A comemoração que nos reúne aqui[1]
tem maior importância do que normalmente a comemoração da abertura de uma
qualquer área científica nova. Tem maior importância, em primeiro lugar,
social, na medida em que o estudo e a divulgação das literaturas africanas em
Portugal conduziu
1.
a uma aproximação maior entre os povos
envolvidos.
2.
A um melhor conhecimento das mentalidades e das
tensões culturais em jogo.
3.
Ao depurar da visão que os portugueses tinham de
si próprios.
Após uma fase heroica de implantação, da qual darão conta
pessoas mais abalizadas, iniciou-se a consolidação e o alargamento da área. Foi
o momento em que entrei nesta história. Deparei-me, enquanto aluno, com uma
tripla posição:
1.
Nas aulas da licenciatura desfrutei ao máximo de
uma sincronia rara. Tinha, perante mim, não um, mas dois professores e pude
assistir a um intenso e contínuo debate entre a focalização entusiasmada e
visceralmente partidária do Prof. Manuel Ferreira (mas nem por isso menos
informada) e, por outro lado, a exigência e os questionamentos trazidos pela
formação semiótica e analítica do Prof. Alberto Carvalho. Marcou-me o lado
apaixonado e investigativo, embora menos rigoroso, de um dos poucos professores
que via na Biblioteca Nacional a pesquisar constantemente. O seu trato humano,
simpático, vívido era, sem dúvida, cativante. Marcou-me também, por afinidade
maior, a procura de rigor crítico, o levantamento sistemático das obras
enquanto montagem, desmontagem e articulação sígnica, também como teste
constante de leituras, teorias e hipóteses veiculado pelo contraponto analítico
e semiótico dessa rara coincidência. Mas, ainda assim, o ambiente geral, na
disciplina e na Faculdade, era o de uma dominância ideológica e partidária da
qual sempre me quis afastado. O que me levou a procurar outras perspetivas, em
que o meu próprio questionamento das obras não ficasse condicionado por
qualquer petição de princípios exterior ao meu interesse na literatura.
2.
Fui tomando conhecimento da bibliografia
alternativa e, em particular, dos estudos e ensaios de Mário António, muitos
reunidos depois em Reler África (Oliveira,
Reler África, 1990) , ou resumidos e ordenados em sequência na
sempre inacabada A formação da literatura
angolana (Oliveira, A formação da literatura angolana, 1997) . Sem deixar de
se preocupar com a componente estética das obras, ele abria perspetivas, a meu
ver mais adequadas, para a conceção (por assim dizer ambiental) da própria
literatura angolana e do processo da sua formação partindo de dentro, quero
dizer, daquela mesma sociedade e mentalidade na qual surgiu.
3.
Entretanto li os dois primeiros livros do Prof.
Salvato Trigo sobre a literatura angolana (Trigo, Introdução à literatura angolana de
expressão portuguesa, 1977; Trigo, A poética da geração da «Mensagem», 1979) . O que me atraiu,
desde logo, foi a procura de uma poética, sem descurar o contexto histórico e
antropológico no qual essa poética surgiu e se desenvolveu. Pareceu-me que
estava ali um caminho, um rumo a explorar, uma perspetiva a desenvolver que
podia abrir as portas da investigação na nossa área: estudar as poéticas em
jogo. Quando li a sua contribuição para o Colóquio de Paris, de 1984 (da
Fundação Gulbenkian), intitulada «Literaturas africanas de expressão portuguesa:
um fenómeno do urbanismo», confirmei a minha intuição. Quando, mais tarde, saiu
na Vega o Ensaios de literatura comparada
luso-afro-brasileira (Trigo, Ensaios de literatura comparada
luso-afro-brasileira, sd) , de novo confirmei uma perceção
intuitiva que ia tendo, a de que a nossa literatura se formara a partir de
várias outras, a começar pela portuguesa e pela brasileira, interagindo com
elas. Por isso, tínhamos que estudá-la comparando as literaturas em cena: já
não era só Luanda, ou Benguela, já não era só isso mais o substrato bantu, era
a compreensão do processo como fenómeno também inserido no que Mário António
chamaria o ‘Atlântico lusófono’ e, mais tarde, no próprio processo de
globalização dos mercados livreiros.
Com esta formação tripartida me abalancei aos estudos sobre
a literatura angolana e procurei conhecê-la melhor: primeiro o historial da sua
formação, depois as questões teóricas instigadas por esse historial e pelo
estudo de como as obras se organizavam e como dialogavam com outras obras.
É claro que o trabalho, literalmente, não tem fim, mesmo
quando continuado e enriquecido por outras pessoas. O que, não menos, me
entusiasma. Pelo contrário, o leque de questões teóricas alargou-se muito mais
e o número de obras disponíveis atingiu uma dimensão inesperada. O que me pareceu
mais apropriado, neste Encontro, foi enunciar alguns dos avanços a visitar ou
revisitar, algumas das propostas que podem revitalizar e redimensionar a área. Divido
por ‘campos de trabalho’ (salvo seja!):
1 – Investigação
A investigação foi fortemente potenciada por uma parte
significativa do que se chama, em inglês, digital
humanities. Retenho aqui apenas um aspeto, mas há muito mais a aproveitar.
