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Por falar em diásporas,


um dos mais prolíficos, instigantes e multifacetados escritores portugueses do século XX foi Mário (José) Domingues, anarquista, jornalista, pós-anarquista, romancista, aliado à diáspora negra e a mais não sei quantas dezenas de sonhos coletivos, homem de pensamento migrante e filiações abrangentes.


A sua mãe era angolana, novinha ainda levada para São Tomé para trabalhar nas roças. O seu pai era português, um dos funcionários portugueses da roça. Ele nasceu na ilha do Príncipe (como também Maria Manuela Margarido, mas em 1925), no arquipélago de São Tomé, de onde veio a Portugal um dos principais autores e artistas do seu modernismo, igualmente filho de português e de mãe com origens angolanas (em Benguela): o conhecido pintor e poeta Almada Negreiros, nascido na Trindade a 7..4.1893 e que se formou, como pessoa e como artista, em Portugal (v. resumo biográfico nesta ligação: https://www.arqnet.pt/portal/biografias/almada_negreiros.html). De São Tomé veio para Portugal, ainda, outro nome incontornável neste quadro, um dos ícones do lançamento da literatura 'negro-africana' em Lisboa, junto com o angolano Mário Pinto de Andrade, o poeta e académico Francisco José Tenreiro, nascido em 1921, também neorrealista, modernista e independentista.

Mário Domingues desembarcou neste planeta com o fim do século XIX, a 3.7.1899 (era cerca de 6 anos mais novo que Almada Negreiros). Foi criado em Lisboa desde cedo, pelos avós paternos. Hoje é recordado sobretudo pela sua ligação ao movimento negro mundial e lusófono, à Lisboa africana (onde os sãotomenses tinham papel importante), mas a sua obra é muito mais vasta.

Escreveu romances, incluindo romances de aventuras, assinados com nome inglês e passados em locais tão diferentes quanto "África", o Polo-Norte, os Balcãs, Himalaia e Tibete. Fez muitas traduções, e entrevistas que vale a pena reler e publicar, a par das crónicas, algumas notáveis.

No meio literário conheceu quase todos os protagonistas da profunda renovação mental portuguesa levada a cabo entre 1910 e 1926 (ano do movimento militar do 28 de maio, que trouxe a tal ditadura de quase 50 anos). Entre outros foi amigo de Reinaldo Ferreira, o famoso "Repórter X" (pai do poeta Reinaldo Ferreira, falecido em Lourenço Marques, hoje Maputo). Esteve ligado ao desenvolvimento do romance policial português, quer dirigindo o periódico «O Detetive», quer escrevendo muitos romances policiais.

Para estudar a sua extensíssima obra, particularmente os policiais e romances de aventura, é preciso também levar em conta os pseudónimos. Alinho aqueles que tirei de um curto e bem informado resumo biográfico disponível em linha (http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=9608):

Philip Gray, Henry Dalton, James Black, Marcel Durand, Nelson Mackay, Thomas Birch, William Brown. O último nos recorda a cor da sua pele, James Black nos recorda a sua ligação ao negrismo e aos movimentos do chamado renascimento negro, tanto quanto "Nelson Mackay" (lembremo-nos de Claude McKay).


Compôs biografias populares, famosas, bem organizadas e nas quais o foco incide nas pessoas que habitaram as personagens históricas, vistas humanamente, na sua especificidade e no que têm de comum com qualquer de nós, animais humanos. É assim que nos explica as suas decisões, os atos, as reações que as caracterizaram ao longo da vida. Estaria talvez mais interessado em garantir leitores e não assustar o regime salazarista, que dele desconfiaria se não fossem tais investidas biográficas e históricas. Mas escreveu-as bem, numa linguagem despretensiosa, eficaz, e conseguindo retratos psicológicos que se gravam na memória do leitor sempre que ele escuta os nomes dos biografados. A par disso mas indissociável disso, retratava-os numa grande liberdade que afrontava a construção de heróis modelares estereotipados pela doutrina salazarenta.

