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Mensagens

O Boletim da Liga Nacional Africana

Durante muito tempo relegado ao esquecimento, o período que vai (grosso modo) de 1930 a 1940 é crucial para a história da literatura e da identidade dos angolanos. O texto que publiquei (hiperligação abaixo) foi uma das tentativas de recuperar a memória desses tempos decisivos. Session: O Boletim da Liga Nacional Africana - Academia.edu : 'via Blog this'

Assis Júnior e o segredo da morta - relações intertextuais e biográficas

Um dos patronos da literatura angolana e defensor acérrimo dos interesses legítimos dos filhos da terra, António de Assis Júnior foi, nesse contexto, hábil advogado. Ele veio na sequência de outros que se destacaram durante o século XIX. Mas é particularmente sugestiva a sua comparação com outro notável fundador da ficção angolana, Pedro Félix Machado. O advogado e poeta de Sorrisos e desalentos publicou uma obra baseada na defesa que fez do comerciante Eduardo Braga (Minuta do Agravo do Despacho de Pronúncia de Eduardo Braga). Braga fora acusado - segundo parece, injustamente - de estar ligado à famosa revolta do ossoma Ndunduma (Bié, 1890), contra as autoridades coloniais. Assis Júnior também nos legou uma obra resultante, em grande parte, da sua atividade como advogado. Envolvido na defesa jurídica dos filhos da terra expoliados, acabou sendo preso e sofrendo, ele próprio, em 1917, as arbitrariedades que denunciava. Deixou-nos um relato de todo o processo, o qual se tornou mais um...

40 anos a estudar Literaturas Africanas - análise e prospetiva

A comemoração que nos reúne aqui [1] tem maior importância do que normalmente a comemoração da abertura de uma qualquer área científica nova. Tem maior importância, em primeiro lugar, social, na medida em que o estudo e a divulgação das literaturas africanas em Portugal conduziu 1.    a uma aproximação maior entre os povos envolvidos. 2.    A um melhor conhecimento das mentalidades e das tensões culturais em jogo. 3.    Ao depurar da visão que os portugueses tinham de si próprios. Após uma fase heroica de implantação, da qual darão conta pessoas mais abalizadas, iniciou-se a consolidação e o alargamento da área. Foi o momento em que entrei nesta história. Deparei-me, enquanto aluno, com uma tripla posição: 1.    Nas aulas da licenciatura desfrutei ao máximo de uma sincronia rara. Tinha, perante mim, não um, mas dois professores e pude assistir a um intenso e contínuo debate entre a focalização entusiasmada e visceralmente partidá...

Nota evolucionista sobre o Jardim das Estações de Nok Nogueira

Desde o tempo em que os animais falavam sabemos, seguramente, que andavam em grupo. Cada grupo conhecia uma rede de palavras através da qual se definia, se identificava, dentro do grupo e face aos 'outros'. O homem é um ser que deambula mesmo quando sedentário, com a intensidade de um vício, de uma paixão se quisermos ser mais saudáveis. Por andar muito, tinha de organizar a sua apresentação e representação perante os outros e perante si: garantia, desta forma também, quer a coesão do grupo, quer a sua 'autenticidade' - ou seja, particularidade que, destacando-o, justificava uma existência autónoma. Desde que se organizou assim, cada grupo tem algumas pessoas encarregues de, em nome de todos, recontar a história coletiva, trazer o discurso do presente, apontar ao futuro de forma que o grupo possa também seguir coeso na mesma direção, reconhecer-se, identificar-se por esse discurso futurante, quero dizer, nessa rede de palavras organizadas em função de um sentido, um ru...

Tudo isto aconteceu - criatividade em Óscar Ribas - 1

1 Em Tudo isto aconteceu  - livro fundamental para conhecermos a obra toda de Óscar Ribas e o seu tempo - ele nos conta acerca da relação com a composição literária, ou poética, nos primeiros meses depois de a cegueira o tomar completamente: A princípio, ditava o que concebia, quer o que armazenava no cérebro, quer o que obtinha na ocasião. (p. 274) Sobretudo pela construção quer ... quer ,    esse procedimento inicial de recuperação em face da cegueira me parece típico da oralidade. É na oralidade que diseur , ou griot , ou rapsodo , ou ainda o repentista , reproduzem quer  o que armazenam no cérebro, quer  o que de momento lhes ocorre, geralmente em função do público imediato.  Da mesma forma o poeta na oralidade vai concebendo, retendo e reformulando o poema no seu 'interior', até apresentá-lo. Muitos poetas conhecidos apenas no sistema da escrita compõem também dessa maneira, passando ao papel um texto já muito próximo do final. Portanto, e...

Kyandas e sereias e crioulizações encantadas

Kitutas, Kiximbis e Kyandas, segundo os antropólogos e, no nosso caso, particularmente Virgílio Coelho, são seres ou entidades criados por Nzambi, por metamorfose, no mundo primordial e são espíritos das águas.  Ao passo que as Sereias, segundo vários investigadores europeus, seriam seres criados por Deméter, ou pelos celtas antes dela. Ela os criara por metamorfose também, podendo ainda ser criados assim depois de um longo período de enclausuramento, período esse que pode ser visto como iniciático.  A aparência de Kitutas, Kiximbis e Kyandas é, geralmente, humana, ao passo que a das sereias é semi-humana. As sereias, porém, podem surgir na figura de belas mulheres, como as Kyandas no tempo colonial em certas zonas urbanas em que os dois mitos, ou somente os dois mitologemas, se misturaram, num processo comum às mais diversas semiosferas, principalmente quando menos vigiadas. As entidades da zona Quimbundo (ou Kimbundu), Kitutas-Kiximbis-Kyandas, podem assumir, na ...