge de Oliveira, A. Machado e Ilídio Tomé Alves
Machado (n. 1914 em Luanda, futuro nacionalista e fundador do partido comunista
local[2]), Geraldo
Bessa Victor (n. em 1917 em Luanda, o único a prosseguir uma carreira literária
e que se colaria ao poder colonial[3]) e parte
das prestações de Justino Velasco de Miranda (a outra parte eram tentames
modernizantes).
A colagem técnica à
poética mais conservadora dos colonos (e também do clero, ainda influente no
ensino) era compensada por leituras clandestinas, trazidas no bojo dos navios.
Essas leituras assomavam, timidamente, na abordagem de alguns temas e motivos
pelos autores africanos – o que acima resumi e desenvolvo agora.
Rompida que tinha
sido, por polémicas anteriores e pelas práticas do novo colonialismo, a
divisória porosa e flácida entre velhos colonos e filhos da terra, estabelecera-se
uma linha definida separando, já sob influência do racialismo do século XX, os
‘brancos’ (definição para o segmento colonial) e os ‘negros’ (definição para o
segmento colonizado). O processo, reforçado pela imprensa periódica trazida aos
nossos portos, ressignificou as identidades locais, empurrando brancos
‘cafrealizados’ (assimilados às culturas bantos) para o segmento colonial, ou
simplesmente os apagando do quadro e eliminando a menção a mestiços, incluídos
agora na categoria dos ‘negros’.
Isso era novo na
colónia. Muitos termos da língua portuguesa praticada nas cidades coloniais
ilustram uma divisão mais detalhada, que incluía ‘negros’, ‘cafusos’ (filhos de
mestiços e de negros, ou ‘mestiços’ com traços ‘negros’ acentuados), ‘mulatos’,
‘cabritos’ (filhos de mestiços e de brancos, ou mulatos com traços ‘brancos’
acentuados) e ‘brancos’ – havendo ainda os ‘fronteiras perdidas’ (mestiços não
percebidos como tal e que seriam considerados brancos ou negros à primeira
vista).
Uma citação transcrita
no jornal Notícias do Lobito, um periódico de cariz colonial desta época,
fala sobre jazz e serve-nos para demonstrar o grau de confusão e de
transição entre as classificações lusógrafas e as classificações típicas dos
EUA. O jazz é qualificado positivamente (“o jazz é o melhor que
existe”, embora o artigo ironize sobre aspetos folclóricos), mas a banda a que
se refere não. No começo da citação, fala-se de uma “troupe de pretos”
que andara tocando e dançando por Lisboa e Porto. O que por agora interessa é a
frase completa: uma “troupe de pretos de vários cambiantes, desde o
negro retinto ao bronze creoulo”
A divisão e separação
racial entre ‘brancos’ de um lado e ‘negros’ de outro, abolindo todas as
categorias intermédias, dá sinal da influência de culturas anglófonas,
sobretudo da classificação racial que os EUA exportaram e exportam para todo o
mundo. Essa era já uma consequência do comércio marítimo intenso nos nossos
portos. Mostram-no as diversas notícias oriundas dos EUA, quase todas referindo
sucessos e revalorizações dos ‘negros’ norteamericanos (uma só delas fala em
uma “cantora mulata”, que teria encantado a “senhora Roosevelt”), e reportando
notícias do mundo académico ou do mundo artístico.
É também sintomático
(da ressignificação identitária pela bitola do ‘negro’ na definição
norteamericana) um artigo de Frederico da Silva publicado na revista Angola
O autor, então muito presente nas páginas da revista, seria jovem, fazendo parte do Centro de Estudos da Liga, tal como Geraldo Bessa Victor. Entretanto, em entrevista a Michel Laban, Domingos Van-Dúnem refere "Frederico da Silva, redator-principal da revista Angola, da Liga Nacional Africana, «mais velho» que muito influenciou Agostinho Neto no período do então futuro líder, funcionário em Malanje." (Angola : Encontros com Escritores. Vol. I. Porto: FEAA, 1991, p. 191). Será o mesmo? Pela estória que vou comentar, sim; pela idade que a fala de Domingos Van-Dúnem sugere, não.
