Um poema cujo título é, sintomaticamente,
uma dedicatória («À
minha terra»), de José da Silva Maia Ferreira, parece-me que não tem sido
levado em devida conta nas análises da obra deste nosso poeta. Proponho uma
leitura atenta para o compreendermos e podermos desfrutar de um texto que, à
primeira leitura, é pouco interessante.
Os críticos que se dedicam à leitura de
Maia Ferreira fazem-no geralmente muito orientados por questões identitárias,
sem dúvida legítimas, mas esquecendo os aspetos propriamente artísticos dos
poemas. Entretanto, mesmo para debater a identidade pessoal de Maia Ferreira,
este poema, cujo título é quase homónimo do segundo do livro (o que se costuma comentar), constitui pedra
basilar.
Vejamos primeiro os para-textos que, na
página, envolvem os versos. O título, como disse, é uma dedicatória (e pode
integrar-se no poema não sendo considerado para-texto). Um subtítulo esclarece,
como era hábito na época e antes dela, o contexto no qual devemos imaginar as
referências: “no momento de avistá-la depois de uma viagem”. Supõe-se que num
dos seus regressos do Rio de Janeiro a Luanda, muito provavelmente o último,
ainda em 1849. Com a ajuda dos primeiros versos, imaginamos a situação
diegética: o poeta, ainda no ‘madeiro’, avista a sua terra e, inspirado pela
saudade, escreve a ela e sobre ela, como também para um amigo próximo.
Esse amigo, penso que próximo, fica nomeado
pela dedicatória formal: Joaquim Luiz Bastos, “meu compatriota”. Pertencendo
Maia Ferreira a uma família fortemente ligada ao Brasil e estando Portugal
então cioso da propriedade da sua colónia, onde alguns filhos da terra sonhavam
com a independência sob proteção do novo Império (brasileiro), é sem dúvida
arriscado falar ele, em Angola, nesse livro, num “compatriota” a quem dedica um
poema destinado a falar do seu amor pela sua terra. Ainda por cima, segundo assevera Carlos Pacheco em José da Silva Maia Ferreira: novas achegas para a sua biografia (Luanda: UEA, 1992. - pp. 60-64), ambos faziam parte, com mais alguns filhos da terra, de um grupo um tanto secreto chamado Jovem Luanda e que seria acusado de lusofobia...
Compatriota, no século XIX, podia significar
“concidadão”, sendo esta a aceção mais comum. Podia, igualmente, significar “patrício”, ou “conterrâneo” segundo o Dicionário dos sinonimos, poético e de epítetos (Roquete & Fonseca. - Paris; Lisboa: Guillard, Aillaud & Cia, [1889?]. - p. 65) . No Dicionário prosódico de Portugal e Brasil
(Carvalho & Deus,
1890, p. 194)
aparece tão somente com o significado de pessoa
da mesma pátria. O vocábulo não era comum nos dicionários da época, mas as suas
ocorrências indicam a dominância da primeira aceção, sem eliminar as
ambivalências. Parece, portanto, que Maia Ferreira, nesta dedicatória a Joaquim
Luiz Bastos, aproveita o significado principal com a vantagem de poder
justificar-se com qualquer outra aceção (no caso de o significado primeiro lhe
trazer problemas).
E quem era este compatriota? Um português?
Não. Melhor: tão português quanto Maia Ferreira, porque nasceu em Angola e no
país vivia. Ao contrário de Maia Ferreira, Joaquim Luiz Bastos nunca deve ter
vivido fora de Angola. Apesar de ser mestiço, chegou a governador de Benguela,
numa escolha polémica na qual o historiador e funcionário do Ministério do
Ultramar Luz Soriano desempenhou um papel fundamental. O próprio Luz Soriano
conta a história nas suas memórias, cuja reedição
está disponível em rede e a minha frase ("apesar de ser mestiço") foi tirada dessas memórias, pois lá parece que o único obstáculo à nomeação do nosso compatriota era o facto de ele não ser branco. Havia nessa altura mais candidatos ao cargo. O candidato alternativo com mais possibilidades foi um negociante, político e
funcionário colonial corrupto, porém com significativas influências em Portugal, que por
ser corrupto e estar comprometido com o tráfico ilegal de escravos foi
preterido conscienciosamente por parecer de Luz Soriano. Por consequência, o mandato de Joaquim Luiz Bastos foi curto, sendo
que um grupo de comerciantes portugueses residentes em Benguela se juntou e se rebelou, recusando-se a
aceitar a sua autoridade, inclusivamente com alegações racistas. Era este o “ilustríssimo
senhor” e “compatriota” de José da Silva Maia Ferreira.
