Infelizmente e muitas vezes ainda as leituras que se fazem
da literatura, da política, da economia e da sociedade (por vezes até da
religião), em Angola, são deturpadas por uma visão, no mínimo, racializada e,
comummente, racista.
Nesse aspecto, uma análise marxista e uma panorâmica
demográfica podem tornar-se saudáveis para podermos olhar a nossa própria
realidade sem estarmos, a cada momento, à procura de fotografias das pessoas
para sabermos se são brancos, negros, mestiços, sulanos, do norte e tudo o mais
que vem à cabeça de mentes preconceituosas e malformadas.
Sendo a minha área de estudos a dos estudos literários,
inclino-me para ela e tomo-a por exemplo, muito provavelmente extensível a
todas as outras áreas acima citadas.
Se possuirmos uma visão de conjunto da formação da nossa
literatura, facilmente percebemos que há uma longa e lenta fase de formação,
seguida por uma proliferação de obras, autores e tendências. Ambas as características
articulam-se com o tipo de sociedade em que vivemos e na qual se começa a
praticar a literatura, ou seja, a arte verbal através da escrita. Isso aconteceu
com mais países, por exemplo Brasil e Cabo Verde. A partir desta similaridade,
e uma vez estando muito mais estudado o caso brasileiro, compreenderão os
leitores ao que me refiro: colónias, que inicialmente estão condenadas à incipiência
porque não se procura com elas mais do que lucro e conversão imediatos;
entretanto colónias nas quais começam a formar-se urbanidades locais, com
espaços rurais intimamente ligados a elas e onde, portanto, surgem redes
clientelares, familiares, de senhores e também de proletários, que se vão
relacionando entre si e formando uma continuidade (ou várias) naquele espaço,
muito lentamente criando ícones de referência comum a todos, ou quase todos ou,
pelo menos, à maioria dos dominantes. Com o desenvolvimento destes núcleos, a
literatura começa também a sair da casca, porque ela faz naturalmente parte do
ovo – como hoje mostram de forma nova e mais exacta as tendências de pesquisa
relacionando neurobiologia e literatura (neste mesmo ‘blogue’ encontrarão
textos acerca disso e algumas hiperligações).
Em se tratando de colónias, as classes dominantes económica e
politicamente são de origem exógena. Como foi nas classes dominantes que a
literatura encontrou sustento em épocas anteriores à do deus-mercado, nessa
lenta e longa fase inicial a maioria dos escritores e dos leitores hão de
pertencer às classes dominantes. Se fizermos uma leitura racial do processo, a
maioria dos escritores tinha, por esse motivo, pele clara no período inicial de
formação das literaturas africanas lusófonas. E é de louvar que, pertencendo às classes dominantes
e tendo possibilidades de se afirmarem na ‘metrópole’, onde viveriam melhor e poderiam desfrutar das fortunas e dos empregos que a sua situação de privilégio
proporcionava, esses (já) filhos da terra se dedicassem a ela. Primeiro escrevendo aí e, ou, para aí, criando uma sociedade literária dinâmica e minimamente continuada; depois
localizando-a e, finalmente, lutando pelas independências e por revoluções que
implicavam a curto prazo a abolição dos seus privilégios. Foi a todos os
títulos nobre e louvável esse exemplo, que devíamos continuar a seguir mas não
temos coragem de fazer.
Com as independências, ainda que as assimetrias sociais
persistissem e até aumentassem em alguns casos, a grande maioria da população
passou, porém, a ter acesso ao ensino – não importa agora se o de qualidade,
geralmente no estrangeiro, estava como sempre reservado aos filhos da
elite. A verdade é que todos os filhos de toda a população, por princípio e em
princípio, tiveram acesso à educação. Persistindo, licenciaram-se, fizeram
alguns mestrados e outros doutoramentos. Com isso, a prática literária tinha
condições para se generalizar.