A colaboração tinha por título
«O preto branco ou o homem insecto» e preenchia a secção “Figuras do nosso
meio”. Ele cita, inicialmente, dois autores e duas obras: O preto que tinha
alma branca, publicado em 1922 pelo espanhol (nascido em Havana) Alberto
Insúa, traduzido no Porto
O retrato que dele fez Reinaldo Ferreira, na parte transcrita pelo jovem
angolano em seu artigo, é o de um dandy negro, esbelto, convivial,
gracioso, elegante, que “espantou” o famoso jornalista com as “magnificências
espirituais e intelectuais”, um “dandy de Regent Street.”
A revisão das
identidades locais, que as cidades-porto provocavam trazendo novos termos de
comparação
Neste contexto,
suscita particular interesse acompanhar as colaborações literárias dos ‘filhos
da terra’ (já conotados como ‘negros’) na época e ver em que medida seriam
sensíveis às novidades trazidas pelo comércio marítimo. Ou em que medida, por
essas colaborações, podemos observar consequências literárias do comércio
intenso das cidades-porto angolanas. Os indícios eram tanto mais significativos
quanto mais viessem de colaboradores ocasionais e despretensiosos, pois seriam
transparentes por ingenuidade. Por outro lado, estando eles severamente
condicionados aos padrões envelhecidos da poética dos colonos e dos antigos
nativos, só as novidades que muito os impressionassem chegariam a ter tónus
suficiente para emergir no tecido escrito. Isso nos possibilita hoje definir
quais as leituras artísticas influentes trazidas às cidades-porto angolanas
entre 1930 e 1949, grosso modo.
2.
Sendo formalmente conservadores,
pelas razões expostas e talvez mais alguma, os colaboradores ‘da terra’ só
podiam marcar a sua diferença pelos temas e motivos, interligados em assuntos –
que, no entanto, estavam também vigiados, agora pela censura política
interiorizada. Por isso pesquisei sobre temas e motivos nas peças encontradas
na revista Angola, da Liga Nacional Africana.
Contrastei essa
pesquisa com a de várias colaborações do benguelense Augusto Bastos em
periódicos da sua cidade e do Lobito e nos livros-folhetos que publicou. A
escolha do autor se deve ao facto de, no período considerado, ser o nome saliente
e consequente da produção literária local, ao mesmo tempo que um ‘filho da
terra’, morando na zona urbano-portuária de Benguela-Lobito mas mantendo
relações muito próximas com a Liga Nacional Africana e seus fundadores, que o
reconheciam como um dos expoentes da sua “Raça”. De resto, o pai de Augusto
Bastos, no começo da vida em Angola, serviu como militar sob as ordens do
famoso general Giraldo António Victor, o ‘Kinjango’ (Kinjango: órgão genital masculino com tamanho fora do normal, pénis avantajado), avô de Geraldo Bessa Victor, e ambas as famílias acabaram se
ligando por laços de casamento.
As colaborações dos
‘angolenses’ (ou ‘angolanos’, ou ‘africanos’) eram de três tipos, se as
considerarmos em função dos territórios focalizados e das funções do foco sobre
eles:
2.1.
Um primeiro tipo
engloba as peças voltadas para dentro. Melhor dito: aquelas que se referiam a
mitos, lendas, episódios e crenças tradicionais, que reportavam o mundo rural
africano sem qualquer influência europeia visível. Aparentemente, eram peças
alheias ao comércio dos portos. Elas, porém, funcionavam como recargas de
resiliência e de ressignificação face às descaracterizações sentidas com a
chegada, a esses mesmos portos, de referências culturais estranhas ou
estrangeiras.
Essas peças escritas
articulavam-se, por vezes, à reprodução de paisagens do ‘mato’, exaltando-se as
fotografias com notas emblemáticas para realçar a beleza da terra. O tratamento
dos motivos rurais promovia a conotação dos subscritores com a genuína paisagem.
