Assim que se fala
That's how we talk
Francisco Soares
CITCEM, FLUP-UP
RESUMO
Ensaio sobre o
berço familiar e social de Uanhenga Xitu e alguns traços da sua escrita
literária em O ministro.
ABSTRACT
Essay on Uanhenga Xitu's family and social background
and some features of his literary writing in O ministro.
PALAVRAS-CHAVE
História
literária, genologia, estilo, ambaquismo, hibridismo
KEY WORDS
Literary history, genology, style, ambaquismo,
hybridism
“Ó mano Antonico […] sempre que deixavas
panfletos na casa do velho Melvino Baeta […] o velho enchia-se de alegria e
chamava pela mulher:
— Ó Gracinha, veja e leia este documento, tão
importante, dos filhos da Terra, bem dizia que o indígena despertava do seu
sono letárgico. Temos homens, temos homens!”
…
“Seguidamente, é transcrita a oração que, na
circunstância, diz-se, ter sido proferida pelo saudoso Jerónimo Belo que, com
ela, inaugurava a sua série funerária, a mais longa, porventura, a que a
sociedade crioula assistiu até ao presente”
“Na minha família, do lado do meu pai, havia já
parentes mais velhos que escreviam – eram uma espécie de escriturários da
sanzala”
[…]
“o meu pai também andou na escola em 1904”
[entrevista a Michel Laban
1. Não
se nasce sozinho
“Elles [os ambaquistas] revelam esta capacidade como commerciantes,
vagueando por toda a Africa central e austral e, como homens de lettras e bom
conselho, sendo por toda a parte os secretários dos sobas.”
José Carlos Venâncio, em texto já de 1991, escreveu que
“Uanhenga Xitu, o nome kimbundu de Agostinho André Mendes de Carvalho, político
e escritor angolano, é membro da sociedade crioula, é um dos seus mais
conhecidos políticos e escritores, escrevendo tanto em português como em
kimbundu. A sua história de vida revela-nos um percurso curioso […] e o curioso
deriva precisamente dessa particularidade” (“ter chegado onde chegou, como
político e como escritor”, sendo crioulo – e, mais ainda, crioulo de família
rural
O enfoque de José Carlos Venâncio me parece claro e lúcido. O
próprio Uanhenga Xitu[1],
com sua caraterística naturalidade (palavra fundamental para compreendermos o
estilo dele), fala dos crioulos angolanos e refere-se à mesma rede familiar e
de interesses, extensa, de fronteiras oscilantes.
Quem seriam seus antepassados no quadro humano da Angola
colonial? Há notícia deles?
Escavando mais para trás, não precisamos de muito para
encontrar um homónimo de Agostinho Mendes de Carvalho e outros membros dessa
crioulidade rural, com ligações certas e seguras à cidade de Luanda em vários
casos – e ao seu hinterland em todos.
Pela portaria 541, publicada no Boletim oficial de Angola (49
[7.12.1889] 834), Agostinho Mendes de Carvalho passa a “Alferes da “1ª
Companhia da guerra preta” no concelho de Icolo e Bengo, a par de “Francisco
Cristóvão de Assis.” Simão José da Costa, outro nome destacado nas mesmas redes
familiares, passava a “Tenente” da “2ª Companhia da guerra preta” no mesmo
Concelho. Retenhamos por agora os da “1ª Companhia”.