Em casos como o de Angola, quem faz leituras
racializadas repara que, a partir de certa altura (sobretudo a partir da
independência), há cada vez mais escritores de pele escura e cada vez menos de
pele clara. Os que, para além de racializados, são racistas, entendem que, por
esse motivo, só se deve considerar angolana a literatura produzida a partir de
então. Lamentável, que se transponha uma tal leitura e um critério estranho à
literatura para considerá-la, estudá-la e qualificá-la. Mas podemos considerar,
tapando o sol com a peneira, que são escolhas metodológicas…
A minha metodologia não é nada essa. Eu procuro perceber como se foi
formando e transformando uma literatura em Angola. Outros tentarão perceber, por exemplo, como se foi formando e transformando uma estrutura comercial nas nossas cidades, desde por exemplo mBanza Kongo até à Luanda de hoje. Recorrendo à demografia, percebemos que a
população 'branca', entre nós, tem tendência a diminuir e, mesmo quando cresceu
muito, no conjunto da população total de Angola o seu número não foi
significativo. Por razões várias e cada vez mais, os ‘brancos’ filhos de ‘brancos’,
indo estudar para fora (e a maioria vai, procurando um ensino superior de maior
qualidade), se arranja lá fora namoro e emprego acaba ficando por lá e
desfrutando do conforto das sociedades mais desenvolvidas e mais organizadas. Por
outro lado, os expatriados ‘brancos’ que se reproduzem em Angola fazem-no,
maioritariamente, com mulheres ‘negras’ ou ‘mestiças’, portanto não se
reproduzem enquanto ‘brancos’, aumentando a população ‘mestiça’.
A população ‘mestiça’, por seu turno, tende a manter-se em
Angola, nem aumenta nem diminui. Parte dela, indo estudar para fora, também
ficará por lá, outra parte regressa e a parte que fica é compensada pelo verso
de M. António:
Olhar doce cambulando nos portos
Onde continuam
Rios de sangue e esperma
A produzir-me.
Embora já não seja só ‘pelos portos’, nem só pelo ‘olhar doce
cambulando’, mas continuam…
Se a população ‘branca’ tende sempre a diminuir (o que não
significa extinguir-se totalmente), a ‘mestiça’ a manter-se (portanto ocupando
uma faixa pouco significativa no conjunto da população), por sua vez a ‘negra’ tende a
aumentar. Desde logo se percebe o fenómeno por um fator matemático: 4x10=400;
4x1000=4000. Ainda que a proporção se mantenha, o número dos que já são maioria será sempre maioria. Pelos outros fatores acima citados a proporção tende, porém, a alterar-se ainda mais em favor da maioria.
Sendo assim, a partir do momento em que, de acordo com
reivindicações antigas dos ‘filhos da terra’, a instrução, o ensino se abriram
a todos, essa maioria esmagadora da população irá tornando-se a maioria
esmagadora dos estudantes, dos leitores, dos escritores, dos críticos. Não é,
portanto, necessário termos políticas racistas ou anti-racistas, nem leituras
racializadas, para explicarmos essas ‘maiorias’ – já por si resultantes de
leituras racializadas. O que se passa é que o acesso ao ensino democratiza a
sociedade, ou seja, deixa que ela, em muitos aspectos, seja a expressão da
maioria do povo. Se a maioria do povo tem pele escura, a maioria dos escritores
foi também tendo pele escura conforme o acesso ao ensino se tornou transversal.
Infelizmente há racismos na leitura e até em algumas políticas
culturais em Angola. Devemos denunciá-lo. Mas o grande processo histórico por
que passamos, por si próprio, determina que a maioria dos escritores, leitores
e críticos angolanos tenda a ser de pele escura, mesmo que nada se faça a favor disso. Por tal motivo, não em razão de políticas
racializadas, é por tal motivo que hoje, entre os novos escritores, que se
revelaram já no século XXI, não temos nenhum ‘branco’, temos muito poucos ‘mestiços’
e uma larga maioria de ‘negros’. O que em nada altera uma leitura literária da
literatura angolana e daquela continuidade dinâmica na qual se revê e,
portanto, funda a sua existência e definição entre as outras literaturas.
Por mim, ponto final nessa história de brancos, pretos e
mulatos. Os que não sabem se não falar disso, usem os seus preconceitos noutro
quintal. Eu continuo a estudar a arte literária angolana e em Angola.
Comentários
Enviar um comentário
Comente