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Augusto Bastos: vida e obra (resumo)




Introdução

Esta é a última, atualizada versão do ensaio assim titulado. 

Para se compreender o significado e a importância de Augusto Bastos no panorama histórico da literatura angolana, é preciso inseri-lo na respetiva cronologia e conhecer as teias de relações literárias e pessoais em que se envolveu e que o envolveram. No seio dessas redes de relações, a produção literária se inseria com sentido muito prático: servia para instruir e esclarecer os colonos recentes e os jovens locais, para receber algum dinheiro também e para dar recados a personagens importantes no seu tempo e lugar, contribuindo com isso tudo para remodelar uma semiosfera em movimento contraditório ao da sua própria realidade[1], nessa época de ascensão do colonialismo branco, positivista, europeísta, assimilador, e para o qual não havia posições intermédias: ou se era civilizado e, portanto, europeu; ou se era selvagem e, portanto, africano. E os europeus vinham civilizar a África… No meio, porém, formava-se a literatura angolana e os do meio, na versão bipolar da realidade, que a negritude se limitaria a inverter, simplesmente inexistiam.

 

Na cronologia da literatura angolana, após o vagaroso apagamento do grupo de Luz e crença e de Ensaios literários, de que Paixão Franco se veio a afastar, as notícias que tenho de publicações mais e menos líricas, todas elas dispersas entre periódicos escassos, remetem para um costumismo formal, acinzentado nas soluções artísticas e, de vez em quando, agitado retoricamente com pontos de exclamação, reticências, desgastadas e enfadonhas declarações de amor à mulher ou à terra, protestos de elevados e impetuosos sentimentos nobres, nada mais – além de algumas involuntárias imperfeições. O equivalente, para nossa pobre e incipiente comunidade literária, ao penumbrismo no Brasil, mas sem a qualidade e propriedade dele.

Entretanto a narrativa hesitava entre o positivismo etnográfico e a moralização conservadora de Augusto Bastos[2], atingindo (já passado o limite da literariedade, mas não o da oratória) a denúncia social de Assis Júnior (com o Relato sobre os acontecimentos de Ndalatando e Lucala[3], na segunda década do século) e, na terceira década, antecedendo Castro Soromenho, a novela exemplar de Óscar Ribas, O resgate de uma falta (1929), que se seguia a Nuvens que passam (1927) e a que se foram seguindo obras de interesse etnográfico, a par de narrativas revelando um exímio escritor, apurado, requintado, com particular capacidade para representar os estados psíquicos que antecipam as decisões das personagens – algo ainda tímido e abreviado no seu mestre Augusto Bastos.

Por este rápido esboço vê-se, desde logo, a posição do autor no campo literário – que era, entre nós, humilde arimo.

Não compreendo, pois, que, no período a que me reporto, as crónicas da literatura angolana coloquem normalmente um hiato que, pelos títulos citados (e pelos que vou citar ainda), nunca existiu. Existiu, sim, com personalidade própria, mesmo sem alcançar a grandeza artística de outras literaturas do mundo nesse tempo, uma literatura menos brilhante e menos atualizada, paralela à bitola[4] modernista. E o que a distinguiu das congéneres portuguesa e brasileira, tanto quanto em Moçambique, ou mesmo em Cabo Verde, foi que nestes anos se começou a colocar em literatura, cada vez mais, a problemática da discriminação racial a par do empobrecimento, ou marginalização, dos filhos da terra no seu próprio território. Não é que não surgissem, ao mesmo tempo, no Brasil, escritos abrindo já a questão racial; mas isso não podia ocorrer em simultâneo com a perda de poder económico dos filhos da terra, como sucedia em Angola. O que tivemos em Angola foi a simultânea denúncia da proletarização dos filhos da terra e da discriminação racial de negros e mestiços (usando essas designações imprecisas e generalizadas). Entre nós, essa designação de filhos da terra (ou seja: nascidos na colónia) tinha um alcance antropológico diverso do que teria no outro lado do lago atlântico, num país independente: os escravos (forçados para ali, mas igualmente estrangeiros ao Brasil anterior) eram geralmente negros e os negros eram geralmente pobres, não podiam, portanto, perder o que não tinham. Os filhos da terra, em Angola (ainda uma colónia), era um designativo de população quase toda mestiça e negra, tanto quanto essas categorias possam fazer algum sentido, ou seja: tinham a pele mais escura que a da generalidade dos europeus. Uma parte significativa dessa comunidade intermédia, em constante processo de crioulização, não era pobre, detinha propriedades (que iria alienando por escassez de novas receitas) e empregos (a maioria numa escala média ou baixa), muitos deles no funcionalismo público (assegurando alguma estabilidade). Por isso é que em Angola se colocam, simultaneamente, o problema da discriminação racial e da perda de poder económico dos filhos da terra para os colonos recentes, oriundos de Portugal, de pele geralmente clara, protegidos por um poder colonial e preciosos instrumentos económicos – como os do Banco Nacional Ultramarino, fundado em Lisboa “por Carta de Lei de 16 de maio de 1864, sendo seu fundador Francisco de Oliveira Chamiço.” (com muitos outros, entre eles o deputado por Angola António José de Seixas).

Mário Pinto de Andrade acompanhou, em As origens do nacionalismo africano (Andrade, 1998), o princípio dessa caminhada nas primeiras décadas do século XX, no que diz respeito ao discurso político e panfletário, particularmente ao que chamou, com toda a propriedade, “prosa polémica” (Andrade, 1998, p. 50). Levou, no entanto, algum tempo até que essa reação política negrista e virtualmente socialista viesse a transfigurar-se em literatura – o que, entre nós, em Angola, só começou mesmo com Geraldo Bessa Victor nos anos trinta, e só no que diz respeito ao negrismo. O que escrevemos nesses anos encontra, portanto, paralelo, ao nível dos temas e dos motivos, como das escolhas estilísticas e discursivas, encontra paralelo com João Albasini em Moçambique e a geração pré-Claridade em Cabo Verde – neste caso, com a diferença de se escrever muito mais obra em verso e muito mais interessante e melhor articulada com a prosa jornalística, panfletária e política. A exceção a isto, em Cabo Verde, ficou por conta de Pedro Cardoso e do Manduco, jornal por ele fundado enquanto exercia, na terra natal, o cargo de recebedor da Fazenda. Retornando aos angolenses, acentuava-se neles a reivindicação, que sempre fizeram[5], do seu papel no processo de desenvolvimento que legitimava o colonialismo, eufemisticamente a civilização, reclamando a sua participação com todos os direitos e apresentando propostas concretas para resolver o ‘problema da colonização de Angola’ (Lemos, Bases, 1936) no quadro do império português.

Após o apagamento de Luz e crença, a produção literária, cultural e jornalística reabre-se principalmente com a obra de Augusto Tadeu Pereira Bastos, a quem Geraldo Bessa Victor dedicou o primeiro volume de uma série planeada sob o título «Intelectuais angolenses dos séculos XIX e XX» (Victor, Augusto Bastos, 1975). Nascido em 1873, ele viveu, conscientemente, a transição do século XIX (cuja porta ajudava a fechar, ou a deixar entreaberta) para o século XX (no qual intervém até à sua morte, em 1936). Vejamos em pormenor:

 

O autor benguelense foi colaborador no Almanach ensaios literários publicado em Luanda em 1901, impresso na Tipografia do Povo, como tal referido por Mário António e Manuel Ferreira. Ainda não vi nenhum exemplar, por isso me fio no que leio sobre o assunto.

Esse Almanach está bem caracterizado por Mário António em A formação da literatura angolana. O seu diretor, Francisco das Necessidades Ribeiro Castelbranco, descendia de ramos locais importantes de famílias antigas e bem colocadas na administração da colónia desde, pelo menos, o século XVIII. Agregou ele, nos Ensaios, toda a elite crioula de Luanda, mais alguns autores, entre os quais o nosso crioulo benguelense, aparentemente próximo de um assimilado. A caracterização do grupo escrita por Mário António, em A Formação da literatura angolana (pp. 129-130), serve, ao mesmo tempo, Augusto Bastos, a geração e as suas publicações, justificando a longa transcrição que faço:

O fim-de-século, simultaneamente frívolo e sério, aí se pronuncia [reporta-se a uma citação de Francisco Castelbranco apresentando os Ensaios literários] na associação entre «gosto da literatura» e «distração», nessa primeira publicação do seu tipo, dirigida e colaborada por angolanos. Esse mesmo espírito é o que determina o lançamento dos novos «Ensaios Literários — Propaganda e Instrução», publicação semestral, datada de Luanda, 1902, mas impressa em Lisboa, Imprensa de Libânio da Silva, no mesmo ano. Aí se encontram publicados nomes que assinalarão, nos anos futuros, o percurso crioulo, com suas faces de protesto, ambiguidade ou submissão, ao longo do processo colonial que acompanhariam. Nesse número se incluem colaborações de Francisco Castelbranco, com sua vocação de historiador, biografando Geraldo António Victor, o general africano heroicizado pelos seus feitos em Angola e na Guiné; de Augusto Bastos, que «O Angolense» de 1917 haveria de incluir na sua lista de «heróis» ao tempo da arremetida contra o que restava da sociedade crioula e que havia de ser englobado na onda histórico-colonial dos anos quarenta[6], pela sua assídua colaboração em «A Província de Angola» e que Alberto de Lemos haveria de biografar no seu volume de Nótulas históricas, pela sua obra publicada, designadamente pela Sociedade de Geografia de Lisboa e em Angola, onde, em 1928, foi incumbido da organização e instalação do Arquivo Histórico de Angola, do que resultaria a sua colaboração, antes citada, na Imprensa; e de António de Assis Júnior, que viveria toda a primeira metade do século XX, motivado por condições similares, desde as de 1917 às de 1940, com a publicação nesse intervalo do livro que haveria de ser considerado o iniciador da prosa de ficção angolana e com vária e constante afirmação de um nacionalismo que sofreu os embates das circunstâncias históricas.

Que esses angolanos transportavam a herança do século anterior é evidente a partir de factos como o de reproduzirem textos dos iniciadores da Literatura Angolana, como Cordeiro da Matta e Pedro Machado, na poesia e na prosa, respetivamente. Com efeito, Ensaios Literários publicaram o poema «Negra!», de J. D. Cordeiro da Matta, extraído do livro Delírios, com o seu testemunho romântico-africano, do mesmo modo que o órgão seguinte da sociedade crioula angolana, «O Angolense», um tanto mais tarde, iniciaria a publicação do Scenas d’África, tentativa de romance realista de Pedro Machado, que conhecera já mais de uma publicação em Lisboa, quando do seu aparecimento, primeiro em folhetim.

Trazia, portanto, esse almanaque, ao público do século XX, a lembrança do que havia sido o esforço dos angolanos que tinham feito o brilho da imprensa crioula luandense do século XIX […]

Augusto Bastos faz a ligação entre a Luz e crença e a geração seguinte – tanto quanto António de Assis Júnior, bem mais conhecido e quatorze anos mais novo do que ele. Se isso justifica o destaque a ele dado por mim, sobretudo em Notícia da literatura angolana, a consideração da sua obra nos serve também de teste a uma hipótese teórica ultrapassada e parcialmente, hoje[7], recuperada: a de que a biografia não tem qualquer importância para o estudo dos textos.

Quando me centro no estudo dos textos, o que procuro ver é a sua organização, o quanto ela se prepara em função de um público previsível para o autor e como ela, por isso, joga conosco e nos leitores constrói o perfil do autor, um perfil proposto, sugerido, que não tem de coincidir com o sujeito civil que subscreve a obra. A nossa primeira tarefa de críticos penso que seja essa. Para nos concentrarmos nela, não nos distraímos com a biografia do autor. Os estudos biográficos foram conduzidos a um beco sem saída quando se pretendeu ver na obra uma espécie de verdade da vida (em partes ou no todo) de quem se apresenta como «eu» perante a sociedade. Mas isso não significa serem totalmente irrelevantes as relações entre a pessoa do escritor e a obra. 

Há, pelo menos, um aspeto para o qual essas relações são pertinentes: é o das limitações, que podemos deduzir de uma biografia, para parcialmente explicar as limitações da própria obra. Por exemplo é importante sabermos o que leu e o que não leu para compreendermos a estrutura e o alcance do que escreveu. Além disso, podemos identificar na biografia de um escritor alguns momentos que ele próprio relata como importantes e que depois concita para  composição, com maior ou menor disfarce. Não quer dizer que a semiose que se produz ao lermos essa peça tenha de estar condicionada pela circunstância que, na biografia, se liga a ela; quer antes dizer que determinado acontecimento pode ser o motivo, o pretexto, a base ou ponto de partida aproveitado pelo autor para certa passagem, nível, ou fase da peça que escreve. Será assim, não obrigatoriamente por razões afetivas, ou sentimentais, mas porque se trata de um acontecimento que ele conhece bem. 

A circunstância biográfica torna-se, então, produtiva, não para ver na obra a mera projeção passiva da vida ‘real’ do seu subscritor, mas até para contrastar o momento que a motivou e o que disso foi posto na obra. Esse contraste nos revelará qualquer coisa acerca da intenção significante de um escritor e dos princípios orientadores da obra. Por exemplo nos permitirá vermos como a supressão de alguns aspetos vai condicionar a leitura do livro, ou do episódio, numa direção específica. Veremos alguns desses momentos na biografia de Augusto Bastos e, também, por ela, compreenderemos melhor essa geração, que foi sem dúvida ambígua, quase bipolar, mas ainda viu nessa postura a última possibilidade de não perder completamente margem de manobra no processo da sua própria defesa, mesmo continuidade, enquanto grupo, no seio do império colonial português.

 

Nascimento e formação

A data de nascimento de Augusto Bastos manteve-se polémica. Luís Kandjimbo, na sequência de vários outros (e, desde logo, Gastão Vinagre no obituário do seu amigo, por ocasião do falecimento, e Geraldo Bessa Victor), nos assegura que nasceu a 16-8-1872 (Victor, Augusto Bastos, 1975, p. 9). A campa, simples, no cemitério de Benguela (ao contrário do que já foi veiculado na imprensa), indica outra data:16-7-1874. O registo de batismo, porém, diz-nos que nasceu a 16-9-1873, batia uma hora da madrugada na Igreja do Pópulo. Essa data vai ser confirmada várias vezes, incluindo pelo próprio autor, ao longo da sua vida.

Quanto ao nome da mãe, Luís Kandjimbo diz ser Laurinda Rosa, penso que na esteira de Mário António (Oliveira, Reler África, 1990, p. 204). Mário António, por sua vez, identifica a sua fonte em Júlio de Castro Lopo (Lopo, 1964, pp. 22-23) e este se baseou, confessadamente, no “distinto jornalista Sr. Horácio Silva, chefe de redação do Jornal de Benguela”. Porém, segundo o registo de nascimento, a mãe seria “Lauriana”, só e sem “Rosa” (que pode não se ter transcrito, portanto Rosa podia ser apelido ou sobrenome da mãe, Laurinda é que não terá sido o nome próprio, a menos que houvesse erro de transcrição também). Não conheço, ainda, nenhum texto – do autor, ou de outra pessoa – que dê mais informações acerca dela. Vejo na sua figura um vago paralelo com A boneca de Quilengues, de Arnaldo Santos, ou no Yaka de Pepetela – mas é projeção de leitor. O batismo regista somente a notícia de ser “preta” e não saber escrever. O pai nasceu em “Cabeceiras de Bastos”, segundo o mesmo registo, conservado num dos antigos livros de registos da Igreja de N.ª Sr.ª do Pópulo, em Benguela.