Os acordos entre sobas e autoridades portuguesas, interpretados
embora de forma diferente por cada parte, eram muito precisos no que diz
respeito a cargos, nomeações, transferências simbólicas e concretas de ritos e
vencimentos. Muitas autoridades tradicionais iam, por essa via, integrar-se com
patente na ‘guerra preta’, que tão necessária foi para a colonização, quanto
para a sobrevivência dos colonizados no sistema colonial. O soba eleito “para o
estado do Bombo”, que prestara “juramento de preito e homenagem” ao rei
português a 20.11.1889[2],
e sucedera (penso) a “D. Damião Manuel”
Francisco Cristóvão d’Assis foi nomeado substituto do Juiz
ordinário de Icolo e Bengo para 1890. O juiz ordinário se chamava Agostinho
José Cordeiro da Mata, nascido no Icolo e Bengo a 9.7.1822, e gerou Joaquim
Dias Cordeiro da Mata com Isabel Bernardo Afonso. Tinha mais um ano ou dois que
José de Fontes Pereira, nascido em Luanda. Espreitemos com brevidade a sua
biografia, porque nos dá sinal da comunidade rural e semiurbana e periurbana
também, na qual se forma a pessoa de Uanhenga Xitu a partir, penso, deste
sobado, em zona recuada, que falava sofrivelmente português e normalmente
quimbundo. Agostinho José Cordeiro da Mata, filho de José Agostinho Cordeiro
eleitor em Cassanje, desempenhava em 1850 o papel de escrivão (interino) na mesma
Feira de Cassanje. Era esta um posto comercial importante, que permitia
negociar com a Lunda (no Leste) e com Luanda (no litoral). Era, por isso
também, um entreposto cultural, uma fronteira semiótica viva numa zona crítica
onde a autoridade portuguesa há muito penava para se consolidar. Em 1856 Agostinho
José estava como “Comandante da 3.ª divisão [da guerra preta] de Icolo e Bengo
e como tal cobrador do dízimo da Fazenda Publica. Depois amanuense da
secretaria da administração por 10 anos sucessivos”. No ano em que nasceu
Joaquim Dias, tornou-se professor de Instrução Primária de Icolo e Bengo,
nomeado por Portaria do Governo-geral de 19.9.1857. Em 1861 foi “Escrivão do Julgado
de Icolo e Bengo e passou para Vereador da Comissão Municipal”. Em 1863
exerceu, “muitas vezes”, a função de juiz ordinário substituto em Icolo e Bengo
– e vimos que o foi em 1890, já muito velho (ou seu homónimo descendente?). Em
1866 exercera como subdelegado interino no mesmo Julgado. Em 1876 fora, por
“Portaria n.º 511 de 8 de novembro, nomeado subdelegado do Zenza do Golungo,
tendo antes servido de Vereador da Comissão Municipal da Barra do Dande”. No
dia 10.11.1877 o nomearam Escrivão da Administração do Concelho de Icolo e
Bengo. Dizia-se que sabia “Ler e escrever portug. Somar, diminuir multiplicar e
repartir”
Retornemos ao substituto de Agostinho José, Francisco Cristóvão
de Assis, nomeado ao mesmo tempo e para o mesmo título (“alferes”, da “1ª
Companhia da guerra preta” de Icolo e Bengo), por aí colega e par de Agostinho
Mendes de Carvalho. Uma sua neta, Maria Francisco de Assis (filha de Cristóvão
Francisco de Assis[4] com
Joana António Matias da Silva), foi “consorte de Pedro da Paixão Franco, pais
de Pedro da Paixão Franco, o escritor da obra História de uma Traição”
Por este breve apanhado e o que mais lemos em livros ou
periódicos, vê-se que as redes familiares interrelacionadas no concelho de
Icolo e Bengo se relacionavam também com famílias da capital e de pequenas urbanidades
no hinterland. Ao mesmo tempo, mantinham ligações, familiares e outras, às
autoridades tradicionais. Vê-se, ainda, que delas saíram as primeiras gerações
protonacionalistas, as quais, a par do crescimento da igreja metodista (como
recorda José Carlos Venâncio no texto citado
A referência à igreja metodista não se relaciona só com a
biografia de Uanhenga Xitu, Hoji ya Henda e Agostinho Neto. A sua implantação
tornou-a fator de avanço na escrita, publicação e formação dos filhos da terra
Ora Agostinho André nascera a 29.8.1924, em Calomboloca, tal
como a mãe de Roberto
de Almeida, Mariana Pedro Neto, irmã caçula de Agostinho Pedro Neto,
natural também de Calomboloca (tanto quanto seu pai Pedro Agostinho). Por sua
vez Agostinho Pedro foi pai de António Agostinho Neto, amigo de infância dos
Mendes de Carvalho, da mesma igreja metodista, como registaram o próprio
Uanhenga Xitu, José Carlos Venâncio e mais ensaístas.
Em 1921-1922 deu-se a conhecida revolta de Catete, unindo
famílias da zona, crioulas e não crioulas, remediadas umas e pobres outras,
exploradas e reprimidas todas. Na revolta de Catete se envolveu, também, “José
de Fontes Pereira (José Abel)”[6],
neto do famoso jornalista e protonacionalista homónimo
Seria conveniente, com tempo, fazer o levantamento das leituras
disponíveis nesses círculos em que se formou a pessoa do escritor, aliás dos
dois escritores amigos.
