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1. Contextualização
mínima
No campo da crítica e da
teoria literária, os ensaios e livros de Denis Dutton (1944-2010) tornaram-se
fundamentais para um esforço de renovação da leitura e de recuperação do rigor.
Ele abordou com determinação e originalidade muitos tabus que o terrorismo acrítico relativista instaurou e outros que,
não tendo essa origem, não deixavam de ser tabus
sem qualquer fundamento.
A originalidade e
segurança com que abordou as grandes temáticas da crítica e da teoria
literárias no final do século XX, para além das virtudes pessoais, em grande
parte se devem à interdisciplinarização com estudos de outras áreas e ciências,
principalmente as desenvolvidas a partir de hipóteses evolucionistas. Essa aproximação
(que não foi só com essas áreas, mas sobretudo com elas) não foi feita da
maneira comum entre nós – críticos e teóricos da literatura. Para nós, como o
próprio Dutton mostra ao comentar o pós-modernismo, e para as ciências humanas
em geral, a ciência (geralmente referimos com o termo disciplinas muito
variadas: as da biologia, da matemática, da física, da astronomia, quando muito
até algumas da psicologia), a ciência é uma fonte de metáforas cujo alcance poético
vamos perseguindo no desdobramento das analogias que elas permitem. É um
procedimento frouxo e de falsificação do próprio raciocínio. As metáforas
servem para abrir perspectivas mas, para raciocinarmos sobre essa abertura e a
verificarmos, precisamos de conhecer com rigor e alguma extensão as ciências de
onde elas vieram, bem como precisamos de cuidadosamente estabelecer as
condições de transferência das generalizações que estamos a efectuar. O que a
maioria de nós não faz.
Dutton estabelece
paralelos, sobretudo com situações estudadas por etnógrafos e antropólogos,
colocando-se alternativamente no campo do sujeito e do objecto, como também no
campo do metaforante e do metaforado. Assim percebe, em simultâneo, a relatividade
das nossas posições, convicções e convenções (de que muitos de nós, em
particular os relativistas, não damos conta) e as certezas daí remanescentes. O
que o conduz até à noção dos universais da arte e à concepção da própria
universalidade da arte, fácil de verificar estudando dados da antropologia de povos diversos e comparando-os com as nossas cidades globais. A partir
daí retoma todas as questões pendentes no debate crítico e teórico mostrando a
fragilidade das posições costumeiras sobre o assunto.
O mesmo fez com uma
temática muito versada entre nós, angolanos e lusófonos, desde há mais de 200
anos, quando nos identificávamos uns perante os outros com expressões do tipo “português
americano”, “português africano”, ou só “português”. O só “português” seria o “original”
– e daí pensar-se que o autêntico. Os outros diferiam dele pela segunda
adjectivação, que substantivava a primeira, num deslize gramatical com
implicações identitárias mal percebidas, ou de todo inatendidas. O que os
tornava “originais” (agora num segundo sentido da palavra), o que dava
testemunho da sua “autenticidade”, era por consequência essa segunda
adjectivação: “africano”, “americano”.
A partir daí, acompanhados
e alimentados pelo desenvolvimento dos nacionalismos românticos, inicialmente
europeus, fomos acelerando o que nos diferenciava e desenvolvendo toda uma
temática da “autenticidade” com sentido de “verdade”, “originalidade” e “propriedade”.
Passados mais de dois séculos, muitas guerras e a evidência de sofrer o
conceito de «autenticidade», necessária e recorrentemente, um tratamento
múltiplo, diverso, é chegada a hora de o revisitarmos com sentido crítico. Só
depois dessa revisão e da eventual reestruturação mental que ela causará podemos voltar a debater, com relativistas, nativistas, localistas e
globalistas o que é «autenticidade».
A filosofia traz-nos
abordagens muito interessantes e variadas. Uma delas é a do português
José Marinho, mas aplica-se mais directamente ao conceito de «originalidade». Podemos
concluir, a
partir das suas reflexões, que o poeta original é o poeta que aproxima o
que diz ou escreve da origem do que diz ou escreve. Uma origem difícil de
exprimir, o que se prova pelo facto de suscitar representações diferentes até
no mesmo lugar e tempo. Em última análise, um poeta genuíno e original faria o
seu leitor regressar ao silêncio, mas a um silêncio questionante, instigante,
que leva a falar e a fabular sobre o não-dito – sem o conseguir dizer.
Este sentido profundo não
altera a pertinência do tipo de trabalho desenvolvido por Dutton. As
conclusões, ou orientações, podem ser cumulativas, uma aliás conduzindo à outra.
Dois textos de Dutton, em particular, prenderam a minha atenção. O primeiro
deles intitula-se «Authenticity in art» (Dutton, 2003). O segundo será
objecto de outro ensaio.
