Avançar para o conteúdo principal

Portugal não precisava de ajuda externa



É o que dizem alguns analistas a propósito da crise portuguesa. 


Discordo. Precisava, sim. Há muito tempo. Mas não pelo que se diz. 


Parece-me que Portugal tem sido um país crónicamente mal governado. Sendo pobre de recursos naturais só uma boa gestão pode fazê-lo viável. A má gestão contínua, alimentando empresários pouco produtivos, isso é que tornou a ajuda externa incontornável há mais tempo do que 2011. 


Incontornável porque é necessário acabar com a chulice das empresas públicas e das fundações e dos assessores e dos sacos sem fundo e nenhum político português até hoje conseguiu isso. Por um motivo simples: é preciso alimentar as clientelas que dão vitória e quadros aos partidos. As clientelas alimentam-se com empregos e facilidades que só uma rede de grandes empresas públicas e fundações pode sustentar. 


A intervenção do FMI e da UE levará a quebrar essa falsa rede empresarial e a dinamizar a economia do pequeno país. Obrigará os empresários a gerarem dinheiro e a pagarem impostos ao Estado de acordo com o que auferem. Pelo menos são essas algumas das condições anunciadas. E é por aí que Portugal terá de ir. À força, por causa de uma elite política superficial, arrogante, e de um empresariado no mínimo preguiçoso e acomodado (falo em termos gerais, claro) - ou seja, 'acunhado'. 

Não seria mau que Angola acabasse também com as franjas empresariais idênticas que o gigantesco e ineficaz aparelho estatal alimenta artificialmente. 



Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Assis Júnior e o segredo da morta - relações intertextuais e biográficas

Um dos patronos da literatura angolana e defensor acérrimo dos interesses legítimos dos filhos da terra, António de Assis Júnior foi, nesse contexto, hábil advogado. Ele veio na sequência de outros que se destacaram durante o século XIX. Mas é particularmente sugestiva a sua comparação com outro notável fundador da ficção angolana, Pedro Félix Machado. O advogado e poeta de Sorrisos e desalentos publicou uma obra baseada na defesa que fez do comerciante Eduardo Braga (Minuta do Agravo do Despacho de Pronúncia de Eduardo Braga). Braga fora acusado - segundo parece, injustamente - de estar ligado à famosa revolta do ossoma Ndunduma (Bié, 1890), contra as autoridades coloniais. Assis Júnior também nos legou uma obra resultante, em grande parte, da sua atividade como advogado. Envolvido na defesa jurídica dos filhos da terra expoliados, acabou sendo preso e sofrendo, ele próprio, em 1917, as arbitrariedades que denunciava. Deixou-nos um relato de todo o processo, o qual se tornou mais um...