2. Genologias híbridas e saltos em continuum
Mas não pretendo aqui fazer psicologia do desenvolvimento nem
história social. O meu único intuito, no ponto prévio, foi o de enquadrar e
documentar o que, nesse ambiente, com-formou a literatura angolana,
particularmente Uanhenga Xitu, que desempenha na nossa história literária um
papel muito próprio.
O seu percurso discursivo se carateriza por uma modernidade
híbrida a vários títulos, ou, como diz Ana Lúcia Sá, “a pluralidade discursiva
é o registo dominante do autor”
Li duas obras em particular: Os sobreviventes da máquina
colonial depõem…[9]
e, sobretudo, O ministro, na primeira edição, de 1990. Na verdade, o
primeiro título funciona como aquela sombra antecipadora que anuncia a chegada
de alguém. Em O ministro, a solução discursiva e genológica se realiza
mais completa ou mais livre. Ali não se conta uma estória, contam-se estórias,
evocam-se pessoas (com suas estórias, que se tornam históricas ainda quando
episódicas), misturam-se versos ou provérbios ou ditos, explicam-se contextos,
fazem-se reflexões e tudo enrolado numa espiral de vento, poeira, algum lixo
que estava no chão, revoluteando no ar com o anúncio da tempestade – afinal a
tempestade ainda não veio, mas continua a anunciar-se.
Dedicatórias
Começo por observar o que podiam ser paratextos mas, pelo
tratamento que lhes dá o autor, integram-se já na própria narrativa enovelada e
um tanto lírica, um tanto pessoal, um tanto evocativa, como de certo modo[10]
sucede em Manana
Os sobreviventes […] inclui uma secção, depois das
introduções, intitulada «Dedicatórias e Memorações». Expressivo o título, que,
se ligássemos por hífen os dois substantivos, nos daria a palavra-chave para
nomear o tipo que persigo. São, de facto e ao mesmo tempo, dedicatórias e
rememorações a propósito dos dedicados.
As dedicatórias-evocações de O ministro tornam-se o
lugar privilegiado para um cursivo intuitivo, natural, insubordinado face a
todos e quaisquer modelos. E me parece que o praticado ali, com saltos
constantes entre contar ou só falar, ou só comentar, evocar, rememorar, é
desses saltos que tiramos – os leitores – a matriz que organiza a escrita
de Mendes de Carvalho e, sobretudo, dessas “memórias apóstumas” (expressão das
poucas que se vão repetindo como um lema, ou refrão, no decurso da obra). Ao
longo do livro os capítulos e, dentro dos capítulos, as sequências, vão se
fazendo por saltos diegéticos ou de raciocínio em que, apesar disso, o continuum
do discurso não apresenta ruturas.
Linguagem, oralidade e anúncios em quotidiano
Uma das linhas de pesquisa mais interessantes efetuadas por
Mário António incidia sobre a exploração, para a história social, dos anúncios
publicados em jornais de Luanda. Uma das famílias extensas e influentes até
hoje, no fim do século XIX já constando repetidas vezes o seu sobrenome nos Boletins
oficiais, era a família Castelbranco. O mais conhecido para os nossos dias
foi Francisco das Necessidades Ribeiro Castelbranco, proeminente nas primeiras
publicações dos filhos da terra no século XX, dirigindo o Almanach Ensaios
literários logo em 1901. Essa família, com sobrenome Varejão Castelo
Branco, ou Castelbranco, foi chegando a Angola e pela colónia se espalhando, a
partir de Portugal, ainda no século XVIII. A maioria misturava costumes e
genes, outros estavam algum tempo ali regressando ao país natal. Assumiam lugares
proeminentes e, na componente portuguesa, provinham de genealogias nobres,
espalhadas também para o Brasil-colónia. Ao longo do século XIX, os
Castelbranco locais, angolenses, integraram uma vasta rede familiar e de
interesses, na qual se incluíam vários nomes que já referi. Um membro dessa
família (parece que não o único Nicolau) foi Nicolau das Necessidades Ribeiro
Castelbranco[11].