Podemos postular que a ambivalência da
palavra “compatriota” se prolonga na ambivalência do próprio estatuto de
Joaquim Luiz Bastos: filho da terra, pessoa querida e respeitada no meio local,
possuindo uma boa imagem junto das autoridades coloniais e sendo militar do
exército colonial. Era a mesma ambivalência do ‘Kindjango’, o famoso General
Geraldo António Victor, creio que avô, ou bisavô, do poeta Geraldo Bessa
Victor. O que mais importa: compartilhada pelo nosso poeta.
Passemos ao poema. Ele termina por uma
anáfora que remete para o início. A distribuição estrófica é regular (estrofes
de 8 versos). A distribuição das rimas segue sempre o mesmo esquema: *AAB*CCB. Todo
ele é ritmado por uma escansão de versos populares (redondilha maior),
oscilando geralmente entre a soma 4+3 (sílabas métricas) e a de 3+4 (mais
frequente), sendo as mais comuns nesse tipo de versos. A ida e vinda constante entre
os dois ritmos, a regularidade das estrofes e das rimas, a sugestão de
circularidade (garantida pelo final atirando-nos de novo para o início),
articulam-se bem à cadência do próprio mar e principalmente junto à costa. Sugerem-nos
um som que regressa continuamente com suas pequenas modulações e, portanto,
articulam-se com um sentimento saudoso direcionado para a terra-mãe.
O quadro que nos é sugerido é o do momento
em que o poeta, ainda no navio, começa a avistar a sua “terra querida”. A primeira metade da primeira estrofe é
dedicada exclusivamente à montagem do quadro. O primeiro verso pareceu-me
estranho: um mar de leite? O mar não é branco… pensei na espuma das ondas que o
aproximaria do leite mas, por vício da profissão, fui pesquisar. A expressão ‘mar
de leite’ (invertida para realçar a palavra “leite”) era já conhecida pela
marinhagem há séculos. Ela indica um mar que, em noites escuras e sem lua (o fenómeno pode
durar várias noites ou apenas horas), dá uma coloração próxima do branco,
sugerindo aos marinheiros que estão a navegar entre nuvens ou neve e
estendendo-se a impressão para o horizonte em todas as direções. As descrições
dos marinheiros foram tidas por fantasiosas a partir dos séculos XVII-XVIII. Não
havendo porém dúvidas sobre a recorrência dos ‘mares de leite’, começou a tentar-se
a compreensão científica do processo. Até hoje não se explica o fenómeno de
forma cabal, ainda que se
postule, consensualmente, que se trata de bioluminescência… Mantém,
portanto (e mantinha em 1849), o poder mágico das sugestões ‘fantasiosas’ que
Júlio Verne, vinte anos mais tarde, rentabiliza ainda nas 20.000 léguas submarinas. E mais uma, que Júlio Verne talvez não conhecesse, mas Óscar Ribas transcreve (Ilundu: Espíritos e Ritos Angolanos. Luanda: UEA, 1992. - p. 36):
Tanto esse como outros informantes, ainda nos contaram que, em certos lugares do mar, rio ou lagoa, se notam, durante a noite, várias luzes. e mesmo em quarto fechado, a candeia apagada, semelhante fenómeno, por vezes, igualmente se verifica.
Isto são manifestações da quianda, ou da kianda, uma entidade sobrenatural ligada aos elementos aquáticos e a que mais popular se tornou na semiosfera intermédia de Luanda, aí ligada, principalmente, ao mar. Há, portanto, uma conotação empírica universal e outra mítica (ou espiritual) e local para a visão do 'mar de leite". A local reforça o nacionalismo do poeta (o de "a minha terra").
É possível que, nessa aproximação à terra, Maia Ferreira avistasse (ou nos quisesse fazer avistar) um fenómeno igual, ambivalência (entre esse fenómeno ou a adjetivação do mar pela cor da espuma) que dá continuidade às anteriores. Em “cismando” na sua terra ele vê-a branquejar, ou por efeito da luminescência (e da quianda, no caso da leitura local), ou porque entretanto amanhece e ela “desponta”.
É possível que, nessa aproximação à terra, Maia Ferreira avistasse (ou nos quisesse fazer avistar) um fenómeno igual, ambivalência (entre esse fenómeno ou a adjetivação do mar pela cor da espuma) que dá continuidade às anteriores. Em “cismando” na sua terra ele vê-a branquejar, ou por efeito da luminescência (e da quianda, no caso da leitura local), ou porque entretanto amanhece e ela “desponta”.