Para cabal esclarecimento dos leitores o transcrevo:

No dia onze de Dezembro de mil oitocentos e setenta e cinco, n’esta Igreja de Nossa Senhora do Populo de Benguela, diocese d’Angola e Congo, baptisei e puz os Santos Oleos a um individuo do sexo masculino a quem dei o nome de Augusto Thadeo, que nasceo no dia deseseis de Setembro de mil oitocentos setenta e três, a uma hora da madrugada, filho illegitimo de Manoel Thadeo Pereira Bastos, negociante, natural de Cabeceiras de Bastos, e da preta Lauriana, neto paterno de Antonio Thadeo Pereira Bastos, negociante, digo, e de Maria Thereza Pereira Bastos, naturaes de Cabeceiras de Bastos, ingora-se o nome dos avós maternos; foram padrinhos de solemnidade Jozé Augusto da Silva Pereira, negociante, natural de Povoa de Lanhoso, e Marianna Clara da Silva, natural de Loanda, de que se fez este assento, […] duplicado, que depois de ser lido e conferido foi por mim assignado, pelo pae, e pelo padrinho = O baptizado era da cor parda. A mãe e a madrinha não sabiam escrever.

A insistência nas outras datas, mesmo quando da sua morte, não deve ser aleatória.  Desconheço, porém, razões apropriadas. Confirmando o registo de batismo, uma local do Jornal de Benguela refere o aniversário do autor a 16-9-1920 (sem mencionar idade (Redação, 1920)). Por aí podemos, pelo menos, confirmar que ele nascera a 16 de setembro e, estando certos o dia e o mês, o mais provável é que também o ano seja o de 1873, conforme no registo se escreveu. Em uma autobiografia mascarada, que refiro a seguir, ele próprio diz que foi para Lisboa com 15 anos, em uma segunda autorreferência especificando que partiu em 1888 – ora, 1888–15=1873.

A curta e mal mascarada autobiografia em que me baseio será muito útil. O semanário O Lobito, que saía aos sábados, logo no primeiro ano de publicação[8] – ou seja, em 1930 – publica uma série de artigos intitulada «Angola de outros tempos», assinada pelo nosso historiador. O jornal iniciara a 2 de agosto e publicara uma nota a chamar “o interesse dos nossos leitores” para a “valiosa contribuição” do “nosso camarada de redacção e conhecido e apreciado publicista snr. Augusto Bastos”. A nota é importante ainda porque dá conta da aura que, já então, mesmo entre colonos, envolvia a figura pública do escritor, “cujos trabalhos de reconstituição histórica a muitos títulos se impõem” (s.n., 1930). No n.º 3, de 16 de agosto, começa a colaboração de Augusto Bastos, com um texto exaltando a Restauração de Angola (que se comemorava a 15 de agosto, com muita participação de ‘naturais’) e ocupando a primeira página (Bastos A. , A Restauração de Angola 15 de Agosto de 1648-1930, 1930). Não admira o destaque dado à colaboração: para além da relevância memorialística, ao mesmo tempo exaltava a colonização portuguesa e seus heróis, num tom que atraía a confiança do setor dominante, o colonial. O número seguinte (n.º 4, de 23 de agosto) deu lugar ao início do pequeno folhetim autobiográfico. Nele o autor se escondia sob falso nome, e a caracterização verdadeira de um “rapaz africano” chamado “Armindo”, cujo pai se chamaria ali, numa ficção assumida como tal pelo artigo, “Maurício”. Um procedimento idêntico foi depois seguido por Óscar Ribas, a quem Augusto Bastos iniciou na escrita literária, nomeadamente na autobiografia Tudo isto aconteceu (Ribas, 2009). Note-se que Armindo começa pela mesma letra que Augusto, e Maurício começa pela mesma letra que Manuel, o progenitor.

O primeiro número desse não assumido folhetim autobiográfico abre com o quadro da partida do moço africano para Lisboa, com informação de mês e ano. Transcrevo para que o leitor vá conhecendo melhor o seu e nosso autor (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930):

Em uma noute do mez de Março do ano de 1888, levantava ferro do importante porto de Benguela o vapor «Ibo», da carreira de navegação da firma «Benchimol & Sobrinho», nesse tempo afamada sociedade comercial com negócios em Angola.

Algumas notas a citação suscita, complementares ainda que paralelas. A adjetivação do porto de Benguela (“importante”), apesar de publicada no jornal O Lobito, insere-se nos anos de forte polémica, na qual a velha cidade crioula se ressentia por estar a ser ultrapassada pela nova cidade portuária, funcionando esta na interligação do comércio internacional com a linha do Caminho de Ferro de Benguela, que ia até à rica região mineira do Katanga, no então Congo Belga, como lhe chamavam. Com tal adjetivo, A. Bastos mima a sua terra natal e faz uma jogada diplomática, evitando ser taxado de ‘traidor’ por escrever para um jornal do Lobito – de resto com muitas ligações a Benguela também. Hoje parece ridículo, mas as discussões entre benguelenses e lobitangas acabavam, nesse tempo e durante mais duas ou três décadas, em brigas frequentes e com ofensas corporais sérias, que podiam levar à morte dos protagonistas.

Outra referência contextual significativa é à empresa Benchimol & Sobrinho. Como o próprio artigo informa, ela teve uma fábrica de tecidos de algodão em Luanda, “que, infelizmente, pouco tempo durou”. Os Benchimol, originalmente judeus, tinham propriedades em Benguela, onde foram comerciantes de sucesso, deixando filhos e netos. A empresa era detida pelos dois irmãos Salomão e Abraão Benchimol, e seu sobrinho Samuel, “israelitas que, como afamados comerciantes que eram, grande influência exerceram em Angola”. Extinta a firma, Abraão Benchimol ficou ligado

ao antigo colonial e considerado comerciante de Angola e de Lisboa, António de Souza Carneiro Lara, que foi o chefe da conceituada e opulenta firma Souza Lara & C.ª, de que Abraão Benchimol foi um dos gerentes em África, como o fôra, anos antes, na Catumbela, da firma Bensaúde & C.ª, considerada ao tempo como a mais importante, e a que se atribuía uma fortuna ou capital de dez mil contos, que atualmente equivaleria a um capital de duzentos mil contos.

É de ressaltar a importância dada à figura de Abraão Benchimol e ao seu apelido (que aliás continua por mais um parágrafo). O destaque não vem só de eles serem ‘israelitas’, virá sobretudo de se tratar de comerciantes bem-sucedidos que, tanto quanto Manuel Tadeu Pereira Bastos, haviam de gerar uma descendência mestiça, ‘euroafricana’ como se dizia, e cujo prestígio (com descendentes) até hoje perdura na memória benguelense. Aí estava já uma subtil diferença face às crónicas coloniais e, veremos depois, ao longo dos ‘episódios’. Neles Augusto Bastos constantemente faz excursos, não só de cariz comercial, sempre para ressaltar famílias enraizadas e, geralmente, mestiçadas entre peles claras e escuras, ou, como se diz comummente, brancos e negros. Isso o inscreve numa linha recorrente da nossa literatura antiga, a de se reclamar de uma patrologia local em construção.

Faz pensar ainda, nas duas citações destacadas, a influência da linguagem comercial e a atenção dada às informações empresariais. O autor, além do gosto que podia fazer nisso, sabia que o seu público principal era constituído por colonos-empresários, caixeiros-viajantes ou só caixeiros, contabilistas, alguns filhos da terra proprietários e empresários e empregados de comércio ‘coloniais’ e ‘africanos’. A sua linguagem, enquanto jornalista, no breve folhetim, para além de mostrar o quanto o autor dominava o ramo, constituía já um apelo ao mercado, um aliciamento do cliente potencial que o era, também, o mesmo de O Lobito.

Usava, simultaneamente, linguagem formal. Com isso não quero dizer desligada do quotidiano, mas representando nele a componente cerimoniosa. Esse tipo de linguagem, não se pense que ficava só no panorama literário. A linguagem muito formal era também usada pelos comerciantes da época ao falarem com clientes ‘distintos’ (ou seja: endinheirados) e, talvez por automatismo, ressurge literariamente em obras como as Memórias de Bulhão Pato (Pato, Memórias, 1894-1907) e o relato (folhetinesco) da viagem de Benalcanfor (Ricardo Guimarães) ao Cairo (Guimarães, 1876) – este jornalista e escritor era, de resto, filho de um grande comerciante do Porto. As referências que podíamos puxar para aqui são, porém, muitas e só trouxe estas duas porque se ligam a nós: por um lado é provável que Augusto Bastos lesse tais livros e autores, por outro lado foram dois amigos de José da Silva Maia Ferreira em Lisboa, na década de 1850.

É de notar, ainda, na primeira das citações destacadas, o facto de haver uma companhia local de navegação, ramo empresarial explorado nas últimas décadas do século anterior, e muito prestigiado, no qual investiram também filhos da terra, como Joaquim Matoso Câmara, cujo pai se coligara nesse negócio (como em outros) ao mal afamado empresário e antigo negreiro Augusto Garrido (cunhado da filha de Dª Ana Joaquina, a empresária e negreira bem mais rica do que ele e que o detestava), indiretamente responsável pela morte de Francisco Pereira Dutra em 1867. Passado pouco tempo, nos jornais publicados na colónia, as referências e os anúncios ficarão reduzidos às grandes companhias portuguesas e estrangeiras, mas nessa época inicial foram importantes para algumas empresas coloniais e locais bem sucedidas as suas iniciativas nesse campo, sobretudo as apostas em navios a vapor.

O artigo segue retornando ao “vapor «Ibo»”, no qual “embarcou para Lisboa, aonde ia estudar, um rapaz africano, de cerca de quinze anos de edade, a que daremos o nome de Armindo” (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930). O “cerca de” justifica-se pelo facto de o autor ainda não ter essa idade, pois só faria 15 anos em setembro. Mas o retorno ao momento do embarque, fraturante e ampliador como sucedeu mais tarde com M. António ao partir para Portugal, é neste caso um recuo literário estratégico para introduzir a biografia do pai.

Manuel Tadeu Pereira Bastos emigrou para o Brasil muito novo, de onde veio para Angola com um grupo de colonos que se instalou em “Mossamedes”. Ali assentou praça no exército, possivelmente na Companhia de linha criada, por portaria, a 21.8.1845 (Felner, 1933, p. 209), sendo mais tarde transferido para o Batalhão de Caçadores de Benguela, chefiado pelo mítico Geraldo António Victor – ainda no posto de capitão. O cruzamento biográfico do autor com o futuro general começava aqui, desdobrando-se depois em Lisboa (onde o conheceu pessoalmente) e no próprio facto de se ter casado com uma sua neta. Nesta passagem, porém, ele ainda só nos diz que também foi pai de um neto de outro conhecido, rico e antigo comerciante local, o filho da terra Martinho Lopes Cordeiro, nascido em Caconda e amigo de seu pai, “conhecido pelos indígenas pelo nome de «Gangula» («Ferreiro»)”. (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930)

Martinho Lopes Cordeiro merece, também, nesse primeiro episódio, uma síntese biográfica distinta face à dos outros comerciantes, cuja biografia se resume aos pontos salientes da vida empresarial, ou meramente profissional. O elogio biográfico é-nos útil ainda por mais dois motivos. Em primeiro lugar, o episódio no qual o fazendeiro “praticou a façanha de ter lutado corpo a corpo com um leão, em viagem entre o Dombe e o Luacho”, onde o pai de Augusto Bastos teve uma fazenda. Quem já leu as suas Aventuras africanas do autor há de encontrar pontos de contacto com este episódio:

em consequência de o ter ferido com um tiro, o leão se atirou a Gangula, furioso com o ferimento que recebera e o homem, defendendo-se com um admirável sangue-frio, apenas teve tempo de proteger com um cobertor ou chale-manta que levava consigo o seu musculoso braço esquerdo, que apresentou à fera e com que lhe aparou o embate, estabelecendo-se entre homem e leão uma luta homerica, corpo a corpo, de que aquele saiu vitorioso esmagando a cabeça da féra com violentas e repetidas pancadas que lhe vibrou com o cano de ferro da espingarda, de que lembrou de se servir como de uma clava.

O musculado herói merece ainda mais umas linhas interessantes do ponto de vista informativo e da caracterização da personagem – para as quais remeto agora o leitor. Antes vale realçar outra intertextualização, desta vez com as Aventuras policiais do repórter Zimbro. É que Martinho Lopes Cordeiro foi “farmacêutico prático” em Benguela, na farmácia de Manuel António dos Santos Reis, este “natural do Brasil”, que também foi fazendeiro na mesma zona de Cordeiro e de Manuel Tadeu. A presença de ‘brasileiros’ nos lembra o comerciante Jacinto da Cunha, assassinado pelo ‘máscara azul’ em uma das Aventuras policiais, mas, mais próximo do que isso, a figura do farmacêutico e do seu ajudante (aquele amigo do detetive Zimbro, este do seu ajudante Manuel da Silva), que são fundamentais para o desenlace da intriga de O sinal da morte, outra das aventuras ou memórias policiais publicadas no Jornal de Benguela.

Pelo que se lê no Boletim oficial 27 (1872.7.6), p. 300, o progenitor inscreveu o seu nome num abaixo-assinado a favor do governador[9] e “capitão José Cândido Loforte”[10], localizando-se os subscritores em Benguela, a 10.6.1872, portanto cerca de um ano e três meses antes de nascer Augusto[11]. A subscrição de apoio reagia a uma denúncia, segundo o documento publicada “no n. 101 do Mercantil”[12], a 6.6.1872. Loforte viera com má fama, criada na governação de outro concelho.

No ano em que nasceu o nosso escritor, o seu pai tinha sido eleito membro da “junta da paróquia” de Benguela[13]. Pouco depois de nascer o escritor, Manuel Tadeu Pereira Bastos (“pelos anos de 1874 ou 1875”) abriu “de sua conta uma casa comercial em Benguela. Em 1886 ou 1887” foi gerente comercial da casa de um antigo companheiro de trabalho, José Clemente de Azevedo. No ano seguinte, em janeiro e fevereiro, ainda assinava tabelas de preços na Alfândega, como membro da Comissão de preços de Benguela[14]. A 2 junho desse ano de 1888 se viu nomeado, “com o voto afirmativo do conselho do governo”, substituto do “juiz ordinário do julgado de Benguela”[15]. O anterior substituto subiu a juiz por ausência de José Joaquim Teixeira, que preferiu passar a juiz de paz “do mesmo distrito”. Esse anterior substituto era Augusto José Moreira Bastos, um comerciante rico, nome mais comum que o de Manuel Tadeu nos Boletins oficiais e cuja campa se encontra, ainda hoje, no cemitério da Camunda em Benguela, onde se lê que nasceu em Lisboa, a 2.11.1842, e faleceu em Benguela a 8.11.1893 – tendo deixado, como Manuel Tadeu, vária descendência angolana. Depois vendeu quase tudo e retirou-se para o “vale do Luacho”, no Dombe Grande, explorando a “sua fazenda de cana, denominada «Rio Seco».” (não o de Manuel Rui!) Por isso, também pediu para ser exonerado “de substituto de juiz ordinário do julgado de Benguela”, por “ter a sua residência habitual fora do concelho”[16], o que lhe foi concedido (Portaria prov. 140, de 1.3.1889). Manteve, porém, propriedades, entre elas um “Cuter”[17] (“Phenix”, 10m3) e um “prédio urbano situado n’esta cidade de Benguela na rua de Paula Cid”[18], que foi governador de Cabo Verde, almirante e membro do Conselho Colonial em Lisboa. A bela e espaçosa rua pode ser vista em linha, com suas casas baixas e longas em rigorosa linha reta e árvores do boa sombra. 

Manuel Tadeu Pereira Bastos, o pai do escritor, faleceu em dezembro de 1890, em casa de um amigo, vítima da gangrena “que lhe atacou um braço”. Contava 47 anos então, pelo que estaria, em dezembro de 1843, no começo da vida – quando José da Silva Maia Ferreira estudava em Lisboa. (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930). No entanto não sei se ele teria mesmo 47 anos em 1890, ou se teria mais[19].

