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Mensagens

Manuel de Oliveira: duas lembranças

A morte de Manoel de Oliveira reenviou-me a atenção para alguns aspetos ignorados da sua vida. Habitual, não? Não. Nem sempre, a julgar pelas notícias que apostaram de forma geral em ignorar esses aspetos.  1. Um deles diz respeito ao fotógrafo. Um extraordinário fotógrafo e o ritmo quase parado dos seus filmes não é só uma afinidade com opções (a meu ver quase sempre desastrosas) do cinema europeu. Digo desastrosas porque o 'filme parado', se assim podemos intitulá-lo, serve só para temas e propósitos muito especiais, que esperam por um público todo ele especial e que, portanto, deixam de fora os interesses da maioria dos frequentadores das salas de cinema. Sou um desses 'especiais', ou seja: específicos. O tipo de filme praticado por Manoel de Oliveira resulta bem com Tarkosvsky, por exemplo. E não com todo ele. Mas o cinema é mais do que isso, esse género cinematográfico especialmente concebido para pessoas concentradas, exigentes no que se espera receber e na ex...

Maia Ferreira: um amor incestuoso

Um poema cujo título é, sintomaticamente, uma dedicatória (« À minha terra »), de José da Silva Maia Ferreira, parece-me que não tem sido levado em devida conta nas análises da obra deste nosso poeta. Proponho uma leitura atenta para o compreendermos e podermos desfrutar de um texto que, à primeira leitura, é pouco interessante. Os críticos que se dedicam à leitura de Maia Ferreira fazem-no geralmente muito orientados por questões identitárias, sem dúvida legítimas, mas esquecendo os aspetos propriamente artísticos dos poemas. Entretanto, mesmo para debater a identidade pessoal de Maia Ferreira, este poema, cujo título é quase homónimo do segundo do livro (o que se costuma comentar), constitui pedra basilar. Vejamos primeiro os para-textos que, na página, envolvem os versos. O título, como disse, é uma dedicatória (e pode integrar-se no poema não sendo considerado para-texto). Um subtítulo esclarece, como era hábito na época e antes dela, o contexto no qual devemos imaginar ...

Racismos a-literários

Infelizmente e muitas vezes ainda as leituras que se fazem da literatura, da política, da economia e da sociedade (por vezes até da religião), em Angola, são deturpadas por uma visão, no mínimo, racializada e, comummente, racista. Nesse aspecto, uma análise marxista e uma panorâmica demográfica podem tornar-se saudáveis para podermos olhar a nossa própria realidade sem estarmos, a cada momento, à procura de fotografias das pessoas para sabermos se são brancos, negros, mestiços, sulanos, do norte e tudo o mais que vem à cabeça de mentes preconceituosas e malformadas. Sendo a minha área de estudos a dos estudos literários, inclino-me para ela e tomo-a por exemplo, muito provavelmente extensível a todas as outras áreas acima citadas. Se possuirmos uma visão de conjunto da formação da nossa literatura, facilmente percebemos que há uma longa e lenta fase de formação, seguida por uma proliferação de obras, autores e tendências. Ambas as características articulam-se com o tipo...

O diabo da Tasmânia e a unidade cultural bantu

Infelizmente, em países como Angola continua a ser preciso reafirmar uma verdade evidente: não se pode confundir, nem sequer em termos territoriais, o uso de traços culturais (por exemplo relacionados com a solução para o corpo depois da morte) com uma identidade linguística, como se língua e cultura - uma generalização de linguagem e pensamento - fossem uma só e a mesma 'coisa', ou processo, ou fenómeno. Portanto, como se o uso de uma língua implicasse o uso de uma cultura exclusiva dela e, no final, a identidade cultural de uma nação dependesse do uso dessa língua ou desse traço cultural, ignorando-se ainda que os processos identitários são dinâmicos.  Desta vez o apontamento occorreu-me ao ler o artigo de Xaverio Ballester, da Universidade de Valência, na revista Elea  (n.º 6, 2004, pp. 107-138), que pode ser lido e transferido aqui . O artigo intitula-se « Hablas Indoeuropeas y Anindoeuropeas en La Hispania Prerromana». Em determinado ponto o autor depara-se com o mesm...

... e, lá fora, os cães deixaram de ladrar?

Pontos de partida A publicação, em Luanda, de uma curta série de relatos de Ras Nguimba Ngola suscitou-me estas reflexões  (Angola, 2014) . O autor ainda não é considerado quando se fala em literatura angolana, mas isso mesmo constitui mais um desafio. Trata-se de um livro despretensioso, que reúne os relatos eróticos da vida de um jovem, desde a sua iniciação até à morte por ciúmes. O impulso erótico vai arrasando conceitos e preconceitos, ultrapassando barreiras, atravessando casais e virgens, panoramas mais e menos morais, mais e menos escondidos. Esse mesmo percurso é o da descoberta de que a moralidade, ou a vida religiosa, são válidas só quando resultam de uma vivência interior e que toda a vivência interior se realiza naturalmente. Gerais A literatura angolana, a exemplo de muitas outras ao redor dela (ou seja: no resto do mundo), é uma literatura feita em rede. Se queremos compreender a específica angolanidade literária e, simultaneamente, a literarieda...

Denis Dutton – autenticidade, antropologia e inquietação estética

.          1. Contextualização mínima . .          2. Definições de autenticidade . .          3. A autenticidade expressiva e a literatura angolana . .          3. Conclusão e retorno . .            1. Contextualização mínima No campo da crítica e da teoria literária, os ensaios e livros de Denis Dutton (1944-2010) tornaram-se fundamentais para um esforço de renovação da leitura e de recuperação do rigor. Ele abordou com determinação e originalidade muitos tabus que o terrorismo acrítico relativista instaurou e outros que, não tendo essa origem, não deixavam de ser tabus sem qualquer fundamento. A originalidade e segurança com que abordou as grandes temáticas da crítica e da teoria literárias no final do século XX, para além das virtudes pessoais, em grande...