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Mensagens

pombeiro - viagem de uma palavra

No seu relato Como eu atravessei a África  Serpa Pinto escreve: É occasião de falar em Quissongos e Pombeiros. Os carregadores, não só os Bihenos mas sim tôdos em geral, formam grupos pequenos debaixo do commando de um d'elles que é chefe do grupo. Este chefe, desde a costa até a Caquingue chama-se  Quissongo , e no Bihé e Bailundo  Pombeiro .   Qualquer das duas palavras é muito viajada. Falo agora da última, com um percurso transcontinental.  Quando os portugueses chegaram ao Reino do Congo (ou Kongo para a grafia de origem protestante) ouviram referências a um grande mercado situado bem dentro de África e pertencente àquela grande unidade política. Esse mercado chamava-se Pumbo  e até ele iam negociar até comerciantes árabes.  Um antigo administrador colonial dá-nos , em resumo, a localização:   Pumbo, região actual do Congo Belga e cujos limites eram, mais ou menos, os seguintes: a oeste o Zaire, a norte o Cassai, a leste o Cuango e ...

Os bihenos

A formação dos mais diversos povos nas zonas hoje integradas em Angola deu-se cumulativamente por processos de mistura biológica e crioulizações - misturas de costumes de pelo menos dois povos diferentes. Um dos exemplos vem no livro de Serpa Pinto, Como eu atravessei a África . Trata-se de um autor profunda e convictamente racista, acreditando na superioridade dos "brancos" sobre os "pretos". Entretanto se trata igualmente de uma pessoa curiosa, que tenta compreender e conhecer os povos e a sua formação, transcrevendo o que ouve com respeito pelas pessoas que, depois, no trato, considera selvagens. Graças a este paradoxo, o livro tem várias passagens relatando processos de formação de novas nações por crioulização e mestiçagem. Não sei porquê, tanto quanto pude ler não se repara muito nisso.  A formação do povo bieno (do Bié, ou Bihe, ou Vihe) é um destes casos. Ela é típica do que, durante séculos, se passou no nosso território: povos de caçadores cruzam-se c...

Domingos Borges de Barros e José da Silva Maia Ferreira

Domingos Borges de Barros é hoje nome relativamente mal conhecido pelos estudiosos, inteiramente desconhecido para o público lusófono em geral. José da Silva Maia Ferreira é relativamente conhecido pelos estudiosos da literatura angolana e por inteiro desconhecido para o público lusófono em geral. De gerações diferentes eles viveram, no entanto, coincidências biográficas, sobretudo no que diz respeito à ideia de Pátria e ao pioneirismo literário. Domingos Borges de Barros nasce 38 anos antes de Maia Ferreira, é um neoclássico, amigo de Filinto Elíseo, mas a sua poesia já traz traços românticos e o seu amor ao Brasil começa por uma espécie de protonacionalismo, que depois se desenvolverá para o serviço absoluto e indiscutível ao novo país. Maia Ferreira é o primeiro romântico angolano, escrevendo como outros primeiros românticos ainda sob alguma sombra do neoclassicismo (inversões sintácticas sobretudo); ele tem família defendendo a independência de Angola sob proteção do Império...

Paulo, Virgínia, novelas setecentistas, o romantismo e Angola

Geralmente mal consideradas – numa tradição crítica que vinha já do período helénico da cultura mediterrânica – as novelas, desde o século XVIII até bem dentro do Romantismo, desempenharam um papel fundamental no meio literário, cultural, político e social. Em primeiro lugar por serem tão populares. Em segundo lugar porque muitas delas estavam bem escritas, usavam com arte e subtileza os artifícios próprios da narrativa (erudita e popular) e as armas da retórica. Em terceiro lugar porque figuravam e veiculavam ideias e informações que, de outra forma, eram somente conhecidas por uma escassa elite intelectual. Em quarto lugar porque, entre essas ideias, havia ideias políticas avançadas que vieram a explodir e a tentar realizar-se a partir da revolução francesa do fim desse mesmo século XVIII. A novela se autonomizou relativamente aos quadros temporais e sociais, atravessando o século XIX quase imperturbável. Tendo ganho com o Romantismo (simultaneamente com o triunfo da burguesia...