Mário António transcreve um anúncio de 1891, por ele publicado em O
mercantil
Uma breve contextualização para o retrato da personagem. Nicolau
Castelbranco exercia interinamente “no lugar de aspirante auxiliar do quadro da
direção dos telégrafos e faróis”, por portaria 389 de 6.9.1888. Pediu para ser
provido definitivamente e foi, por bom procedimento e aptidão (portaria
provincial 455, de 27.9.1889), conforme o Boletim oficial 39 (28.9.1889)
601. Um ano mais tarde, a portaria provincial 504, de 22.9.1890, determinava
que, “atendendo à proposta […] do delegado do governo português na região
d’além Zenza”[12],
passasse Nicolau das Necessidades a exercer ali as funções de “escrivão da
administração e de professor de instrução primária”. Para tal, ficava
“exonerado do lugar de aspirante auxiliar dos telégrafos, para que fora nomeado
por portaria provincial n.º 455 de 17 de setembro de 1889”, conforme o Boletim
oficial 39 (27.9.1890) 620. A família tinha interesses e presença no hinterland
de Luanda, sobretudo no então Icolo e Bengo, relacionando-se com famílias
também elas locais e de Luanda. Foi nesse contexto (nomeação “além Zenza”) que
surgiu o anúncio:
O abaixo assinado achando-se no concelho dos Dembos como
escrivão e professor de instrução primária, roga às pessoas de suas relações e
amizade, assim como ás que por qualquer motivo quiserem escrever-lhe, enviem
sua correspondência sob o endereço de —Dembos— e não —Zenza do Golungo— : como
sob este último endereço o têm feito, desde a reocupação deste concelho; por
(como lhe bacoreja), darem credito ás puerilidades de alguns apaixonados que
até esta data (imoralidade!), perseveram na absurda opinião de nos acharmos
homiziados no concelho do Zenza do Golungo: percebendo salários como
funcionários dos Dembos!
«Banza Cipriano, Dembos, 10 de Fevereiro de 1891.»
A primeira parte do anúncio é suficientemente formal (até “a
reocupação deste concelho”). A segunda é marcadamente informal e nela se filia
a discursividade literária de Uanhenga Xitu. Claro que é, também, o
equivalente, na época, e portanto notamos diferenças assinaláveis, no léxico
sobretudo. Mas as intervenções entre parêntesis marcam bem a semelhança com a
linguagem de O ministro, embora não só elas. O uso de palavras que, no
contexto frásico, não esperávamos ver, que não teriam tal ‘sentido’, marca
também os dois autores. É o caso das “puerilidades de alguns apaixonados”, que
mais rapidamente nos fariam pensar em amantes adolescentes mas, apesar disso,
não está fora do campo semântico de ‘pueril’ ou de ‘apaixonado’.
Um traço do longo discurso que é O ministro é o do
dialogismo textualmente marcado. No anúncio de Nicolau das Necessidades Ribeiro
Castelbranco podemos encontrá-lo, pois se dirige também aos “apaixonados”,
embora os tratando na terceira pessoa do plural. Reporta-se a boatos, mujimbos,
rumores, até makas, e responde a tais rumores. O ministro é, com
frequência, por igual uma resposta a múltiplos rumores e da mesma forma, com o
mesmo estilo, tranformadas ou trocadas as palavras para 100 anos mais tarde.
Na textualização dialógica[13]
não programada, ou minimamente programada, que nos assegura a naturalidade na
comunicação literária, outro fenómeno ocorre, de registar. Em Angola, ainda
hoje, trata-se pessoas ora na segunda ora na terceira do singular ao mesmo
tempo, na mesma frase por vezes e isso prende-se, também, com o sistema de
regências nas línguas bantos. Outras vezes isso pode ser usado para testar as
reações do interlocutor, em particular os que só falam português. A troca
repetida da função enunciativa (o uso de uma ou de outra pessoa gramatical implica
numa função dominante diferente) muda o enfoque do locutor, que funciona como a
câmara no cinema. A mudança nem sempre implica ter, ou querer, mais ou menos
familiaridade com o interlocutor. De repente o foco é menos íntimo, não para
marcar desdém ou deferência ou tom cerimonioso. Aquilo que se enuncia é visto
na terceira pessoa, por sinal a não-pessoa de que falava Benveniste, por um
procedimento narrativo constante na oralidade. Muitas vezes quando estou a
falar do meu interlocutor, nomeio-o pela terceira pessoa como se ele fosse um
exemplo de uma estória. Posso fazer isso comigo próprio e não é só em Angola.
Imaginem que, explicando uma atitude, pronuncio qualquer frase como “uma pessoa
nessas alturas não sabe o que faz, um tipo vem, agride o outro, a resposta que
lhe vão dar é violenta.” O ‘outro’ coincide, no plano das referências, com o
sujeito da enunciação.
