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Assim que se fala = That's how we talk, ou Uanyenga Xitu o Mendes de Carvalho

 

 

Assim que se fala

That's how we talk

 

 

Francisco Soares

CITCEM, FLUP-UP

 

 

RESUMO

Ensaio sobre o berço familiar e social de Uanhenga Xitu e alguns traços da sua escrita literária em O ministro.

 

ABSTRACT

Essay on Uanhenga Xitu's family and social background and some features of his literary writing in O ministro.

 

 

PALAVRAS-CHAVE

História literária, genologia, estilo, ambaquismo, hibridismo

 

KEY WORDS

Literary history, genology, style, ambaquismo, hybridism

 

 

 

“Ó mano Antonico […] sempre que deixavas panfletos na casa do velho Melvino Baeta […] o velho enchia-se de alegria e chamava pela mulher:

— Ó Gracinha, veja e leia este documento, tão importante, dos filhos da Terra, bem dizia que o indígena despertava do seu sono letárgico. Temos homens, temos homens!”

…

(Xitu, Os sobreviventes, 1980, p. 21)

 

 

“Seguidamente, é transcrita a oração que, na circunstância, diz-se, ter sido proferida pelo saudoso Jerónimo Belo que, com ela, inaugurava a sua série funerária, a mais longa, porventura, a que a sociedade crioula assistiu até ao presente”

(Xitu, O ministro, 1990, p. 65)

 

 

“Na minha família, do lado do meu pai, havia já parentes mais velhos que escreviam – eram uma espécie de escriturários da sanzala”

[…]

“o meu pai também andou na escola em 1904”

[entrevista a Michel Laban (Laban, 1991, pp. 125-126)]

 

 

 

1.  Não se nasce sozinho

 

“Elles [os ambaquistas] revelam esta capacidade como commerciantes, vagueando por toda a Africa central e austral e, como homens de lettras e bom conselho, sendo por toda a parte os secretários dos sobas.”

(Pinto, 1888, p. 128)

 

José Carlos Venâncio, em texto já de 1991, escreveu que “Uanhenga Xitu, o nome kimbundu de Agostinho André Mendes de Carvalho, político e escritor angolano, é membro da sociedade crioula, é um dos seus mais conhecidos políticos e escritores, escrevendo tanto em português como em kimbundu. A sua história de vida revela-nos um percurso curioso […] e o curioso deriva precisamente dessa particularidade” (“ter chegado onde chegou, como político e como escritor”, sendo crioulo – e, mais ainda, crioulo de família rural (Venâncio, 1991, p. 218)).

O enfoque de José Carlos Venâncio me parece claro e lúcido. O próprio Uanhenga Xitu[1], com sua caraterística naturalidade (palavra fundamental para compreendermos o estilo dele), fala dos crioulos angolanos e refere-se à mesma rede familiar e de interesses, extensa, de fronteiras oscilantes.

Quem seriam seus antepassados no quadro humano da Angola colonial? Há notícia deles?

Escavando mais para trás, não precisamos de muito para encontrar um homónimo de Agostinho Mendes de Carvalho e outros membros dessa crioulidade rural, com ligações certas e seguras à cidade de Luanda em vários casos – e ao seu hinterland em todos. Pela portaria 541, publicada no Boletim oficial de Angola (49 [7.12.1889] 834), Agostinho Mendes de Carvalho passa a “Alferes da “1ª Companhia da guerra preta” no concelho de Icolo e Bengo, a par de “Francisco Cristóvão de Assis.” Simão José da Costa, outro nome destacado nas mesmas redes familiares, passava a “Tenente” da “2ª Companhia da guerra preta” no mesmo Concelho. Retenhamos por agora os da “1ª Companhia”.

Os acordos entre sobas e autoridades portuguesas, interpretados embora de forma diferente por cada parte, eram muito precisos no que diz respeito a cargos, nomeações, transferências simbólicas e concretas de ritos e vencimentos. Muitas autoridades tradicionais iam, por essa via, integrar-se com patente na ‘guerra preta’, que tão necessária foi para a colonização, quanto para a sobrevivência dos colonizados no sistema colonial. O soba eleito “para o estado do Bombo”, que prestara “juramento de preito e homenagem” ao rei português a 20.11.1889[2], e sucedera (penso) a “D. Damião Manuel” (Mascarenhas, 2008, p. 116), chamava-se por sua vez, D. Bartolomeu Mendes de Carvalho”, pelo que o alferes Agostinho Mendes de Carvalho devia ser seu parente, resultando a nomeação (por hipótese) das negociações que levaram ao “preito”. Pouco mais tarde, cerca de 1906, o filho da terra João Mendes de Carvalho mostrava ensejo, com Adão Gaspar[3] Domingos, de se matricular na escola da igreja metodista em Luanda. Essa escola era anterior à igreja, que se começou a construir em 1914. Na construção dela Agostinho Pedro Neto (já membro da igreja de Calomboloca) trabalhou com afinco, tornando-se depois cozinheiro na casa do missionário Robert Shields, ao mesmo tempo em que estudava o suficiente para ser enviado, “como pastor e professor na igreja de Calomboloca, a segunda igreja na área de Icolo e Bengo.” (Mascarenhas, 2008, pp. 128-129) Quem eram tais pessoas?

