Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Darwin, a poesia e o espírito

O darwinismo tem, naturalmente, aspetos bons e maus. Pelos aspetos maus vai respondendo a sua superação; pelos bons o seu aproveitamento no presente e, quem sabe, no futuro. Um dos aspetos interessantes no darwinismo, para o qual Popper chama a nossa atenção, prende-se com o facto de ele nos fornecer uma visão da evolução, desde os micro-organismos até nós, como uma aplicação do método de tentativa e erro. Um dos aspetos negativos é a mania de querer explicar tudo o que é humano a partir da nossa história evolutiva. Deste aspeto negativo emergiu uma corrente no entanto produtiva, muito oportuna para os estudos literários e artísticos. Ela procura compreender a comunicação artística em função da nossa memória adaptativa, da sobrevivência da espécie e da seleção sexual. Embora o próprio Darwin reconhecesse os limites da aplicação de uma leitura evolutiva à arte, demasiado “caprichosa” para se deduzir das leis da evolução, esta corrente tem-se afirmado e trouxe algum vigor ...

Gadamer, o som e a ciberpoesia

Em Arte e verdade da palavra , Gadamer fala do som como aquilo que fixa a poesia. É outro dos incontornáveis da arte da palavra segundo ele.   Como sabemos, esse debate é já antigo. Para alguns, com evidente exagero, a poesia é só ritmo, ou só som. Para outros ela não precisa de nenhum som para ser o que é. Não se torna necessário citar aqui ninguém: lendo, o leitor encontrará exemplos para todos os gostos.  Gadamer retoma, de certo modo, o tema e é desde logo preciso conceituarmos separadamente «som» e «ritmo». O ritmo, nesta obra de Gadamer, faz parte do que ele chama som - ao contrário do que geralmente costuma conceber-se... Postas em confronto as suas afirmações com a poesia digital - o que é para mim um método cada vez mais certo para testar os postulados teóricos - talvez à ciberpoesia não se possa aplicar exatamente  o que ele diz da relação entre som e obra de arte literária.  Gadamer fala do som como o que fixa e, portanto, o que une e dá coerência...

O todo e a função do todo

Em  Arte y verdad de la palabra  (pp. 38-39 por exemplo) põe Gadamer a tónica na coerência de cada parte com o todo, ou na própria organização de um todo autónomo. Durante muitos anos partilhei desta focalização da obra e do processo, achei sempre que, nas obras e nos processos artísticos, a tónica "na coerência de cada parte com o todo" e a "organização de um todo autónomo" eram fundamentais e, portanto, incontornáveis.  Nos dias de hoje há, porém, uma pergunta que se impõe também. Perante certas obras digitais ainda há «todo»? Parece-me que não. Algumas (por exemplo os poemas que resultam dos motores textuais ) são tão longas que a noção do «todo» se perde, porque não formamos na nossa mente uma imagem desse todo. Aquele conselho prático do teatro grego sobre o tempo máximo que devia demorar cada peça garantia esse efeito básico, o da imagem de conjunto. Mas isso foi ultrapassado na nossa era e não só por motores textuais. A interatividade das obras digita...

Gadamer e o leitor virtual

Num ensaio de 1981 (« A voz e a linguagem »), incluído em  Arte y verdad de la palabra , Hans-Georg Gadamer afirma ser a literatura “verdadeiro escrever que «cria» algo para um leitor com quem já se conta ou para outro a quem há que seduzir” (p. 57). É uma perceção objetiva da realidade comunicacional da arte e de quanto ela condiciona a criatividade (sendo que, neste caso, o condicionamento a potencia). Sem dúvida muito mais interessante do que a ligação que, anteriormente, fizera com o conceito de « leitor ideal » e a armação teórica de Ingarden (p. 32, num texto datado de 1971). Olhando-a a partir do texto, “é a vizinhança, não disto ou daquilo, senão da possibilidade de tudo” que define e distingue a palavra poética – traço que se vê potenciado na ciberliteratura. Há uma íntima relação entre as duas afirmações: por se dirigir a um leitor “a quem há que seduzir” (e por ser esse leitor muito mais vasto e vago do que o de qualquer outro tipo de escritos) o escritor te...

Novíssima poesia peruana

O qualificativo novíssima é velhíssimo. Tirando isso, vale a pena ler esta antologia, que apanha poetas e poetisas nascidos(as) desde 1976 até ao fim dos anos 80.  Nota a reter: a desideologização da poesia em todos os sentidos (fim das escolas poéticas, poesia feminina para além do feminismo, poesia para além da ditadura da militância). Sobretudo, há mesmo bons poemas.  É só carregar na ligação e seguir para a novíssima poesia peruana .  Boa leitura!

Arte e efeito - J. S. Mill

Distinguindo entre Arte e Ciência, em particular as ciências sociais, o famoso economista J. S. Mill deixa uma conclusão no mínimo interessante: "A arte, cujo fim imediato é a prática, não tem relação alguma com as causas exceto enquanto meios de produzir efeitos".  Mas mais interessante ainda é o que diz a seguir:  "Por mais heterogéneas que sejam as causas, a arte conduz os efeitos de todas elas a uma única estimativa; e, dependendo se ela cai acima ou abaixo de uma certa linha, a Arte diz: faça-se isto, ou abstenha-se de fazê-lo."  Estas afirmações quase fecham um texto seu sobre a natureza da ciência económica. Elas foram preparadas por uma nota extensa e muito precisa colocada um pouco antes:  "O princípio de classificação na ciência segue mais convenientemente a classificação das causas , enquanto as artes devem necessariamente ser classificadas de acordo com a classificação dos efeitos , cuja produção é seu fim apropriado."  O econom...

Google, internet e conhecimento

Chad Wellmon, professor-assistente de estudos germânicos na Univ. da Virgínia, publicou na The hedgehog review  um lúcido artigo a propósito das polémicas criadas em torno da Internet e do Google.  A última terá partido de um artigo de N. Carr, intitulado «Is Google making us stupid?: what the internet is doing to our brains?» ( The Atlantic  (July–August 2008): < http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2008/07/is-google-making-us-stupid/6868/ > ).  Chad Wellmon demonstra como tal tipo de questão está mal colocado e não conduz a nada. O mesmo para a visão utópica da Internet e do Google e outros motores de pesquisa e de enciclopédia. O que é mais interessante, porém, no seu artigo é a ligação que ele faz entre o desenvolvimento da Internet, do Google, da Wikipédia e a nossa maneira de lidar com a informação e o conhecimento. A partir de um breve historial ele nos mostra que o excesso de informação e publicação é uma queixa antiga e já inconsequente há...