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Mensagens

Maia Ferreira: um amor incestuoso

Um poema cujo título é, sintomaticamente, uma dedicatória (« À minha terra »), de José da Silva Maia Ferreira, parece-me que não tem sido levado em devida conta nas análises da obra deste nosso poeta. Proponho uma leitura atenta para o compreendermos e podermos desfrutar de um texto que, à primeira leitura, é pouco interessante. Os críticos que se dedicam à leitura de Maia Ferreira fazem-no geralmente muito orientados por questões identitárias, sem dúvida legítimas, mas esquecendo os aspetos propriamente artísticos dos poemas. Entretanto, mesmo para debater a identidade pessoal de Maia Ferreira, este poema, cujo título é quase homónimo do segundo do livro (o que se costuma comentar), constitui pedra basilar. Vejamos primeiro os para-textos que, na página, envolvem os versos. O título, como disse, é uma dedicatória (e pode integrar-se no poema não sendo considerado para-texto). Um subtítulo esclarece, como era hábito na época e antes dela, o contexto no qual devemos imaginar ...

Racismos a-literários

Infelizmente e muitas vezes ainda as leituras que se fazem da literatura, da política, da economia e da sociedade (por vezes até da religião), em Angola, são deturpadas por uma visão, no mínimo, racializada e, comummente, racista. Nesse aspecto, uma análise marxista e uma panorâmica demográfica podem tornar-se saudáveis para podermos olhar a nossa própria realidade sem estarmos, a cada momento, à procura de fotografias das pessoas para sabermos se são brancos, negros, mestiços, sulanos, do norte e tudo o mais que vem à cabeça de mentes preconceituosas e malformadas. Sendo a minha área de estudos a dos estudos literários, inclino-me para ela e tomo-a por exemplo, muito provavelmente extensível a todas as outras áreas acima citadas. Se possuirmos uma visão de conjunto da formação da nossa literatura, facilmente percebemos que há uma longa e lenta fase de formação, seguida por uma proliferação de obras, autores e tendências. Ambas as características articulam-se com o tipo...

O diabo da Tasmânia e a unidade cultural bantu

Infelizmente, em países como Angola continua a ser preciso reafirmar uma verdade evidente: não se pode confundir, nem sequer em termos territoriais, o uso de traços culturais (por exemplo relacionados com a solução para o corpo depois da morte) com uma identidade linguística, como se língua e cultura - uma generalização de linguagem e pensamento - fossem uma só e a mesma 'coisa', ou processo, ou fenómeno. Portanto, como se o uso de uma língua implicasse o uso de uma cultura exclusiva dela e, no final, a identidade cultural de uma nação dependesse do uso dessa língua ou desse traço cultural, ignorando-se ainda que os processos identitários são dinâmicos.  Desta vez o apontamento occorreu-me ao ler o artigo de Xaverio Ballester, da Universidade de Valência, na revista Elea  (n.º 6, 2004, pp. 107-138), que pode ser lido e transferido aqui . O artigo intitula-se « Hablas Indoeuropeas y Anindoeuropeas en La Hispania Prerromana». Em determinado ponto o autor depara-se com o mesm...

... e, lá fora, os cães deixaram de ladrar?

Pontos de partida A publicação, em Luanda, de uma curta série de relatos de Ras Nguimba Ngola suscitou-me estas reflexões  (Angola, 2014) . O autor ainda não é considerado quando se fala em literatura angolana, mas isso mesmo constitui mais um desafio. Trata-se de um livro despretensioso, que reúne os relatos eróticos da vida de um jovem, desde a sua iniciação até à morte por ciúmes. O impulso erótico vai arrasando conceitos e preconceitos, ultrapassando barreiras, atravessando casais e virgens, panoramas mais e menos morais, mais e menos escondidos. Esse mesmo percurso é o da descoberta de que a moralidade, ou a vida religiosa, são válidas só quando resultam de uma vivência interior e que toda a vivência interior se realiza naturalmente. Gerais A literatura angolana, a exemplo de muitas outras ao redor dela (ou seja: no resto do mundo), é uma literatura feita em rede. Se queremos compreender a específica angolanidade literária e, simultaneamente, a literarieda...

Denis Dutton – autenticidade, antropologia e inquietação estética

.          1. Contextualização mínima . .          2. Definições de autenticidade . .          3. A autenticidade expressiva e a literatura angolana . .          3. Conclusão e retorno . .            1. Contextualização mínima No campo da crítica e da teoria literária, os ensaios e livros de Denis Dutton (1944-2010) tornaram-se fundamentais para um esforço de renovação da leitura e de recuperação do rigor. Ele abordou com determinação e originalidade muitos tabus que o terrorismo acrítico relativista instaurou e outros que, não tendo essa origem, não deixavam de ser tabus sem qualquer fundamento. A originalidade e segurança com que abordou as grandes temáticas da crítica e da teoria literárias no final do século XX, para além das virtudes pessoais, em grande...

O Ngunga de Pepetela e a tradição oral

A narrativa de Pepetela, tipicamente realista, recorre muito às tradições orais, porque é sobre a ruralidade ancestral que busca fundar a angolanidade. Essa interacção da narrativa de Pepetela com as tradições orais, por alguns textos que tenho lido (e reconheço não ter ainda feito uma pesquisa sistemática), não tem sido muito aprofundada ou desenvolvida para além do óbvio, ou seja: do que é óbvio assim que se lê os livros dele.  De acordo com a sabedoria ancestral (e não só bantu ) a nomeação das pessoas é fundadora. Um dos livros de Pepetela mais conhecidos, o mais directamente relacionado com intuitos pedagógicos, é precisamente As aventuras de Ngunga . O que digo a seguir sobre esse nome não deve ser interpretado além do que é: um contributo que precisa de se juntar a mais dados para chegarmos a uma interpretação equilibrada, razoável e compreensiva do que pode implicar para a leitura a escolha do nome 'Ngunga'. Em língua  kimbundu  há um conto, creio que inser...