Francisco Cristóvão d’Assis foi nomeado substituto do Juiz ordinário de Icolo e Bengo para 1890. O juiz ordinário se chamava Agostinho José Cordeiro da Mata, nascido no Icolo e Bengo a 9.7.1822, e gerou Joaquim Dias Cordeiro da Mata com Isabel Bernardo Afonso. Tinha mais um ano ou dois que José de Fontes Pereira, nascido em Luanda. Espreitemos com brevidade a sua biografia, porque nos dá sinal da comunidade rural e semiurbana e periurbana também, na qual se forma a pessoa de Uanhenga Xitu a partir, penso, deste sobado, em zona recuada, que falava sofrivelmente português e normalmente quimbundo. Agostinho José Cordeiro da Mata, filho de José Agostinho Cordeiro eleitor em Cassanje, desempenhava em 1850 o papel de escrivão (interino) na mesma Feira de Cassanje. Era esta um posto comercial importante, que permitia negociar com a Lunda (no Leste) e com Luanda (no litoral). Era, por isso também, um entreposto cultural, uma fronteira semiótica viva numa zona crítica onde a autoridade portuguesa há muito penava para se consolidar. Em 1856 Agostinho José estava como “Comandante da 3.ª divisão [da guerra preta] de Icolo e Bengo e como tal cobrador do dízimo da Fazenda Publica. Depois amanuense da secretaria da administração por 10 anos sucessivos”. No ano em que nasceu Joaquim Dias, tornou-se professor de Instrução Primária de Icolo e Bengo, nomeado por Portaria do Governo-geral de 19.9.1857. Em 1861 foi “Escrivão do Julgado de Icolo e Bengo e passou para Vereador da Comissão Municipal”. Em 1863 exerceu, “muitas vezes”, a função de juiz ordinário substituto em Icolo e Bengo – e vimos que o foi em 1890, já muito velho (ou seu homónimo descendente?). Em 1866 exercera como subdelegado interino no mesmo Julgado. Em 1876 fora, por “Portaria n.º 511 de 8 de novembro, nomeado subdelegado do Zenza do Golungo, tendo antes servido de Vereador da Comissão Municipal da Barra do Dande”. No dia 10.11.1877 o nomearam Escrivão da Administração do Concelho de Icolo e Bengo. Dizia-se que sabia “Ler e escrever portug. Somar, diminuir multiplicar e repartir” (Mascarenhas, 2008, pp. 563-564). A comprová-lo, consorciou-se com Isabel Bernardo Afonso, sendo Joaquim Dias o primeiro filho dessa ligação (tinha uma irmã mais velha, filha de Laureana João, chamada Isabel também), que ainda criou mais seis irmãos e dois meios-irmãos. Um dos irmãos era o “alferes de 2.ª linha” Sebastião José Cordeiro da Mata, segundo ainda Mascarenhas, no lugar citado.

Retornemos ao substituto de Agostinho José, Francisco Cristóvão de Assis, nomeado ao mesmo tempo e para o mesmo título (“alferes”, da “1ª Companhia da guerra preta” de Icolo e Bengo), por aí colega e par de Agostinho Mendes de Carvalho. Uma sua neta, Maria Francisco de Assis (filha de Cristóvão Francisco de Assis[4] com Joana António Matias da Silva), foi “consorte de Pedro da Paixão Franco, pais de Pedro da Paixão Franco, o escritor da obra História de uma Traição” (Mascarenhas, 2008, p. 403). Uma sua sobrinha, Maria também, teve como padrinhos Sebastião José da Costa Júnior[5] e Madalena Cordeiro da Mata (Madalena José Cordeiro da Mata, irmã do poeta Joaquim Dias Cordeiro da Mata).

Por este breve apanhado e o que mais lemos em livros ou periódicos, vê-se que as redes familiares interrelacionadas no concelho de Icolo e Bengo se relacionavam também com famílias da capital e de pequenas urbanidades no hinterland. Ao mesmo tempo, mantinham ligações, familiares e outras, às autoridades tradicionais. Vê-se, ainda, que delas saíram as primeiras gerações protonacionalistas, as quais, a par do crescimento da igreja metodista (como recorda José Carlos Venâncio no texto citado (Venâncio, 1991, pp. 219-220)), irão conformar significativamente a personalidade com que Uanhenga Xitu entrou no mundo adulto, junto com José Mendes de Carvalho, primo de Agostinho Neto, o mítico Hoji ya Henda.

A referência à igreja metodista não se relaciona só com a biografia de Uanhenga Xitu, Hoji ya Henda e Agostinho Neto. A sua implantação tornou-a fator de avanço na escrita, publicação e formação dos filhos da terra (Henderson, 1990, pp. 58-66). A partir de 1885, no Dondo instalaram tipografia e as celebrações eram acompanhadas por órgão (facto inédito ali); em “Nhangue-a-Pepe, situada a 80 quilómetros do Dondo”, abriram escola primária, que os pais das crianças pagavam com milho; em Pungo Andongo abriram “escola industrial” e depois avançaram para Malanje (Henderson, 1990, pp. 58-66). Com recuos entre avanços, a sua presença nunca deixou de se fazer sentir em quimbundo.

Ora Agostinho André nascera a 29.8.1924, em Calomboloca, tal como a mãe de Roberto de Almeida, Mariana Pedro Neto, irmã caçula de Agostinho Pedro Neto, natural também de Calomboloca (tanto quanto seu pai Pedro Agostinho). Por sua vez­­ Agostinho Pedro foi pai de António Agostinho Neto, amigo de infância dos Mendes de Carvalho, da mesma igreja metodista, como registaram o próprio Uanhenga Xitu, José Carlos Venâncio e mais ensaístas.

Em 1921-1922 deu-se a conhecida revolta de Catete, unindo famílias da zona, crioulas e não crioulas, remediadas umas e pobres outras, exploradas e reprimidas todas. Na revolta de Catete se envolveu, também, “José de Fontes Pereira (José Abel)”[6], neto do famoso jornalista e protonacionalista homónimo (Mascarenhas, 2008, p. 51)[7], possivelmente por parte de uma filha de José de Fontes Pererira, casada com um português. Agostinho Pedro Neto, por sua vez, além das intensas relações com a igreja metodista[8], registadas por José Carlos Venâncio e Mário António F. de Oliveira, subscrevera, em 1921, protesto contra as autoridades portuguesas, envolvendo-se direta ou indiretamente na revolta, junto com outros nomes salientes da mesma comunidade crioula. O protesto era “contra as autoridades coloniais portuguesas e contra a prática de desterro para São Tomé de todos quantos se negavam ao trabalho forçado de contratado”, segundo São Vicente (Junior, 2017, p. 23), com a temática se relacionando a poesia do filho (Quino, 2019, pp. 166-167).