Constituía-se, dessa maneira indireta, não só uma identidade política, também um
recado para os leitores interessados: em face do mundo, nós somos estes, os que
têm esta raiz. E compensava-se a quebra de autoconfiança cultural ou
identitária. Esse traço foi comum, não só a muitos povos colonizados, também às
cidades-porto ou cidades costeiras
O primeiro tipo,
sintomaticamente, não contemplou poemas líricos tradicionais ou versões de
canções da oralidade rural. Ele foi comum, sim, pela transcrição de narrativas
tradicionais bantos na revista Angola. Ressalta, igualmente, em algumas
peças de Augusto Bastos, embora não fossem as mais numerosas nem marcantes e
não retratassem situações ou episódios alheios à presença portuguesa – ainda
que sejam rurais.
Na revista Angola
(e não só de 1930 a 1949) as paisagens do interior e lendas das tradições orais
rurais estavam sobretudo ubicadas na linha Luanda-Malanje. A localização de
referência tem particular importância.
O que chamo “linha
Luanda-Malanje” é também a “linha” do Caminho de Ferro de Luanda, cujas
operações comerciais iniciam-se em 1899 (data do fim da construção), ligando o
porto de Luanda a Malanje, com variante (ou ramal) até ao Dondo.
O Dondo era então um
importante entreposto comercial, onde se criara e instalara uma parte da
burguesia ‘nativa’ e da população ‘das margens’
O poeta Joaquim Dias
Cordeiro da Matta, principal expoente literário da burguesia nativa do último
quartel do século XIX, instalou-se aí, sendo proprietário de um cutter
que transportava mercadorias para a capital da colónia. Também no Dondo, na
mesma época, residiu o guarda-livros e poeta de origem portuguesa Eduardo
Neves, amigo de Cordeiro da Matta, que se casou com uma filha da burguesia
local e por ali ficou vivendo. O mais famoso dos fundadores da Liga Nacional
Africana, o protonacionalista António de Assis Júnior, publicou na década de 1930[4], o
romance O segredo da morta, que funda a narrativa angolana moderna e
constitui, até hoje, um dos seus modelos literários. A intriga se passava toda
no Dondo, envolvendo a burguesia nativa e dois ou três portugueses, como
Eduardo Neves – cujo retrato não é positivo.
Malanje, por sua vez,
recebia produtos do nordeste de Angola, tendo sido muitos anos o posto mais a
leste da presença colonial portuguesa. A cidade cresceu muito como terminal
interior do Caminho de Ferro de Luanda e nela se criou uma pequena elite local
até hoje importante na política e na literatura do país (os últimos
secretários-gerais da União dos Escritores Angolanos estavam ligados a Malanje,
para além de vários escritores consagrados e do ministro da Cultura que mais
marcou o setor, o ficcionista Boaventura Cardoso).
Toda esta zona, onde
predominam povos de fala quimbundo (kimbundu), constitui simultaneamente
uma configuração cultural própria, muito consciente de si. Nela encontramos um
segmento mais urbanizado e rico e outro rural e empobrecido. Com o avanço do
colonialismo nas primeiras décadas do século XX – para o qual foi decisiva a
construção do Caminho de Ferro – o segmento rico e urbanizado, ou
semi-urbanizado (havia os dois casos), foi quase totalmente reduzido ao
proletariado e à pequena burguesia. Ele veio a constituir, no entanto, um dos
principais veios de formação do protonacionalismo angolense, da Liga Nacional
Africana e, posteriormente, do nacionalismo urbano de Angola.
A transcrição (por
vezes a versão) de lendas tradicionais refletia essa duplicidade, levando
alguns elementos da antiga elite, já enfraquecida, a mencionarem as tradições
populares, que podiam no entanto ter ouvido na própria família, pois as
ligações familiares atravessavam e reuniam os dois segmentos. A transcrição de
tradições sem sinais da presença colonial identificava a antiga burguesia com o
povo de que, em grande parte, ascendera. Ela apareceu na revista Angola,
no período estudado, assinada pelo jovem “Joffre Van-Dúnen”, por “D. Van-Dúnen”
e outros ao longo dos anos 1930 e 1940.
