Adelino Torres: A Poética do Tempo
ou
A poesia de Adelino Torres é um grande contributo
para a literatura lusófona. Ao explorar novas dimensões da experiência
estética, Torres combina sensibilidade com um novo entendimento do espaço
humano: uma poética do tempo como elemento de diagnose social, cultural e
política da contemporaneidade. Este aspecto central da inovação poética de
Torres é o objecto deste artigo.
The poetry of Adelino
Torres is a great achievement in the lusophone literature. By exploring new
dimensions of aesthetic experience, Torres combines sensitivity to a new
intelligence of the human world: a poetics of time as an essential element of social,
cultural and political diagnose of contemporaneity. This central aspect of
Torres’s innovation is the object of this article.
Adelino Torres é membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa,
professor catedrático, africanista, académico inconformado e de persistente
dedicação ao conhecimento científico, em que se fundou a sua longa carreira
académica, laureada em 2009 com o seu terceiro livro de poesia, Histórias do Tempo Volátil, uma obra
prefaciada por Alfredo Margarido e ilustrada na capa por Eleutério Sanches.
Adelino Torres é também poeta, ou, ao invés, poeta primeiro. Angolano,
português, universal, uma identidade múltipla que encontrou no lugar da poesia
uma outra pertença. Seria mutilador não aludir aqui à sua obra científica, que
tanto iluminou a Academia e, por essa razão, transpôs os seus muros. Do seu diverso
e longo itinerário, falemos agora da entrada do poeta na torre literária de
Babel, que não é de marfim, mas sim fadário laborioso dos que no emaranhado dos
sentidos buscam, pelo menos, um Sentido.
Adelino Torres é um poeta ainda pouco trabalhado pela crítica, mas cuja
obra literária, muito oportuna, se afigura fundadora das relações
contemporâneas entre literatura e política, potenciadora de estudos
comparatistas, uma poética “sem medo de existir”, descomprometida, que é
necessário divulgar. O artigo em curso tem como objectivo dar a conhecer uma
literariedade poética consistente e útil, para o acordar de uma nova
consciência das nações no mundo actual.
Assim, no domínio literário, assinalam-se a publicação na Nouvelle Revue Française, do conto «Retour à la Source» (Torres, 1967),
bem como de outros textos em Encontro‑Revista
do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, os poemas integrados na
colectânea de poesia Força Nova[1], publicada em
Luanda em 1961, o volume de poesia, Uma
Fresta no Tempo seguida de Ironias, de 2008, o conjunto poético em apreço, Histórias do Tempo Volátil, e um outro
livro publicado em 2010, intitulado Cantos
do Crepúsculo, prefaciado por José Carlos Venâncio.
Embora exista um longo silêncio
entre Força Nova e Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias,
pois o «poeta bissexto»[2] só retomou
a poesia em 2000, José Carlos Venâncio, ao referir‑se ao percurso literário de
Torres, aponta uma relação de continuidade em todo o conjunto poético:
«A poesia em apreço, contida em dois livros publicados (Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias e Histórias do Tempo Volátil) e num outro em preparação […] deve, deste modo, ser vista na continuidade do que produziu em fins dos anos 50, altura em que terão sido escritos os poemas constantes da antologia Força Nova. Mantêm a mesma relação bipartida entre o cânone, entretanto consolidado, da literatura angolana, e uma literatura mais comprometida com valores de teor universal, que, sendo portuguesa na sua enunciação, não deixa de poder ser também angolana. (Venâncio, 2010: 33‑39)
Uma
Fresta no Tempo seguida de Ironias, de 2008, e Histórias do Tempo
Volátil, de 2009, são obras próximas, não só no tempo de publicação, mas,
sobretudo, na forma como ambas se implicam e completam, através de uma poética