Seria conveniente, com tempo, fazer o levantamento das leituras disponíveis nesses círculos em que se formou a pessoa do escritor, aliás dos dois escritores amigos.

 

2. Genologias híbridas e saltos em continuum

Mas não pretendo aqui fazer psicologia do desenvolvimento nem história social. O meu único intuito, no ponto prévio, foi o de enquadrar e documentar o que, nesse ambiente, com-formou a literatura angolana, particularmente Uanhenga Xitu, que desempenha na nossa história literária um papel muito próprio.

O seu percurso discursivo se carateriza por uma modernidade híbrida a vários títulos, ou, como diz Ana Lúcia Sá, “a pluralidade discursiva é o registo dominante do autor” (Sá, A ruralidade [...], sd [2010], p. 218). O que mais me surpreende, agrada e melhor compreendo (ou julgo perceber), na escrita publicada de Uanhenga Xitu, se prende com genologia, não com genealogia. Para ser específico e nítido, se prende com a estruturação discursiva das suas obras. E, para ser ainda mais preciso, daquelas obras em que menos marca se nota das estruturas narrativas caraterísticas da genologia europeia, que se foi hibridizando por dentro e explodiu completamente com o modernismo, para sofrer a resiliência necessária ao panorama atual das edições literárias, de novo reduzidas a: “poesia”, “ficção” (“romance”, “novel”, “short stories” – ou seja, “contos”) e teatro. Curiosamente, essas mesmas estruturações discursivas, fragmentárias apesar de narrativas, afastam-se também dos cânones da genologia das oraturas (e não da prática nas oralidades). Eis o que me interessa.

 

Li duas obras em particular: Os sobreviventes da máquina colonial depõem…[9] e, sobretudo, O ministro, na primeira edição, de 1990. Na verdade, o primeiro título funciona como aquela sombra antecipadora que anuncia a chegada de alguém. Em O ministro, a solução discursiva e genológica se realiza mais completa ou mais livre. Ali não se conta uma estória, contam-se estórias, evocam-se pessoas (com suas estórias, que se tornam históricas ainda quando episódicas), misturam-se versos ou provérbios ou ditos, explicam-se contextos, fazem-se reflexões e tudo enrolado numa espiral de vento, poeira, algum lixo que estava no chão, revoluteando no ar com o anúncio da tempestade – afinal a tempestade ainda não veio, mas continua a anunciar-se.

 

Dedicatórias

Começo por observar o que podiam ser paratextos mas, pelo tratamento que lhes dá o autor, integram-se já na própria narrativa enovelada e um tanto lírica, um tanto pessoal, um tanto evocativa, como de certo modo[10] sucede em Manana (Xitu, Manana, 2019, pp. 53-55), onde se prolongam numa secção chamada «Atenção» (Xitu, Manana, 2019, pp. 57-61). Em O ministro dão logo o ‘tom’ para a obra. Não se constrangem na forma sucinta, ou lapidar, que resume as dedicatórias a um nome e, no máximo, uma curta frase íntima, pessoal, abaixo do nome. Cada nome evoca uma estória que o torna presente e por isso fica já contada abaixo, com frases íntimas, pessoais, em mistura, exclamações, evocações. Isso quebra os cânones todos conhecidos, não se faz literatura assim, literatura não é bem isso, etc., etc. Vem da oralidade? Vem, sim. De várias oralidades e mapas até. Mas também não respeita os cânones genológicos da oratura. Vem da falação diária, que é narrativa, discursiva, lúdica, pessoal, evocativa e maldizente. Vem das conversas em torno de um copo, num quintal, em família ou num bar, ou sentado ao lado da quitandeira que hoje se chama só de zungueira. Nessas falações é que se trabalha a oralidade quotidiana, por ela a memória quotidiana, por esta os perfis identitários, as conotações consensuais e as escolhas consequentes. É no cerne vivo do quotidiano que surge e se mantém a fala de Uanhenga Xitu, em quimbundo e português.

Os sobreviventes […] inclui uma secção, depois das introduções, intitulada «Dedicatórias e Memorações». Expressivo o título, que, se ligássemos por hífen os dois substantivos, nos daria a palavra-chave para nomear o tipo que persigo. São, de facto e ao mesmo tempo, dedicatórias e rememorações a propósito dos dedicados.

As dedicatórias-evocações de O ministro tornam-se o lugar privilegiado para um cursivo intuitivo, natural, insubordinado face a todos e quaisquer modelos. E me parece que o praticado ali, com saltos constantes entre contar ou só falar, ou só comentar, evocar, rememorar, é desses saltos que tiramos – os leitores – a matriz que organiza a escrita de Mendes de Carvalho e, sobretudo, dessas “memórias apóstumas” (expressão das poucas que se vão repetindo como um lema, ou refrão, no decurso da obra). Ao longo do livro os capítulos e, dentro dos capítulos, as sequências, vão se fazendo por saltos diegéticos ou de raciocínio em que, apesar disso, o continuum do discurso não apresenta ruturas.