Toda esta curta biografia suscita somente um senão, relativo à data de falecimento. É que no Boletim oficial da província se lançaram “éditos de 30 dias”, os quais contavam a partir da data de publicação. Destinavam-se os éditos a possíveis “credores e legatários”, para “deduzirem o direito que tenham ao casal inventariado” por falecimento de Manuel Tadeu Pereira Bastos. Ora isto saiu no n. 42, do dia 18.10.1890 (p. 666), sendo o anúncio (“1º anúncio”) datado em “Benguela, 23 de setembro de 1890.” Significa isto que, já perto do fim da vida (morreria Augusto Bastos 6 anos depois de escrever «Angola de outros tempos»), o autor não teria memória segura do mês em que falecera seu pai, só do ano.

 

Augusto Bastos viveu na casa paterna, onde aprendeu a tocar piano muito cedo. As lições e a vocação tornaram-no um compositor e pianista exímio, segundo Bessa Victor incluindo temas de “motivação angolense”, valsas que executava ao piano depois de as criar, entre outros tipos musicais e de que ficou famosa a obra (valsa?) As furnas do Lobito (título que encimará ainda uma curta narrativa sua, publicada no mesmo jornal O Lobito). Foi, também, pintor celebrado no meio local, não sei se mesmo em Benguela recebera lições de pintura. Retratou, entre outros, “dois de outros tantos vultos proeminentes da República Portuguesa: António José de Almeida e Teófilo Braga” (Victor, Augusto Bastos, 1975, p. 13).

Fez os estudos da Escola Primária na cidade natal, mas, segundo Gastão Vinagre, não pôde realizar o exame respetivo por não os haver aí na altura. Bessa Victor discute a afirmação, mas baseado na suposição de que Augusto Bastos teria partido para Lisboa com sete anos. Gastão Vinagre afirma que Augusto Bastos trabalhou ainda algum tempo no estabelecimento comercial do pai (Vinagre, 1936). A princípio, pareceu-me também difícil que o tivesse feito, embora nesse tempo as crianças fossem muito cedo iniciadas na vida profissional. A informação que possuía era a que tinha lido em Bessa Victor, a de que aos seis ou sete anos partiu para Lisboa, não sei se com a irmã Ana (ou se ela partira antes, como disse Gastão Vinagre), a fim de completar os estudos e realizar o exame. 

Estávamos em 1879, ano a que se reporta a primeira aventura policial do repórter Zimbro, que li no Jornal de Benguela, onde a publicou já quase no fim da vida. Porém, na autobiografia mascarada a que me referi, ele próprio nos diz que partiu em 1888, com cerca de 15 anos de idade (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930), pelo que deve ser verdadeira a afirmação de Vinagre, seu colega e amigo. Também será verdade que a irmã Ana já estudava em Lisboa (“no Colégio de Nossa Senhora das Dores, sito na rua Castilho, e de que era proprietária Dª Maria Monteiro” (Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930)). Mais ainda, uma segunda irmã, Arménia de seu nome, estudava na capital portuguesa desde 1881 (Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930), a qual “algumas vezes” o nosso estudante visitou (Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930). Uma terceira irmã vivia com o pai em Benguela e o seu falecimento é que levou Manuel Tadeu Pereira Bastos a vender tudo o que tinha na cidade, retirando-se para a sua fazenda no Luacho (ou Luaxo), como disse atrás (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930).

A viagem para Lisboa, que terminou “às 9 horas de uma noute do mês de Abril” de 1888, marcou bastante o futuro escritor. O vapor Ibo, no qual havia embarcado em Benguela, avariou na viagem, chegando a Luanda à vela. Os passageiros foram transferidos, por isso, para o vapor Portugal, da Companhia Nacional de Navegação. Fortuita, mas interessante alteração... A partir de Luanda ele pode ver e ouvir de perto, ao longo de todo o percurso, o já famoso major Henrique de Carvalho, que voltava da não menos famosa viagem à Lunda. Na pouco disfarçada autobiografia que publicou em O Lobito (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930), refere-se à “simpática figura” (Augusto Bastos gosta desta expressão) de Henrique de Carvalho, que destaca na galeria de heróis coloniais. Aí confessa que Armindo “não se fartava de olhar para a figura prestigiosa de Henrique de Carvalho e de lhe escutar as palavras.” O repórter Zimbro, que vai protagonizar as suas Aventuras policiais e também foi “simpática figura”, nessas aventuras aparece vindo para Angola e Benguela para cobrir as viagens dos famosos exploradores da época, entre os quais Henrique de Carvalho.

O major impressionou vivamente o nosso escritor e parece provável que isso influísse na sua admiração por alguns dos heróis portugueses da colonização, ou da exploração do continente, começando pelo par que retrata nas ‘aventuras coloniais’ e que refiro mais à frente. A aproximação de Augusto Bastos ao positivismo terá começado por aí, pela conceção positivista da História que tinha o expedicionário português. Henrique de Carvalho representava bem o papel da nova ideologia colonial: positivista, nacionalista, legitimando-se pela civilização da África portuguesa, colocando os novos colonizados numa alteridade absoluta e necessariamente atrasada. A série Aventuras africanas ressente-se muito desta mentalidade, embora o nosso autor lhe anteponha travões e diferenças, reconhecendo a extraordinária inteligência, lealdade e coragem de um jovem negro, de ascendente nobre local e desapossado pela nova colonização, bem como alertando para realidades da terra que urgia desmitificar ou aclarar.

Ao chegar a Lisboa em tão ilustre e portuguesa companhia, deslumbrou-se Augusto Bastos com a primeira visão da cidade, evocando para o seu leitor a capital dos séculos XV e XVI... Algo parecido com o que, várias décadas depois, aconteceria a Mário António, de coração transplantado contemplando, por exemplo, a estátua do marajá D. José I no Terreiro do Paço. 

Em Lisboa se manteve até 1891, quando, por morte do pai, regressou à terra natal, no ano da mística revolta republicana do Porto. Os três anos passados em Lisboa e proximidades permitiram-lhe realizar estudos que o habilitaram para toda a vida. Bessa Victor e outros afirmam que ele ia para se formar em Medicina e estava para iniciar o curso quando o pai faleceu. Júlio de Castro Lopo assegura mesmo que o jovem Bastos se chegou a matricular em Medicina, recebendo em seguida a notícia do falecimento do progenitor. É possível que sim, que tenha completado estudos secundários em três anos. Só pela reforma de 1894-1895 (que ele já não apanhou) passaram eles a durar quatro anos, com mais três de curso complementar. No resumo biográfico publicado em O intransigente, Gastão Vinagre confirma que Augusto Bastos partira de Benguela com essa determinação (de estudar Medicina (Vinagre, 1936)). Não podendo realizar o seu sonho, tornou-se um verdadeiro autodidata, um leitor imparável e atento, ao mesmo tempo em que foi conhecendo melhor as tradições orais circundantes.

Assim que chegou à capital portuguesa foi para o Hotel Pelicano, frente ao Largo de Sta Justa[20], do lado oposto ao do elevador, onde “teve Armindo a felicidade de conhecer pessoalmente o General Geraldo António Victor”, que aí se encontrava a tratar “das suas enfermidades” (Bastos A. , 1930). 

Geraldo António Victor fazia o contraponto angolense de Henrique de Carvalho: ambos militares e heróis da colonização, este não era positivista, cientista, explorador (aliás de uma terra sua, que ele conhecia bem), mas um filho da terra de já velhos tempos. Colocava-se na mesma comunidade intermédia e interpretativa do autor e fornecia-lhe um modelo para a sua integração no projeto imperial – um modelo não seguido pelo benguelense. Augusto Bastos tece-lhe logo o mais entusiasmado elogio e resume a história da sua alcunha, que depois Bessa Victor (bisneto do Kinjango) iria consagrar em obra própria (Victor, Quinjango no folclore angolense, 1970):

General Geraldo Antonio Victor, que, pelos seus feitos militares[21] em Angola mereceu aos indígenas o cognome de «Quinjango» («alfange» ou «espada») e uma canção guerreira, que lhe foi dedicada e em que é exaltado o seu nome.

A colocação do General Quinjango a seguir aos heróis coloniais articula, na sequência autobiográfica do jornal, o passado mais distante com o convívio do autor em Lisboa, que muito nos interessa. Mas também é uma forma de reatar a patrologia angolense e de reafirmar o discurso dos filhos da terra na época, um discurso do tipo: ‘concordamos, vamos construir o império, mas, embora sendo o império português, vejam bem que nós também participámos da sua construção, tivemos sempre um papel aí’, nós é que somos daqui, nós é que conhecemos isto bem, nós é que vos podemos ajudar. A conclusão, lógica, seria: ‘temos um lugar a preservar, não se esqueçam disso. Eu, pela minha parte, exalto Portugal, mas coloco-me entre os africanos da colonização’. Joaquim António de Carvalho e Menezes, José da Silva Maia Ferreira, Manuel Alves de Castro Francina e muitos outros tinham já assumido essa postura, que integrava o escasso e frágil património de escolhas angolenses

O número seguinte ocupou-se, justamente, com uma biografia exaltante do famoso general. Quase no fim, Augusto Bastos narra o primeiro momento em que o viu:

Armindo, que já de nome conhecia o herói de Jabadá, ficou-se, durante minutos, pela primeira vez que o viu numa das salas do Hotel Pelicano, a contemplar e a admirar a figura imponente[22] desse homem, cujo nome, militarmente, enchia a Guiné e essa Angola de outros tempos, devido ao prestígio das suas façanhas.

A biografia termina com nota pessoal que liga mais o autor ao seu herói (Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930):

E mal suspeitava Armindo, que o destino havia de permitir, que um dia já homem, e em Angola, viesse a ser pai dos bisnetos do General Victor.

Ficou o nosso estudante apenas oito dias no Hotel Pelicano, que seria caro. Logo em seguida foi internado no Colégio

de Nossa Senhora da Conceição, da Rua do Poço dos Negros, fazendo esquina para a Rua de São Bento, instalado no Palácio conhecido por «Palácio da Flor da Murta», mandado construir por D. João V para a sua amante.

O círculo de amizades que mais frequentava em Lisboa passava por conterrâneos, a maioria deles mestiços, o que refiro, não pela cor da pele, mas por estarem na mesma situação do autor: com antecedentes europeus e africanos, nascidos e criados em Angola, mas estudando em Lisboa, filhos de pessoas que se destacaram na colónia. Um dos conviventes e condiscípulos era Amílcar Carreira, que de Lisboa partiu mais tarde para prosseguir estudos no estrangeiro. De facto, veio a ser regente agrícola formado na Bélgica e, no regresso, exerceu, com reconhecimento geral, em vários pontos de Angola, a sua profissão. Para além de excelente profissional, esteve ligado a um dos últimos periódicos dos filhos da terra (o Cuanza-Norte), dirigiu a revista Angola da Liga Nacional Africana, quando do seu relançamento em 1933, e foi pai de Henrique Teles Carreira (Iko Carreira), nacionalista do MPLA e Ministro da Defesa de Agostinho Neto.

Augusto Bastos foi também condiscípulo de Guilherme Plantier Martins, sobrinho do historiador Oliveira Martins, que viria depois para Angola trabalhar e viver. Esse convívio colocava, mais uma vez, o nosso autor próximo da configuração cultural de Henrique de Carvalho: positivismo, nacionalismo colonial português, sentimento de superioridade em relação ao colonizado legitimando a 'civilização'.

Outro condiscípulo foi José Eduardo Sobral Fernandes. Era o irmão mais velho do artista plástico (pintor, escultor, cenógrafo, desenhador e figurinista), matemático e inventor Constantino Sobral Fernandes (Constantino Álvaro Sobral Fernandes), este nascido em Lisboa, em 1878 (portanto cinco anos mais novo que o nosso autor). Conforme se vê pelo número seguinte, Constantino Sobral Fernandes foi com quem Augusto Bastos mais intensamente conviveu, constituindo o seu duplo ou espelho, perante o qual, por contraste ou por analogia (esta implícita), o autor se caracterizou. Armindo, nessa altura, “revelava as suas irresistíveis tendências para as ciências e citava com entusiasmo e admiração os nomes mais célebres em astronomia, matemática, física, mecânica, filosofia, história e geografia”. Enquanto isso, o privilegiado interlocutor apresentava “alma de poeta e de artista” e “fanaticamente enfileirava ao lado dos ídolos de Armindo os nomes dos homens mais notáveis na poesia, na oratória, na pintura, na música, na escultura e na arquitetura” – entendendo-se “sempre bem os dois estudiosos amigos.” (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930)  É possível que as conversas entre os dois e a dedicação de Constantino à pintura tivessem contribuído para, mais tarde, o próprio autor se dedicar, nos tempos livres, a essa arte, compondo por exemplo um famoso quadro (famoso na oralidade local) da baía do Lobito.

Foi também condiscípulo dos dois irmãos Viana Costa, um dos quais Eduardo Viana Costa. Ao referi-los aponta o nome de outros dois irmãos, José Vilhena de Lagos e António Vilhena de Lagos. Quanto ao segundo, afirma que ele depôs nos autos relativos à revolta do Bailundo, pois que (Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930) 

mais tarde veio para Angola, onde assistiu, em 1902, aos acontecimentos da célebre revolta do Bailundo, sobre o que prestou declarações em auto. 

De passagem tocamos num ponto intrigante da autobiografia de Augusto Bastos e da sua própria biografia intelectual: é que, tendo outro ficcionista e filho da terra, a 20 de novembro de 1892, iniciado em Benguela o primeiro periódico da cidade, A Semana; regressado já o também advogado provisionário e também ficcionista Augusto Bastos de Lisboa, nesse ano; nunca este se refere a Pedro Félix Machado, nem ao semanário - e, no entanto, muitos anos depois, foi ele que disse a Júlio de Castro Lopo que houve um periódico antes de A Semana em Benguela, O Progresso, de que ficou a maquinaria onde foram impressos os primeiros números do semanário de Pedro Félix Machado. Para além da coincidência na velha cidade crioula, num momento crucial a vários títulos e para os dois, recorde-se que o autor de Cenas d’África advogou a favor do comerciante Eduardo Braga nesses anos (1892 ou 1893), com um discurso que publicou em separata. Recorde-se, também, que o processo estava relacionado com revoltas ‘indígenas’ (ou seja: de resistência à colonização, neste caso por parte de reinos paracoloniais do planalto central) e a campanha protagonizada por Paiva Couceiro no âmbito das ‘guerras do Nano’ (terminando com a deposição e prisão de Ndunduma), e que o próprio Eduardo Braga publicou um folheto defendendo-se, tendo esse folheto sido anunciado em A Semana. Recorde-se, ainda, que Pedro Félix Machado esteve em Lisboa e na Europa, provavelmente gastando uma parte da herança paterna, entre dezembro de 1890 (ano da morte de Manuel Tadeu Pereira Bastos), ou começo do ano seguinte, e abril de 1892. Entretanto, foi várias vezes a Lisboa no período em que lá esteve Augusto Bastos e seus pais se mudaram para lá também em 1888. Recorde-se, por cima disso, que se localiza em Lisboa o sonetista luandense, a julgar pela data de um dos seus poemas, em 1889. Ou seja: as vidas e destinos dos dois se cruzaram em Lisboa e Benguela, estando ambos profundamente envolvidos com o comércio e os comerciantes locais (de Benguela), os meios ‘africanistas’ de Lisboa, publicações em jornais e mesmo Pedro Félix Machado fala no hotel Dois Irmãos, ou alguém por ele, no último periódico onde colaborou (o Bofetadas, de Luanda), que era o mesmo hotel Pelicano do largo de Santa Justa, resultante da reconstrução do edifício no qual esteve instalado o então famoso teatro D. Fernando. O que torna mais estranho  que Augusto Bastos nunca refira Pedro Félix Machado, ainda por cima sendo os dois mestiços culturais (e biológicos), de uma classe social intermédia, filhos de portugueses que chegaram a Angola vindos do Brasil e mais ou menos na mesma época, sendo os dois escritores e jornalistas, exímios cultores da língua portuguesa, ambos próximos do realismo e, mesmo, do positivismo, e tendo Augusto Bastos a tendência para realçar, como Cordeiro da Mata, as figuras ilustres de filhos da terra, desde que estivessem ligadas a Benguela, ou a si próprio, e se destacassem. É um enigma que fica por desvendar.

