Os bispos angolanos, na mensagem pastoral emitida no final da segunda Assembleia Plenária da Conferência Episcopal de Angola e S.Tomé e Príncipe (CEAST), vieram mais uma vez tomar a posição responsável, equilibrada e lúcida que os tem caracterizado.
Resumidamente, reconhecem que tem havido uma evolução positiva mas que permanecem "sombras" e "ambiguidades" a vários níveis. Por exemplo: na liberdade de imprensa (cita-se, naturalmente, o caso da rádio Eclésia, mas apenas como um dos exemplos), não se verificando na prática disponibilidade para deixar abrir novas rádios – e esse é apenas um dos aspetos (leia-se o artigo de Gustavo Costa no Novo jornal de há 20 dias); na distribuição de riqueza, com as assimetrias gritantes típicas de um regime de capitalismo selvagem; na discriminação social (em que o pobre, com o qual nada distribuímos, é visto cada vez menos como pessoa).
É esta posição de equilíbrio que faz falta à oposição angolana, para quem tudo está errado e o Presidente, claro, é o culpado de tudo. Lembra-me o Partido Comunista Português nos anos 80, quando vim do Brasil para Lisboa: mudava o governo, eles apenas mudavam o nome do primeiro-ministro no cartaz e o resto era igualzinho: abaixo, para a rua, mais alguma frase que agora me escapa – ah!, uma interjeição: já! Retoricamente isso é um desastre e, embora a democracia angolana tenha as suas sombras – católicas no sentido etimológico, ou seja: universais – mesmo em ditadura as estratégias retóricas são fundamentais para as ambições políticas. Se um dirigente ou um partido não conseguem ver nada positivo onde o povo está a sentir algo positivo, perdem credibilidade, criticam o resto mas ninguém os ouve já. Acresce que a maioria dos dirigentes da oposição que tenho ouvido é tão insensível à pobreza e aos argumentos do povo que o seu discurso não cativa os afetos desse mesmo povo. Ora as pessoas do povo, no seu quotidiano, criticam também o poder e convinha que os políticos ouvissem essa crítica para perceberem o alcance da argúcia popular, para verem de onde devem partir e sobre o que incidir, pelo menos num momento inicial.
Os bispos angolanos, com a sólida formação retórica dos seminários, sabem disso tudo. Mas uma boa estratégia retórica, no caso, corresponde a uma disciplina também de lucidez e de isenção. A retórica, sem disciplina interior correspondente, falha. Os grandes oradores da Grécia antiga sabiam disso e uma das críticas mais consistentes aos sofistas partia mesmo daí: se não acreditamos minimamente no que dizemos também não somos convincentes. Quando nos limitamos a repetir uma receita nem sequer reparamos naquilo que dizemos. A postura retórica prudente prende-se, por parte dos bispos, com o 'recado' cultural.
No aspeto cultural os bispos defendem a preservação (o que me parece implicar espiritualização, vivência espiritual – e quotidiana) dos valores universais, cristãos, humanos e tradicionais. Bom, de todos os valores, afinal. E porque não? É justamente por aí que temos de ir realizando sínteses pessoais cada vez mais ousadas. Em Angola e em qualquer outra parte do mundo. Em nome da aplicação desses valores no quotidiano governativo é que um governo pode ser avaliado – num país de maioria cristã mais ainda.
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