“D. Van-Dúnen” seria
talvez parente do escritor e jornalista Domingos Van-Dúnen, que veio a
desempenhar importantes funções no nacionalismo angolano e, depois, nos
primeiros anos após a independência. Tendo nascido em Mbumba (Caxito, a norte
de Luanda), em 1925, estudou na capital da colónia, foi operário gráfico e
funcionário público. Pertencendo a uma das mais antigas famílias da burguesia
nativa, a sua biografia acompanha o percurso dessas famílias em torno das
cidades-porto de Luanda e Dondo, bem como na própria capital. O começo de vida
profissional na posição de operário gráfico, típica nesses anos, e o final da
vida como embaixador de Angola junto da UNESCO em Paris, são dois pontos
ilustrativos. O seu nome é também importante porque, aos 20 anos, fora já
nomeado secretário de redação do jornal O Farolim, que se publicava em
Luanda desde 1932 e foi um dos raros sobreviventes da imprensa nativa.
Escrevendo na linha de António de Assis Júnior, publicou o seu primeiro conto
em 1947, com o sintomático título A praga. O conto saiu no Diário de
Luanda, que terá de ser também considerado para estudarmos as publicações
dos ‘filhos da terra’ no período mais agressivo do colonialismo português.
As estórias de
Augusto Bastos a incluir neste item retratam, por outro lado, realidades do
interior em interação com o espaço colonial e urbano de Benguela e adjacências.
É o do relato sobre o “grande chefe” Kaparandanda, que narra na sua Monografia
de Catumbela
Um jovem, filho de
pai português e de uma senhora de Luanda, trazido para a literatura por Augusto
Bastos, publicou ainda nas páginas da revista Angola, em novembro de
1938, uma “lenda africana” intitulada «N’Damba Maria». Mas também esta lenda se
reporta a um acontecimento envolvendo um branco e um negro, ambos proprietários
e negociantes. Note-se, de resto, que Damba Maria é uma pequena aldeia
piscatória situada junto ao Caminho de Ferro de Benguela, entre Lobito e
Benguela precisamente.
A conclusão parece-me
clara: não tivemos, em Benguela-Lobito, em rigor, esse primeiro tipo de narrativas,
de pura resiliência.
2.2.
O segundo tipo é
composto pelas colaborações literárias que procuravam retratar as cenas da vida
urbana local, dissessem elas respeito a colonos ou colonizados, ou à interação
entre ambos. Elas davam a versão artística da tese segundo a qual os “colonos”
e os “nativos” eram os verdadeiros “criadores de mundos novos”
É o caso, o último, das colaborações de Augusto Bastos nos jornais de Benguela e do Lobito e da sua principal obra literária, a narrativa em folhetins Aventuras policiais do repórter Zimbro, parcialmente publicada, primeiro, no Jornal de Benguela – o mais importante da colónia ao tempo, a seguir a A província de Angola (criado este por um antigo jornalista do Jornal de Benguela). Deve-se destacar, ainda, uma sua narrativa autobiográfica inserida nas páginas de O Lobito. Ambos, note-se, quer O Lobito quer o Jornal de Benguela, eram periódicos criados e alimentados pelo segmento ‘branco’, de reinóis, ou seja, de portugueses nascidos em Portugal e que foram para Angola tentar a vida.
Colocando-se o autor,
as personagens e as ações em fronteira flutuante, entre o segmento colonizado e
o segmento colonizador, esse tipo de colaboração servia com maior eficácia
(supunha-se) a negociação de espaço de manobra junto às autoridades coloniais e
aos empresários portugueses. Os autores focalizavam, por essa via, a sua função
intermediária, a partir da qual (implicitamente ou explicitamente) reclamavam
de injustiças ou de ingratidões.
Isso tornou-se
evidente em As aventuras policiais do repórter Zimbro, como já disse. O
protagonista, jornalista e detetive amador, Zimbro, instalara-se na cidade
(então cidade-porto) a partir de Lisboa e ficou por Benguela (viera cobrir as
expedições científicas de Henrique de Carvalho, Capelo e Ivens, Serpa Pinto).
Este protagonista arrolou como braço direito um jovem ‘filho da terra’,
mestiço, com aspirações a escritor e que também era jornalista. A boa relação
de trabalho e de amizade entre eles ilustrava a situação dos filhos da terra em
face dos colonos (eram adjuvantes), a sua importância como intermediários com o
meio local e a conveniência do aproveitamento das suas habilidades e conhecimentos
pelos colonos dominantes.