 

Vida profissional e política

Quando regressou a Benguela, nesse ano de 1891, somava 18 anos – embora seja dito que regressou com 19, mas isso daria 1892. O seu “arcaboiço bonacheirão e alegre” devia já notar-se, tal como quando o conheceu quem publicou, anónimo, a notícia da sua morte na revista Angola, da Liga Nacional Africana (LNA, 1936). 

Sendo necessário fazer face às necessidades familiares, ele iniciou a vida profissional como empregado de comércio, segundo Gastão Vinagre, Alberto de Lemos e Geraldo Bessa Victor (Victor, Augusto Bastos, 1975, p. 10). Ainda no mesmo ramo, assegurava a função de guarda-livros (segundo Júlio de Castro Lopo, Geraldo Bessa Victor e, antes deles, Gastão Vinagre), talvez a maioria desses anos na empresa Segurado Pacheco, “chegando a fazer-se um guarda-livros e contabilista perito” (Vinagre, 1936). Assumiu funções como solicitador, iniciando-se em janeiro de 1916, ano em que publica vários anúncios no Jornal de Benguela nos quais assim se apresenta, quer só, quer e sobretudo a par do polémico advogado, católico e maçom, Baltazar de Aguiam, com quem partilhou escritório (Redação, 1916). Foi advogado provisionário, à falta de outros (segundo O intransigente, “exerceu durante algum tempo a advocacia em Benguela”), tendo-se notabilizado logo pela sua vocação retórica e “pelos seus dotes de inteligência” (Vinagre, 1936). Bessa Victor transcreveu um relato apaixonado, extraído à imprensa da época (O comércio de Benguela, no caso), da sua estreia como advogado (Victor, Augusto Bastos, 1975, p. 10), que terá sido retumbante. A estreia em tribunal deu-se a 24.7.1917, aproveitando o “novel advogado” para perorar acerca da “filosofia da justiça e do direito penal moderno, segundo as teorias da escola positiva” (Victor, Augusto Bastos, 1975, p. 10). Nesse mesmo ano, em que esteve preso sob a falsa acusação de criar um movimento de ‘mata-brancos’ e incentivar as revoltas do Seles e do Amboim (depois também do Libolo), publicou anúncios enquanto advogado, recebendo os seus clientes na “Rua Cinco de Outubro (em frente ao Hotel Paris)” (redação, 1917), de que seria proprietário nesse ano Manuel dos Santos Gomes (1890-1959), natural do concelho de Murça, em Portugal, e que já fora proprietário do hotel Democrata no Rio de Janeiro. 

Enquanto solicitador e advogado e, quiçá, por outros motivos mais, deslocou-se muitas vezes Augusto Bastos ao interior da província de Benguela, conforme se lê pelas locais do Jornal de Benguela, por exemplo dos anos de 1913 e 1916. Essas viagens lhe trariam um conhecimento indispensável para compor as Aventuras africanas, que foram saindo logo a seguir a tais anos e à sua breve e polémica prisão. Certamente que também as aproveitava para desenvolver os seus estudos etnográficos e linguísticos, que não se resumem aos dados colhidos em Benguela.

Enquanto jornalista disseminou os seus trabalhos, no mínimo, pelo Jornal de Benguela, O Comércio de Benguela, O Lobito, A Província de Angola, para além de, por hipótese que não consegui confirmar, ter chegado a fundar uma publicação em Lisboa, tendencialmente desportiva, cujo exemplar não pude consultar na Biblioteca Nacional pelo péssimo estado em que se encontra (intitulava-se Campeão popular e definia-se como “revista litteraria theatral tauromachica e sportiva”). Infelizmente isso era fundamental para esta biografia, porque o nome do redator coincide com o do nosso estudante, mas o número inaugural saiu no dia 5-6-1898, quando Augusto Bastos estava em Benguela, para onde regressara em 1891. Não me parece, por tanto, provável que ele fundasse o Campeão popular em Portugal.

Os assuntos abordados nas colaborações para os jornais eram os mais variados, com especial incidência na etnologia dos povos da sua e da nossa região, de que nos legou estudos linguísticos e de costumes, e nas notas históricas que terão saído em A província de Angola (Victor, Augusto Bastos, 1975). Escreveu também “escorços biográficos de homens notáveis na vida colonial e especialmente na angolana” (Vinagre, 1936), no seguimento dessa já referida recorrência de construção de uma patrística local. No começo da I Grande Guerra, culpava a ganância com que povos mais fortes esmagavam os mais fracos, e o sistema capitalista, como causadores da guerra e inimigos da paz. 

Como político teve uma carreira agitada, cheia de altos e baixos.

Foi escrivão da antiga Câmara Municipal da Catumbela, cerca de 1910, a julgar pelo referido na curta biografia de Gastão Vinagre em O intransigente (Gastão Vinagre só o conheceu em 1922, deve ter ouvido isto do próprio Augusto Bastos). Bessa Victor resume alguns dos cargos públicos que exerceu: “vogal suplente do Conselho Legislativo de Angola, membro da Junta Distrital de Instrução Pública de Benguela, secretário da Associação Comercial de Benguela” (Victor, Augusto Bastos, 1975, p. 10) – nesses anos absolutamente controlada pela maçonaria local (Curibeca, ou Kuribeka, ou, ainda, Kuribeca – escolha o leitor de acordo com a sua religião).  Mas a vida pública de Bastos requer alguns parágrafos mais, em particular no aspeto político, onde a ambivalência típica dos filhos da terra nessa época teve equivalente na relação ambígua das autoridades coloniais (e dos próprios colonos) com ele.

Pelas atas publicadas no Jornal de Benguela percebemos que Augusto Bastos foi dos mais ativos participantes no Congresso Distrital, então realizado (começou a 22 de junho de 1913), tendo sido secretário da respetiva Junta Organizadora (Costa, 2015, pp. 52, 245). O encontro recolheu as participações dos elementos mais destacados nos vários ramos de atividade no distrito, hoje província, que era então muito mais vasto, incluindo Bié e Huambo. Junto com ele se distinguiram, entre outros, Alberto de Lemos, um dos grandes intelectuais angolenses da primeira metade do século; Baltazar d’Aguiam, advogado de quem iremos ainda falar adiante; e Adolfo Pina[23], jornalista que ali casou e veio depois, em Luanda, a fundar A província de Angola (a 16 de agosto de 1923), o mais famoso e continuado jornal da colónia, dirigido por António Correia de Freitas[24], ainda familiar do poeta e jornalista portuense Alberto Correia, republicano e colonialista convicto. Ficou integrado na Comissão encarregue das Questões da Colonização e Etnografia, da qual produziu relatório aprovado pelo Congresso e elogiado por Alberto de Lemos (Victor, Augusto Bastos, 1975, p. 14). A sua participação levantava dados etnográficos e demonstrava já uma calorosa dedicação aos interesses do distrito, que foi timbre de toda a sua atuação política. Foi, de facto, um bom regionalista e, para ele, a colonização tinha de constituir, obrigatoriamente, um fator de desenvolvimento, só assim se justificando – o que estava em sintonia (prudente) com a legitimação da ocupação territorial de África pelas potências europeias. Para assegurar o verdadeiro desenvolvimento era preciso garantir duas condições: primeira, a sua condução por uma política cientificamente e positivamente enformada; segunda, a “complementaridade entre colonizador e colonizado” nesse processo, “em soluções consentâneas para ambos que teriam a sua origem numa cooperação económica visível e participativa do lado do colonizado.” (Costa, 2015, p. 132)

 

Politicamente, Augusto Bastos era um conservador tolerante, socialista nas propostas de organização social e na interpretação das causas da violência, mas conservador e moderado quanto aos projetos de independência. Momento crucial para a sua definição política foi o coincidente com a I Grande Guerra, ou I Guerra Mundial, a que já me referi. Caraterizavam tal ambiente, em Angola, as agitações nativistas (algumas meras inventonas), o combate acérrimo contra os filhos da terra, sobre os quais se lançavam suspeitas de alimentarem revoltas, ao mesmo tempo que o debate exacerbado contra os alemães ou contra os aliados (onde se inscrevia a república portuguesa). A maioria esmagadora do setor colonial era contra a Alemanha, porque o avanço alemão cobria o avanço bóer no sul de Angola. Porém, desses, alguns eram pacifistas, muito poucos é certo, mesmo porque podiam recair sobre o pacifismo suspeitas de aliança com o inimigo alemão. Também esmagadora maioria dos colonos mantinha-se em posição de desconfiança, quando não de prontidão, contra as pretensões das outras potências coloniais europeias: Inglaterra, Bélgica, França.

Nesse tenso ambiente, Augusto Bastos assumiu posições corajosas, embora não ofensivas, nem agressivas. 

Em um dos textos espalhados por vários números de O comércio de Benguela, defendeu vantagens para os colonos que aforarem ou arrendarem ao Estado os palmares do Seles, pois estariam a ser duplamente tributados e lhes faria falta esse dinheiro para investimento produtivo[25]. Assim desfazia suspeitas e defendia os empresários mais ousados. Apesar disso havia de ser preso, em 1917[26], e parece-me que estava já sob suspeita em outubro de 1914, ou talvez desde o final de 1912[27]. 

A 23.10.1914, entre boatos de dirigíveis alemães sobrevoando o Bié, se referia também o rumor sobre a formação de um movimento “nativista” em Benguela. “Algumas pessoas se lembraram de envolver nesses boatos nomes que, por todos os motivos, devem, no meio ilustrado e sensato, estar ao abrigo de qualquer suspeita e imputação de monstruosidades” (Redação 1914). Nesse mesmo número, de O comércio de Benguela, com um dos artigos da série «A Lição do Passado»[28], Augusto Bastos ocupava de novo o lugar do editorial. Em outro momento, citado neste texto, ele criticava as guerras, o belicismo, no que era também uma crítica às invasões sobre povos pequenos e fracos. Talvez alguns excertos alimentassem suspeitas de ‘nativismo’ e o jornal estivesse a defender um de seus amigos e colaboradores, enquanto lhe garantia espaço, prestigiado, para publicação. Foi, realmente, corajoso quando fez essa crítica das “invasões sobre povos pequenos e fracos”, que eram os dos pequenos reinos tradicionais bantos de Angola também, nessa época.

Recorde-se, de passagem, para contextualizar, o perfil de O Comércio de Benguela. O jornal, apesar dos disfemismos e das desconfianças, ainda que menos do que o seu concorrente Jornal de Benguela (mais lido, e considerado nas pesquisas), incluía também referências (discretas) a associações e periódicos angolenses, ou africanos de Lisboa (recenseando com simpatia “O Eco d’África” (Redação 1914)) e textos de filhos da terra, sobretudo Augusto Bastos, relativos ao desenvolvimento da província e do distrito. Chamar-lhe-íamos hoje um jornal de esquerda, mas de esquerda colonial: elogios a Kropotkine[29], referido em mais do que um número, artigos (incluindo de Augusto Bastos) acusando o capitalismo como a verdadeira causa da guerra – e referências afins. Fazia também críticas ao desprezo a que era votada a província, mais ainda a região de Benguela, vista quase como colonizada por Luanda – e particularmente a cidade, prestes a submergir pela aposta na vizinha Lobito, feita pelos republicanos e pelos caminhos de ferro ingleses. As críticas eram motivadas por interesses diferentes face aos dos angolenses, mas a reclamação coincidia com as deles no que dizia respeito ao abandono. A redação do periódico procurava, transcrevendo ou não, vislumbrar as prováveis cláusulas do cada vez menos secreto “acordo anglo-alemão” ([Redação] 1914), para ocupação das colónias portuguesas, e assustava-se.

No começo do conflito Augusto Bastos publicara, entretanto, no mesmo O comércio de Benguela, uma pequena série de artigos (três), colocados em lugar de editorial, intitulados «Sobre a guerra». Já os referi sem os nomear. A série nos esclarece um pouco mais acerca do escritor nessa época, podendo ajudar-nos a compreender as suas escolhas de temas e motivos para as «Aventuras africanas» e a posterior atuação na Câmara Municipal de Benguela.

O segundo artigo da série cita “Eliseu Reclus […] no seu livro Evolução e revolução” (Reclus 1891) falando sobre Napoleão (A. Bastos, Sobre a guerra 1914):

Napoleão arrastou atrás de si um milhão de assassinos com o plausível fim de emancipar o mundo, e para fazer a felicidade das suas queridas e respetivas pátrias[30], os capitalistas fundaram vastas propriedades e organizaram as grandes indústrias, estabelecendo novos e absorventes monopólios, e continuaram a escravidão antiga

Vem a concluir, em tom já quase de desalento com a república, segundo me parece: “a uma classe privilegiada, aristocrática, substituiu-se outra não menos privilegiada e acaparadora – a alta burguesia.”

Isto nos faz pensar que, se o pensamento político dele oscilava entre reformista e conservador[31] (para o qual a mudança não resolveria nada), abertamente republicano, o léxico e a fonte apontavam noutra direção, tal como a sua personalidade[32]. Pouco abaixo, depois de dizer que “o Káiser” arrasta agora “milhões de homens e muitas centenas de milhares de vítimas”, pergunta “quem estava atrás de Napoleão” e do Kaiser. A resposta era clara:

A mão nefasta e tiranizadora do capitalismo, ao serviço do qual estão imperadores, reis, presidentes, governos, exércitos e marinhas de guerra!

O último desses textos, publicado a 16.10.1914, faz as contas às guerras e suas consequências, para concluir que elas constituíam, não só uma despesa enorme e injustificável, mas também retrocessos nos países envolvidos (A. Bastos, Sobre a guerra 1914). É um fundado apelo pacifista. Cita Agostinho Fortes, maçom que se inscreveria no Partido Socialista em 1919, criador do periódico A reforma social em 1910, “professor e sociólogo português”, em nota à tradução de Mentiras convencionais (Nordau 1910-1911), do filósofo político húngaro Max Nordau (1849-1923). O livro de Nordau era muito popular nos meios anarquistas, em particular no Brasil – onde se relia para as classes operárias em voz alta – bem como na Alemanha (Martins 1924, 82), apesar de Nordau ser um livre-pensador e não, propriamente, anarquista. Na citação que faz da nota, denuncia Fortes o mesmo que no artigo, mas tendo em vista confrontações anteriores, entre Rússia e Japão, como também a Alemanha.

Menciona depois, Augusto Bastos, o consagradíssimo V. Hugo, para dizer que “os povos, que os homens formam, são e serão sempre crianças grandes”, num assomo de paternalismo contraditório das teses socialistas e liberais. Afirma só reconhecer legítima a guerra em defesa própria, sobretudo quando pequenos povos são agredidos por países poderosos (era justamente o caso da colonização da África negra). Taxativamente:

Eu não condeno quem se defende e defende os seus direitos, até à última gota de sangue, porque essa é a grande lei da luta pela vida – ao ataque esbulhador, opor a defesa conservadora. Eu condeno quem quer a guerra, eu condeno a guerra atacante, ofensiva, que provoca, arrasta e faz nascer a defesa.

Era o que se passava entre Portugal e as revoltas ‘nativas’. O Cuanhama, por exemplo, estava sendo ocupado pelos portugueses desde o começo do século. A colónia de Angola se constituíra, se consolidava e se ampliava através de guerras ofensivas e discriminações consequentes sobre os vencidos, que faziam “nascer a defesa”. Por aí, sem ferir os brios dos colonos alinhados contra a Alemanha, expunha uma causa revolucionária e explicava as revoltas contra os colonizadores.

