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Mensagens

Estruturalismo, estruturação e música política

Na secção «Cultura» do jornal português Público , de hoje (21-1-2018), Luís Miguel Queirós realiza uma oportuna entrevista com Georg Friedrich Haas , "compositor em residência na Casa da Música em 2018".  A entrevista é oportuna por vários motivos. Um deles, ao qual talvez não se dê qualquer importância (por estarmos em registo jornalístico), prende-se com esta passagem:  [Haas vinha determinado] a defender o seu modo de  compor, mais preocupado em  servir o ouvido humano do que  em fornecer pasto para análises  estruturais das partituras.   Percebo o que ele quer dizer e concordo que essa é a postura própria de um compositor: criar para o ouvido. Humano.  O que me suscita este comentário é a expressão " análises estruturais ". Ela parece ter por referência modelos apoéticos e desinteressantes próprios da vulgarização do estruturalismo francês, ou francófono, dos anos 60 e 70. Esse estruturalismo, vulgarizado, não dissecou, secou...

Ecocrítica e poesia angolana atual: Abreu Paxe

Ensaio publicado em academia.edu : A hipótese que ponho em discussão é esta: a perceção do ambiente, enquanto ato cognitivo, reestrutura a organização do discurso artístico – não sempre, nem só, num determinado sentido. Sem prejuízo disso, o próprio discurso artístico pode ser manipulado de forma a experimentar uma nova perceção do ambiente. Ensaio no academia.edu .

Data do regresso de Maia Ferreira a Luanda

O estudo da formação da literatura angolana é indissociável da consideração sobre a circulação cultural nas redes comerciais entre as quais se posicionava aquela pequena comunidade literária. Isso pede uma leitura ‘para dentro’ (conhecer as rotas de caravanas comerciais no interior, as oralidades em rotação no ‘interior’, que fizeram, por exemplo, chegar a lenda da mayombola a um funcionário colonial português em Luanda no meio do século XIX) e uma leitura ‘para fora’ (a circulação de livros de literatura entre os mais importantes portos do Oceano Atlântico – destacando-se, para o nosso caso, os lusófonos, mas não exclusivamente). Neste contexto, figuras como a de José da Silva Maia Ferreira são cada vez mais importantes. Em primeiro lugar pela sua própria poesia, confluência de várias outras, com destaque para a brasileira, a portuguesa e a francesa; em segundo lugar porque ele circulou por essas rotas atlânticas mais batidas pelo comércio da época. Infelizmente, o estudo da...

O que ficou para trás, ou atrasado - nós todos também

1. Universais privados A morte é o que mais cria repulsa em nós. É compreensível. O nosso ego, a nossa personalidade, a nossa identidade pessoal e social, resultam da criação de uma consciência do nosso corpo como entidade própria em relação com outras, idênticas ou não. O cérebro tem, entre outras, a missão de recolher as informações facultadas pelo corpo que integra e, em função delas, tomar decisões. Todas as decisões e essa própria função do cérebro nos remetem para o que, metaforicamente, chamaríamos instinto de sobrevivência. Resumindo: criámos e desenvolvemos um cérebro para melhor assegurarmos a sobrevivência do nosso organismo como um todo, num esforço adaptativo natural mesmo quando e se assistido por algo ou alguém sobrenatural. Para cumprir a função, o cérebro tomou consciência de si e do corpo em que está, aliás uma consciência indissociável. Por isso, quando o organismo se sente ameaçado, o cérebro declara estado de sítio. Ora a morte é o desaparecimento desse o...

O Boletim da Liga Nacional Africana

Durante muito tempo relegado ao esquecimento, o período que vai (grosso modo) de 1930 a 1940 é crucial para a história da literatura e da identidade dos angolanos. O texto que publiquei (hiperligação abaixo) foi uma das tentativas de recuperar a memória desses tempos decisivos. Session: O Boletim da Liga Nacional Africana - Academia.edu : 'via Blog this'

Assis Júnior e o segredo da morta - relações intertextuais e biográficas

Um dos patronos da literatura angolana e defensor acérrimo dos interesses legítimos dos filhos da terra, António de Assis Júnior foi, nesse contexto, hábil advogado. Ele veio na sequência de outros que se destacaram durante o século XIX. Mas é particularmente sugestiva a sua comparação com outro notável fundador da ficção angolana, Pedro Félix Machado. O advogado e poeta de Sorrisos e desalentos publicou uma obra baseada na defesa que fez do comerciante Eduardo Braga (Minuta do Agravo do Despacho de Pronúncia de Eduardo Braga). Braga fora acusado - segundo parece, injustamente - de estar ligado à famosa revolta do ossoma Ndunduma (Bié, 1890), contra as autoridades coloniais. Assis Júnior também nos legou uma obra resultante, em grande parte, da sua atividade como advogado. Envolvido na defesa jurídica dos filhos da terra expoliados, acabou sendo preso e sofrendo, ele próprio, em 1917, as arbitrariedades que denunciava. Deixou-nos um relato de todo o processo, o qual se tornou mais um...

40 anos a estudar Literaturas Africanas - análise e prospetiva

A comemoração que nos reúne aqui [1] tem maior importância do que normalmente a comemoração da abertura de uma qualquer área científica nova. Tem maior importância, em primeiro lugar, social, na medida em que o estudo e a divulgação das literaturas africanas em Portugal conduziu 1.    a uma aproximação maior entre os povos envolvidos. 2.    A um melhor conhecimento das mentalidades e das tensões culturais em jogo. 3.    Ao depurar da visão que os portugueses tinham de si próprios. Após uma fase heroica de implantação, da qual darão conta pessoas mais abalizadas, iniciou-se a consolidação e o alargamento da área. Foi o momento em que entrei nesta história. Deparei-me, enquanto aluno, com uma tripla posição: 1.    Nas aulas da licenciatura desfrutei ao máximo de uma sincronia rara. Tinha, perante mim, não um, mas dois professores e pude assistir a um intenso e contínuo debate entre a focalização entusiasmada e visceralmente partidá...