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Mensagens

Esta é mázinha

"Fora dos corredores e dos claustros do mundo académico, a maior parte das pessoas ficaria absolutamente surpreendida com a ideia de que a intenção do artista pudesse ser controversa" (Denis Dutton – Arte e instinto . Lisboa: Círculo de leitores, 2010. p. 280). Se o que há a dizer, seja sobre o que for, estivesse na posse da "maior parte das pessoas" como na democracia, realmente o mundo académico não fazia falta nenhuma. Mas, nesse mundo, os "corredores" e os "claustros" são precisamente o que há de mais parecido com "a maioria das pessoas"…

Universais da literatura

A questão dos universais vem, pelo menos, desde a filosofia medieval europeia. É ao mesmo tempo natural e estranha, dependendo do ponto de vista: natural porque é natural pensarmos no que temos em comum; estranha porque, se é natural termos 'universais' em comum, não se percebe muito bem porque é que há-de levantar-se alguma questão. Aceitando que há universais estéticos, como defendem Denis Dutton e os estetas evolucionistas por exemplo, sempre há questões a colocar e uma delas é a de quais. Dutton, no livro Arte e instinto já comentado aqui, define 12 – talvez por analogia com os 12 apóstolos… Define-os como "traços característicos encontrados interculturalmente nas artes", mas da lista sobram alguns que não me parecem convincentes para o efeito. Um deles é o da novidade, aliás novidade-criatividade. Segundo o autor, "a arte é valorizada, e apreciada, pela sua novidade, criatividade, originalidade e capacidade para surpreender o seu público". Diria u...

Acabar

As palavras têm história e, por vezes, histórias que nos surpreendem. A sua história e a sua origem, muitas vezes, esclarecem o uso que fazemos delas. Por exemplo do verbo 'acabar'. Os dicionaristas em geral derivam este verbo de cabo , o qual por sua vez se filia no latino caput (v., por ex., o Dic. Aurélio ), portanto cabeça. O chegar ao cabo, ao mesmo tempo seria chegar à cabeça e chegar ao fim. Mas D. Francisco de São Luiz, no Glossário de Vocábulos Portugueses , lembra que o hebraico tinha a forma hhakab , que significava "o que é último, o que é final"; lembra ainda que os árabes diziam el-aqabe para designar o fim. Pode ser mera coincidência histórica, porém uma coincidência que explica a força do verbo na língua portuguesa – se é que não nos aconselha a desconfiar da etimologia latina que lhe é atribuída. As etimologias árabe e hebraica preenchem, de resto, mais plenamente, o sentido de frases como "ao fim e ao cabo", em que o significado da segun...

Arte, sobrevivência e reprodução

  Foi publicado em Portugal, pelo Círculo de leitores , na coleção «Temas & debates», o polémico livro de Denis Dutton Arte e instinto – cuja edição original é de 2009. O livro merece várias considerações mas, de forma geral, podemos começar por dizer que traz uma lufada de ar fresco à teoria literária atual, saturada e arrasada por vagas de relativismos e localismos inconsequentes. Enquanto as vagas relativistas abriram portas a discursos redutores, que substituem o condicionamento a uma filosofia euro-americana de pretensão universal por uma espécie de uma teoria para cada caso, Denis Dutton mostra uma das raízes e causas da universalidade, não só da arte, mas dos julgamentos em arte: a sua inevitável articulação com dois instintos básicos, o de sobrevivência e o de reprodução. Parece-me que passa com alguma superficialidade, com leituras redutoras, sobre a antiga filosofia europeia, particularmente quando fala sobre Platão e Aristóteles (trata da obra de Platão sem atentar à ...

Negritude crioula

  Si l'on se tourne vers les premiers textes de la négritude ou de la francophonie, en commençant par leur légitimation par Sartre peu après la fin de la guerre, on s'aperçoit que les théories postcoloniales sont surtout des théories des contacts, contacts inégaux mais pas de domination simple, et contacts qui annoncent un futur — certes inconnu.   (Nimrod, The University Of Michigan, Ann Arbor, Usa – resumo do artigo L'impossible fondement des théories postcoloniales: le commerce du génie dans une société en devenir. Littérature . n° 154, 2009/2. pp. 67 à 81)   Mário António disse isto (no que diz respeito à negritude), com mais profundidade e alcance, nos anos 70 e princípios de 80. Mas, nessa altura, era proibido – em versão sofisticada: parecia mal.

Semiodiversidade

Sem dúvida que é uma das questões candentes do nosso tempo, a par da biodiversidade a questão da semiodiversidade. É do que falava já Glissant quando nominava o caos-mundo por oposição ao mundo unívoco imposto pelo domínio comercial e tecnológico dos EUA e dos países 'ocidentais'. O problema que se põe é o mesmo que se pôs à desmultiplicação do deconstrucionismo e do pós-estruturalismo. Estes, enquanto sistemas de descondicionamento do discurso filosófico e teórico ocidental (um movimento que se origina no próprio mundo euro-americano e tem que ver com a sua história cultural), foram apropriados por minorias (desses países) que se apropriaram do método para promoverem o descondicionamento de um discurso enquanto caminho para nos levar a condicionarmo-nos por outro (feminismo, discriminação positiva, nativismos, etc). Assim também, muitas pessoas defendem a semiodiversidade (ainda que não recorram ao termo, que não me lembro de ter lido) mas apenas como percurso para depois...

Cintura verde de Benguela finalmente protegida

  Após a contraproducente proibição da manifestação da Omunga, depois emendada com uma autorização, o Governador de Benguela, Armando da Cruz Neto, recupera decisivamente a imagem positiva que vinha deixando. No que diz respeito aos aspetos ecológicos é de destacar a decisão tomada esta semana no sentido de proteger a cintura verde de Benguela. Em torno desta cidade, apesar da paisagem semidesértica, há de facto importantes cinturas verdes, nas margens de rios estivais ou permanentes. Dessas cinturas saem alimentos para toda a zona urbana Lobito-Benguela-Baía-Farta e alguns seguem para outras zonas do país. De há uns anos para cá, porém, vínhamos assistindo à gradual ocupação dos terrenos férteis, em resultado de uma desenfreada especulação imobiliária que iria colocar casas improdutivas (naturalmente) no lugar das hortas que nos alimentam. A situação tornava-se insuportável e os próprios agricultores começaram a ter falta de espaço para cultivar. Finalmente o governo provincial decid...