Essa constante mudança no plano da enunciação, podemos
encontrá-la – e sem aviso na passagem de uma para outra pessoa – na poesia de
amor do antigo Egito. Mas podemos encontrá-la também nos mesmos anúncios
estudados por Mário António, em coincidência com textos escritos (por exemplo a
recensão de Mamede de Santana e Palma a Os Delírios de Cordeiro da
Mata). Retornando a Nicolau das Necessidades Ribeiro Castelbranco, ele publica
um lamento pungente pela morte de Jorge Van-Dúnem, pessoa muito estimada no
meio de onde emerge a personalidade literária e discursiva de Uanhenga Xitu.
Nessa nota, escrita em “Catunda, Dembo, 13 de abril de 1891”, nos recorda que o
falecido “foi estimado”, que “pertenceu à honrada família”, etc., ou seja,
refere-se ao malogrado e jovem pai na terceira pessoa, como quem se dirige a
outrem falando de um terceiro (era, de facto, a situação enunciativa). De
repente a dominante na enunciação passa pela primeira pessoa e, logo em
seguida, fixa-se na segunda:
É pungente!
Traço estas linhas com o espírito atribulado pela imensa dor
que quasi me asfixia, enquanto tu, ó alma santa, partes, eternamente, para
essoutra pátria de nós tão afastada, onde gozarás talvez da presença do
Criador.
O salto, sem aviso no contínuo correr das letras, é-nos
familiar e podemos encontrar exemplos também na literatura renascentista
europeia, em livro muito lido em Angola, Os Lusíadas, quando o poeta
inicia o seu famoso lamento, no canto X e quase no fim:
Entraram pela foz do Tejo ameno,
E à sua pátria e Rei temido e amado
O prémio e glória dão por que mandou,
E com títulos novos se ilustrou.
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
E logo em seguida passa Camões a uma enunciação sobretudo na
segunda pessoa. Algumas oscilações, ou mudanças, sem aviso, também notamos em
muitas crónicas nos periódicos do século XIX, sobretudo no final das crónicas.
Mas vemo-las disseminadas em muita literatura, não precisamos gastar mais
linhas com isso.
Em Os sobreviventes […], a segunda secção da
«Introdução» começa assim: “nós não fazemos literatura, tenho de repetir mais
uma vez aos leitores […]”
Ainda no mesmo livro, entre as «Dedicatórias e memorações»
aparece aquela dedicada a um velho companheiro (Kokela [Kabuidiké]), a terceira
Em O ministro, surgem principalmente nas dedicatórias, essas
oscilações ao correr da pena. Um exemplo notório vem na p. 22. Dirigindo-se “à
própria, minha irmã”, num lirismo candente, “anónima, tua sombra me acompanha
às terras longínquas, lá longe”, recorda
nas horas boas e de tristeza, presente sempre a tua imagem.
As recomendações de sempre: cuida de ti e da tua saúde. Quando te sentires
cansado, pára […/…] Não vais endireitar
Angola sozinho. Nem podes, da maneira como isso está e vai. Hoje, escrevi
muito. Senti a cabeça rodar, stress, e a mão a falhar. E pareceu-me ouvir a tua
recomendação: Quando te sentires cansado, pára. E parei mesmo, própria.
As recomendações dela vão se transcrevendo por períodos breves,
cortadas em pontos finais, numa sintaxe próxima da oralidade. Até “como isso
está e vai”, domina a segunda pessoa do singular, a típica recorrência dos
dramas (tragédias e comédias e colaterais). De repente a voz é já a dele, quiçá
falando ainda com “a própria”, mas ele a dirigir-se a ela imaginariamente, no
monólogo interior em que estava antes de passarmos à série de recomendações
dela para ele. Essa mudança vem sem aviso, como sucede muito em prosa
modernista e, para o nosso caso, em Luandino Vieira, nas imitações do fluxo mental
consciente ou inconsciente ou oscilante. Claro que, após um primeiro momento de
surpresa, percebemos que mudou a situação ou diegese enunciativa, mas foi sem
aviso, no deslizar da pena, aliás no mesmo parágrafo.