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2. Definições
de autenticidade
Dutton começa por uma
pergunta básica e inteligente: “autêntico opõe-se a quê?” Podemos agrupar as muitas
respostas em dois blocos: o da “autenticidade nominal” e o da “autenticidade
expressiva”.
A autenticidade nominal tem o seu contrário, por exemplo, no plágio. Autêntico
é um quadro, ou uma obra, que é mesmo daquele autor cujo nome figura como tal
na capa. Neste sentido se origina a expressão ‘é um autêntico Vieira', ou 'é um autêntico Vermeer’.
A autenticidade expressiva, como indica o próprio nome, chama por
mais qualquer ‘coisa’: uma obra deixa de ser autêntica se não exprime o que se
propõe (ou é suposto) exprimir. Neste sentido se radica a expressão do tipo ‘é
um autêntico romântico’.
A nós, o que nos
interessa (face ao teimoso apego a questões identitárias na literatura), é a autenticidade expressiva. Como Dutton
trata o problema? Para o percebermos precisamos ainda recordar-nos de um outro
sentido com que usamos a expressão definidora da autenticidade nominal. “Um
autêntico Vermeer” pode sê-lo quanto ao seu estilo, quanto ao conjunto das
características artísticas incluídos aí vários aspectos do conteúdo. Isso nos
leva a falar no “autêntico Neto”, ou no “autêntico Viriato”. Se estivéssemos perante
a autenticidade expressiva típica, diríamos “um autêntico nacionalista”, por
exemplo, ‘um autêntico angolano’, como disseram outros antes ‘um autêntico
lusitano’, ‘um verdadeiro filho da pátria’, ‘um brasileiro típico’, etc.. Em parte,
um autêntico Neto, ou Viriato, ou Jacinto, é um exemplo de nacionalismo e da
própria nação (da propriedade da nação); na outra parte é o “próprio Neto”, o “próprio
Viriato”, o “próprio Jacinto”. É o nacionalismo de cada um deles, portanto, o
nacionalismo da sua época mais a sua especificidade dentro desse nacionalismo. Aqui
entramos na autenticidade expressiva, mas ainda com qualquer coisa (a
expressão?) da autenticidade nominal.
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3. A
autenticidade expressiva e a literatura angolana
A autenticidade
expressiva, como lembra Dutton, é muito mais complexa, difícil de definir e
polémica. Porque envolve toda uma comunidade e os seus factores de
identificação colectiva. Para falar no nosso caso, mais uma vez, todos amamos
Angola, mas a Angola de cada um não é a mesma; nem a de cada um, nem a de cada
grupo ou comunidade constituinte da nacionalidade. O que gera discussões
potencialmente irresolúveis.
Em Angola, infelizmente
mas por razões que a História pode explicar (a História cultural, estudando os
movimentos constantes de trânsito e recurso, ou os movimentos dialécticos de
tese e antítese), caímos muitas vezes numa confusão típica da autenticidade
expressiva. Dutton alerta para isso quando fala na combinação “estética com
noções étnicas locais”. A confusão entre estética e identidade étnica foi e
continua a ser prejudicial ao estudo e à própria concepção de uma literatura
angolana. Mas é comum, como se vê (não significa que deva ser adoptada).
Dutton não foge,
portanto, à questão – nem nós devemos fazê-lo. Comecemos por debatê-la como o
faria um antropólogo face à comercialização, por exemplo, da estatuária ‘lunda’,
genericamente falando, da estatuária banto (ou bantu). As inúmeras reproduções
de estatuetas simbolizando o samanyonga
– figura que ressurge em várias nações bantos (ou bantu) – serão autênticas? Elas
são geralmente consideradas inautênticas pelos antropólogos e a semiótica pode
explicar isso: ao saírem da respectiva semiosfera o seu significado, articulado
à sua função social, perde-se e passam a ser meramente objectos de apreciação
estética. A continuidade funcional e a comunidade de recepção mudam
radicalmente e muda a semiosfera que as integra num novo sistema simbólico, de
segundo grau. Nessa medida já não são autênticas estátuas, são peças feitas
para vender, muitas e rápido, para fazer dinheiro, sobreviver, comprar outras
coisas, etc. Carecem, neste sentido, de autenticidade expressiva relativamente
à comunidade original.
Esta, por sua vez, mudou também e já não recorre a tais estatuetas como antigamente, ou é raro que o faça. Também por isso, pela mudança interna da audiência original, as estátuas do ‘pensador africano’ tornaram-se inautênticas relativamente à cultura de origem, ao mesmo tempo em que se integraram na circulação global da arte onde Rodin já tem nome conotado com formas e soluções específicas.
Esta, por sua vez, mudou também e já não recorre a tais estatuetas como antigamente, ou é raro que o faça. Também por isso, pela mudança interna da audiência original, as estátuas do ‘pensador africano’ tornaram-se inautênticas relativamente à cultura de origem, ao mesmo tempo em que se integraram na circulação global da arte onde Rodin já tem nome conotado com formas e soluções específicas.