Os 8 versos seguintes são dedicados à
adjetivação da terra. Ela é conotada com “ardente”, “fogo intenso” (pelo sol), “fervente”
(areia), “brilho” e beleza (ela própria). Ao contrário do que sucederia a um
europeu acabado de chegar, toda esta ‘queimadura’ vem “acalentar” a mente do
poeta, em vez de o incomodar. Por aqui se estabelece uma primeira comunhão do poeta com a paisagem,
sublinhada logo depois pela “alma fervorosa” (tanto quanto a areia é “fervente”).
A primeira comunhão ficava reforçada pela beleza com que a paisagem o impressionava. Começava, neste ponto, nova ambivalência: terra e mulher? É que o avistamento, afinal um tanto
ou quanto fantástico a partir de um mar “de leite”, provoca no poeta “desejos
de a abraçar”. Abre-se, então, uma isotopia erótica, nada inocente a meu ver,
que vai sustentar esta imagem da chegada ou desembarque na terra.
A terra, como as donzelas da maioria dos
poemas, é “toda da alma”. O que nos faria pensar num erotismo nada sensual, muito pelo contrário, num amor idílico, espiritual, ideal e abstrato. Só que
“alma” vem de “anima”, animação, e o poeta parece jogar bem com as etimologias,
esclarecendo que ela é “toda-vida”. “Alma”, ali, significa “vida”, a terra ser "toda da alma" significa ser "toda-vida". E o processo
é reforçado por essa marca tipográfica, esse pequeno hífen ligando pela
tipografia duas palavras que deviam estar graficamente separadas na frase. O processo
parece premonitório, pois vem a ser adotado (e abusado) ao longo do século XX
pelos mais diversos poetas modernistas, concretistas e outros ‘istas’ desses
tempos. E denota uma especial sensibilidade aos recursos gráficos, ainda
presente no poema «Felicidade» de Cordeiro da Matta.
Essa terra, “toda-vida”, regurgitante, é
desfrutada como se de mulher se tratasse: “entre gozos foi fruída / sem
temores, nem pesar”. Idílica e feminina (dado que se trata de um homem que
escreve). Como se fosse ele a recebe-la, quando era o contrário, ele dá-lhe as
boas vindas e pede-lhe, ato contínuo, para se deixar de “galas”. As galas eram vestuários de luxo com que se
participava de festas, receções e outros eventos do género. Daí passou a
significar também “jactância” (Carvalho & Deus,
1890, p. 431) ,
“ornamento”, e dela derivou “galante” para indicar uma pessoa (geralmente um
jovem) graciosa, jovial, gentil e bela. O galantear (mostrar as galas) passou a
significar “cortejar” e “gracejar” (Roquete & Fonseca, [1889?], p. 153) .
O poeta pede-lhe para despir “as galas” que
ela, “vaidosa”, lhe quer mostrar, porque mesmo “simples” ela tem “fulgores” e os
seus montes “primores” que “às vezes falam d’amores / a quem os sabe adorar”. Ora
ninguém ouve montes a falar de amor por ter adorado esses mesmos montes. Em concordância
com a adjetivação, somos levados a reconhecer que o poeta estava apenas a
acentuar a conotação erótica da sua relação com a terra. Surge, na sequência,
também como passível de leitura erótica o pedido ao “madeiro” para navegar em
direção à terra amada, requalificada novamente pelos brilhos e pela beleza,
aliás “radiosa”. É com essa imagem do avanço para dentro da terra que ele nos
deixa ao avistar o “alto monte” (hipérbole, sem dúvida) da sua terra natal, que
pode simbolizar o desejo erótico também.
Nesta sua caraterização da chegada à terra
pelo prisma erótico, Maia Ferreira vai mais longe, no que diz respeito à
sensualidade, do que em alguns dos poemas amorosos – nos quais a paixão que a
mulher desperta nele é igualmente adjetivada pelo fogo, pelo brilho, pela
ardência e pela intensidade. O que traz um destaque ainda mais significativo para o seu amor telúrico.
Falta mais, muito mais, para conhecermos
bem a poesia de José da Silva Maia Ferreira. Mas, por agora, sirva esta análise
aos leitores que sofrem no seu leito todas as noites, inquietos porque o pobre
poeta, afinal, talvez não fosse angolano o suficiente. Sim, o ato de amar pode
ter uma origem no ato colonial: a penetração numa terra e no seu povo de outro
povo que vem de fora. Mas nós não amamos também as nossas mulheres como a nossa
terra? Não as colonizamos também? E não é a elas que nos agarramos com mais
força “depois de uma viagem”? Provavelmente o poeta continua a prolongar nas
nossas leituras as suas ambivalências.
Francisco Soares.
Jardins do Éden, 14-3-2014.
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