comum: a poética do sonho no tempo da vida humana. Os textos poéticos da
primeira obra acima mencionada são uma frincha que o poeta abre na parede do
tempo presente, de onde espreita um passado que marcou a sua memória com uma
geografia que sempre lhe foi e é muito cara: África. África, identidade da
primeira infância até à idade adulta, a África a que tanto se arreigou, mas que
tanto o desiludiu. Os fanatismos ideológicos que aniquilaram o espaço humano de
África e o levaram à experiência política do exílio, sonho e desilusão que
também vive relativamente à Europa e, particularmente, a Portugal, pois, no
dizer do poeta, a primeira parte deste livro «[…] traduz um estado de espírito
onde se entrechocam esperança e revolta, consciência da finitude e inquietação,
desespero e combate.» (Torres, 2008:7). É esta a dolorosa fresta que também
separa sonho e realidade, configurando‑se, simultaneamente, abertura por onde o
sonho vigia e aguarda ser realidade. A fresta no tempo afigura-se limiar entre
sombra e claridade, passagem para o estado de vigília, ou seja, para o
hemisfério do tempo, o meio privilegiado do sujeito, a via por onde caminhar,
pois dizendo pelas palavras de Maria Zambrano, «O meio do sujeito humano […] é a
temporalidade», e continuando o pensamento da filósofa «Aquilo que é decifrado
entre os sonhos e o tempo é a vida
humana» (Zambrano, 1994: 17,18). Assim, o sonho no tempo de vigília é o lugar
onde o sujeito padece a sua própria transcendência, ou seja, a dor da
passividade, da não‑realidade, por não ter percebido a tempo que a vivência
extraordinária de qualquer «estado nascente»[3] pode
estar apenas imanente em nós, e não naquilo que elegemos como nosso objecto de
Eros. Todavia, é pela forma como os nossos sonhos e paixões implicam os outros,
são esses mágicos encontros que abrem o rasto das vidas que deixam sinal no
tempo. A poesia de Adelino Torres desvela-nos que o tempo não passa por este
sujeito, pelo contrário, este sujeito é um Eu que passa pelo tempo. E passa
pelo tempo, porque marca o tempo, não só com os seus sonhos e paixões, mas
sobretudo com a força da Razão, com o pensamento público aberto à partilha e à
reflexão dos poderes vigentes, disseminados pelo mesmo lado do Atlântico, Norte
e Sul, e com os quais o seu destino e o nosso, em comum, se cruzaram. Na
segunda parte desta segunda obra, o eu poético escarnece do tempo presente e
dos seus agentes, fiando em forma de sátira uma rede poética que se configura
fértil elemento de diagnose social, cultural e política, dos nossos tempos.
A poética do tempo em Torres alarga
a sua geografia semântica a Histórias do
Tempo Volátil. Histórias são narrativas, aqui contadas em poesia, histórias
de vida, memórias, ou o pulsar do ser no seu tempo de vida, um tempo que o
sujeito poético no poema «Passagem» diz ser «[…]volátil como a morte» (Torres,
2009: 77), ou o tempo que trai a vida de quem tem uma missão séria. No poema «O
Ser e o Tempo», o tempo vivível é fogo fátuo, também metaforizado em jaula. Diz
o sujeito poético: «O ser/vive e morre/ dentro da jaula do tempo.//A duração
perseguida/no horizonte do ser//é a essência transitória/do fogo fátuo da
vida[…]» (Torres, 2009: 26). A temática isotópica do tempo continua a percorrer
o rio da escrita de Torres, cuja forte colocação subjectiva também se introduz
como voz de testemunho, instância ilocutória activa que fica para contar,
memória lavrada na escrita, um sujeito enunciador que, da ciência, gera
substância poética em torno dos pares semânticos: utopia/distopia,
ilusão/desilusão, esperança/desencanto. São estes os binómios em se funda a
rede sémica do inconformismo no tempo e com o tempo real, um sentido extensível
a toda a obra, mas que o poema «Conformismo» sintetiza, criticando os que
«fazem muito barulho, sem saberem que já morreram» (Torres, 2009: 43), ou seja,
os conformados.