Uma das suas biografias é "O marquês de Pombal: o homem e a sua época". Vale a pena ler. Outras figuras da história portuguesa, mesmo sem relação com África ou a diáspora negra ou a escravatura, foram biografadas por ele: o poeta Bocage, Nuno Álvares Pereira ("A vida grandiosa do Condestável : evocação histórica"), os míticos D. Pedro e D. Inês de Castro ("Inês de Castro na vida de D. Pedro"), D. João II, D. Manuel I ("Dom Manuel I e a epopeia dos descobrimentos"), Fernão Mendes Pinto, o aventureiro do Oriente, D. João III (que trouxe a Inquisição para Portugal), D. Maria I, filha do imperador e rei D. Pedro (V em Portugal e I no Brasil), sobre a qual escreveu "Dona Maria I e a sua época : evocação histórica". Para exemplo, pode ler-se atentamente, com atenção às mais ínfimas 'nuances', o excerto reproduzido nesta morada: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores10.aspx?AutorId=9608&ExcertoId=1035&TituloObra=D.%20Manuel%20I%20e%20a%20epopeia%20dos%20descobrimentos

A formação anarco-sindicalista, em grande parte resultando do seu envolvimento, ainda muito novo, com o periódico português «A Batalha», estruturou-lhe de tal forma o pensamento que se percebe, ainda quando subliminar, em quase todas as obras que li dele (cerca de dez, o que é muito pouco), bem como em algumas das entrevistas e possivelmente nos outros géneros que praticou.

Falei de Mário Domingues aqui, mais demoradamente, porque ilustra bem a diferença entre afrodescendentes escritores na diáspora e escritores africanos. Maria Manuela Margarido (Margarido lhe vem pelo casamento com Alfredo Margarido), que também frequentou círculos literários e culturais portugueses (por exemplo próximos da Seara Nova, mas outros ainda) é uma escritora santomense. Mário Domingues é um escritor português. Os afrodescendentes, hoje, reclamam-se de tal e fazem dessa marca a sua diferença no sistema literário em que estão inseridos (no caso em questão, o português). As suas obras interpelam tal sistema e exigem dele reconhecimento, usando esse direito que o sistema literário português lhes reconhece e, por alguns dos seus protagonistas, lhes pede, ou deles espera tal atitude, para se colocar, também nesse aspeto, ao nível das restantes literaturas importantes do eixo literário euro-americano. É com ele que interagem, não com o sistema literário angolano, santomense, outros, aos quais a maioria dos afrodescendentes se ligam de forma distanciada, fria, como quem marca ponto no emprego em razão das funções que exerce, porque também lhes convém verem-se reconhecidos como dali para serem recebidos como africanos na Europa. Claro que os escritores afrodescendentes são diversos. Há vários e várias que se formaram na própria comunidade literária angolana, por exemplo, depois interagindo com a portuguesa, ou qualquer outra não angolana. Há outros e outras que simplesmente se afirmam como escritores e os que, reclamando-se afrodescendentes, não sentem (ou não seguem) a conveniência em se declararem também angolanos, santomenses, etc. Não estou a falar dessas pessoas, mas da maioria dos que se afirmam afrodescendentes (e o são). Como Mário Domingues ou Almada Negreiros (pesem todas as diferenças), formaram-se no meio literário português, é nele que residem (não falo de morada burocrática, registada nas certidões), a ele respondem, articulam-se com ele. A articulação 'africana' é um recurso que permite e legitima a inscrição de uma diferença nesse meio que, por distingui-los assim, lhes reconhece autoridade no gueto que lhes reserva, desde logo por motivos tão superficiais e tão pouco pessoais como o tipo de cabelo ou a cor da pele, que só os preconceitos sociais ativam como pertinentes para definir identidades. São, penso, escritores e escritoras portuguesas e portugueses e falam dos seus problemas como afrodescendentes hoje, no país de acolhimento deles ou de seus pais. Por um lado se podem filiar em Mário Domingues, por outro no gueto global dos escritores "afro-". Mas quando chegam à terra de seus pais e os ouvem ali, por mais beijos e abraços que lhes atirem até ao momento em que regressam ao aeroporto, não os sentem angolanos, ou santomenses, sentem-nos portugueses, lisboetas, afrodescendentes, sim, mas não são vistos como dali, fazendo parte daquela comunidade literária.

Isto, porém, não é específico das literaturas africanas e dos guetos "afro-" da literatura globalizada a partir do eixo euro-americano. Acontece, por exemplo, com escritores ou escritoras que se formaram e se tornaram conhecidos em comunidades literárias de outros países, por exemplo luso-franceses (ou luso-francesas). Mesmo escritores que saíram de Portugal já com personalidade bastante formada e firmada, ao regressarem ao seu país para lançar livros seus (traduzidos) após muitos anos de ausência, confrontam-se com essa dificuldade em serem reconhecidos como portugueses. A reação típica das comunidades literárias locais é essa e, no entanto, reconhecem-se em outros escritores e escritoras que há muitos anos vivem 'fora', no 'estrangeiro'. Mário Domingues também saberia porquê.

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