Quanto ao outro tipo de salto, o da oscilação “você/tu” quando
o locutor fala à mesma pessoa, vem com tanta naturalidade na locução das
personagens, e é tão frequente, que não precisamos de exemplificar ou
transcrever. Entretanto, como também foi comum na comunidade crioula angolense,
quando o sujeito enunciativo coincide com o autor é mais rara a oscilação entre
as duas pessoas.
Esses saltos integram-se num grupo mais abrangente ainda: o das
oscilações – sem aviso, com aviso – entre marcas genológicas e tipos
discursivos, que já referi. Tanto estaremos a escutar um lamento, quanto nos
estará a ser narrado epiisódio ou estória, quanto nos vemos numa espécie de
ensaio em tom de conversa. A enunciação e a genologia nunca se fixam. Porquê?
Porque este é um discurso que dá continuidade aos do
quotidiano. Recordemos o que disse o autor a Michel Laban quando escrevia O
ministro:
Eu vou aos musseques onde estou a escrever mesmo o próprio
livro e é a mesma linguagem que estou utilizando aqui. Quando a lavadeira ou a
senhora que está a vender o peixe diz: «você me dá aquilo…», eu tenho que
escrever mesmo isso, não encontro outra forma. Eu dou-lhe o mesmo tom de como
ela fala…
Se juntarmos, numa cidade angolana, tudo quanto ouvimos ao
longo de um dia, se gravarmos tudo e transcrevermos depois na sequência real, o
resultado não difere muito do tipo discursivo dominante em O ministro. E
é isto, feito com naturalidade, sem programação prévia, é isto que distingue, a
meu ver, esse livro, mais do que qualquer dos outros do autor, na bibliografia
literária angolana. Dentro da obra, numa secção metaliterária, o autor fala do
próprio memorial
a verdade é que ele representa as “Memórias Apóstumas” do
Mendes de Carvalho. Apontei e registei o que o público tem conhecimento no
dia-a-dia do meu rico país, quer através dos discursos públicos dos
responsáveis e dirigentes, quer o reproduzido pela rádio, jornais, TV, dentro e
fora do País, quer os factos e boatos do povo, quer as lamentações, acusações,
difamações do público, quer críticas, opiniões do mesmo “ainda” público.
Cerca de 20 páginas depois
Esse balancear, que lembra os dançarinos, está nos outros
livros de Mendes de Carvalho, mas não estrutura o próprio tipo discursivo e
narrativo, que tem seu antepassado próximo em Os sobreviventes da máquina
colonial depõem…, depois passado a Mungo, para localizar o título[14]. Isso também que
nos dá aquela impressão que Uanhenga Xitu relata a Ana Lúcia Sá: “há de tudo um
pouco”, por esses saltos (naquele caso falava sobretudo ao nível das
referências – igreja, Funda, aldrabice do Felito, namoro). Também assim no
quotidiano, na praça ou mercado, na quitandeira ou zungueira, “há de tudo um
pouco.”
José Carlos Venâncio, no posfácio às “memórias apóstumas”,
distingue três partes – que eu chamaria de três tipos genológicos presentes em O
ministro. Uma “dedicada às memórias do político”, outra “que nomearia de
ficcionista, está na continuidade de obras romanescas e contistas do autor e,
por fim, há que registar uma parte de forte motivação ensaística.” Não são só
partes. Há momentos do livro nos quais é clara a dominância de um ou de outro
tipo, ou modelo (palavra que hesito em usar, porque geralmente não se contempla
com ela um modelo intuitivo, intuído, mas sim um programa de escrita canónico,
definido, regrado, em moldes nítidos).
Entre os fragmentos ensaísticos, as “considerações”, não falta
“nem a autocrítica, nem tão-pouco a coragem e a acutilância crítica que os
angolanos se habituaram a ver em Mendes de Carvalho”. Não faltam. Mas não estão
presentes como em Luandino, Manuel Rui, ou Pepetela, mesmo quando a linguagem
das suas narrativas aparentemente se aproxima do quotidiano popular. A
diferença fica por conta da naturalidade com que se fala em O
ministro, da absoluta ausência de programação prévia para aplicação de um
modelo pré-estabelecido, universal e anterior, que se aplica no lugar. Não me
parece que se trate, no caso de Mendes de Carvalho, de alguém que põe os óculos
e decide pegar no bisturi para fazer esse exercício de modelar a linguagem
literária pela fala do povo, imitando-a bem. Não é alguém que resolveu escrever
assim e aplica o ‘programa’. Aqui parece que essa linguagem surge naturalmente,
faz parte da respiração, vem no próprio ritmo com que o autor fala quando nos
dirige a palavra de viva voz.