As dicotomias mencionadas urdem uma
fala poderosa, plurilinguismo na linguagem poética, uma fala que só pode ser
inteiramente entendida em função do lugar (prático, ideológico, teórico, ou
outro) de onde se fala; e ainda em função do facto de se falar sempre em nome
de qualquer coisa (da ciência, da verdade, do bom‑senso, ou de uma determinada
ideologia). A escrita em análise fala do lugar prático da vida e do
conhecimento, em nome de uma verdade existencial esclarecida. Cumpre, assim,
uma função pública fundamental, sendo educativa. É discurso social, cultural,
político e até económico, de um centro que questiona outro centro, são escritos
que visam uma hegemonia, caminhando, de forma salutar, para aquilo que Roland
Barthes designa de «Guerra das Linguagens», o lugar em que a poesia cumpre o
seu papel mais nobre.
A poética em apresentação é uma
poética que elege a vida real, contingente, como seu referente principal,
colocando em avaliação o tempo presente e passado, a vileza humana, o que a
“modernidade tardia”, utilizando a expressão de Anthony Giddens, contém de mais
ameaçador. Esta realidade semiótica sobre a qual se reflecte é uma escrita que
cria instabilidade ao senso comum, feito ideologia dominante, ao saber
vacilante, aos estereótipos do consumismo e da superficialidade da imagem, que
são Narciso ainda apaixonado por si, ou eternizado na ilusória circularidade de
si próprio. Em síntese, é uma escrita que corrobora o império do efémero e a
era do vazio, de que também fala Gilles Lipovetsky e outros críticos da
Modernidade e Pós‑Modernidade.
Dos dis-cursus que este sujeito poético engendra, do que ele corre
dentro da sua cabeça, e desenha com o fio coreográfico da escrita, ganham
relevo figuras discursivas que se agitam em contestação dos poderes
instituídos, siderados no seu exercício político irresponsável, as figuras da
tirania e da liberdade, da ignorância, da futilidade, entre outras. A tirania
de alguns ditadores africanos, tratada no poema «1 – Seres inamovíveis», onde
se lê: «[…]seres inamovíveis/ da autenticidade africana/que afugentou sábios e
matou deuses» (Torres, 2009: 15), levando os africanos fugidos, designados no
título do poema 63 por «migrantes da morte», pela «[…] travessia desesperada do
Mediterrâneo/ e da costa africana para as Canárias/ em precárias embarcações
superlotadas/ de refugiados vindos da pobreza africana;[…]» (Torres, 2009: 94,
95). A mencionada figura da tirania encontra também eco na Europa, particularmente
na caracterização do bispo Williamson, que negou o holocausto judeu, e que o
sujeito poético confronta de forma irónica, na composição 49, intitulada «O
Macaco de Darwin», dedicada a Alfredo Margarido: «[…]De facto, que culpa pode
ele ter/por não saber essas coisas?/É preciso ser-se um ás/ou incarnar nesta
vida/um grande sábio ou doutor/para distinguir um forno a gás/dum modesto
grelhador/ou conhecer a distância/entre um campo de concentração/e um mero
jardim de infância.» (Torres, 2009: 75). Em contraposição, a figura discursiva
da liberdade, desenhada no poema do mesmo nome (Torres, 2009: 30), a futilidade
e a crise de valores, particularmente coreografadas no poema «Novos Valores»
(Torres, 2009: 22), uma espécie de desconcerto do mundo, ao qual, e à escala do
cosmopolitismo global, também a Academia não escapa, conforme a reflexão
prospectiva, consubstanciada na composição poética de título «Academia»
(Torres, 2009: 27).