 

Linguagem, oralidade e anúncios em quotidiano

Uma das linhas de pesquisa mais interessantes efetuadas por Mário António incidia sobre a exploração, para a história social, dos anúncios publicados em jornais de Luanda. Uma das famílias extensas e influentes até hoje, no fim do século XIX já constando repetidas vezes o seu sobrenome nos Boletins oficiais, era a família Castelbranco. O mais conhecido para os nossos dias foi Francisco das Necessidades Ribeiro Castelbranco, proeminente nas primeiras publicações dos filhos da terra no século XX, dirigindo o Almanach Ensaios literários logo em 1901. Essa família, com sobrenome Varejão Castelo Branco, ou Castelbranco, foi chegando a Angola e pela colónia se espalhando, a partir de Portugal, ainda no século XVIII. A maioria misturava costumes e genes, outros estavam algum tempo ali regressando ao país natal. Assumiam lugares proeminentes e, na componente portuguesa, provinham de genealogias nobres, espalhadas também para o Brasil-colónia. Ao longo do século XIX, os Castelbranco locais, angolenses, integraram uma vasta rede familiar e de interesses, na qual se incluíam vários nomes que já referi. Um membro dessa família (parece que não o único Nicolau) foi Nicolau das Necessidades Ribeiro Castelbranco[11]. Mário António transcreve um anúncio de 1891, por ele publicado em O mercantil (Oliveira, 1990, p. 459), e vou repetir aqui o principal do conteúdo. A sua linguagem, em anúncio privado num jornal privado, no qual os filhos da terra colaboravam bastante, soltava-se, ficava mais próxima da coloquialidade e nos dava sinais de muito mais do que diretamente veiculava.

Uma breve contextualização para o retrato da personagem. Nicolau Castelbranco exercia interinamente “no lugar de aspirante auxiliar do quadro da direção dos telégrafos e faróis”, por portaria 389 de 6.9.1888. Pediu para ser provido definitivamente e foi, por bom procedimento e aptidão (portaria provincial 455, de 27.9.1889), conforme o Boletim oficial 39 (28.9.1889) 601. Um ano mais tarde, a portaria provincial 504, de 22.9.1890, determinava que, “atendendo à proposta […] do delegado do governo português na região d’além Zenza”[12], passasse Nicolau das Necessidades a exercer ali as funções de “escrivão da administração e de professor de instrução primária”. Para tal, ficava “exonerado do lugar de aspirante auxiliar dos telégrafos, para que fora nomeado por portaria provincial n.º 455 de 17 de setembro de 1889”, conforme o Boletim oficial 39 (27.9.1890) 620. A família tinha interesses e presença no hinterland de Luanda, sobretudo no então Icolo e Bengo, relacionando-se com famílias também elas locais e de Luanda. Foi nesse contexto (nomeação “além Zenza”) que surgiu o anúncio:

 

O abaixo assinado achando-se no concelho dos Dembos como escrivão e professor de instrução primária, roga às pessoas de suas relações e amizade, assim como ás que por qualquer motivo quiserem escrever-lhe, enviem sua correspondência sob o endereço de —Dembos— e não —Zenza do Golungo— : como sob este último endereço o têm feito, desde a reocupação deste concelho; por (como lhe bacoreja), darem credito ás puerilidades de alguns apaixonados que até esta data (imoralidade!), perseveram na absurda opinião de nos acharmos homiziados no concelho do Zenza do Golungo: percebendo salários como funcionários dos Dembos!

«Banza Cipriano, Dembos, 10 de Fevereiro de 1891.»

 

A primeira parte do anúncio é suficientemente formal (até “a reocupação deste concelho”). A segunda é marcadamente informal e nela se filia a discursividade literária de Uanhenga Xitu. Claro que é, também, o equivalente, na época, e portanto notamos diferenças assinaláveis, no léxico sobretudo. Mas as intervenções entre parêntesis marcam bem a semelhança com a linguagem de O ministro, embora não só elas. O uso de palavras que, no contexto frásico, não esperávamos ver, que não teriam tal ‘sentido’, marca também os dois autores. É o caso das “puerilidades de alguns apaixonados”, que mais rapidamente nos fariam pensar em amantes adolescentes mas, apesar disso, não está fora do campo semântico de ‘pueril’ ou de ‘apaixonado’.

Um traço do longo discurso que é O ministro é o do dialogismo textualmente marcado. No anúncio de Nicolau das Necessidades Ribeiro Castelbranco podemos encontrá-lo, pois se dirige também aos “apaixonados”, embora os tratando na terceira pessoa do plural. Reporta-se a boatos, mujimbos, rumores, até makas, e responde a tais rumores. O ministro é, com frequência, por igual uma resposta a múltiplos rumores e da mesma forma, com o mesmo estilo, tranformadas ou trocadas as palavras para 100 anos mais tarde.

Na textualização dialógica[13] não programada, ou minimamente programada, que nos assegura a naturalidade na comunicação literária, outro fenómeno ocorre, de registar. Em Angola, ainda hoje, trata-se pessoas ora na segunda ora na terceira do singular ao mesmo tempo, na mesma frase por vezes e isso prende-se, também, com o sistema de regências nas línguas bantos. Outras vezes isso pode ser usado para testar as reações do interlocutor, em particular os que só falam português. A troca repetida da função enunciativa (o uso de uma ou de outra pessoa gramatical implica numa função dominante diferente) muda o enfoque do locutor, que funciona como a câmara no cinema. A mudança nem sempre implica ter, ou querer, mais ou menos familiaridade com o interlocutor. De repente o foco é menos íntimo, não para marcar desdém ou deferência ou tom cerimonioso. Aquilo que se enuncia é visto na terceira pessoa, por sinal a não-pessoa de que falava Benveniste, por um procedimento narrativo constante na oralidade. Muitas vezes quando estou a falar do meu interlocutor, nomeio-o pela terceira pessoa como se ele fosse um exemplo de uma estória. Posso fazer isso comigo próprio e não é só em Angola. Imaginem que, explicando uma atitude, pronuncio qualquer frase como “uma pessoa nessas alturas não sabe o que faz, um tipo vem, agride o outro, a resposta que lhe vão dar é violenta.” O ‘outro’ coincide, no plano das referências, com o sujeito da enunciação.

