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Uma língua portuguesa


Têm estes reinos de Angola lioens, tigres e onças; há lioens de casta real com gadelha na cabeça e maçaroca na cola como os de Africa, de que o Autor vio alguns neste reino e no de Portugal tambem, principalmente em a Corte e sempre real e leal Villa Viçoza em o Paço do Serenissimo Duque de Bragança, vindo ali hum de Africa de casta real, ainda novel, mandado de presente ao nosso Principe, o qual andava por aquella populoza e nobre villa em cadeas prezo; o qual foi crescendo e fazendo das suas, com que se mandou recolher a huma grande gayola de madeira chapeada toda de ferro; e fez-se tão feroz, que se temeo arrombasse a prizão, e sahido fora fizesse muito damno; com que mandou o Excellentissimo Senhor fazerlhe hum espaçoso pateo ou leoneira de mui altas paredes, com porta e janellas de fortes grades, com huma talanqueira corrida por diante pella banda de fora, porque não tivesse lugar de botar a garra, e lhe não chegasse ninguem vendoo de fora; tendo huma caza forte por de traz com seu alçapão ou rastilho, em que o recolhião todas as noites com seu cano para huma pia da banda de dentro onde bebia, e huma grade pequena forte, por onde lhe botava o comer de carne fresca de rez, que se lhe matava todos os dias para seu sustento; o qual pateo e caza forte se lhe fabricou onde chamão o Reguengo entre os jardins, descuberta a fronteira para as janellas e gallarias do Pallacio que para ali olhão. A hum homem que lhe dava de comer lhe lançou hum dia huma manupla á cara estando afflicto da quartãa e lhe vazou hum olho e fez mais algumas feridas, com que largou aquelle cuidado e lhe não quiz mais assistir, pois lhe pagava tão mal seus merecimentos, que he couza mui ordinaria neste mundo o pagarem serviços com castigos e ingratidoens, assim aos racionaes como aos irracionaes com terem nome regio. Ficou então correndo com a administração de seu sustento Niculao de Bragança, preto nas cores, mas branco no primor, que bastava ter sua criação tão realenga e mimoza: a este sugeito teve aquelle rey dos animaes tal conhecimento, que nem que se fora outro Andronico que fazia de sua ferocidade quanto queria, como se fora hum cordeiro manço, mettendolhe a mão na boca, cossandoo por todo o corpo, e em lhe dando hum silvo já estava obediente á porta, acudindo a festejar com a cola aquelle seu novo ayo, aggradecendo-lhe por aquelle estillo o cuidado que delle tinha em lhe dar de comer; que se com o primeiro havia andado feroz e grosseiro, queria emendar suas demazias, mostrando se com o Niculao agradecido e obediente; que não há couza que mais se deva gratificar que he o de receber o sustento ordinario para a conservação da vida.

António de Oliveira de Cadornega - História general das guerras angolanas, tomo III (este tomo III é de 1683 e não de 1681 como os outros dois). Extrato da introdução de Manuel Alves da Cunha:
Este estudo sôbre o 3.° volume teve que ser agora feito e é bastante desenvolvido, visto no português angolense empregado por Cadornega no século XVII, quási um crioulo, girarem muitos termos dos dialectos indígenas ou aportuguesados, além dos vocábulos antiquados ou espanhóis.
Viemos (hoje) de muitas guerras e lutas. No caso angolano, da luta de libertação e da guerra civil posterior. A politização da língua portuguesa e do seu uso teve a mesma origem dessas guerras: a opressão de uns pelos outros. Por isso dizemos, ora que essa é a língua dos opressores e do colonialismo (há vários exemplos no excerto de Cadornega demonstrando-o), ora que nós conquistámos essa língua para a transformarmos em instrumento de libertação (também no excerto citado encontramos vários motivos para a libertação...). 

Isso tudo é verdade. A língua portuguesa, como todas as línguas plásticas, conversáveis, adaptáveis, serviu para oprimir e para libertar. E serviu para muitas outras coisas: beijar, amar, odiar, cruzar e descruzar, separar e reunir. O português hoje falado em Angola não se reduz, entretanto, a uma língua de libertação, nem (muito menos, hoje) de opressão. Esse nosso português, que vem se construindo já de muito longe, como em outras passagens de Cadornega podemos ver, a sua matriz é a do uso quotidiano e variado da língua. O que deu e continua a dar (e transformar) as tendências dominantes do português de Angola não foi nem a luta de libertação nem foram as palavras dos governadores gerais (e muito menos essas). As marcas das guerras entraram nela porque penetravam no nosso quotidiano; sendo assim, aninharam-se nela por esse filtro do quotidiano, que pega nos discursos prévios, programados, e os subverte pela ironia, convertendo-os a uma luta própria pela expressão que se vive no dia-a-dia. É por isso que o português de Angola é angolano e é uma língua angolana. E, se é que uma língua pede licença para o ser, então a licença é concedida por esse mesmo uso quotidiano, com seus investimentos de piedade, paixão e engano. Programado ou não. O que salva ou legitima o uso de uma língua são as línguas da rua, da fala, da escrita enrolada com elas (elas, rua e fala), na sua constante manipulação por aquilo que, genericamente, chamamos 'povo' e, genericamente, chamamos 'elite'. Aliás 'elite' foi também uma apropriação, começou por ser um estrangeirismo, importado do francês. Em português antigo tínhamos outra palavra, que se calhar ganharíamos em preservar: escol. Escol não vem de escola, vem de escolha.



Post-scriptum: 

Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário. Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.
A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dos rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. 
Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões – tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos...

(João do Rio - A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: 1908)

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