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Adelino Torres - o poeta: visto por Maria Manuela Araújo


Adelino Torres: A Poética do Tempo 
ou
A Diagnose Poética do Inconformismo


(Prof.ª Maria Manuela Araújo)

A poesia de Adelino Torres é um grande contributo para a literatura lusófona. Ao explorar novas dimensões da experiência estética, Torres combina sensibilidade com um novo entendimento do espaço humano: uma poética do tempo como elemento de diagnose social, cultural e política da contemporaneidade. Este aspecto central da inovação poética de Torres é o objecto deste artigo.

The poetry of Adelino Torres is a great achievement in the lusophone literature. By exploring new dimensions of aesthetic experience, Torres combines sensitivity to a new intelligence of the human world: a poetics of time as an essential element of social, cultural and political diagnose of contemporaneity. This central aspect of Torres’s innovation is the object of this article. 



Adelino Torres é membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, professor catedrático, africanista, académico inconformado e de persistente dedicação ao conhecimento científico, em que se fundou a sua longa carreira académica, laureada em 2009 com o seu terceiro livro de poesia, Histórias do Tempo Volátil, uma obra prefaciada por Alfredo Margarido e ilustrada na capa por Eleutério Sanches. Adelino Torres é também poeta, ou, ao invés, poeta primeiro. Angolano, português, universal, uma identidade múltipla que encontrou no lugar da poesia uma outra pertença. Seria mutilador não aludir aqui à sua obra científica, que tanto iluminou a Academia e, por essa razão, transpôs os seus muros. Do seu diverso e longo itinerário, falemos agora da entrada do poeta na torre literária de Babel, que não é de marfim, mas sim fadário laborioso dos que no emaranhado dos sentidos buscam, pelo menos, um Sentido.

Adelino Torres é um poeta ainda pouco trabalhado pela crítica, mas cuja obra literária, muito oportuna, se afigura fundadora das relações contemporâneas entre literatura e política, potenciadora de estudos comparatistas, uma poética “sem medo de existir”, descomprometida, que é necessário divulgar. O artigo em curso tem como objectivo dar a conhecer uma literariedade poética consistente e útil, para o acordar de uma nova consciência das nações no mundo actual.

Assim, no domínio literário, assinalam-se a publicação na Nouvelle Revue Française, do conto «Retour à la Source» (Torres, 1967), bem como de outros textos em Encontro‑Revista do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, os poemas integrados na colectânea de poesia Força Nova[1], publicada em Luanda em 1961, o volume de poesia, Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias, de 2008, o conjunto poético em apreço, Histórias do Tempo Volátil, e um outro livro publicado em 2010, intitulado Cantos do Crepúsculo, prefaciado por José Carlos Venâncio.
      
      Embora exista um longo silêncio entre Força Nova e Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias, pois o «poeta bissexto»[2] só retomou a poesia em 2000, José Carlos Venâncio, ao referir‑se ao percurso literário de Torres, aponta uma relação de continuidade em todo o conjunto poético:
«A poesia em apreço, contida em dois livros publicados (Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias e Histórias do Tempo Volátil) e num outro em preparação […] deve, deste modo, ser vista na continuidade do que produziu em fins dos anos 50, altura em que terão sido escritos os poemas constantes da antologia Força Nova. Mantêm a mesma relação bipartida entre o cânone, entretanto consolidado, da literatura angolana, e uma literatura mais comprometida com valores de teor universal, que, sendo portuguesa na sua enunciação, não deixa de poder ser também angolana. (Venâncio, 2010: 33‑39)
            Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias, de 2008, e Histórias do Tempo Volátil, de 2009, são obras próximas, não só no tempo de publicação, mas, sobretudo, na forma como ambas se implicam e completam, através de uma poética comum: a poética do sonho no tempo da vida humana. Os textos poéticos da primeira obra acima mencionada são uma frincha que o poeta abre na parede do tempo presente, de onde espreita um passado que marcou a sua memória com uma geografia que sempre lhe foi e é muito cara: África. África, identidade da primeira infância até à idade adulta, a África a que tanto se arreigou, mas que tanto o desiludiu. Os fanatismos ideológicos que aniquilaram o espaço humano de África e o levaram à experiência política do exílio, sonho e desilusão que também vive relativamente à Europa e, particularmente, a Portugal, pois, no dizer do poeta, a primeira parte deste livro «[…] traduz um estado de espírito onde se entrechocam esperança e revolta, consciência da finitude e inquietação, desespero e combate.» (Torres, 2008:7). É esta a dolorosa fresta que também separa sonho e realidade, configurando‑se, simultaneamente, abertura por onde o sonho vigia e aguarda ser realidade. A fresta no tempo afigura-se limiar entre sombra e claridade, passagem para o estado de vigília, ou seja, para o hemisfério do tempo, o meio privilegiado do sujeito, a via por onde caminhar, pois dizendo pelas palavras de Maria Zambrano, «O meio do sujeito humano […] é a temporalidade», e continuando o pensamento da filósofa «Aquilo que é decifrado entre os sonhos e o tempo é a vida humana» (Zambrano, 1994: 17,18). Assim, o sonho no tempo de vigília é o lugar onde o sujeito padece a sua própria transcendência, ou seja, a dor da passividade, da não‑realidade, por não ter percebido a tempo que a vivência extraordinária de qualquer «estado nascente»[3] pode estar apenas imanente em nós, e não naquilo que elegemos como nosso objecto de Eros. Todavia, é pela forma como os nossos sonhos e paixões implicam os outros, são esses mágicos encontros que abrem o rasto das vidas que deixam sinal no tempo. A poesia de Adelino Torres desvela-nos que o tempo não passa por este sujeito, pelo contrário, este sujeito é um Eu que passa pelo tempo. E passa pelo tempo, porque marca o tempo, não só com os seus sonhos e paixões, mas sobretudo com a força da Razão, com o pensamento público aberto à partilha e à reflexão dos poderes vigentes, disseminados pelo mesmo lado do Atlântico, Norte e Sul, e com os quais o seu destino e o nosso, em comum, se cruzaram. Na segunda parte desta segunda obra, o eu poético escarnece do tempo presente e dos seus agentes, fiando em forma de sátira uma rede poética que se configura fértil elemento de diagnose social, cultural e política, dos nossos tempos.