Essa constante mudança no plano da enunciação, podemos encontrá-la – e sem aviso na passagem de uma para outra pessoa – na poesia de amor do antigo Egito. Mas podemos encontrá-la também nos mesmos anúncios estudados por Mário António, em coincidência com textos escritos (por exemplo a recensão de Mamede de Santana e Palma a Os Delírios de Cordeiro da Mata). Retornando a Nicolau das Necessidades Ribeiro Castelbranco, ele publica um lamento pungente pela morte de Jorge Van-Dúnem, pessoa muito estimada no meio de onde emerge a personalidade literária e discursiva de Uanhenga Xitu. Nessa nota, escrita em “Catunda, Dembo, 13 de abril de 1891”, nos recorda que o falecido “foi estimado”, que “pertenceu à honrada família”, etc., ou seja, refere-se ao malogrado e jovem pai na terceira pessoa, como quem se dirige a outrem falando de um terceiro (era, de facto, a situação enunciativa). De repente a dominante na enunciação passa pela primeira pessoa e, logo em seguida, fixa-se na segunda:

 

É pungente!

Traço estas linhas com o espírito atribulado pela imensa dor que quasi me asfixia, enquanto tu, ó alma santa, partes, eternamente, para essoutra pátria de nós tão afastada, onde gozarás talvez da presença do Criador.

 

O salto, sem aviso no contínuo correr das letras, é-nos familiar e podemos encontrar exemplos também na literatura renascentista europeia, em livro muito lido em Angola, Os Lusíadas, quando o poeta inicia o seu famoso lamento, no canto X e quase no fim:

 

Entraram pela foz do Tejo ameno,

E à sua pátria e Rei temido e amado

O prémio e glória dão por que mandou,

E com títulos novos se ilustrou.

 

Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

 

E logo em seguida passa Camões a uma enunciação sobretudo na segunda pessoa. Algumas oscilações, ou mudanças, sem aviso, também notamos em muitas crónicas nos periódicos do século XIX, sobretudo no final das crónicas. Mas vemo-las disseminadas em muita literatura, não precisamos gastar mais linhas com isso.

Em Os sobreviventes […], a segunda secção da «Introdução» começa assim: “nós não fazemos literatura, tenho de repetir mais uma vez aos leitores […]” (Xitu, Os sobreviventes, 1980, p. 12). A frase inicia com plural majestático, mas segue na primeira pessoa do singular. O registo majestático serve apenas de abertura e rege, a seu modo, a frase a partir do começo sem que tenha de seguir-se no resto do período ou do parágrafo. O procedimento repete-se no segundo parágrafo da página seguinte. No final da secção o plural majestático revela-se humilde e uma rigorosa primeira pessoa do plural: “somos muitos, não fazemos literatura, apenas apanhamos dados […]”.

Ainda no mesmo livro, entre as «Dedicatórias e memorações» aparece aquela dedicada a um velho companheiro (Kokela [Kabuidiké]), a terceira (Xitu, Os sobreviventes, 1980, p. 18), que inicia nesta enunciação: “deixo aqui apenas duas linhas para o fazer lembrar […]”. “o” (Kokela) pode substituir, ou não, “lhe”: para lhe fazer lembrar. Em caso de não, pode substituir “vos”: para vos fazer lembrar (a personagem, ele). O período seguinte começa por outra situação enunciativa: “nem me esquecerei da finta que aplicaste ao polícia […]”. Em qualquer dos casos, muda o quadro: agora ele-escritor se dirige a “o” (Kokela) na segunda pessoa do singular e tendo-o claramente como interlocutor. 

Em O ministro, surgem principalmente nas dedicatórias, essas oscilações ao correr da pena. Um exemplo notório vem na p. 22. Dirigindo-se “à própria, minha irmã”, num lirismo candente, “anónima, tua sombra me acompanha às terras longínquas, lá longe”, recorda

 

nas horas boas e de tristeza, presente sempre a tua imagem. As recomendações de sempre: cuida de ti e da tua saúde. Quando te sentires cansado, pára […/…] Não vais endireitar Angola sozinho. Nem podes, da maneira como isso está e vai. Hoje, escrevi muito. Senti a cabeça rodar, stress, e a mão a falhar. E pareceu-me ouvir a tua recomendação: Quando te sentires cansado, pára. E parei mesmo, própria.

 

As recomendações dela vão se transcrevendo por períodos breves, cortadas em pontos finais, numa sintaxe próxima da oralidade. Até “como isso está e vai”, domina a segunda pessoa do singular, a típica recorrência dos dramas (tragédias e comédias e colaterais). De repente a voz é já a dele, quiçá falando ainda com “a própria”, mas ele a dirigir-se a ela imaginariamente, no monólogo interior em que estava antes de passarmos à série de recomendações dela para ele. Essa mudança vem sem aviso, como sucede muito em prosa modernista e, para o nosso caso, em Luandino Vieira, nas imitações do fluxo mental consciente ou inconsciente ou oscilante. Claro que, após um primeiro momento de surpresa, percebemos que mudou a situação ou diegese enunciativa, mas foi sem aviso, no deslizar da pena, aliás no mesmo parágrafo.

Quanto ao outro tipo de salto, o da oscilação “você/tu” quando o locutor fala à mesma pessoa, vem com tanta naturalidade na locução das personagens, e é tão frequente, que não precisamos de exemplificar ou transcrever. Entretanto, como também foi comum na comunidade crioula angolense, quando o sujeito enunciativo coincide com o autor é mais rara a oscilação entre as duas pessoas.