Se as figuras discursivas, ou cenas
de linguagem, apresentadas por Roland Barthes, em Fragmentos de um Discurso Amoroso (Barthes, s/d), são recortadas na
enunciação do imaginário do sujeito apaixonado em trabalho de linguagem, na
poética de Torres as figuras referidas foram antes isoladas no discurso de um
Eu social, cultural e político, em agitado labor de consciencialização do tempo
real, prática escrita de intervenção, claramente verificável no poema
«Consciência Nacional»:
«Era uma vez um país atrofiado/em espaço e pensamento/que proclamava do mundo uma visão/à escala do seu tamanho/como uma pulga amestrada/empoleirada num cão/convencida que decidia lá do alto/o destino dos homens e o rumo do universo/em cada salto.» (Torres, 2008: 129).
Em conclusão, a bem-aventurança das
figuras literárias em menção é o facto de estas serem signos susceptíveis de
memória no tempo, logo, impedirem a reificação de lugares comuns, que alimentam
o maravilhoso «conto de fadas» da ideologia governante, aquilo a que o poeta
chama de «Olimpo da perfeição» (Torres, 2009: 65). As figuras literárias de
Torres têm a grande utilidade de facultarem, por exemplo, a recordação daquilo
(o holocausto nazi) que o bispo Williamson pareceu esquecer.
Por último, e relevando o facto de
Adelino Torres ser também economista, salienta-se o poema de título «Economismo»,
cujo discurso poético dialoga, de forma profícua, com o discurso científico da
economista Loretta Napoleoni, na obra O
Lado Obscuro da Economia (Napoleoni, 2009), um estudo sobre a aterrorizante economia ilegal, realidades
económicas que o «contentamento dos nossos sábios» não vêem, como também não
viu Marlow, o narrador “superiormente civilizado” de Joseph Conrad, porque,
fazendo vivas as palavras de Torres, «vagueiam no Olimpo da perfeição» (Torres,
2009: 65).
[1] A
colectânea de poesia Força Nova reúne
poemas de 17 estudantes pré‑universitários, entre os quais Adelino Torres, João
Abel, António Jacinto Rodrigues e António José Rodrigues. (Torres, 1961).
[2]
Segundo Alfredo Margarido, a designação de «poeta bissexto» foi inventada por
Manuel Bandeira, da qual se apropriou para se referir à assiduidade variável de
publicação poética de Adelino Torres. (Torres, 2009: 10).
[3] A
expressão de Max Webwer é retomada por Francesco Alberoni, em cuja acepção é
aqui utilizada. (Alberoni, 1990).
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Obra Poética de
Adelino Torres
TORRES, Adelino (Org.) (1961). Força Nova. Luanda:
Neográfica.
-----------------------,
«Retour à la Source». La Nouvelle Revue
Française, (Paris), nº 179, 1967 (Novembro).
----------------------- (2008). Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias. Lisboa: Edições Colibri.
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(2009). Histórias do Tempo Volátil.
Lisboa: Edições Colibri.
----------------------- (2010). Cantos do Crepúsculo. Lisboa: Edições Colibri.
Outras Referências
ALBERONI, Francesco
(1990). Génese. Trad. Maria da Graça
Morais Sarmento. Venda Nova: Bertrand Editora.
BARTHES, Roland (s/d). Fragmentos
de um Discurso Amoroso. Trad. Isabel Gonçalves. Lisboa: Edições 70.
GIDDENS,
Anthony (1995). The Consequences of
Modernity. Great Britain:
Polity Press.
LIPOVETSKY,
Gilles (2005). L’Ère du Vide: Essais sur L’Individualisme
Contemporain. Paris:
Gallimard.
NAPOLEONI, Loreta
(2009). O Lado Obscuro da Economia. Trad.
Catarina Gândara. Lisboa: Editorial Presença.
VENÂNCIO, José Carlos, «O poeta
por detrás do economista. Uma breve incursão pela poesia de Adelino Torres», in ROMÃO, António, FERREIRA, Manuel
Ennes e SILVA, Joaquim Ramos (Orgs.) (2010). Homenagem ao Professor Doutor Adelino Torres. Coimbra: Almedina.
ZAMBRANO, Maria (1994). Os
Sonhos e o Tempo. Trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra. Lisboa: Relógio
D’Água Editores.
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