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O Ngunga de Pepetela e a tradição oral


A narrativa de Pepetela, tipicamente realista, recorre muito às tradições orais, porque é sobre a ruralidade ancestral que busca fundar a angolanidade.

Essa interacção da narrativa de Pepetela com as tradições orais, por alguns textos que tenho lido (e reconheço não ter ainda feito uma pesquisa sistemática), não tem sido muito aprofundada ou desenvolvida para além do óbvio, ou seja: do que é óbvio assim que se lê os livros dele. 

De acordo com a sabedoria ancestral (e não só bantu) a nomeação das pessoas é fundadora. Um dos livros de Pepetela mais conhecidos, o mais directamente relacionado com intuitos pedagógicos, é precisamente As aventuras de Ngunga. O que digo a seguir sobre esse nome não deve ser interpretado além do que é: um contributo que precisa de se juntar a mais dados para chegarmos a uma interpretação equilibrada, razoável e compreensiva do que pode implicar para a leitura a escolha do nome 'Ngunga'.

Em língua kimbundu há um conto, creio que inserido nos Folk-tales of Angola de Chatelain, que resumo em versão momentânea e instantânea: 


A narrativa chama-se Mutembele e Ngunga. Um jovem caçador, que no conto aparece com o nome de Ngunga, caçava com dois cães e um amigo mais velho (Mutembele e Ngunga). Os cães são espelho dos donos. Um deles se chamava Mutembele e o outro Ngunga também. Um belo dia saíram os dois para a caça e o jovem teve bastante sucesso. O seu mais velho ficou roído de inveja, sentiu-se ultrajado pelo sucesso do mais novo. Aviltado, matou Ngunga para retornar à aldeia sem humilhação. 
Porém, quando isso aconteceu, os cães começaram a cantar e o canto era uma denúncia. Por isso o assassino resolveu matá-los também - mas aí sucedeu algo inesperado: mesmo depois de mortos o canto prosseguia, o assassino não deixava de escutá-lo. 
Tornou a matá-los e enterrou-os bem fundo, mas o canto continuava. Duvidando já de si próprio, o caçador mais velho voltou para a sua aldeia.
Uma vez lá chegado perguntaram-lhe pelo seu mais novo. O caçador mentiu, dizendo que ele fôra para a sua terra. Quando acabou de falar, quando ainda os olhos das pessoas interrogavam a mentira dele, surgiram os dois cães com seu libelo acusatório. Os aldeões choraram ao ouvi-los e acusaram o invejoso pela morte do mais novo. 
Como se vê muito facilmente, a função de Ngunga é dupla: 
1) Por um lado é o caçador jovem, dedicado, eficaz, que ultrapassa o seu mestre - como todo o discípulo deverá fazer, sem faltas de respeito, para que a Humanidade avance;
2) Por outro lado é o cão que denuncia a verdade, irredutível na sua missão.

Ao morrer, na estória da tradição, ele pode mudar de nome (na estória de Pepetela) e entrar em todos nós mesmo que nunca saibamos o seu novo nome. 

Porém, como sempre, isto não é tudo. Há muito mais para ver e pensar. Por exemplo o outro nome da narrativa tradicional, o que não foi aproveitado. «Mutembele» é um nome comum no sul de África. No Burundi nomeia uma colina. Na África do Sul, na Tanzânia e no Uganda (pelo menos aí) é um nome de pessoa. Em shona designa uma árvore mediana, cujos frutos são medicinais, usando-se contra a malária, diarreias, vómitos, etc.. Esteja ou não relacionado, mutembele é também uma palavra que aparece em várias línguas bantu associada a Deus, em traduções da Bíblia. 


O nome deve ser separado: «mu» designa geralmente o singular, em muitas línguas bantu. O verbo kutembele (com algumas variações) é usado no Quénia também. A raiz *mbele foi integrada pelo KiSwahili, onde significa 'para a frente'. Ela aparece em muitos nomes, desde pelo menos a Nigéria até à África do Sul, incluindo muitos países da África Oriental e Ocidental. Segundo Capelo e Ivens, "Cu-combela" significa "capinar" e "Cu-ambela" significa "chamar" - estabelecendo-se, portanto, uma metáfora de maior amplitude com a raiz do KiSwahili. 

Reforçando o sentido da raiz, "tembele" ou "tembére", conforme a interpretação gráfica da pronúncia, no Senegal (em Ouolof) significa "ser feito com pressa", ou "rapidamente". Logo, o que fica pronto primeiro que os outros.

O nome está, portanto, muito bem indicado, «Mutembele» é o mais velho, o que vai à frente.  E devia ter - mas no caso não tem - função curativa... 




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