Contribui para tal naturalidade uma recorrência também
notada por José Carlos Venâncio no posfácio de O ministro:
Neste livro, porém, não é o sujeito da enunciação que
episodicamente é afastado da sua função narrativa, mas sim o contrário. É o
autor que solicita a presença episódica do sujeito da enunciação […]. E fá-lo
com mestria.
O sociólogo angolano deixa no ar a hipótese de Uanhenga Xitu
aliviar o peso do “texto memorial e ensaístico", no recurso a tal
inversão. Parece-me bem visto, mas me parece também que não só. É que o recurso
integra o acervo de truques narrativos e discursivos desse continuum
linguístico e cognitivo que é a oralidade quotidiana. Em qualquer conversa, de
rua ou de roda (ou mesmo de ronda), fazemos isso: falamos nós próprios e
depois, pelo meio, fazemos intervir às vezes um sujeito enunciativo que narra
um episódio a que nos referimos e nos substitui, metemos em abismo enunciativo
outra voz que é a máscara da nossa, para depois ainda refletirmos ou
considerarmos... A amplidão, extensão, de O ministro torna o campo de
alcance desse truque muito maior. A mudança entre autor e sujeito da enunciação,
não desconhecida nem inédita, se inscreve porém no padrão genérico dos saltos
genológicos e discursivos, dos tipos de registo, que é o da fala quotidiana e o
do discurso de Uanhenga Xitu, só se constituindo modelo na minha receção.
Repare-se no segundo parágrafo do capítulo dedicado ao cónego
Manuel das Neves. Termina assim: “atenção, que neste momento sou escritor.”
Continuando ainda com o mesmo exemplo. Depois de saltar para
considerações a propósito sobre o racismo, suas possíveis curas e suas talvez
inevitáveis consequências, abre nova secção no capítulo e faz o quê? Uma
biografia o mais histórica possível de “Monsenhor Manuel Joaquim Mendes das
Neves”. Com ela fecha o capítulo do… “escritor”. É este o seu jeito próprio de
realizar uma semiose de fronteira, rejeitando, como Felito em Manana,
tanto a palavra e a regra colonial, quanto os costumes tradicionais, entre
urbano e rural, como sempre realçou Ana Lúcia Sá. No caso de Mendes de
Carvalho, jogando com diferentes identificações mas permanecendo na sua
identidade fronteiriça e natural, como Felito “estava nos entre-lugares, nas
fronteiras entre dois mundos”
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Angolana do Século XX: Elemento de construção da nação. UBI, Sociologia.
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http://www.adelinotorres.info/teses/ana_lucia_de_sa_a_ruralidade_na_narrativa_angolana.pdf
Venâncio, J. C. (out. de 1991). Uanhenga Xitu: o
homem, o político, o escritor: uma referência obrigatória para a construção
da nação em Angola. Revista crítica de Ciências Sociais(33), pp.
217-227.
Xitu, U. (1980). Os sobreviventes da máquina
colonial depõem... Luanda ; Lisboa: UEA ; Ed.70.
Xitu, U. (1990). O ministro. UEA: Luanda.
Xitu, U. (2002). Mungo: os sobreviventes da
máquina colonial depõem... Luanda: Nzila.
Xitu, U. (2019). Manana. (W. S. Nascimento,
Ed.) Jundiaí: Paco.
NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA
Francisco Soares é
Investigador do CITCEM (Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura,
Espaço e Memória»), Universidade do Porto. Doutorou-se em Literatura Portuguesa
pela Universidade de Évora (1997). Interessa-se pela articulação entre História
Literária, Teoria Literária, Literatura Angolana, Literaturas em Português e
Literatura Comparada – numa perspetiva transdisciplinar, abrangente e
holística. Lecionou em universidades de Portugal (Évora), Angola (Luanda,
Benguela) e Brasil (Rio Grande). Publicou vários livros acadêmicos nesses
países, artigos científicos e conferências.
BIO-BIBLIOGRAPHICAL NOTE
Francisco Soares is a Researcher at the CITCEM (Transdisciplinary
Research Centre «Culture, Space and Memory»), Porto (Oporto) University. He
received his Ph.D. in Portuguese Literature from Évora University (1997). He is
interested in the articulation between Literary History, Literary Theory,
Angolan Literature, Literatures in Portuguese, and Comparative Literature –
from a transdisciplinary, comprehensive, and holistic perspective. He has
taught in universities in Portugal (Évora), Angola (Luanda, Benguela), and
Brazil (Rio Grande). He has published several academic books in these
countries, scientific articles, and conferences.