Afirma, finalmente, que a Terra (o planeta) chega bem para todos. Então porque há guerra?

Afinal, se existem guerras nos tempos de hoje, são elas devidas principalmente, se não talvez somente, à atual organização económica social, que, para bem da humanidade há de ser, em um futuro mais ou menos longínquo, completamente arrasada, para só ficarem dois elementos verdadeiros em presença – a terra e o homem em toda a plenitude da sua liberdade de funções necessárias à vida, ao gozo, à felicidade, igual e livremente compartilháveis por todos os seres que compõem a humanidade.

A citação valia a pena transcrever. Ela resume o pensamento político do autor, arriscado sem dúvida, e esclarece passagens anteriores. No que nos interessa, realça que havia recados dados antes, quando Augusto Bastos escreve que só se faz a guerra quando se é atacado, para se defender a sobrevivência. Como disse, era o que se passava, e passaria, com os angolenses e os rebeldes de Seles, Amboim, Lucala, Bié, Bailundo, Cuanhama… A proposta muito geral trazia, sub-repticiamente, um recado para o momento e o lugar.

Era, ao mesmo tempo, realista e idealista, prático, de sentido estratégico, e íntegro, de uma moralidade e humildade que só os grandes ideais sustentam e que a mesquinhez desvaloriza ou dilui. Geraldo Bessa Victor apontava o “fundo romântico do seu temperamento, apesar da consciência realista que sempre o guiava na visão e tratamento dos problemas”. Essas duas vertentes, a par dos condicionalismos político-sociais da época, terão contribuído para que se tornasse, ao mesmo tempo, um conservador integracionista e um homem apostado na renovação, na paridade social, no desenvolvimento sustentável, com ideias avançadas para a época – por exemplo as que se relacionavam com a regulação do trânsito automóvel, a higiene pública, a superação do capitalismo e a saúde ambiental. Gastão Vinagre o classifica e explica assim:

Formado o seu espírito em pleno último quartel do século XIX, antes do movimento renovador do 31 de janeiro de 1891, era […] politicamente, sem ser nunca militante, um conservador; mas, por feitio, por estrutura, um tolerante, que respeitava as mais arrojadas doutrinas esquerdistas.

Não só as “respeitava”, também as adotara antes, como disse e transcrevi. De facto, foi mais do que isso. A sua carreira tem dois pontos de destaque: a prisão em 1917, sob acusação de nativismo[33]; a vereação no pelouro que seria hoje o de ambiente e urbanismo (foi eleito vereador em 1921), coroada com a presidência da Câmara Municipal de Benguela (1924-1925), de que foi ilegalmente demitido, com todo o executivo camarário.

A Augusto Bastos interessava uma postura cívica progressiva, desenvolvimentista, ambientalista (Costa C. M., 2014) e a preservação da língua e das culturas locais bantos[34], em particular as (língua e cultura) umbundu, sobre que falava nas páginas do Jornal de Benguela. Propunha, portanto, uma via dialogante, mediadora, que trouxesse o melhorias para todos mesmo dentro do sistema colonial – utopia já antiga, notória na colónia desde pelo menos as páginas d’A Civilização da África portuguesa, d’O Mercantil e d’O Cruzeiro do sul, ou seja, desde a segunda metade da década de 1860.

O crescimento social e profissional do autor, na comunidade urbana da Benguela colonial, era por isso cada vez mais reconhecido, o que podia causar invejas e temores. Ao mesmo tempo, a frontalidade e lucidez com que parecia expor as suas teses, a autonomia de raciocínio e, por vezes, mesmo de ação, tornavam-no alvo de suspeição, no entanto virada contra pessoa cordata, com moral irrepreensível e atuação consensual. Acabaria preso, como disse, em 1917.

Houve toda uma preparação para tornar credível a existência do pretenso movimento de ‘mata-brancos’ em Benguela, criando um clima de suspeição que levava a desconfiar de simples conversas em voz baixa, entre duas ou três pessoas com tom de pele menos claro. Por momentos, o clima inquisitorial resultou (Costa, 2015, pp. 243-244), mas o movimento era uma inventona, usada para pressionar a saída do governador (cuja permanência Augusto Bastos e outros defenderam[35]), o “amigo dos pretos” – alcunha que lhe deram certos colonos, evidenciando a consideração que tinham pelos ditos. Isso mesmo se vê nas páginas do Jornal de Benguela desses dias que antecederam e acompanharam a prisão, depois a soltura, de Bastos e outros injustiçados. Eram muito poucas as vozes razoáveis. A maioria das opiniões e, por vezes, notícias, apenas visavam criar o tal clima de suspeição contra os filhos da terra, não passando de boatos ou de exageros. Rapidamente as forças morais da cidade reagiram, entre as quais a própria maçonaria terá funcionado muito bem, e o nosso escritor foi libertado ao fim de poucos dias, como já disse. Mas o procedimento visando a repressão dos nativistas imitou e aproveitou movimento parecido em Luanda e no Cuanza-Norte, pelo que as vítimas de Ndalatando e Lucala perceberam que as de Benguela também sofreram por causa das mesmas forças e intenções. A julgar pelo jornal Angolense da época (2ª série), no seu número inaugural (29.9.1917, pp. 2-3), ele foi detido em junho de 1917, no âmbito da repressão a eventuais movimentos nativistas (Costa, 2015, p. 246). Mais ainda que em outros casos (sendo notório o de António de Assis Júnior), as acusações não se vieram a comprovar.

Por momentos breves, olhemos mais perto para fazermos ideia do que se passou.

As revoltas do Seles e do Amboim foram também instrumentalizadas por esse sector colonial. É o caso de Luiz Figueira, que residia no “Luzi=Lungué-Bungo” e, portanto, acompanhou muitas vítimas portuguesas das revoltas. Estou a citá-lo porque é um exemplo típico. No n. 6 do Jornal de Benguela desse ano  (Figueira, Correspondência, 1917), dá-nos uma sintomática versão das causas da última revolta. Segundo ele, a revolta no interior resultava da libertação do soba Bando, que se tinha rebelado contra os portugueses em 1915, fora preso, e, já solto nesta altura, voltou com fama de conseguir o regresso por feitiço. Aproveitando a fama, empolgaria novamente as populações contra os portugueses. Assim, garante Luiz Maria Figueira, a revolta não ficara a dever-se ao imposto de cubata, como diziam muitos. A revolta ficara a dever-se à libertação do soba. A 6.5.1917, o correspondente lamenta que a autoridade militar não se faça sentir no interior, nem proteja o comércio (Figueira, Correspondência, 1917). O cerne do problema, para ele, continuava sendo esse, a falta de repressão sobre ‘o gentio’, que impedia ou perturbava ‘o comércio’.

O proprietário do jornal (M. de Mesquita[36]) colaborou na criação do clima de suspeição e temor que legitimaria a repressão. Num editorial do início de maio, dá o «Alerta!». Entre outras meditações sobre o assunto, repare-se nestas duas (Mesquita, 1917):

parecem-nos revoltas de mais. Não recordando os acontecimentos do Sul, todavia bem recentes, tivemos há pouco a revolta de Alem Quanza, que teve seu início no Alto Cuito, estendendo-se para os Luchazes, Lungué-Bungo, Moxico, Huambo (Chitembo) e Bié.

        […] 

o gentio tem a sua polícia, bem melhor que a do Govêrno, e de um extremo ao outro da colónia todos os selvajens sabem, mais ou menos exajeradamente, o que se passa.

A sugestão é a de uma espécie de golpe de Estado, ou revolta generalizada, organizada, e, como se vê por denúncias relativas à passagem de agentes anglófonos pelo ‘mato’, incitando as populações contra Portugal. A revolta seria coordenada a partir dos EUA (fez-se menção a um provérbio, contado aos ‘gentios’ por um desses agentes, em que se dizia que Portugal é o ovo e a América é a panela).

Não eram só colonos os que apostavam na criação de um ambiente de susto. Sabemos que, na movimentação comercial para o interior, a qual acompanhava a implantação de administrações locais (chefiadas por reinóis) em toda a colónia, muitos filhos da terra procuravam recuperar algum poder económico indo comerciar para o mato, a par de novos colonos. Era, muito provavelmente, o caso de Manuel de Oliveira Fançoni, pelo sobrenome um descendente da antiga família de origem (também) italiana, que já levava em Angola cerca de um século e fazia parte do mesmo grupo que ramificara nos Victor (incluindo o poeta, biógrafo de Augusto Bastos e do avô Kinjango). Ele dá notícia das “Proesas do gentio” (Fançoni, 1917), do

assalto do gentio no lugar de Camissamba, a uma comitiva de carregadores que se dirijem a Cangamba, comitiva que sustentou fogo durante um dia inteiro com os assaltantes.

Esta notícia já tinha chegado há mais de duas semanas, mas não queria acreditar nela, porque custava-me a acreditar que tendo sido êsse gentio batido pelo sargento Afonso Pereira da Silva...

Fançoni subscrevia do Muangai, a 18-3-1917 (o tempo que levava o Correio!). Ele escreve vários artigos sobre a revolta. Assume-se comerciante no mato e, ao que parece, de sucesso, espalhado por aqueles “interiores”. A notícia sugere, como as anteriores, estar a colónia perante uma revolta bem armada, portanto apoiada a partir do estrangeiro, e para a qual a solução consistiria no aumento da eficiência militar e da repressão.

Apesar de até o proprietário do jornal entrar na campanha de suspeições, estas posições não foram unânimes no periódico, aberto mas de cariz dominante colonial, autonomista e maçónico. No começo de julho, Maurício Marques da Paixão entrava na liça para apontar as verdadeiras causas da revolta (Paixão, 1917). É uma clara denúncia. Fala da forma como o imposto de cubata é cobrado, da extorsão dos indígenas por soldados e seus comparsas locais, incluindo roubo de 

malas, criação de toda a especie, esteiras, etc; prendem crianças, mulheres e velhos […] e exigindo mulheres formosas não se importando se são casadas ou solteiras, como o signatário teve ocasião de presenciar numa das suas viagens ao Interior; eis o terceiro e talvez se pudesse incluir no primeiro e principal causador desta tão cruenta revolta. Isto quanto a Seles.

Nesses primeiros meses de 1917, Augusto Bastos continuava a fazer-se anunciar como advogado nas páginas do Jornal de Benguela. O seu par, o advogado Baltazar d’Aguiam, católico e maçom como disse, estava bem sobre a crista da onda reativa protagonizada pelos comerciantes e, de resto, já dera provas antes de defesa de práticas, a todos os títulos condenáveis, usuais em muitos desses comércios (Neto, 2016 [2010]). Ele encontrava-se, segundo notícia de 18-5-1917, em Novo Redondo, de onde saiu para Benguela num barco a gasolina, nomeado representante de uma Comissão de Defesa de Novo Redondo (Sumbe), povoação que estaria isolada pela revolta. Próximo destes coloniais, colaborando no seu jornal dileto, nada faria prever que viessem acusar o nosso escritor da chefia de um movimento nativista com ligações às revoltas “do Sertão”.

Mas a reação em defesa de Augusto Bastos foi tal que logo saiu da prisão. De regresso à vida livre, continuou, também, a trabalhar como solicitador e advogado de provisão. Continuou, também, a publicar em periódicos. Além disso defendia a articulação da agricultura indígena com a agricultura em larga escala, colonial claro, persistindo num esforço de conciliação dos interesses locais com os interesses coloniais. Observe-se a colaboração que publicou em O Comércio de Benguela, intitulada «O Progresso d’Angola»[37] e já referida mais atrás. Entre outras linhas, reiterava a conveniência de crédito agrícola

a colonos e indígenas, harmonizando-se com um bom estabelecimento e funcionamento de regímen de terras, a que já tantas vezes me tenho referido [38], de forma a permitir e incitar a que se estabeleça, radique e progrida a propriedade indígena que, sobretudo, nas colónias francesas e holandesas tem merecido atenção, estudo e proteção por parte do governo, como fator indispensável também para o desenvolvimento da agricultura indígena, que, na maior soma, se pode dizer, deve concorrer para o desenvolvimento das riquezas agrícolas coloniais.

Apesar de a França e a Holanda serem vistas, pelos colonos, como rivais a combater, Augusto Bastos as dava como exemplos, o que revelava coragem e argúcia.

Mas, como já referi, o autor realizou uma rápida e sólida recuperação de prestígio, sendo eleito vereador da Câmara Municipal da cidade em 1921. Aqui entra a sua segunda grande maka política.

 

O ponto culminante desta carreira política local atingiu-o exercendo o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Benguela. Acedeu a esse posto sendo Vereador, porque o Presidente se retirou por motivos de viagem e, uma vez indicado o seu nome, os colegas de vereação votaram nele maioritariamente. Nem todos, porém, terão estado de bom grado nesse ato. Digo-o porque alguns se recusaram a comparecer às sessões da Câmara a que presidiu. Mas não só: procurando-se substituí-los, alguns dos eventuais substitutos se recusaram também a aparecer, ora não justificando, ora arguindo questões pessoais. 

O curto mandato foi marcado, aliás, por uma polémica vinda de trás e que ditaria o seu fim. Podia, pelo menos em parte, a polémica explicar essas ausências, mas tais ausências talvez significassem resistência a um filho da terra, mestiço, e consequente manobra de bastidores visando demiti-lo (não era novidade, o mesmo acontecera com Joaquim Luiz Bastos no século XIX), aproveitando os resistentes a polémica para derrubarem o africano. Já no auge do colonialismo pós-Ultimatum, com aumento progressivo de população vinda de Portugal, e com os antecedentes atrás referidos, é mesmo muito provável que se tratasse de racismo. Mas vamos aos pormenores e às datas.

O início do mandato se deu no dia 26 de outubro de 1923 (como Presidente em exercício), sendo reeleito (pelos vereadores) em Janeiro de 1924, e acabando compulsivamente o mandato em Fevereiro de 1925.

A sua atuação foi decisiva, apesar de breve. Geraldo Bessa Victor deve ter conhecido razoavelmente os factos, porque a elogia com propriedade, embora sucintamente. Vejamos alguns pontos a favor do elogio ao mandato deste benguelense.

Na sessão ordinária de 9-10-1924, sob presidência de Augusto Bastos, decide-se “o encanamento de água” para o futuro “Palácio do Comércio e Indústria”, caso o plano de construção fosse aprovado – e efetivamente foi, durante o seu mandato. Esta canalização pode ser vista como privilégio concedido aos empresários locais e que, no entanto, devia ser para toda a população. Não se tratou disso, Augusto Bastos preparava tudo para estender a satisfação das necessidades básicas a toda a população, mas o encanamento para o Palácio empresarial visava estimular uma classe fundamental para o progresso da cidade naquele momento. Era, portanto, parte de um plano desenvolvimentista, a parte inicial desse plano.

O espaço reservado à construção era o do “Largo do Hospital Velho”. Sendo, como tudo indica, o mesmo edifício que se chamou Palácio do Comércio (depois sede do partido-Estado), o “hospital velho” ficaria na zona dos Correios, ao lado da Escola que ainda hoje ali existe. Estender-se-ia a cidade desde o bairro piscatório do Quioche (Kioche, ou Tchioche), junto ao rio Cavaco, pela zona do novo hospital, zona do atual quartel, pela Igreja do Pópulo, até esse Largo, no que a tal paralelo diz respeito, e prolongando-se depois em direção ao Largo da Peça, no qual os grandes casarões e quintais recordavam o tempo em que as expedições, vindas do interior, acampavam lá dentro para o comerciante manter o exclusivo do negócio. Inicialmente afastado em relação ao centro da cidade, hoje está o Largo, como se sabe, num dos limites da ‘zona de asfalto’. O afastamento em relação aos edifícios institucionais era propositado, pois o comércio precisava de ‘recato’, alguma discrição para esconder o que fosse menos legal, ou disfarçar atividades e lucros ilegítimos. O resto da cidade espalhava-se por ambas as margens do antigo curso do rio Coringe, que desaguava junto ao Hospital novo. Foi nessa época o rio Coringe desviado para a linha atual, com a obrigação de os proprietários cobrirem de terra o extinto leito.