Realmente hoje podemos consultar um número elevado de obras
sem sair de casa. Grandes acervos bibliográficos estão disponibilizados em rede
e a maioria deles com possibilidade de se transferir para o computador. Assim
se alargou inesperadamente o espectro bibliográfico disponível e, em
particular, o relativo aos períodos mais antigos, os mais penosos e demorados
de investigar e aqueles em que havia mais lacunas.
Estudar, hoje, a formação de um sistema literário no que
veio a ser Angola é uma tarefa, também por isso, muito mais demorada e complexa
do que antes. Hoje podemos consultar, embora poucos, alguns textos escritos em
São Salvador, ou Mbanza Kongo, ao longo do séc. XVII, a maioria deles
bilingues, tendo o kikongo como uma das línguas e sendo a outra o latim, ou
qualquer língua dele derivada. Podemos acessar também mais textos escritos em
Luanda e sobre Luanda no mesmo século XVII. As obras de Carvalho e Menezes, da
primeira metade do século XIX, passaram a estar disponíveis para qualquer
investigador, tal como parte do espólio de Maia Ferreira. Podemos alargar a
nossa pesquisa a uma vastíssima rede documental disponibilizada universalmente
e que nos elucida melhor sobre relações sociais e económicas importantes, como
as que ligavam as pequenas cidades-portos de Benguela, Luanda, Lisboa, Rio de
Janeiro, Recife, S. Salvador, quer ao mais recuado ‘interior’ e suas oraturas,
quer à França, à Bélgica, a Roma, aos EUA e a outros países além da dicotomia
Brasil-Portugal. Isso mudará a imagem que temos do que se lia e se conhecia no
litoral hoje angolano desde há três séculos atrás e, sobretudo, nos séculos XIX
e XX.
Há, portanto, um campo de estudos fascinante a desenvolver
aqui, pelo menos para quem perceba a importância de pesquisar nas fontes para
não se comentar no vazio.
Além de fontes primárias, temos também acesso a muitos
ensaios, teses, atas e relatórios de investigação de colegas que também se
interessaram pelas mesmas áreas ou problemáticas e que vão levantando outros
dados, que reestruturam outros enquadramentos e trazem novas perspetivas a
partir dos mais diferentes pontos do globo onde se estudem as literaturas
africanas lusógrafas.
As ferramentas informáticas permitem-nos também somar e
comparar estatísticas, frequências, constâncias, regularidades e repetições no
interior das obras e de umas para outras obras. Isso levaria anos a fazer, hoje
podemos realizar a tarefa em pouquíssimo tempo.
2 – Teorização
O desenvolvimento da investigação vem proporcionar uma
fundada necessidade de reestruturação das teorias e das hipóteses, do quadro
histórico, de alguns conceitos operatórios e de metodologias aplicadas antes.
Na fase de ampliação desta área, a metodologia comparativa
foi ganhando cada vez mais adeptos. O mesmo sucedeu no Brasil, pelo menos nas
Universidades pioneiras dos estudos de literaturas africanas. O que demonstra estar
o comparativismo adequado ao estudo da formação e da renovação das literaturas
lusógrafas.
O comparativismo pode, entretanto, ser amplificado ele
também, recorrendo-se (o que muita gente faz hoje) não apenas à comparação
entre literaturas nacionais, mas à comparação entre disciplinas artísticas
diferentes e à comparação entre a experiência acumulada nos estudos literários
e os resultados da experimentação científica de outras áreas.
A utilização de ferramentas proporcionadas pelo avanço da
informática, da inteligência artificial e da grande capacidade de armazenamento
potencia mais ainda os estudos comparativos, quer na nossa, quer em outras
áreas.
Se, por aí, parece haver um consenso profícuo, há, no
entanto, muito trabalho pela frente.
No campo conceptual, ou teórico, as nossas reflexões
continuam muitas vezes condicionadas a temáticas próprias de um tempo que não
existe mais.
Décadas passadas sobre a emergência das gerações
nacionalistas africanas e lusógrafas, devemos questionar o que foi dado como
adquirido desde então. Problematizo alguns tópicos, apenas para exemplo:
1.
Os comentários à literatura nacionalista e
subsequentes referiam constantemente o drama de escrever numa língua diferente
da materna, ou veicular. Era, não só um drama, também um meio para limitar o
acesso dos africanos à cultura, prejudicar o seu acesso ao ensino e, de forma
geral, à plena cidadania. No tempo da luta pela independência, o tópico era
politicamente útil. Mas hoje, pensando na criatividade do escritor, é um
engodo. Será que o bilinguismo, ou o multilinguismo de alguns escritores
angolanos os prejudica (dos que falam mesmo uma ou mais línguas locais)? E
quantos escritores angolanos foram, naquele tempo, realmente bilingues? Quantos
tiveram realmente por língua materna uma língua bantu? Será que uma comunidade
multilingue, pelo contrário, não potencia a criatividade artística agilizando o
uso da linguagem, as transferências de sentido entre suportes e plataformas
diferentes, autonomizando, reforçando e ampliando a capacidade cognitiva
relativamente aos condicionamentos verbais? O que nos dizem, acerca disso, a
psicolinguística, a psicologia da aprendizagem e a neurobiologia?