[1]
Nome que significa “o poder é odiado”, segundo Washington Nascimento
[2]
Boletim oficial 48 (30.11.1889) 812.
[3]
Gaspar é sobrenome comum a Uanhenga Xitu, cujo pai se chamava André Gaspar
Mendes de Carvalho
[4]
Em várias fontes a distribuição dos dois primeiros nomes alterna. Pode querer
isso dizer que havia dois, pai e filho.
[5]
Deste ramo familiar havia de sair o Sebastião José da Costa cofundador da Liga
Nacional Africana e de O Angolense, que foi funcionário dos Correios no
Lobito e pai do cantor e compositor Carlos Lamartine (Carlos Lamartine Salvador
dos Santos Costa). Como se vê pela referência, esta família se misturou com a
de Joaquim Dias Cordeiro da Mata, razão pela qual o jornalista Teófilo José da
Costa pertencia aos dois ramos e se dizia aparentado com o poeta do Quanza. O
próprio Carlos Lamartine, há muitos anos, me alertou para o parentesco.
[6]
“Muene ô Dikota”, segundo o filho (o músico, artífice, dançarino e compositor
José Oliveira de Fontes Pereira), transcrito em crónica
de Jomo Fortunato. Fundou um grupo famoso de massemba na Vila Clotilde em 1919
e tocava concertina. Morreu a 29.1.1951 em Luanda.
[7]
Em 1889, numa carta pungente, sentida e acusatória ao governador geral, Fontes
Pereira acusa o seu adjudante de campo de lhe ter morto
o único filho. Viriam estes descendentes de alguma filha? É que Fontes Pereira
já não era novo
e morreu pouco depois, em maio de 1891. O filho falecera ainda moço, não sei se
teve tempo de gerar algum neto ou neta.
[9]
O primeiro título da obra
[10]
De certo modo porque aí não fazem parte da narrativa, pois elas são
autobiográficas, ao contrário da estória principal. Entretanto, elas introduzem
a linguagem, o ambiente, enfim os cenários e falas de Manana.
[11]
“Necessidades” e “Ribeiro” indicam dois ramos da mesma família extensa.
[12]
Convém pesquisar em linha os mapas para localizar essa região, articulada com a
história das famílias em vista aqui.
[13]
Não uso, como se pode ver, a palavra no sentido bakhtiniano propriamente. Com
ela designo a estruturação consciente do discurso enquanto peça de um diálogo,
jogo de respostas a perguntas antevistas e outras que passaram, quer estejam
explícitas, ou não, formando uma sequência, relativamente rápida, de perguntas
e respostas, argumentos e contra-argumentos.
[14]
Por coincidência, muito próximo dali, nomearam-se váras aldeias, ou sanzalas ou
quimbos com nomes tirados da Bíblia e nomes de santos.
Nota final:
Este texto, escrito e entregue em 2024, veio a ser publicado no livro Ecos de Angola : um século de Uanhenga Xitu, publicado em junho de 2026, sob coordenação de Ana Lúcia Sá e Lola Geraldes Xavier, na Generis Publishing, sediada na Roménia. Edição cara, numa editora não prestigiada, mas a que a organização das coordenadoras assegurou 'peer review', ou seja, revisão por pares.
Apesar de ter participado, em apreço pelas coordenadoras, não me identifico com a divisão do livro entre ensaios "endógenos" e "exógenos", nem percebo porque (levando em conta o que as coordenadoras afirmam na Introdução) não se classificaram os testemunhos pelas mesmas categorias. As palavras "endógeno" e "exógeno" estão fortemente conotadas, em diacronia discursiva que não permite a mera utilização de "endógeno" como escrito dentro e "exógeno" como escrito fora do território hoje angolano. O resumo dos conteúdos dos ensaios "endógenos" aponta aspetos trabalhados nos ensaios "exógenos" e vice-versa, o que não surpreende, nem resolve o problema agora colocado por mim.
A colocação do ensaio aqui visa disponibilizar a um público mais vasto a minha pesquisa.
Francisco Soares, Évora, 2.7.2026.
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