 

Esses saltos integram-se num grupo mais abrangente ainda: o das oscilações – sem aviso, com aviso – entre marcas genológicas e tipos discursivos, que já referi. Tanto estaremos a escutar um lamento, quanto nos estará a ser narrado epiisódio ou estória, quanto nos vemos numa espécie de ensaio em tom de conversa. A enunciação e a genologia nunca se fixam. Porquê?

Porque este é um discurso que dá continuidade aos do quotidiano. Recordemos o que disse o autor a Michel Laban quando escrevia O ministro:

 

Eu vou aos musseques onde estou a escrever mesmo o próprio livro e é a mesma linguagem que estou utilizando aqui. Quando a lavadeira ou a senhora que está a vender o peixe diz: «você me dá aquilo…», eu tenho que escrever mesmo isso, não encontro outra forma. Eu dou-lhe o mesmo tom de como ela fala…

 

Se juntarmos, numa cidade angolana, tudo quanto ouvimos ao longo de um dia, se gravarmos tudo e transcrevermos depois na sequência real, o resultado não difere muito do tipo discursivo dominante em O ministro. E é isto, feito com naturalidade, sem programação prévia, é isto que distingue, a meu ver, esse livro, mais do que qualquer dos outros do autor, na bibliografia literária angolana. Dentro da obra, numa secção metaliterária, o autor fala do próprio memorial (Xitu, O ministro, 1990, p. 104):

 

a verdade é que ele representa as “Memórias Apóstumas” do Mendes de Carvalho. Apontei e registei o que o público tem conhecimento no dia-a-dia do meu rico país, quer através dos discursos públicos dos responsáveis e dirigentes, quer o reproduzido pela rádio, jornais, TV, dentro e fora do País, quer os factos e boatos do povo, quer as lamentações, acusações, difamações do público, quer críticas, opiniões do mesmo “ainda” público.

 

Cerca de 20 páginas depois (Xitu, O ministro, 1990, pp. 125-126), alerta para outra fonte importantíssima, “a cabeleireira da Ita”, onde tudo se sabia antecipadamente “com todos os detalhes e pormenorzinhos”, não só de Luanda mas das províncias ainda.

Esse balancear, que lembra os dançarinos, está nos outros livros de Mendes de Carvalho, mas não estrutura o próprio tipo discursivo e narrativo, que tem seu antepassado próximo em Os sobreviventes da máquina colonial depõem…, depois passado a Mungo, para localizar o título[14]. Isso também que nos dá aquela impressão que Uanhenga Xitu relata a Ana Lúcia Sá: “há de tudo um pouco”, por esses saltos (naquele caso falava sobretudo ao nível das referências – igreja, Funda, aldrabice do Felito, namoro). Também assim no quotidiano, na praça ou mercado, na quitandeira ou zungueira, “há de tudo um pouco.”

José Carlos Venâncio, no posfácio às “memórias apóstumas”, distingue três partes – que eu chamaria de três tipos genológicos presentes em O ministro. Uma “dedicada às memórias do político”, outra “que nomearia de ficcionista, está na continuidade de obras romanescas e contistas do autor e, por fim, há que registar uma parte de forte motivação ensaística.” Não são só partes. Há momentos do livro nos quais é clara a dominância de um ou de outro tipo, ou modelo (palavra que hesito em usar, porque geralmente não se contempla com ela um modelo intuitivo, intuído, mas sim um programa de escrita canónico, definido, regrado, em moldes nítidos).

Entre os fragmentos ensaísticos, as “considerações”, não falta “nem a autocrítica, nem tão-pouco a coragem e a acutilância crítica que os angolanos se habituaram a ver em Mendes de Carvalho”. Não faltam. Mas não estão presentes como em Luandino, Manuel Rui, ou Pepetela, mesmo quando a linguagem das suas narrativas aparentemente se aproxima do quotidiano popular. A diferença fica por conta da naturalidade com que se fala em O ministro, da absoluta ausência de programação prévia para aplicação de um modelo pré-estabelecido, universal e anterior, que se aplica no lugar. Não me parece que se trate, no caso de Mendes de Carvalho, de alguém que põe os óculos e decide pegar no bisturi para fazer esse exercício de modelar a linguagem literária pela fala do povo, imitando-a bem. Não é alguém que resolveu escrever assim e aplica o ‘programa’. Aqui parece que essa linguagem surge naturalmente, faz parte da respiração, vem no próprio ritmo com que o autor fala quando nos dirige a palavra de viva voz.

Contribui para tal naturalidade uma recorrência também notada por José Carlos Venâncio no posfácio de O ministro:

 

Neste livro, porém, não é o sujeito da enunciação que episodicamente é afastado da sua função narrativa, mas sim o contrário. É o autor que solicita a presença episódica do sujeito da enunciação […]. E fá-lo com mestria.

 

O sociólogo angolano deixa no ar a hipótese de Uanhenga Xitu aliviar o peso do “texto memorial e ensaístico", no recurso a tal inversão. Parece-me bem visto, mas me parece também que não só. É que o recurso integra o acervo de truques narrativos e discursivos desse continuum linguístico e cognitivo que é a oralidade quotidiana. Em qualquer conversa, de rua ou de roda (ou mesmo de ronda), fazemos isso: falamos nós próprios e depois, pelo meio, fazemos intervir às vezes um sujeito enunciativo que narra um episódio a que nos referimos e nos substitui, metemos em abismo enunciativo outra voz que é a máscara da nossa, para depois ainda refletirmos ou considerarmos... A amplidão, extensão, de O ministro torna o campo de alcance desse truque muito maior. A mudança entre autor e sujeito da enunciação, não desconhecida nem inédita, se inscreve porém no padrão genérico dos saltos genológicos e discursivos, dos tipos de registo, que é o da fala quotidiana e o do discurso de Uanhenga Xitu, só se constituindo modelo na minha receção.