2.
Paralelamente, o convívio simultâneo com
práticas culturais e quotidianas de genealogia diversa potencia ou diminui a
prestação literária? O que nos dizem sobre isso a psicologia da criatividade e
a semiótica das culturas articulada às teorias da tradução e da receção?
3.
A luta política trouxe para o debate crítico a
relativização ou impugnação de valores epistemológicos considerados meramente
ocidentais ou europeus. Entretanto, correntes críticas e teóricas como a do
evolucionismo literário, particularmente o protagonizado por Denis Dutton e não tanto o de StevenPinker, argumentam com brilhantismo a favor da existência de universais da
arte. Formando-se e transformando-se as nossas literaturas entre culturas tão
diferentes, o que temos a dizer acerca desse debate? Pergunto pelo que temos a
dizer depois de pesquisarmos nas nossas literaturas as hipóteses dos
relativistas e as dos evolucionistas...
4.
A formação da nacionalidade angolana e das
nacionalidades literárias é outra temática a revolver. Parece-me que não tem
sustento a tese de formação de uma literatura assente em conceitos de
resiliência étnica, de formação ideológica ou de comprometimento
político-partidário; então, como reformular essa questão para uma sociedade em
aberto, mesmo quando não totalmente aberta?
5.
Possivelmente a partir do conceito de
semiosfera. Como funciona ele em países com o perfil de Angola? Como funciona
ele na formação de uma literatura? Como funciona ele numa era globalizada pela
internet e pelas redes sociais? Em que semiosfera fermenta hoje uma nova
geração de poetas angolanos?
6.
O que nos liga à pergunta última destes
exemplos: pela primeira vez assistimos ao vivo, na literatura angolana, à
formação de uma geração feita, sobretudo, através da internet, das redes
sociais, dos correios eletrónicos. Os novos escritores debatem-se com
deficiências de formação derivadas de um sistema de ensino em colapso há muitos
anos. Os resultados são conhecidos e não devemos escamoteá-los. Um deles é o
péssimo desempenho linguístico, assente porém numa oralidade a caminho da
pidginização e da crioulização. Outro é uma grande lacuna em termos de
conhecimentos literários, conhecimento de grandes obras (ou mesmo pequenas), de
grandes autores e de grandes estudos, ensaios, teorias e hipóteses no campo
literário. Quando os que são realmente mais novos começaram a publicar no Facebook, por exemplo, estas
deficiências eram notórias, assustadoras mesmo, levando muita gente a
desacreditar a geração e suas possibilidades de sucesso. Mas hoje, na mesma rede
social, vários deles manifestam uma surpreendente evolução, renovação, reflexão
e …continuidade. Acompanhando as mensagens que lá depositam, vemos também que
estão a ler autores importantes para a formação de uma ideia de poesia e para a
melhoria do desempenho, quer linguístico, quer artístico. Ou seja, graças às
redes sociais estes jovens estão a recuperar o tempo perdido e a dar uma lição
de persistência, de autodidatismo e de coragem. Enquanto nos embrulhamos em
grandes discussões acerca da natureza diabólica e dos perigos da globalização,
bem como sobre a relatividade das normas linguísticas ou das conquistas
estéticas das vanguardas, estes jovens estão a rentabilizar o acesso às
conquistas das vanguardas e à tradição crítica, teórica e poética digitalizada.
E não só: dentro e fora das redes, animados e comunicando-se por elas,
organizam-se em grupos de reflexão sobre a literatura, de declamação de poesia,
de leitura de poemas de muitos escritores, publicando esboços de textos
críticos e poéticos em linha como em papel. Assim eles estão a formar-se a si
próprios como nova geração literária angolana. Será muito proveitoso para nós,
estudiosos da literatura, acompanharmos passo a passo essa autoformação
geracional e repensarmos como as gerações surgem e como se afirmam e como se
desenvolvem entre processos (e semiosferas?) digitais.
Tive mais a preocupação de lançar reptos, desafios ao
presente que não ao futuro, despertar questões novas. Esta é a minha forma de
contribuir para que o estudo das literaturas africanas alcance um novo pleno,
digno de quem as começou e digno de quem as vai receber.
Francisco Soares
Évora
Bibliografia citada
Oliveira, M. A. (1990). Reler África.
Coimbra: Inst. Antropologia - Univ. Coimbra.
Oliveira, M. A. (1997). A formação da literatura
angolana. Lisboa: IN-CM.
Trigo, S. (1977). Introdução à literatura
angolana de expressão portuguesa. Porto: Brasília.
Trigo, S. (1979). A poética da geração da
«Mensagem». Porto: Brasília.
Trigo, S. (sd). Ensaios de literatura comparada
luso-afro-brasileira. Lisboa: Vega.
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