Visando superar as dificuldades com água salutar para os mais elementares cuidados, o “encanamento” do precioso líquido foi muito solicitado na altura por empresas e particulares. A concretização se fazia por mão dupla: os particulares encarregavam-se do material, e a Câmara sempre aprovava e canalizava, junto com outros melhoramentos deste mandato, relativos à eletricidade e infraestruturas básicas. 

Isto implicava ser a extensão de um serviço público básico limitada às posses de quem o pedia, mas é preciso levar em conta que, dessa forma, a distribuição de água se ia generalizando sem se ficar na dependência de dinheiros públicos que, ou não vinham, ou demoravam a chegar. 

Em sessão de 27-01-1923, Augusto Bastos, ainda vereador, pedia 

que em face das reclamações dos munícipes a quem foram deferidas várias petições para canalização de água que se comece a fazer desde já as referidas canalizações começando[39] pelo Hospital. – Disse ainda o senhor Vereador Bastos que desejava saber em que altura está o processo respeitante por falta de cumprimento da construção do tanque de abastecimento de água, pois é sua opinião que o serviço da construção se deve concluir[40]. 

Isto mostra o sentido político das intervenções de Augusto Bastos: começar pelo Hospital, onde a existência de água corrente era indispensável e serviria a todos; alargar depois o serviço rapidamente a todos os que o pediam. Vê-se que ele tinha, ao mesmo tempo, uma perceção social e prática, muito concreta, das tarefas a realizar por um executivo camarário. Não desprezara os ideais socialistas, apenas ia fazendo pactos estratégicos com os comerciantes locais, o tecido empresarial, reconhecendo nele um fator de dinamização. 

Era antiga a sua preocupação com a saúde ambiental e estava marcada nas sessões da vereação desde que foi eleito. Concordante é a sua vigilância relativamente à limpeza pública. Na sessão de 24-11-1922 ele pedia que se reduzisse 

o pessoal da limpeza devendo primeiramente proceder-se a uma rigorosa fiscalização e chamando à responsabilidade o respetivo encarregado[41]. 

A princípio, redução do “pessoal de limpeza” parece o contrário do que foi, parece que se estava a querer cortar despesas com uma função de interesse público geral. O objetivo, porém, era fiscalizar essas contratações e prestações a partir do “respetivo encarregado”, pelos vistos ineficaz e, talvez, corrupto.

Em sessão de 12-01-1923, o vereador Bastos 

lembrou ao sr. Presidente que o Bairro de Benfica [o ‘bairro indígena’ da época] necessita da limpeza achando-se ali amontoado bastante lixo[42].

Mais um sinal de que não descurava um grupo social desfavorecido, em queda, como o do futuro bairro operário de Luanda. Já numa das primeiras intervenções depois de eleito, ele recordara “a necessidade de mictórios e retretes”[43]. Na mesma sessão de 3-2-1922, recordava a necessidade de “criação do posto medico dentro do Edificio [do Mercado]” (fl. 105r). Estas intervenções demonstram que o seu plano era abrangente, não feito somente para ricos da zona de conforto, mas para todos, olhando-se o conjunto urbano de forma englobante.

Durante a sua atuação camarária, sobreveio a peste bubónica. Para enfrentá-la desencadearam-se várias ações preventivas, por proposta sua, entre as quais a demolição de prédios arruinados. Era já conhecida a sua preocupação com ruínas, uma vez que, na sessão de 12-01-1923, “lembrava mais proceder-se em harmonia com a lei no que respeita aos muros e prédios em ruínas” (id.). Ainda antes, em sessão de 10-2-1922, o vereador Bastos vira aprovada a ordem de serviço relativa à “limpeza e regas da cidade”, bem como à aquisição de meios para os mesmos fins[44]. Aprovaram-se também nesse dia duas intimações importantes para a higiene pública: aos “Municipes que tenham aglomeramentos de indigenas dentro dos quintaes” no sentido de “retiral-os emediatamente”; e “intimar a limpesa de quintaes e terrenos”[45]. Calculo que o vereador responsável pelo pelouro estivesse por trás destas aprovações, revelando-se diligente e preocupado. Na sessão seguinte (14-2-1922) a “Comissão de melhoramentos sanitarios” pede que seja construído um “crimatório para queimar os lixos da Cidade e para organisação de uma brigada sanitaria de trabalhadores para se proceder a limpesa da cidade”[46]. Mais uma vez, estamos perante sinais, ou fragmentos, de um plano englobante para a saúde ambiental da cidade.

Nessa perspetiva (da saúde e do bem-estar públicos) se decide ainda reforçar, ao longo do seu mandato como presidente, e apressar, o “aterro do leito do Rio Coringe [rio pluvial] e suas margens”, que “atravessa a cidade”. Note-se que em 1916 já se dizia que 

a cidade era atravessada antigamente pelo rio Corinje [grafavam dos dois modos]. A necessidade de regularizá-la levou a Câmara Municipal a desviar o rio para uma vala que construiu, direita ao mar, seguindo paralelamente à avenida da Igualdade, 

que não sei a qual das ruas de hoje corresponde, mas será a que vai dar à rotunda do cine-Kalunga, se a vala se manteve sempre no mesmo lugar – e não tenho sinais em contrário. Na noite de 21 para 22 de Abril desse ano, 

as águas cresceram grandemente; a barrajem feita foi arrombada e todas irromperam com grande violência pelo antigo leito do Corinje, direitas ao largo do Brasil, onde se dividiram em várias torrentes caudalosas que invadiram as ruas vizinhas, descendo com maior violência pela rua do Brasil, largo T. Braga, praça da República e rua do Mercado, onde se precipitaram para a parte do leito não aterrada, no terreno pertencente ao sr. J. Fonseca Costa, formando um grande lago, ameaçando as casas vizinhas[47]. 

Em 5 de Maio de 1916, o dr. Manuel de Oliveira Machado propusera que se fizesse mais uma vala para as águas do Corinje, “cimentada, que atravesse a cidade na direcção do antigo Corinje”. Nada fora feito. Em 1924 ainda estava por aterrar o antigo leito, com todos os prejuízos que já em 1916 se fizeram sentir…

Consequentemente, os proprietários dos terrenos junto ao rio, ou incluindo margens e leito, foram intimados a realizar, em pouco tempo, o aterro nos seus terrenos. Esse aterro uniu a cidade (visto que o rio a cortava ao meio) e livrou o seu centro de um foco de imundície, doenças, inundações. Entretanto, alguns proprietários não terão gostado do ‘ultimatum’ e isso os levaria a reagir na sombra contra o vereador.

Dentro do mesmo âmbito propôs o Presidente, em reunião de 23-10-1924[48], “ser encanada a água, W.C. etc.” nas “Escolas Oficiaes”, sendo as despesas respetivas descontadas na renda a pagar ao senhorio – prática ainda hoje corrente na cidade (melhorias a descontar na renda). A proposta foi aprovada. 

A democratização do fornecimento de água continuava, no âmbito mais genérico de uma saudável gestão ambiental, e levara já o vereador Bastos a lembrar ao Presidente que era preciso concertar 

a bomba da cacimba do Bairro indigena tanto mais que o chafariz do largo Eleodoro Salgado não funciona bem por depender de nova canalização 

e recorda mais ser necessário concertar “o marco fontanário do Mercado”[49]. Em sessão anterior (24-11-1922) ele fizera a proposta (aprovada pela Câmara) de se “colocar um guarda no chafariz do Largo da Peça e outro na R. Eleodoro Salgado”[50], para assegurar a distribuição e preservar os equipamentos. Ele interpelara também o Presidente da Câmara, em dado momento, sobre a falta de água na cidade[51], pedindo esclarecimentos acerca da causa. Sem dúvida, estava a levantar muitas tampas e as panelas ferviam por baixo…

Enquanto Presidente propôs ainda, e viu aprovada, “a regulamentação da circulação dos automóveis e todos os carros que tenham motor de explosão bem como o exame aos conductores profissionaes e amadores, por meio de jury”. Lembre-se que, nesses inícios da circulação automóvel, a falta de regras espalhava a arbitrariedade, os transeuntes limitavam-se a fugir quando se aproximava um carro e este podia não ser bem conduzido… A medida do vereador Augusto Bastos era, por isso, muito oportuna, tanto quanto precoce.

O bem-estar da população era visto no seu conjunto, não passava só pela regulamentação do trânsito, nem só pela melhoria das condições físicas do ambiente. Numa sessão anterior, de 16 de novembro de 1923, Augusto Bastos, já Presidente em exercício, propôs que, “para solemnizar” o 1.º de Dezembro, se tomassem várias iniciativas, entre as quais 

convidar a banda de música do senhor Luís Gomes Sambo a tocar no Jardim Público nesse dia e de futuro, aos Domingos e quintas feiras[52].
Consequentemente, na reunião de 3 de dezembro de 1923, decide-se “pôr em arrematação o arrendamento da exploração do botequim no Jardim Público”, para servir “bebidas e refrescos” nos dias festivos e às 5.as F.as e Domingos “em que a banda de música ali for tocar”[53]. Recorde-se, de passagem, essa personagem importante na Benguela do tempo, o ervanário Luís Gomes Sambo. O seu percurso biográfico uniu vários pontos distantes da Angola de hoje. Ele nasceu em 1874 em Cacongo, onde um comerciante português (sobrinho de banqueiro e de comerciante homónimo) prosperara ao ponto de se tornar visconde de Cacongo. Nascera ele, mais precisamente, a 15.8.1874 em Colobir, concelho que também se chamava de Lândana. Era filho de José Fernandes Sambo e Maria Joana Sambo. Militou no exército colonial também, tendo sido "comandante do Posto do Balombo", concelho e povoação que dinamizou, na qual instalou uma escola, entre várias outras melhorias. Em 21.9.1912 esteve, como convidado, no ato da fundação da cidade do Huambo-Nova Lisboa, sendo um dos subscritores do respetivo auto, como lembra Norton de Matos nas suas Memórias. A escola do magistério primário (antiga escola primária) de Benguela tem, justamente, o seu nome. Faleceu a 23.10.1946 e mais informações podem ser obtidas na ligação posta atrás. 

Regressemos ao labor e empenho político de Augusto Bastos, amigo de Luís Gomes Sambo. Em várias sessões decide-se também, de forma geral, aumentar os salários dos trabalhadores da Câmara, ou subsídios. Ao mesmo tempo demonstrava Augusto Bastos, já enquanto vereador e depois, como Presidente, os gastos excessivos da Câmara. Em sessão de 29-12-1922 logo se insurgira contra o preço a que foi comprada lenha pela Câmara, obrigando o vereador responsável a explicar que o fez por não haver na altura mais ninguém a vendê-la[54]. Estava, possivelmente, ele próprio, a comprar lenha… para se queimar.

Em sessão de 12-01-1923 votou-se o orçamento para a visita do Presidente da República. Aprovou-se uma verba de 100.000$00 e o vereador Bastos foi o único a votar contra, “por achar excessiva a verba”[55]. Era, sem dúvida, corajoso e consequente este nosso socialista.

Em conclusão, o seu mandato municipal (enquanto vereador e, depois, Presidente) não se parecia com o de um conservador, no sentido comum da palavra hoje, mas era também o de um modernizador consciente e, diríamos hoje, ecológico – além de um radical anticorrupção, quer dizer, um perfil moral próximo do das suas personagens ideais.

Claro que uma política destas incomodava os poderes estabelecidos e ainda mais protagonizada por um filho da terra, por ‘civilizado’ que se apresentasse ou parecesse (e, de facto, ele é que pretendia civilizar). Mas a gota que fez transbordar o copo foi a luta de Augusto Bastos contra a Companhia Elétrica do Lobito e Benguela, com influência forte sobre o governo local e o da colónia. A demissão compulsiva e ilegal, do Presidente e de todo o executivo camarário, parece-me mesmo relacionada com desavenças entre a Câmara, chefiada por Augusto Bastos, e a Companhia Elétrica de Lobito e Benguela (CELB), pelo que é preciso estudá-las para percebermos o que se passou, até porque se pretendeu sujar o seu nome durante campanha prévia, na imprensa.

As desavenças de Bastos com a CELB talvez viessem já de 1916. Pelo menos é desse tempo um processo no qual Baltazar d’Aguiam e Augusto Bastos entram (o primeiro como advogado e o segundo como solicitador) em tribunal contra a Companhia. Pelo artigo publicado por d’Aguiam no Jornal de Benguela, eles estariam na defesa dos réus (d'Aguiam, 1916)[56]. O processo envolvia o que veio a ser nos anos seguintes a CELB e que então se chamava «The Lobito, Benguela & Catumbela Electric Light & Power C.ª Ltd.», como acusadora, sendo ré a C. M. do Lobito. A carta é uma carta aberta ao Juiz de Direito da Comarca de Benguela, Dr. Arnaldo Diniz da Silva Vianna, com quem o advogado cortara relações precisamente por causa deste processo. O nome do nosso autor é largamente citado nessa carta e daí extraí as informações. O juiz teria agido irregularmente, levando a pasta respetiva para casa, não a tendo entregue quando lh’a solicitaram para consulta, e desculpando-se com o nosso escritor.

Como se diz nas estórias: passou tempo. Em sessão de 20-10-1922, a Câmara delibera oficiar “a Antonio da Costa” no sentido de colocar algumas lâmpadas que faltam “pela cidade lembrando novamente a instalação de luz no Bairro Benfica”[57], ou seja, defendendo mais uma vez uma classe despromovida. O referido cidadão responde dizendo que procederá em conformidade, o que é reportado à Vereação na reunião seguinte. Mas em seguida pede esclarecimentos e pede que sejam contadas todas as lâmpadas que faltam, o que efetivamente se fará mais tarde, faltando ao todo 21.

Na sessão de 8 de dezembro de 1922, a Câmara delibera sobre o orçamento “da Luz Electrica” para instalar electricidade no bairro indígena. O Vice-Presidente lembrou que 

aquele Bairro não é o que fica destinado aos indigenas e que em face da última portaria sobre Bairros indigenas já foi escolhido novo local.

O vereador Bastos propôs então que fosse instalada a luz apenas nas casas dos europeus que ali moram e que lá ficarão (visto não serem indígenas), e a proposta foi aprovada, sendo informado disso “o Administrador da Luz Electrica Snr. Carlos Godinho”. A limitação da distribuição aos europeus se devia, provavelmente, a serem eles os que iam ficar ali, deslocando-se os “indígenas” para o novo local.

Na sessão de 22-12-1922, o vereador Bastos pediu a palavra para, entre outras coisas, instar a que se insistisse com a companhia elétrica para colocar os postes que estavam em atraso[58]. Na sessão de 27-12-1922, o vereador Vale propôs que não se procedesse à instalação elétrica nos Paços do Concelho, dado o preço excessivo pedido no orçamento. A proposta foi aprovada[59]. No dia 5-1-1923, foi discutida pela Câmara a proposta de aumento do preço da luz para privados e Câmara (feita por António da Costa, seu concessionário), dando-se como compensação 

energia eléctrica a fim de poder ser accionada uma bomba de 2 polegadas para o abastecimento de Águas da Cidade”[60].

O Presidente lembrou que o caso era complexo e pedia para se realizarem estudos primeiro, mas Augusto Bastos declarou-se frontalmente contra, sejam quais forem os estudos, uma vez 

que aquilo que agora se oferecia como compensação [...] já constava da condição sexta das modificações do contrato feitas em 16 de Junho de 1921 em cuja condição todavia não se fixava o diâmetro da bomba a empregar[61]. 

Visto que os restantes vereadores concordaram com ele, apesar de sublinharem Presidente e Vice-Presidente a conveniência de realização de estudos, consideravam “o caso liquidado”.