Repare-se no segundo parágrafo do capítulo dedicado ao cónego Manuel das Neves. Termina assim: “atenção, que neste momento sou escritor.” (Xitu, O ministro, 1990, p. 249) Em seguida começa novo parágrafo: “a história é a de que o venerando Cónego Manuel” e conta a história, mas em nome da verdade histórica, não em nome da ficção literária. Não só, aliás, um episódio, conta-nos uma fieira de episódios e sempre no quadro de um registo testemunhal, verdadeiro, não ficcionado. Nesse testemunho ele se preocupa em conhecer e reproduzir a verdade histórica, por exemplo o que teria mesmo dito o cónego em certa ocasião, quais as condições para sabermos o que disse mesmo, esse tipo de considerações. Isso acontece porque a linha que o conduz é a do continuum discursivo e cognitivo, com ‘saltos’ enunciativos mas sem ruturas na fala, as palavras ligando-se umas às outras por reflexão e analogia soltas em continuidade. Na verdade e muitas vezes, falamos como quem apanha fruta.

Continuando ainda com o mesmo exemplo. Depois de saltar para considerações a propósito sobre o racismo, suas possíveis curas e suas talvez inevitáveis consequências, abre nova secção no capítulo e faz o quê? Uma biografia o mais histórica possível de “Monsenhor Manuel Joaquim Mendes das Neves”. Com ela fecha o capítulo do… “escritor”. É este o seu jeito próprio de realizar uma semiose de fronteira, rejeitando, como Felito em Manana, tanto a palavra e a regra colonial, quanto os costumes tradicionais, entre urbano e rural, como sempre realçou Ana Lúcia Sá. No caso de Mendes de Carvalho, jogando com diferentes identificações mas permanecendo na sua identidade fronteiriça e natural, como Felito “estava nos entre-lugares, nas fronteiras entre dois mundos” (Nascimento, 2019, p. 15), “no vai-vém entre a tradição e o desejo de superação” (Sá, Manana pelo olhar de Felito sobre as tradições, 2019), ou a realidade da superação, muito afim daquela que o seu povo realiza todos os dias. Em se referindo propriamente à feitura de O ministro, quando compunha o livro, Mendes de Carvalho afirma: “apenas estou a escrever o que o povo diz neste momento” (Laban, 1991, p. 123). É nessa medida que alcança mais forte sentido outra sua frase, dita em Congresso em São Paulo, em 1983: “eu sou simplesmente o lápis das vozes da gente” (Xitu, Manana, 2019, p. 235), fazendo um “apanhado para os escritores” (Laban, 1991, p. 113).

 

 

Bibliografia

 

Henderson, L. W. (1990). A igreja em Angola: um rio com várias correntes. Lisoba: Além-mar.

Júnior, A. d. (sd). Dicionário Kimbundu-Português [...]. Luanda: Argente, Santos & Cia.

Junior, G. B. (2017). Agostinho Neto e Agostinho da Silva: Exílios, encontros e desencontros entre intelectuais no Atlântico-sul. UnB, História. Brasília: [autor]. Obtido em 28 de jan. de 2024, de http://icts.unb.br/jspui/bitstream/10482/31240/1/2017_GilsonBrand%C3%A3odeOliveiraJunior.pdf

Laban, M. (1991). Angola: Encontro com escritores (Vol. I). Porto: FEAA.

Mascarenhas, F. M. (2008). Memórias de Icolo e Bengo: figuras e famílias. Luanda: Arte viva.

Nascimento, W. S. (2019). Uma história sobre mulheres? Aproximações a Uanhenga Xitu e Manana. Em U. Xitu, & W. S. Nascimento (Ed.), Manana (pp. 13-46). Jundiaí: Paco.

Oliveira, M. A. (1990). Reler África. Coimbra: Universidade de Coimbra - Instituto de Antropologia.

Pinto, F. A. (1888). Angola e Congo. Lisboa: Livraria Ferreira.

Quino, A. F. (2019). Poética engajada: um estudo comparado entre Agostinho Neto e Solano Trindade. Univ. do Minho, Instituto de Letras e Ciências Humanas. Braga: [autor]. Obtido em 28 de jan. de 2024, de https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/65670/1/Antonio%20Francisco%20Mateus%20Quino.pdf

Sá, A. L. (2019). Manana pelo olhar de Felito sobre as tradições. Em U. Xitu, & W. S. Nascimento (Ed.), Manana (pp. 7-11). Jundiaí: Paco.

Sá, A. L. (sd [2010]). A Ruralidade na Narrativa Angolana do Século XX: Elemento de construção da nação. UBI, Sociologia. Covilhã: [autora]. Obtido em 30 de jan. de 2024, de http://www.adelinotorres.info/teses/ana_lucia_de_sa_a_ruralidade_na_narrativa_angolana.pdf

Venâncio, J. C. (out. de 1991). Uanhenga Xitu: o homem, o político, o escritor: uma referência obrigatória para a construção da nação em Angola. Revista crítica de Ciências Sociais(33), pp. 217-227.

Xitu, U. (1980). Os sobreviventes da máquina colonial depõem... Luanda ; Lisboa: UEA ; Ed.70.

Xitu, U. (1990). O ministro. UEA: Luanda.

Xitu, U. (2002). Mungo: os sobreviventes da máquina colonial depõem... Luanda: Nzila.

Xitu, U. (2019). Manana. (W. S. Nascimento, Ed.) Jundiaí: Paco.

 

 

 

 

NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA

Francisco Soares é Investigador do CITCEM (Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória»), Universidade do Porto. Doutorou-se em Literatura Portuguesa pela Universidade de Évora (1997). Interessa-se pela articulação entre História Literária, Teoria Literária, Literatura Angolana, Literaturas em Português e Literatura Comparada – numa perspetiva transdisciplinar, abrangente e holística. Lecionou em universidades de Portugal (Évora), Angola (Luanda, Benguela) e Brasil (Rio Grande). Publicou vários livros acadêmicos nesses países, artigos científicos e conferências.