            A poética do tempo em Torres alarga a sua geografia semântica a Histórias do Tempo Volátil. Histórias são narrativas, aqui contadas em poesia, histórias de vida, memórias, ou o pulsar do ser no seu tempo de vida, um tempo que o sujeito poético no poema «Passagem» diz ser «[…]volátil como a morte» (Torres, 2009: 77), ou o tempo que trai a vida de quem tem uma missão séria. No poema «O Ser e o Tempo», o tempo vivível é fogo fátuo, também metaforizado em jaula. Diz o sujeito poético: «O ser/vive e morre/ dentro da jaula do tempo.//A duração perseguida/no horizonte do ser//é a essência transitória/do fogo fátuo da vida[…]» (Torres, 2009: 26). A temática isotópica do tempo continua a percorrer o rio da escrita de Torres, cuja forte colocação subjectiva também se introduz como voz de testemunho, instância ilocutória activa que fica para contar, memória lavrada na escrita, um sujeito enunciador que, da ciência, gera substância poética em torno dos pares semânticos: utopia/distopia, ilusão/desilusão, esperança/desencanto. São estes os binómios em se funda a rede sémica do inconformismo no tempo e com o tempo real, um sentido extensível a toda a obra, mas que o poema «Conformismo» sintetiza, criticando os que «fazem muito barulho, sem saberem que já morreram» (Torres, 2009: 43), ou seja, os conformados.

            As dicotomias mencionadas urdem uma fala poderosa, plurilinguismo na linguagem poética, uma fala que só pode ser inteiramente entendida em função do lugar (prático, ideológico, teórico, ou outro) de onde se fala; e ainda em função do facto de se falar sempre em nome de qualquer coisa (da ciência, da verdade, do bom‑senso, ou de uma determinada ideologia). A escrita em análise fala do lugar prático da vida e do conhecimento, em nome de uma verdade existencial esclarecida. Cumpre, assim, uma função pública fundamental, sendo educativa. É discurso social, cultural, político e até económico, de um centro que questiona outro centro, são escritos que visam uma hegemonia, caminhando, de forma salutar, para aquilo que Roland Barthes designa de «Guerra das Linguagens», o lugar em que a poesia cumpre o seu papel mais nobre.

          A poética em apresentação é uma poética que elege a vida real, contingente, como seu referente principal, colocando em avaliação o tempo presente e passado, a vileza humana, o que a “modernidade tardia”, utilizando a expressão de Anthony Giddens, contém de mais ameaçador. Esta realidade semiótica sobre a qual se reflecte é uma escrita que cria instabilidade ao senso comum, feito ideologia dominante, ao saber vacilante, aos estereótipos do consumismo e da superficialidade da imagem, que são Narciso ainda apaixonado por si, ou eternizado na ilusória circularidade de si próprio. Em síntese, é uma escrita que corrobora o império do efémero e a era do vazio, de que também fala Gilles Lipovetsky e outros críticos da Modernidade e Pós‑Modernidade.

            Dos dis-cursus que este sujeito poético engendra, do que ele corre dentro da sua cabeça, e desenha com o fio coreográfico da escrita, ganham relevo figuras discursivas que se agitam em contestação dos poderes instituídos, siderados no seu exercício político irresponsável, as figuras da tirania e da liberdade, da ignorância, da futilidade, entre outras. A tirania de alguns ditadores africanos, tratada no poema «1 – Seres inamovíveis», onde se lê: «[…]seres inamovíveis/ da autenticidade africana/que afugentou sábios e matou deuses» (Torres, 2009: 15), levando os africanos fugidos, designados no título do poema 63 por «migrantes da morte», pela «[…] travessia desesperada do Mediterrâneo/ e da costa africana para as Canárias/ em precárias embarcações superlotadas/ de refugiados vindos da pobreza africana;[…]» (Torres, 2009: 94, 95). A mencionada figura da tirania encontra também eco na Europa, particularmente na caracterização do bispo Williamson, que negou o holocausto judeu, e que o sujeito poético confronta de forma irónica, na composição 49, intitulada «O Macaco de Darwin», dedicada a Alfredo Margarido: «[…]De facto, que culpa pode ele ter/por não saber essas coisas?/É preciso ser-se um ás/ou incarnar nesta vida/um grande sábio ou doutor/para distinguir um forno a gás/dum modesto grelhador/ou conhecer a distância/entre um campo de concentração/e um mero jardim de infância.» (Torres, 2009: 75). Em contraposição, a figura discursiva da liberdade, desenhada no poema do mesmo nome (Torres, 2009: 30), a futilidade e a crise de valores, particularmente coreografadas no poema «Novos Valores» (Torres, 2009: 22), uma espécie de desconcerto do mundo, ao qual, e à escala do cosmopolitismo global, também a Academia não escapa, conforme a reflexão prospectiva, consubstanciada na composição poética de título «Academia» (Torres, 2009: 27).