A Ata da reunião de 27-01-1923 (Augusto Bastos era Vereador) faz referência ao ofício n.º 306, “no qual se pedia para mandar numerar os postes de iluminação”. Só essa numeração permitia controlo público do que efetivamente se instalara.

Na sessão de 26-10-1923, Augusto Bastos, ainda na qualidade de Vereador, reclama da CELB por esta já ter enviado aos contribuintes nota avisando que vai cobrar o novo preço da luz aprovado pelas Câmaras de Benguela e do Lobito. Argumenta o vereador Bastos que essa decisão ainda não subiu às instâncias superiores e, sem ser aprovada superiormente, não pode executar-se. Propõe que se avise o público e a Companhia disso mesmo. Estranhamente, a Ata não menciona qualquer votação relativa ao assunto.

Na sessão de 16-11-1923 discutiu-se um pedido da CELB para que se despachasse rapidamente o assunto do aumento. O pedido foi indeferido pelo mesmo motivo: ainda não tinha sido superiormente aprovado o aumento e, portanto, a CELB também não poderia começar a cobrar o aumento já desde 1 de novembro do ano anterior, como pretendia.

Nessa mesma sessão é discutida uma queixa de Albertino Teixeira da Silva contra a Companhia Elétrica, por esta lhe querer impor a compra de um transformador no valor de 650 escudos. Alegava o queixoso que, pelo contrato firmado entre a Câmara e a CELB, a ligação devia ser feita sem essa imposição. O pedido foi deferido, porque realmente, pelo contrato estabelecido, a Companhia não podia fazer exigências dessas, “como já esta Câmara em tempo lhe fez ver”. 

O diferendo foi subindo de tom até se chegar a uma situação-limite, em que a CELB tornou pública a divergência, de forma a criar na população mal-estar contra o executivo camarário, justificando assim a sua demissão. Dado o agravamento da situação, é convocada pelo Presidente (Augusto Bastos) uma sessão extraordinária, para 4-2-1925, de que dá conta a Ata n.º 143, que é preciosa porque faz o historial de todo o processo.

A CELB publicou no famoso Jornal de Benguela um “incidente” que levou o Presidente a propor ao executivo a publicação, nos periódicos locais, de uma nota oficiosa para esclarecer a população. Foi feita, ali mesmo, a recapitulação dos eventos e o Presidente acusou a Companhia de apresentar sobrefaturações à Câmara, por exemplo numa fatura em que se cobravam 122 lâmpadas a mais (o que implicava uma despesa mensal acrescida em 660$75 cada mês). Perante isto a Câmara tinha deliberado não pagar à Companhia até que esta reconhecesse o erro e o emendasse. Num primeiro momento a CELB reagiu, insistindo em que não era um erro. Só três meses mais tarde, no princípio de novembro de 1924, reconheceu as razões da Câmara, dizendo que a responsabilidade era de um seu “electricista” e que, portanto, ela (CELB) estava a agir de boa fé. A 7-1-1925, a Companhia pediu novamente que se liquidassem as faturas em atraso e, numa sessão realizada no dia seguinte – sessão na qual os vereadores reelegeram Augusto Bastos como Presidente – mandou-se processar o pagamento. Estando o mesmo já em processo na Secretaria há 14 dias, a CELB escreve novamente ao executivo camarário pedindo que se processasse imediatamente o pagamento sem perguntar pelas causas do atraso, ou pelo ponto da situação – ignorando a decisão tomada a 8 de Janeiro e que lhe tinha sido comunicada. Nessa carta, a Companhia dá um prazo de oito dias à CMB para efectuar o pagamento, alegando que não obtivera resposta ao seu pedido de 7 de janeiro. A Câmara Municipal de Benguela responde três dias mais tarde, a 24-1-1925, dizendo que a culpa da morosidade no pagamento era da própria Companhia, que não tinha mandado numerar os postes e, por isso, provocou a devolução das faturas (o contrato previa a numeração dos postes, o que nunca foi feito e possibilitou a cobrança de 122 lâmpadas a mais e respetivos consumos). Reafirmou também o Presidente, nesse ofício de 24 de janeiro, que mandara, na sequência da sessão de 8 de janeiro, liquidar as faturas. As mesmas seriam liquidadas no mês de fevereiro, depois de arrecadadas as receitas das Alfândegas, por não haver antes dinheiro para fazê-lo. Tudo foi reafirmado pelo executivo camarário em ofício à Companhia, após deliberações em reunião extraordinária realizada a 30 de janeiro, sendo aprovado tudo por unanimidade. A Companhia, entretanto, começara a exigir juros de mora indevidos, visto que reportava os juros ao momento em que tinham sido enviadas as faturas erradas (Setembro) e não ao momento em que reconheceu o erro (Novembro). Ato contínuo, a CELB faz sair no Jornal de Benguela o comunicado no qual acusa a Câmara da responsabilidade pela situação.

A celeuma criada gerou o ambiente de confusão propício à demissão do executivo. Esta foi feita pelo Governo Geral da Província, em duas portarias saídas no Boletim Oficial n.º 6 desse ano (2.ª série). A primeira “determina a dissolução desta Câmara”, alegando que não tinha havido eleições, e a segunda “a nomeação de uma Comissão Administrativa Municipal composta de 5 vogais” – em vez da marcação de um ato eleitoral. O executivo em exercício ponderou, entre outras coisas, que não foram feitas eleições no fim do mandato ordinário, mas que a responsabilidade pela situação não era da CMB, uma vez que é o Governo Geral que as convoca. Argumentou ainda que os mandatos se prolongam até serem eleitos novos membros e, de facto, os vogais eleitos na eleição anterior tinham escolhido Augusto Bastos como Presidente. Se os mandatos se prolongam, não há razão para demitir o executivo, devendo o Governo Geral marcar eleições. Ora, o Governador-geral, não só demite o executivo em exercício, como também não marca novas eleições, nomeando a comissão administrativa para tapar o vazio legal e gerir a cidade por tempo indefinido. 

Por tudo isso considerou a CMB que as portarias eram nulas e decidiu continuar com os trabalhos até à ocorrência das eleições. A força, porém, não estava do seu lado: aparece logo em seguida uma Ata relativa à reunião da comissão administrativa de 21 de fevereiro, que inicia os seus trabalhos como se nada tivesse acontecido e trabalha ainda por muito tempo sem sequer se colocar a questão das eleições, que pelos vistos eram adiadas com medo dos resultados. É de notar que nenhum dos membros da comissão administrativa pertencia ao executivo anterior, portanto nenhum deles fora eleito. Convém também recordar que, oficialmente, em Portugal vigorava num sistema democrático…

Pelo que percebi, foi assim a História, que, mais uma vez, havia de contribuir para criar ressentimentos dos cidadãos locais (neste caso filhos da terra e colonos residentes) contra os governos coloniais.

Depois de muitas vicissitudes, de mais uma travessia pelo deserto, novamente Augusto Bastos foi reabilitado. Entrava em cena o Alto Comissário Vicente Ferreira, que foi membro da União Republicana, de Brito Camacho. Era um ano mais novo que Augusto Bastos e, antes de nomeado para Angola, exercera a função de Ministro das Colónias (1923). Ele convidou Augusto Bastos a organizar o Arquivo Histórico de Angola, mas o seu sucessor desde logo se desinteressou pelo trabalho, perdendo-se com isso muita documentação, segundo Gastão Vinagre. O nosso benguelense havia de se queixar, mais tarde, de certo professor da Escola Colonial, que ficara com a maior parte da documentação recolhida, incluindo muita bibliografia também, carregando-a para Lisboa. 

Após mais esse golpe, o nosso escritor retirou-se para uma zona recuada do Bairro Benfica, entretanto vivendo com outra mulher, filha do interior, e foi perdendo esperanças. Há quem diga que se convertera ao espiritismo nesses últimos anos.

Augusto Bastos faleceu a 10 de Abril de 1936, pelas 22h, de morte súbita (ataque cardíaco). Ainda que tenha havido, no início, alguma confusão com as datas, logo se emendou e verificou ser esta.

 

Vida literária

Augusto Bastos manifestou sempre mais inclinação para a pesquisa científica (História incluída) e o pensamento racional (em linhas aproximadamente positivistas) do que para a produção literária. Era, sem dúvida, um criativo, mas a sua criatividade, que chegou a manifestar-se pela pintura e pela composição musical, estava direcionada num sentido ora político ora, sobretudo, investigativo.

Na mal disfarçada autobiografia que publicou nas páginas de O Lobito ele se comparou a um condiscípulo e amigo precisamente nesses termos: o amigo era o artista por excelência (como foi, de facto, na vida), ele se inclinava para a racionalidade e as ciências. A literatura de Augusto Bastos ressente-se dessa inclinação pessoal.

A sua atividade mais estritamente literária passou pela narrativa, não lhe conheço nenhum poema lírico em verso, nem prosa que se aproxime disso. Como já  disse em outro momento, uma narrativa que segue as pisadas de Pedro Félix Machado em Scenas d’África e da Nga mutúri, de Alfredo Troni — quer pelo seu realismo; quer no que de incipiência literária elas enfermavam (embora Félix Machado fosse já um narrador mais acabado e o seu romance bem mais desenvolvido, tanto quanto Alfredo Troni um narrador mais maduro). Em tudo o resto são diferentes: Augusto Bastos quase não recorre à ironia, que é um dos dotes superiores da arte de Félix Machado e de Alfredo Troni; a documentalização excessiva e as passagens etnográficas de Bastos, inseridas em plena narrativa sem qualquer cerimónia literária, são também sabiamente contornadas por Troni e Machado; a sofisticação do enredo em Félix Machado não tem paralelo, também, no benguelense. Ainda assim, a sua narrativa tem interesse para uma História da Literatura Angolana.

Que eu tenha lido, publicou Augusto Bastos as seguintes “aventuras”: A vida nas selvas[62], Os gigantes lusitanos através dos mares[63] e Aventuras policiais do repórter Zimbro[64] (inicialmente com o nome de Memórias policiais do repórter Zimbro). Li também alguns números de As furnas do Lobito, folhetim publicado no jornal O Benguela (17.11.1906 – 7.3.1907), cujas cópias me foram facultadas por António Fragoso Trindade em Luanda. Há outros títulos anunciados, mas estes foram os que encontrei e, mesmo assim, creio que nunca uma série inteira como nela terá pensado o autor. É nestes folhetins, portanto, que me baseio para considerar a literatura do benguelense ilustre. Há também aquela espécie de autobiografia disfarçada, no jornal O Lobito, de que me falou primeiro a investigadora Cátia Miriam Costa, e que depois consultei número por número. Dessa pequena e despretensiosa obra já falei. Fica por abordar com mais profundidade a prosa jornalística do escritor. 

O silenciamento a que foi votado Augusto Bastos pela crítica é talvez devido ao fato comum de se lhe atribuir uma mentalidade colonial, ou de assimilado. Não me guio, porém, por preconceitos e clichês (exceto fotográficos). Acho, no entanto, mais forte razão para pouco se falar dele no fato de as constantes erupções cutâneas de um discurso positivista, etnografista, quando não meramente jornalístico, perturbarem a literariedade exigida a uma narrativa artística no seu tempo. De resto são narrativas difíceis de encontrar hoje, o que muito mais dificulta as abordagens dos estudiosos... 

Tirando aquele aspeto 'etnográfico', as narrativas do escritor são limpas, em estilo claro e clássico, afetado momentaneamente por diálogos formais próximos do quotidiano do comércio – que, por isso, embora fossem reais e quotidianos, não entravam na literatura realista. A obra não deixa, porém, de constituir um dos elos que liga o século XIX ao século XX, Pedro Félix Machado a Óscar Ribas, numa vertente simetrizada, em balizas temporais mais estritas, entre Pedro da Paixão Franco e António de Assis Júnior.

Se Augusto Bastos escreveu ficções que se prestam ao desqualificativo de coloniais, apesar de ser natural de Benguela[65], isso não deve sustentar equívocos e levar-nos a excluí-lo do estudo da formação e do funcionamento de um sistema literário em Angola. Para a história da formação de um sistema literário, o que pensou o poeta sobre o mundo não é excludente da respetiva identidade literária. Veja-se o caso de Céline em França, para exemplo. 

Relevante para uma história literária é sempre como escreveu, como o seu texto organiza uma leitura e o seu pensamento a importa, na medida mesma em que estruture a organização da obra e a manipulação dos conteúdos, além de se tornar um conteúdo também e, como tal, poder ser mera simulação.

No caso concreto da obra de Augusto Bastos, creio mesmo que o termo “colonial” não é o mais apropriado. Nascido em Angola e mandado estudar para Lisboa, onde não pôde passar ao nível universitário pela morte prematura do pai, ele seria bem mais um “estrangeirado” que um “colonial”, e, mesmo assim, estrangeirou-se por três anos apenas em Lisboa. Mas note-se que se pode ser um estrangeirado mesmo sem nunca ter saído do país (Macedo, sd, p. 47). Aqui se trata de alguém que procura, na sua terra, dar a prossecução possível a um projeto de pensamento iniciado fora dela, projeto naturalmente embebido na dominante cultural mais vulgarizada na época, o positivismo, que trará uma retórica de bisturi e de gabinete a uma das fases mais agressivas da colonização portuguesa, mas que Augusto Bastos procurou humanizar. 

De acordo com o espírito na época dominante entre a sociedade crioula, que, por momentos, estrategicamente, vibrou de portuguesismo ou lusismo com o golpe republicano em Lisboa, Augusto Bastos reconhecia-se português e realçava os “relevantes serviços” que o protagonista de uma das suas histórias 

prestou ao governo e à nação no titânico trabalho da submissão dos povos indígenas e no estabelecimento da nossa soberania[66]. 

Para além de ressoar, no “titânico trabalho da submissão”, a sombra do seu heroi Quinjango, escritos como este se engajavam ainda, tanto quanto as convicções regionalistas, federalistas e descentralizadoras do autor, na utopia de uma relação de “amizade” com os portugueses, fundada na “equiparação absoluta de direitos”, como protagonizava A voz d’África em julho de 1930 (Andrade, 1998, p. 117). Para além da defesa da sua ação de classe a coberto do manancial simbólico do Império, atitude que não ficaria inédita na história literária angolana, a narrativa que nos legou representa uma colocação particular, específica, misturando o exotismo do urbano pelo rural, que era o dos seus leitores, à mentalidade científica portadora das vinhetas “positivas” e à preocupação pedagógica em desmitifcar o mesmo exotismo que pontilhava no cenário, de resto pouco deslumbrante ele próprio.

Em boa parte, o que em Augusto Bastos se pode qualificar de «exotismo» deriva de um espectro de leitura idêntico ao que levou a nossa geração de 1878 a escrever poemas bilingues. Era uma questão de ‘gosto público’. O público, essencialmente europeu ou europeizado, procurava o exótico, sendo exótica a tradição do outro (a de sua mãe, real e nunca mencionada). O grande mercado para uma narrativa de flora e fauna local era, sem dúvida, constituído por colonos, ou candidatos a “coloniaes”, ou familiares deles e curiosos portugueses, ou, finalmente, urbanos angolenses desenraizados. A narrativa, entretanto, foi simultaneamente usada por ele para, ao mesmo tempo, universalizar traços locais – função que Óscar Ribas levará o mais longe possível em toda a sua obra.

Representando para tais leitores, o benguelense narra em tons épicos o início da colonização da Huíla na série A vida nas selvas; mas, atestado pelo cânone cientificista que bebera em Lisboa e desenvolvera em Benguela, firma em letra de lei, por investigação histórica desenvolvida, a instalação e disseminação da colónia de Moçâmedes em O caçador de leões e descreve, em Debaixo de um búfalo, a carta geográfica e a distribuição étnica da zona onde a ação decorre. Descrição redigida com a camoniana segurança de quem maneja por experiência o saber (experiência de que dão notícia as suas idas constantes ao interior), tanto quanto por leitura o disciplina. Nesses momentos, afasta-se a narrativa da literariedade e do próprio género, passando-se, em bruto, ao ensaio etnográfico. Mais tarde Ruy Duarte de Carvalho misturou ambas as disciplinas (antropologia e narrativa), mas com uma sensibilidade artística infelizmente fragilizada no nosso benguelense.