Ao notar a importância da
audiência nesta noção de autenticidade, Dutton aponta igualmente o necessário
acompanhamento da produção das obras por uma tradição crítica viva. Ela existe
em todas as sociedades. Quando, por exemplo, se ouviam contos no mato e a
audiência participava com palmas, rindo, criticando, enviando recados ao actor,
etc., tomava assim forma uma tradição crítica viva – tão tradição, tão crítica
e tão viva quanto a dos comentadores europeus de realizações cinematográficas.
A nova audiência do samanyonga é uma população urbana ávida
de obras ‘autênticas’ e exóticas, remotamente artísticas, em que por exemplo os
surrealistas se inspiraram, ou em que se baseia uma reivindicação política… por
isso também os novos escultores moram nas grandes cidades, onde grandes
mercados absorvem e alimentam a sua habilidade e a sua ‘fidelidade’ à tradição
miticamente fixada num passado eterno.
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4. Conclusão
e retorno
O diálogo entre as
reacções críticas, por vezes especializadas, da audiência e do criador, ou performer, ou realizador, é o mecanismo básico
de auto-regulação das estruturas artísticas. Alterado esse mecanismo, os
produtores passam a ser autênticos relativamente à expectativa da sua nova
audiência – e, neste aspecto, continuam a ser os mesmos.
Pelos mesmos motivos
também, eles continuam reproduzindo uma forma interminavelmente e sem a
mudarem. Qualquer inovação que não seja solicitada pela audiência (nova), ou
perante ela justificada por particularidades das relações sociais em que se
integrava a produção ‘tradicional’, não será aceite pelos novos consumidores,
ou na nova semiosfera se usarmos outra linguagem.
Reproduzindo-a dentro
destas condicionantes, o novo artista (representante oficioso do papel do artista
tradicional no novo cenário artístico e global) é formalmente fiel às
tradições. Mas a ausência de envolvimento colectivo acompanha-se da desistência
de empenhamento pessoal para além da reprodução técnica, que é o que a nova comunidade lhe pede. Isso torna as reproduções fatigantes para um verdadeiro apreciador de obras de arte, não encontrar nenhum cunho pessoal em
tantos samanyonga. O que nos coloca
uma questão que Dutton não trata nos textos e livros que li dele, mas que
Benjamin abordou parcialmente em 1936, no famoso A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, republicado
em 1955. Em parte as suas análises interseccionam-se (na parte que diz
respeito, precisamente, à ligação do autor com a comunidade-audiência e,
portanto, a função social e religiosa da obra).
Mas há uma segunda
questão ignorada: em que medida um artista que busca executar rigorosamente um
padrão estético se aproxima da reprodutibilidade técnica e se afasta da
autenticidade pessoal e social? Há pintores, por exemplo os hiper-realistas
norte-americanos (e não só), cujo objectivo é tornarem a ‘realidade’ mais real
ainda do que quando a vemos, ‘exactamente assim’. Mais real ainda porque a
vemos em movimento, com uma percepção mais tosca e ali aparece perfeita na precisão fixa da percepção que nos provoca. Na precisão que teria um retrato programado por
um computador a partir de uma fotografia…
A diferença, entre
máquina e pintor, é a de uma inquietação. Uma preocupação que não afecta a
reprodução meramente mecânica. É preciso tornar ‘o real’ perceptível,
exactamente perceptível. A realidade assegurada por uma fotografia, por uma
máquina de filmar, ainda ela não é suficientemente real, ainda ela nos deixa
inquietos. A pintura cumpre então uma das funções sociais da arte: apurar e
aperfeiçoar a nossa visão relativamente a um ideal, que tem valor próprio. Para
além do prazer de vermos uma realidade ‘ainda mais real’, temos o prazer de
realizar individualmente esse exercício de auto-regulação perceptiva. Todo o
realismo descritivo, na cultura europeia, desde pelo menos o século XVIII,
passou por discussões deste tipo, desmontando ilusões de realidade perfeita e
reconduzindo-nos a outra idealização do real aparentemente mais ‘natural’, ou
seja, mais ‘autêntico’. O próprio romantismo não foi isso também?
É altura, então, de
fazermos uma terceira pergunta: porquê? Porque se repete a busca do autêntico
mesmo quando o real parece real? Porque há uma inquietação. Uma inquietação
estética. Somos social e culturalmente autênticos, mas pessoalmente sabemos que
não representámos aquilo que nos movia, o tal apelo de que falei quando me
lembrei de José Marinho, dos seus dispersos e da Teoria do Ser e da Verdade. É por relação com a origem da arte que se rege, mais
profundamente, o diálogo entre uma tradição crítica viva e um autor ou performer, ou realizador, o diálogo
sobre o qual assenta a autenticidade expressiva da obra, (auto)regulada pelos
critérios e valores artísticos do seu meio, pela sua semiosfera também.
Francisco Soares, Jardins
do Éden, 14-12-2014.
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