            Se as figuras discursivas, ou cenas de linguagem, apresentadas por Roland Barthes, em Fragmentos de um Discurso Amoroso (Barthes, s/d), são recortadas na enunciação do imaginário do sujeito apaixonado em trabalho de linguagem, na poética de Torres as figuras referidas foram antes isoladas no discurso de um Eu social, cultural e político, em agitado labor de consciencialização do tempo real, prática escrita de intervenção, claramente verificável no poema «Consciência Nacional»: 

«Era uma vez um país atrofiado/em espaço e pensamento/que proclamava do mundo uma visão/à escala do seu tamanho/como uma pulga amestrada/empoleirada num cão/convencida que decidia lá do alto/o destino dos homens e o rumo do universo/em cada salto.» (Torres, 2008: 129).

            Em conclusão, a bem-aventurança das figuras literárias em menção é o facto de estas serem signos susceptíveis de memória no tempo, logo, impedirem a reificação de lugares comuns, que alimentam o maravilhoso «conto de fadas» da ideologia governante, aquilo a que o poeta chama de «Olimpo da perfeição» (Torres, 2009: 65). As figuras literárias de Torres têm a grande utilidade de facultarem, por exemplo, a recordação daquilo (o holocausto nazi) que o bispo Williamson pareceu esquecer.

            Por último, e relevando o facto de Adelino Torres ser também economista, salienta-se o poema de título «Economismo», cujo discurso poético dialoga, de forma profícua, com o discurso científico da economista Loretta Napoleoni, na obra O Lado Obscuro da Economia (Napoleoni, 2009), um estudo sobre a aterrorizante economia ilegal, realidades económicas que o «contentamento dos nossos sábios» não vêem, como também não viu Marlow, o narrador “superiormente civilizado” de Joseph Conrad, porque, fazendo vivas as palavras de Torres, «vagueiam no Olimpo da perfeição» (Torres, 2009: 65).


[1] A colectânea de poesia Força Nova reúne poemas de 17 estudantes pré‑universitários, entre os quais Adelino Torres, João Abel, António Jacinto Rodrigues e António José Rodrigues. (Torres, 1961).
[2] Segundo Alfredo Margarido, a designação de «poeta bissexto» foi inventada por Manuel Bandeira, da qual se apropriou para se referir à assiduidade variável de publicação poética de Adelino Torres. (Torres, 2009: 10).
[3] A expressão de Max Webwer é retomada por Francesco Alberoni, em cuja acepção é aqui utilizada. (Alberoni, 1990).

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Obra Poética de Adelino Torres

TORRES, Adelino (Org.) (1961). Força Nova. Luanda: Neográfica.

-----------------------, «Retour à la Source». La Nouvelle Revue Française, (Paris), nº 179, 1967 (Novembro).

----------------------- (2008). Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias. Lisboa: Edições Colibri.

----------------------- (2009). Histórias do Tempo Volátil. Lisboa: Edições Colibri.

----------------------- (2010). Cantos do Crepúsculo. Lisboa: Edições Colibri.


Outras Referências

ALBERONI, Francesco (1990). Génese. Trad. Maria da Graça Morais Sarmento. Venda Nova: Bertrand Editora.

BARTHES, Roland (s/d). Fragmentos de um Discurso Amoroso. Trad. Isabel Gonçalves. Lisboa: Edições 70.

GIDDENS, Anthony (1995). The Consequences of Modernity. Great Britain: Polity Press.

LIPOVETSKY, Gilles (2005). L’Ère du Vide: Essais sur L’Individualisme Contemporain. Paris: Gallimard.

NAPOLEONI, Loreta (2009). O Lado Obscuro da Economia. Trad. Catarina Gândara. Lisboa: Editorial Presença.

VENÂNCIO, José Carlos, «O poeta por detrás do economista. Uma breve incursão pela poesia de Adelino Torres», in ROMÃO, António, FERREIRA, Manuel Ennes e SILVA, Joaquim Ramos (Orgs.) (2010). Homenagem ao Professor Doutor Adelino Torres. Coimbra: Almedina.

ZAMBRANO, Maria (1994). Os Sonhos e o Tempo. Trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra. Lisboa: Relógio D’Água Editores.

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