O mesmo tipo de
focalização narrativa se destaca da encoberta autobiografia escrita por Augusto
Bastos para o jornal O Lobito, no princípio do período por nós
considerado[5].
Sobre ela me debrucei já, como sobre toda a obra e biografia do ficcionista
O conto «N’Damba
Maria», de Óscar Ribas, ilustra uma segunda focalização, sui generis e
antecipadora
Repare-se que a
escrava morre por vingança de um senhor negro ofendido porque ela obedecera a
uma ordem do seu proprietário branco. Ela é apenas um joguete entre dois
senhores. A sua situação intermédia não é biologicamente assinalável, vem-lhe
do estatuto social (escrava) que faria prever tudo menos isso. Porém, é a mesma
colocação dos autores crioulos e mestiços em Benguela, onde Óscar Ribas começara
a escrever, sob influência de Augusto Bastos. Só que ela é intermédia (fica no
meio dos dois) sem qualquer margem de manobra e eles são intermediários
procurando não perder, ampliar mesmo, sua margem de manobra. A “lenda africana”
possui, portanto, uma função dupla sem relação com as estórias do primeiro tipo
também publicadas em Angola nesses anos. Ela tem a função de mostrar os
‘indígenas’ escravizados na situação real, esmagados entre senhores brancos e
senhores negros (assimilado, no caso). Mas também tem a função de alertar para
a situação real dos filhos da elite urbana antiga. Não constitui, propriamente,
a afirmação de uma diferença cultural em face da cultura-mundo que vinha pelas
páginas dos jornais trazidos ao porto. Não afirma uma identidade oposta a isso
tudo e que desconhecia esse caos-mundo, como o qualifica Édouard Glissant. Pelo
contrário, visa metaforizar o desconforto dos despossuídos e desprotegidos no
jogo entre poderes antigos (os da escravatura) e colonialismos novos.
O conto abriria mais
tarde o livro Ecos da minha terra: dramas angolanos
No segundo tipo
encontramos alguns poemas líricos também, não somente narrativas. É o caso de textos
primaveris de Justino Velasco de Miranda (por vezes assina “J. Miranda” ou “J.
Velasco de Miranda”) e de várias composições de Geraldo Bessa Victor incluídas,
em 1943, no livro Ao som das marimbas – aquele que revela maior
influência do negrismo norteamericano e que recebeu um comentário entusiasmado
do poeta brasileiro Manuel Bandeira (tradutor de Langston Hughes), sublinhando
justamente a sua africanidade
2.3.
O terceiro tipo
seguia um critério exógeno para escolha dos motivos. Exógeno no sentido em que
os motivos escolhidos eram de um mundo externo, longínquo. Podiam ser
aproveitados para refletir problemas locais sem falar deles diretamente, ou
podiam só representar ambientes afetos ao país colonizador, reavivando
lembranças e saudades de um público leitor ubicado em paisagens externas ao
meio.
O segundo caso é o da
novela O resgate de uma falta, de Óscar Ribas
O primeiro caso (de
escolha de motivos longínquos para falar de problemas locais) foi mais raro.
Fica exemplificado superiormente por um “conto” de Frederico da Silva, jovem da
Liga Nacional Africana já referido neste ensaio
O recado parece-me
evidente: duas personagens exemplares a todos os títulos, afirmando-se contra o
preconceito racial …de que eram vítimas em Angola os angolanos também.
Coincidência talvez, os diálogos usam o nível cerimonioso da linguagem,
correspondendo ao tratamento particularmente respeitoso entre os dois. Isso era
característica dos diálogos de Augusto Bastos, tanto nas Aventura policiais
do repórter Zimbro quanto nas Aventuras africanas, em pleno mato da
Huíla. Mas esse formalismo extremo seria mais uma marca da educação distinta
dos dois africanos, moldados pela Europa como ela própria diz.
