"Nós somos, Mussunda amigo" - dizia Agostinho Neto ainda antes dos epítetos.
Esta palavra Mussunda sempre me intrigou, creio que por instinto etimológico. Valeu a pena seguir a intriga.
Não é bem porque mussunda pode referir uma localidade no Uíge, cerca de 313 km's de Luanda - mostrando assim como as nossas línguas andam intrincadas.
É porque essa palavra designa um pau. Segundo se informava na velha revista Diogo Cão (n.º 2, série III, a partir da p. 41), na secção dedicada à «Medicina indígena», tal pau
É claro que o poema se refere a uma personagem concreta, refere mesmo uma situação específica ("à mesma dedicação ao mesmo amor com que me salvaste do abraço / da jibóia") mas é claro também que a palavra tem seus provérbios e suas estórias.
A etimologia, particularmente no que diz respeito à função medicinal do 'pau mussunda', enriquece a leitura do poema. Quem a possa desfrutar saberá ligar, por exemplo, o referido episódio pessoal à "contra-peçonha" que nos livra da jibóia: tal como o pau mussunda nos livra da asfixia pelo veneno, o amigo livrara o poeta da asfixia pelo abraço.
Ele pode simbolizar ali a vertente salvífica, a da alegria e da esperança que o poema logo desde o início associa ao amigo: "a firme vitória da tua alegria / e da tua consciência". O simbolismo passará talvez pela consideração da medicina tradicional. Ou pelo menos o leitor pode passar por aí lembrando-se de que o poeta se formara em Medicina. Nesse caso, reforça a conotação entre Mussunda (o amigo), a salvação e a sabedoria local.
Claro que não é tudo o que há a dizer sobre o poema. Dizer tudo fica para leitores mais sábios do que eu. Nem mesmo me interessa muito, enquanto crítico, saber se Neto estava ali a defender a medicina tradicional angolana ou simplesmente uma solução política mais precisa. O que me interessa é, mais uma vez, ver e dar a ver como as referências dos leitores, agregadas por um jogo cauteloso de aproximações aos versos de um poema, vão reforçando a sugestão poética. Nesta medida é que um poema pode conter aquilo que não diz, isso tornando-o sugestivo para além de uma restrita função momentânea.
Se a referência é local podemos chamar-lhe endógena e ver como, ainda olhando para o umbigo, a leitura pode sair enriquecida. Não sendo local a referência será necessária talvez maior cautela, mas o efeito pode ser até superior, o efeito enriquecedor. O processo básico (estruturante para a leitura), melhor, o sistema de funcionamento poético é o mesmo.
Esta palavra Mussunda sempre me intrigou, creio que por instinto etimológico. Valeu a pena seguir a intriga.
Não é bem porque mussunda pode referir uma localidade no Uíge, cerca de 313 km's de Luanda - mostrando assim como as nossas línguas andam intrincadas.
É porque essa palavra designa um pau. Segundo se informava na velha revista Diogo Cão (n.º 2, série III, a partir da p. 41), na secção dedicada à «Medicina indígena», tal pau
"é bom para dores de garganta. Vai-se mastigando para ingerir o sumo dele. É ainda bom para a “esquinência”, mastigando-se também ou em pó dissolvido na água. Serve ainda para “quem estiver empachado do estômago” pois “faz logo vomitar” e por isso também serve de contra-peçonha."
É claro que o poema se refere a uma personagem concreta, refere mesmo uma situação específica ("à mesma dedicação ao mesmo amor com que me salvaste do abraço / da jibóia") mas é claro também que a palavra tem seus provérbios e suas estórias.
A etimologia, particularmente no que diz respeito à função medicinal do 'pau mussunda', enriquece a leitura do poema. Quem a possa desfrutar saberá ligar, por exemplo, o referido episódio pessoal à "contra-peçonha" que nos livra da jibóia: tal como o pau mussunda nos livra da asfixia pelo veneno, o amigo livrara o poeta da asfixia pelo abraço.
Ele pode simbolizar ali a vertente salvífica, a da alegria e da esperança que o poema logo desde o início associa ao amigo: "a firme vitória da tua alegria / e da tua consciência". O simbolismo passará talvez pela consideração da medicina tradicional. Ou pelo menos o leitor pode passar por aí lembrando-se de que o poeta se formara em Medicina. Nesse caso, reforça a conotação entre Mussunda (o amigo), a salvação e a sabedoria local.
Claro que não é tudo o que há a dizer sobre o poema. Dizer tudo fica para leitores mais sábios do que eu. Nem mesmo me interessa muito, enquanto crítico, saber se Neto estava ali a defender a medicina tradicional angolana ou simplesmente uma solução política mais precisa. O que me interessa é, mais uma vez, ver e dar a ver como as referências dos leitores, agregadas por um jogo cauteloso de aproximações aos versos de um poema, vão reforçando a sugestão poética. Nesta medida é que um poema pode conter aquilo que não diz, isso tornando-o sugestivo para além de uma restrita função momentânea.
Se a referência é local podemos chamar-lhe endógena e ver como, ainda olhando para o umbigo, a leitura pode sair enriquecida. Não sendo local a referência será necessária talvez maior cautela, mas o efeito pode ser até superior, o efeito enriquecedor. O processo básico (estruturante para a leitura), melhor, o sistema de funcionamento poético é o mesmo.
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