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Afrikkanitha ainda sonho


Vale a pena ouvir o novo CD desta cantora angolana Ainda sonho.
A cantora melhorou a sua performance (que já era boa), tornou totalmente convincente e universal a interpretação, diversificou mais ainda o leque de escolhas (o que se reflete nos títulos e línguas das letras, na versatilidade estilística e no coletivo de músicos envolvidos), tráficos e influências, numa variedade artística sentida e consciente que a prepara para se apresentar em qualquer palco do mundo jazzístico sem precisar de paternalismos ou críticas benevolentes (e desleixadas). Sente-se que este Ainda sonho é, como a cantora diz, mais uma obra de amor. De um amor que se cultiva, aprofunda, mistura e depura ao mesmo tempo.

É produtiva a comparação do estilo vocal de Afrikanita (que me desculpe: simplifiquei a grafia) com outras cantoras de Jazz da atualidade. Para além de alguns nomes do Jazz brasileiro e da portuguesa Maria João, há profundas similaridades com uma linha interpretativa que escutamos – para falar de gravações recentes – em cantoras como Kathy Sanborn (Blues for breakfast, particularmente na primeira faixa, homónima do álbum).

Entre os músicos estrangeiros destaque para o camaronês Etienne Mbappe (arranjos, baixo, guitarra acústica), um dos melhores baixos da atualidade (aliás, de há uns trinta anos para cá); Julien Agazar (arranjos e piano), músico internacionalmente reconhecido e por justa causa, com uma larga e diversificada experiência de colaboração com artistas como Manu Dibango e outros do circuito internacional do jazz africano, fortemente radicado em Paris; o também camaronês Conti Bilong (drums), que vive em Paris desde 2000 e acompanhou Manu Dibango em várias digressões internacionais (gravou o primeiro álbum, African world, em 2005, com a participação de Etienne Mbappe, Julien Agazar e outros); o excelente etnomusicólogo, compositor, letrista, produtor e saxofonista da Matola (Moçambique) Moreira Chonguiça. Bom, vários outros… de igual merecimento e renome como se diria no século XIX.

Nota menos positiva talvez para as letras. O letrismo nacional não é a componente mais forte do nosso panorama musical e esta música, em particular, merece poemas menos verbosos e redundantes. Ainda assim, o conjunto e a performance da cantora sobem o nível das letras e mantêm o conjunto num grau de qualidade e sabor vivamente recomendável aos ouvidos apurados.

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