O que parece destoar
é o dramatismo exacerbado que leva o protagonista à morte, incapaz de superar a
ofensa. É incompreensível para nós que ele destrua a vitória alcançada pela sua
firmeza, pela sua elegância e pela sua riqueza. Talvez isso não seja apenas
consequência de um meio literário conservador e romântico ainda, ou
sentimental. É preciso conhecer o sentimento do banzo, uma espécie
mortal de saudade negra, que levava por vezes os escravos a morrerem
durante a viagem para o Brasil ou a América. É o banzo que torna
credível a derrota emocional depois da vitória real sobre o preconceito e
quando ambos os heróis tinham todas as condições para ser felizes.
Mas a vitória fora o
símbolo do renascimento negro, que certamente chegava a Luanda por barco, nos
porões da Companhia Nacional de Navegação que tanto apoiava, com seus anúncios,
a publicação de Angola. Regressando agora ao já comentado artigo de
Frederico da Silva, observamos que o “engenheiro” tem todos os traços do jazzista
negro entrevistado por Reinaldo Ferreira e referido pelo autor quatro anos mais
tarde. O recado por ele dado consubstanciava-se na superioridade com que sempre
respondia Sebastião de Morais. Isso feito anos antes da leitura e divulgação do
modelo de negro por Reinaldo Ferreira, mostra que a adoção do modelo fora
anterior. Observe-se que Sebastião de Morais fala educadamente, respeita Mónica
não lhe impondo a sua vontade, mostrando que o dinheiro era para libertá-la e
não para comprá-la. O distinto engenheiro age sempre sem “a megalomania do
negro-do-sertão.” Ou seja: o negro vitorioso (só derrotado pelo seu próprio
banzo) de que se trata aqui não é rural; ele possui tudo o que se inveja
no ‘branco’ tido por ‘superior’ (o que não era o caso de muitos colonos), há um
processo de compensação no retrato da personagem, mas não há megalomania, muito
menos a arrogância representada no conto «N’Damba Maria», em que o patrão negro
veste rigorosamente à maneira europeia. O engenheiro de Frederico da Silva mantém-se,
entretanto, em postura distanciada face aos seus antepassados. Isso já
acontecia quando a antiga elite urbana designava os outros como ‘indígenas’ e
defendia a sua educação para superar o atraso. Nessa altura, a elite se
colocava no papel intermediário do ‘assimilado’ que tentava levar aos do ‘mato’
as vantagens trazidas da Europa e que ela própria já personificava. No espaço
colonial antigo havia só duas referências: o “negro do sertão” e o colono de
Portugal. A elite ‘nativa’ aproximava-se do segundo e procurava beneficiar o
primeiro também. No conto de Frederico da Silva, porém, distancia-se o modelo de
um (o ‘indígena’) sem se aproximar do outro (o colono ‘civilizado’),
assimilando-se antes o ‘assimilado’ ao negro de elite em todo o mundo,
afirmativo, orgulhoso, superior e moralmente perfeito. Esta foi, também, uma
marca das leituras trazidas pela intensificação do movimento comercial das
cidades-porto em Angola.
Rio Grande, 9-6-2019.
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[1] A construção
do conjunto (porto, instalações urbanas e caminho de ferro) dá-se a partir de
1-3-1903.
[2]
As origens da família Machado remontam ao casamento do pai de Pedro e Julião
Félix Machado com uma senhora de ilustres e antigas famílias luandenses.
[3]
As origens de Geraldo Bessa-Victor remontam ao famoso general ‘Kinjango’,
Geraldo António Victor (n. em em 1835), o militar ‘africano’ a atingir o mais
alto posto do exército colonial. O apelido do General não implica,
obrigatoriamente, malvadez, como se diz na Wikipédia.
O apelido e a memória do general entraram no folclore angolense, tal como
estudou e registou o seu neto e ‘kinjango’ pode ter significado erótico. Segundo
Cordeiro da Matta, Njangu designa a catana e ‘Nja, contração de Inja,
significa “pénis, membro viril”
[4]
A edição original imprimiu-se na tipografia Mamã Tita, em Luanda. Há uma
diferença de datas entre a capa e a folha de rosto. Uma indica 1935 e a outra
1934. Esta última é a data avançada por Carlos Ervedosa como a de publicação do
livro
[5]
A peça foi saindo em artigos, de 16.8.1930 (n.º 3) a 25.10.1930 (n.º 13).



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