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Ciência e publicação científica: relações distorcidas


A 21 deste mês o jornal Le figaro dava, num só texto, duas notícias diferentes. Ambas tinham em comum o facto de cientistas protestarem contra grupos editoriais, nomeadamente o gigante holandês Elsevier e o grupo Springer - o segundo maior da divulgação científica em França. No primeiro caso, uma petição que apela ao boicote, iniciada por um matemático britânico, já foi assinada por 6800 pesquisadores do mundo inteiro.

Um dos cientistas resume bem a situação:  
Nous payons pour soumettre un article ; s'il est accepté, nous payons pour le faire publier ; parallèlement nous relisons bénévolement les travaux de nos pairs pour les corriger et les valider avant publication ; enfin nous payons pour y avoir accès. Et le plus fort, c'est que nous abandonnons tous nos droits après publication.

Análise quantitativa: lucros de "1,1 milliard de dollars en 2011" só para Elsevier. 

Este mal-estar não me espanta. Na verdade esperava-o já há alguns anos, porque me apercebi de que o sistema de avaliação que se vinha implantando nas Universidades o sustentava. Lembro-me de, há uns 25 anos, um editor me frisar (eu estava em começo de carreira) que nos ajudava ao publicar as nossas 'coisas', porque nós precisávamos 'disso' para nos promovermos, para sermos avaliados em provas académicas, e depois íamos ganhar mais. 

Hoje esses tempos parecem-me quase inocentes. Para sermos bem avaliados e para os centros de investigação serem financiados precisamos ter material publicado em revistas que as agências de rating científico tenham consagrado. Claro que isso é deixar o ouro na mão do bandido. 

É certo que havia muitos problemas com provas académicas, aproveitadas muitas vezes para vinganças pessoais e quejandos exercícios pouco limpos, nada científicos, de implantação e sustentação de redes de poder pessoal ou ideológico. Mas a solução foi pior: o que passa a valer, além de não ter eliminado nenhuma sujeira anterior (até porque as provas académicas continuam a existir e com as mesmas trapaças), acrescentou a gula dos editores, que viram aí uma fonte segura de lucro fácil. Desta forma, uma parte muito significativa do dinheiro para a investigação vai parar às mãos dos editores e os investigadores trabalham cada vez com menores compensações. 

O pagamento às revistas para que publiquem artigos perverte completamente a seriedade académica. E, no entanto, é uma das bases para avaliar centros de investigação, investigadores e universidades. Os textos que são lidos por colegas sofrem os mesmos riscos que as teses que são avaliadas por colegas; mais dois: o que deriva do anonimato e o que deriva dos interesses combinados de editores e diretores de centros de pesquisa, que tornam ainda mais arbitrária a publicação dos textos. O resultado vê-se, não só por este apelo ao boicote, mas também quando, cada vez mais, a seriedade de vários artigos científicos publicados nessas revistas é posta em causa, ou por plágios, ou porque forçaram resultados e interpretações. 

Não se vislumbrando uma alternativa, é preferível voltarmos ao que estava antes: sermos apenas avaliados por júris, com membros de várias universidades, em painéis de avaliação que discutem, com rigor, os conteúdos dos artigos e não as revistas em que foram publicados. A discussão com os painéis de avaliação pode ser aberta ao público (para que todos possam assistir), desse modo ainda se divulgando mais os verdadeiros debates científicos e inibindo argumentos soezes de quem sabe não será ouvido fora daquela sala fechada. 

O sistema de avaliação do nosso trabalho, tão forçada e apressadamente imposto, demonstrou já ao que nos leva. É preciso termos a coragem, também científica, de retirarmos dessa experiência as conclusões que ela nos impõe. E de aproveitarmos os novos recursos tecnológicos e os novos meios de divulgação para contornarmos ou abandonarmos o mundo viciado dos editores 'tradicionais'. 

PS: saiu no Guardian um artigo sobre a 'primavera académica' e o projeto de serem partilhadas grátis as revistas científicas: leia aqui. Se quiser informar-se sobre a campanha de boicote às revistas que limitam o acesso aos artigos de pesquisa carregue aqui (The Cost of Knowledge).

PS2: cf. ainda «Normal Science and Abnormal Publishing», de Dan Cohen.

PS3: na sequência do incremento da 'primavera académica' deu-se um passo muito importante com a  San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA). Acesse para ler e, caso concorde, assinar. 


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