 

BIO-BIBLIOGRAPHICAL NOTE

Francisco Soares is a Researcher at the CITCEM (Transdisciplinary Research Centre «Culture, Space and Memory»), Porto (Oporto) University. He received his Ph.D. in Portuguese Literature from Évora University (1997). He is interested in the articulation between Literary History, Literary Theory, Angolan Literature, Literatures in Portuguese, and Comparative Literature – from a transdisciplinary, comprehensive, and holistic perspective. He has taught in universities in Portugal (Évora), Angola (Luanda, Benguela), and Brazil (Rio Grande). He has published several academic books in these countries, scientific articles, and conferences.

 

 

 



[1] Nome que significa “o poder é odiado”, segundo Washington Nascimento (Nascimento, 2019, pp. 13, 17) e a própria Fundação Uanhenga Xitu. Segundo Assis Júnior, xitu em quimbundo equivale a “carne”, “polpa”, “corpo”, “matéria (em oposição ao espírito)” (Júnior, sd, p. 377). Uanhenga (u anhenga) vem do verbo kunhénga, “enforcar; estrangular”. Aparece, por exemplo, na expressão “u anhenga o xitu nguma la jimbua” com o sentido de “ter pendente” (Júnior, sd, p. 217).

[2] Boletim oficial 48 (30.11.1889) 812.

[3] Gaspar é sobrenome comum a Uanhenga Xitu, cujo pai se chamava André Gaspar Mendes de Carvalho (Nascimento, 2019, p. 16). O sobrenome viria em homenagem ao avô paterno, Gaspar Domingues Mendes de Carvalho, sendo que também o avô materno o possuía (Miguel Gaspar Fernandes).

[4] Em várias fontes a distribuição dos dois primeiros nomes alterna. Pode querer isso dizer que havia dois, pai e filho.

[5] Deste ramo familiar havia de sair o Sebastião José da Costa cofundador da Liga Nacional Africana e de O Angolense, que foi funcionário dos Correios no Lobito e pai do cantor e compositor Carlos Lamartine (Carlos Lamartine Salvador dos Santos Costa). Como se vê pela referência, esta família se misturou com a de Joaquim Dias Cordeiro da Mata, razão pela qual o jornalista Teófilo José da Costa pertencia aos dois ramos e se dizia aparentado com o poeta do Quanza. O próprio Carlos Lamartine, há muitos anos, me alertou para o parentesco.

[6] “Muene ô Dikota”, segundo o filho (o músico, artífice, dançarino e compositor José Oliveira de Fontes Pereira), transcrito em crónica de Jomo Fortunato. Fundou um grupo famoso de massemba na Vila Clotilde em 1919 e tocava concertina. Morreu a 29.1.1951 em Luanda.

[7] Em 1889, numa carta pungente, sentida e acusatória ao governador geral, Fontes Pereira acusa o seu adjudante de campo de lhe ter morto o único filho. Viriam estes descendentes de alguma filha? É que Fontes Pereira já não era novo e morreu pouco depois, em maio de 1891. O filho falecera ainda moço, não sei se teve tempo de gerar algum neto ou neta.

[8] Foi ordenado presbítero em 1925.

[9] O primeiro título da obra (Xitu, Os sobreviventes, 1980) depois acrescentado para Mungo: os sobreviventes da máquina colonial depõem… (Xitu, Mungo: os sobreviventes, 2002)

[10] De certo modo porque aí não fazem parte da narrativa, pois elas são autobiográficas, ao contrário da estória principal. Entretanto, elas introduzem a linguagem, o ambiente, enfim os cenários e falas de Manana.

[11] “Necessidades” e “Ribeiro” indicam dois ramos da mesma família extensa.

[12] Convém pesquisar em linha os mapas para localizar essa região, articulada com a história das famílias em vista aqui.

[13] Não uso, como se pode ver, a palavra no sentido bakhtiniano propriamente. Com ela designo a estruturação consciente do discurso enquanto peça de um diálogo, jogo de respostas a perguntas antevistas e outras que passaram, quer estejam explícitas, ou não, formando uma sequência, relativamente rápida, de perguntas e respostas, argumentos e contra-argumentos.

[14] Por coincidência, muito próximo dali, nomearam-se váras aldeias, ou sanzalas ou quimbos com nomes tirados da Bíblia e nomes de santos.


Nota final:

Este texto, escrito e entregue em 2024, veio a ser publicado no livro Ecos de Angola : um século de Uanhenga Xitu, publicado em junho de 2026, sob coordenação de Ana Lúcia Sá e Lola Geraldes Xavier, na Generis Publishing, sediada na Roménia. Edição cara, numa editora não prestigiada, mas a que a organização das coordenadoras assegurou 'peer review', ou seja, revisão por pares. 

Apesar de ter participado, em apreço pelas coordenadoras, não me identifico com a divisão do livro entre ensaios "endógenos" e "exógenos", nem percebo porque (levando em conta o que as coordenadoras afirmam na Introdução) não se classificaram os testemunhos pelas mesmas categorias. As palavras "endógeno" e "exógeno" estão fortemente conotadas, em diacronia discursiva que não permite a mera utilização de "endógeno" como escrito dentro e "exógeno" como escrito fora do território hoje angolano. O resumo dos conteúdos dos ensaios "endógenos" aponta aspetos trabalhados nos ensaios "exógenos" e vice-versa, o que não surpreende, nem resolve o problema agora colocado por mim. 

A colocação do ensaio aqui visa disponibilizar a um público mais vasto a minha pesquisa. 

Francisco Soares, Évora, 2.7.2026. 

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