A atitude ou o exotismo de Augusto Bastos avança, no entanto, algo de novo (o rigor positivista alimentado pela vivência local) à expectativa colonial. Um segundo sinal de diferença em face do público destinatário das narrativas é, como disse, a preocupação em corrigir os mitos que havia sobre África e sobre a “selva”, ao inverso do que realizou Cadornega, que nos deixara de herança o que teria sido o acervo mítico da «ilha» crioula de Massangano.

O aproveitamento do gosto exótico para desfazer as desfigurações, segundo Luís Forjaz Trigueiros já antigo na literatura de viagens portuguesa (Oliveira, A formação da literatura angolana, 1985, pp. 228-229), vem encontrar-se aqui com a tradição didática dos sermões, e que não deixa de se notar nos escritos políticos de Manuel Patrício Correia de Castro e de Joaquim António de Carvalho e Menezes. Estou a referir-me ao didatismo, sublinho, pois no resto se trata de realidades e livros bem diferentes. Com o preocupado regresso à descrição realista, não fantasiosa, junta Augusto Bastos, ao cientificismo positivista, o didatismo, e isso não o liga só ao passado, visto que ainda chega hoje a um Sousa Jamba, quando o vemos deplorar no livro inaugural (Patriots) as mitificações repetidas pelos guerrilheiros da UNITA. Esta preocupação didática e realista é transversal no decurso da formação da nossa literatura.

Tal preocupação leva o nosso benguelense a perder duas páginas num diálogo, entre o caçador mucubal e o seu companheiro branco, só para nos esclarecer acerca da dala, desmitificando o que sobre ela punha a circular “a gente da terra” (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919, pp. 9-10) – que não deixa de ser aqui uma expressão curiosa. E, didaticamente, quem desfaz os enredos é um jovem mucubal perante o seu companheiro de caça, branco, filho de um colono-modelo, criatura laboratorial entretanto criada numa fazenda de chicoronhos próximo do Lubango. Ou seja: criatura laboratorial inspirada numa experiência real. O ensinamento continua ainda quando, mais à frente, o narrador sublinha a cautela com que os caçadores se aproximam da serpente morta (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919, p. 12): 

passados só cinco minutos, por cautella, depois que a dala deixou de se mover, se approximaram .

O didatismo de Bastos não se resume a conselhos práticos,  também educa representando os valores morais que deviam governar as relações sociais no entender do autor, como passarei a mostrar.

Em O Caçador de leões, um filho de fazendeiros, atento e capaz, salva um caçador mucubal seu amigo; em Debaixo de um búfalo sucede o contrário, ficando nós a saber que o mucubal o salvara do búfalo. Os dois jovens[67] constituem-se personagens modelares e simétricas: ambos inteligentes, respeitam-se, nutrem amizade um pelo outro, são leais e sinceros, para além de corajosos e prudentes.

A ideação social que estrutura os episódios é, porém, conservadora, hierarquizada, e de uma ordem que não admite retorno, ou troco. O jovem mucubal trata sempre o seu amigo fazendeiro, respeitosamente, como “Senhor” – ainda que ambos sejam da mesma idade e companheiros de caça; e protege-o, de acordo com as recomendações (não os pedidos) dos colonos pais; o jovem branco assume igualmente um definido papel em relação ao caçador amigo e seu salvador: respeita-o, segue os seus conselhos, fala “em pura lingua do paiz” tanto quanto o correspondente mucubal em português “correto” e “desembaraçado”, levando Cangombe a reconhecer-se “pasmado de o ouvir fallar tão bem a nossa língua como se fosse aqui nascido”[68]. Mas o filho do fazendeiro, do proprietário colonizador, atesta no trato a sua suserania, dirigindo-se ao amigo na segunda pessoa do singular, enquanto o mucubal o chamava de “Senhor”, ou seja, reconhecia-lhe a posição dominante.

Não se propõe a superioridade racial propriamente, faz-se um retrato conservador da superioridade social imposta pelos novos esquemas económicos trazidos pela colonização. Se fosse um problema de raças, não se representavam os dois protagonistas adjetivados por igual, com epíteto de belos fisicamente, modelares moralmente, e paradigmas do que se entendia por inteligência. Os dois entroncam numa crónica relatada como positiva, ora pela gesta dos colonos, ora pela descrição etnográfica, uma baseada na leitura de documentos escritos e outra baseada na observação da oralidade. Mas uma espécie de propedêutica social aconselha a que nenhum dos dois saia do lugar em que a sociedade os recebeu quando nasceram. A raça (representada pela cor da pele) é, aí, uma coincidência de superfície que vem colorir e atormentar uma ordem inquestionável: a de quem manda sobre quem obedece, a do vitorioso e sua descendência sobre o derrotado e sua descendência.

A conclusão literária a extrair a esta curta análise é a de que o didatismo do autor assenta arraiais sobre um falso realismo descritivo, falso porgoque falseado enquanto discurso artístico pela análise social do etnólogo positivista com provas públicas dadas; falso, ainda, porque é realista na técnica sem o ser ideologicamente. A composição das suas tramas é, mais do que realista, condicionada, não intimista, visando modelar costumes, mas os costumes canónicos naquele meio social. Era essa, frequentes vezes, uma das funções do folhetim. Leia-se o que sobre o assunto diz Mário António n’A formação da literatura angolana: 

as qualidades do jornalista [...] continuavam-se no escritor. Era uma literatura [a folhetinesca] interessada em refletir e corrigir o real. 

É por aí que ele concretiza o paradoxo do realismo: retratar cientificamente a sociedade que ao mesmo tempo se está corrigindo por via de uma personagem-modelo, ou de uma atitude modelar, e por tanto mais do que real, ideal, irreal. Por modelar, ela vem corrigir a sociedade que desvirtuava o seu próprio modelo. Corrigia-se o real em nome dos modelos morais dessa realidade.

A intenção moralizadora, que tem como pano azul um verdadeiro diálogo entre classes, etnias e culturas na “selva”, projeta sobre a instância da personagem o traço que marca um discurso de autor que viola a natureza da representação e a própria verossimilhança: 

o senhor nada tem que me agradecer pelo que fiz, que não foi senão um dever, porque todos os homens se devem socorrer uns aos outros. 

Para que o leitor entenda verosímil o nível de linguagem do jovem mucubal, que é quem ficticiamente fala, o artista coloca um aviso, que parece um arranjo de última hora (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919, p. 8): 

O mucubale exprimia-se com correcção e desembaraço, e revelava logo ser uma excellente, como não menos intelligente, creatura. 

O nível de linguagem do narrador é o mesmo das personagens, o que afeta a verossimilhança. Mas a passagem serve também de sino para chamar a curiosidade do recetor sobre a figura do jovem negro, que é o ponto fundamental para desmitificar o que se diz acerca dos ‘selvagens’, ou dos habitantes das selvas (onde já havia brancos – seriam selvagens?). Mas o narrador força a nota pondo essa fala parcimoniosa e própria de leitores eruditos e de salão numa personagem da oralidade, igualmente nobre mas da oralidade. É pouco provável que este português literário fosse próprio, aliás, de qualquer das personagens. Particularmente aquela construção “que não foi senão um dever”, porque ela entra para a língua portuguesa por influência da sintaxe francesa que, por sua vez, se devia a um índice forte de leituras em francês durante o século XIX sobretudo. 

A ficção de Augusto Bastos encerra, como se vê, um feixe de traços vantajosos e desvantajosos para a literatura, que recorrem antes e depois dele. É claro que, em outras tradições, houve também muitas épocas dominadas pelo docere, pela preocupação que leva a utilizar a poesia veículo de ensinamento. Mas a recorrência do didatismo ao longo da cronologia literária angolana torna-o traço próprio por insistência, abrindo a cada época um sabor exato (neste caso o do costumismo ruralizado, modificando um cronótopo que vinha do fim do século passado e que era essencialmente urbano). Ora, no panorama anterior e urbano, quem foge a isso é justamente Pedro Félix Machado, na lírica, facto a que o seu parnasianismo não será estranho, tanto quanto um realismo coerente. E é de Pedro Félix Machado – um escritor física e socialmente próximo do benguelense, um realista complexo e bem humorado, mas didático também nas suas narrativas – é de Pedro Félix que Augusto Bastos nunca fala.

Também verificando as estruturas postas em funcionamento pelo etnógrafo e político benguelense nos folhetos que publicava, muito certamente pagando-os ele próprio antes da venda os custear, encontramos uma íntima ligação com a tradição literária crioula, especialmente a novecentista, mais em particular a da geração de 1878. Mais uma vez, Pedro F. Machado é que era original relativamente a essa tradição; Augusto Bastos sai de dentro dela – o que a nenhum dos dois retira angolanidade. Mas um traço estrutural – e que se prende igualmente com relações intersistémicas – vem reunir Pedro F. Machado, com as Scenas D’África, a Nga Mutúri, de Alfredo Troni e as Aventuras de Pereira Bastos. Qualquer delas foi primeiro publicada em folhetins distribuídos por diversos números de jornais e só depois coligida num único volume. Daí que, num sentido que procurarei apurar, estejamos perante uma tradição folhetinesca.

 

Folhetins aos pares

A formação da literatura angolana entrou numa velocidade de sistema quando a globalização da literatura se fazia, em grande parte, por folhetins através da imprensa escrita. No meio de nós, o processo de naturalização dos folhetins começou por leituras, o que é natural, e passou para a fase de apropriação poucas décadas mais tarde. No entanto havia já uma tradição por trás, a das oraturas, que tinha criado berço para receber o folhetim literário. Na transmissão oral, em português e línguas bantos, nos quintais e no mato, na cidade e na sanzala, repetem-se estórias por episódios. Por vezes, os episódios articulam-se numa curta série que se prolonga por outras sessões. Isso traz ao conjunto, quando a memória reúne tudo, um tipo de narrativa em que os vários episódios encaixam, de forma por vezes um tanto brusca, mas na maioria das vezes através de uma passagem inicial que recorda o que se contara já sobre o tema, a personagem, o motivo comum a outra pequena estória. Surgindo a propósito, numa roda de conversa, essas estórias ilustram princípios morais ao registarem cenas típicas de um tempo e de um lugar. É neste sentido que elas têm função social. 

Tendo por base o vasto lastro das oralidades, rapidamente os escritores locais aperceberam-se da função crítica, política, social, e da possível função identitária do folhetim, como do jornalismo em geral. Pelo folhetim, como pelas estórias tradicionais, a comunidade revia-se e reconfigurava-se. Alguns, ainda que sensíveis à rentabilização política ou identitária, exploraram mais a função poética; outros optaram diretamente pelo uso político explícito – que não constituiu uma especificidade em parte nenhuma do mundo.

Quando chegámos ao tempo de publicação de Augusto Bastos e de António de Assis Júnior (1887-1960), estava completo o processo de aclimatação da espécie, depois de Nga Mutúri (1882) e de Scenas d’Africa (1891) terem conseguido uma forte impressão local. O angolense, jornal a que ambos os escritores estiveram ligados, escolheu precisamente Scenas d’África – ? – Romance íntimo, de Pedro Félix Machado, para folhetim “no seu número inaugural” (em 1907), como lembraram M. António (Oliveira, A formação da literatura angolana (1851-1950), 1997, p. 56) e Bonavena (Bonavena, 2012, p. 44), inserindo-o numa identificação que se procurava re-cortar e com-firmar.

António de Assis Júnior e Augusto Bastos estavam mais próximos do que se pensa hoje, tendo ambos sido vítimas da repressão que se seguiu às inventonas de ‘mata brancos’ da época (no caso de ambos, 1917). A sua proximidade se nota igualmente na segunda série d’O angolense (a de 1917), fundamental para a defesa dos interesses dos filhos da terra face à agressão colonial do século XX, como também para a re-criação de uma identidade local, ao mesmo tempo alternativa à portuguesa e às das etnias ou nações circundantes – a que também estiveram ligados. Aí publica Assis Júnior (que foi, também, diretor do jornal) o famoso Relato sobre os acontecimentos de Ndalatando e Lucala, depois impresso na tipografia do periódico (a Mamã Tita (Costa, 2015, p. 70)). E Augusto Bastos fica arrolado entre os heróis no grupo dos nativos vítimas da repressão colonial, ainda que os termos usados não fossem estes exatamente, facto lembrado já por Alberto de Lemos (Lemos, Nótulas históricas, 1969, pp. 127-130).

Augusto Bastos é o segundo escritor, em Benguela, a usar a vantagem da relação da imprensa com a literatura. O primeiro foi Pedro Félix Machado, que fundou na velha cidade crioula A semana (1892-1893), onde publicou diversos contos curtos, um deles interessante por se tratar de uma espécie de conto fantástico passado numa fazenda do interior. É, porém, com Augusto Bastos que se aproveita por inteiro, já não tanto a genérica relação imprensa-literatura, mas a organização interna, função e presença do folhetim nas páginas dos jornais em Benguela, tornando essa presença estruturante da própria narrativa. 

António de Assis Júnior fez o mesmo aproveitamento, para o que interessa agora, com O segredo da morta, publicado primeiro nas páginas de A vanguarda, em 1929, sob a regulação genológica do folhetim (Calzolari). Augusto Bastos, nas aventuras publicadas em 1917 e 1919, usava já essa regulação genológica para as construir e, através dela, segurar a atenção do leitor, ora manipulando suspensões e suspense, ora aludindo à aventura seguinte ou anterior, ora diretamente anunciando o que vem na aventura seguinte, sem desvendar por completo o enredo. E veio a publicar, em folhetim, no Jornal de Benguela – e talvez em O Lobito – no começo da década de 1930, os seus contos policiais.

Significa isto que, na nossa pequena sociedade literária da época, essa espécie mista, a meio caminho entre literatura popular e jornalismo, se manteve com valor e vigor de cânone e de solução narrativa durante as primeiras três décadas do século XX.

Assis Júnior, explicitamente, fala em preservar e dar a conhecer as tradições angolanas de uma comunidade específica, mas absorvente, quando apresenta o seu romance-folhetim. Por isso também, mescla na linguagem das personagens e, por vezes, na sua própria, provérbios ou ditos ou palavras oriundos da tradição quimbundo. Assim mistura diretamente a herança cultural da oratura em quimbundo (kimbundu) inoculando-a no molde folhetim. 

Nas aventuras africanas do benguelense, a textualização dos dois companheiros afasta-se, diverge, ainda que a sua autocolocação numa semiose de fronteira se mantenha. Augusto Bastos estuda e publicita as tradições em Benguela e seu entorno através, sobretudo, de ensaios e artigos etnográficos, ou inserindo nas suas narrativas secções, notas e fragmentos etnográficos até no estilo. Mas não insere diretamente fragmentos da oratura banto no discurso narrativo. Também não monta a intriga numa derivação da cosmogonia banto, ou especificamente quimbundo, umbundo, hanha, mucuísse, outras. 

Isto mesmo se nota comparando O segredo da morta e Aventuras policiais do repórter Zimbro. O nódulo central da intriga passada no Dondo só funciona se acreditarmos em pragas rogadas à beira da morte e se raciocinarmos numa lógica animista, pois os desenlaces da estória são o resultado de uma praga e de uma crença animista. Pelo contrário, os dois nódulos centrais dos “episódios” do repórter Zimbro são dois assassínios praticados na cidade de Benguela, motivados por malfeitores europeus disfarçados, através de instrumentos conhecidos e visualizáveis, em enredos resolvidos pelo magnífico investigativo por um raciocínio dedutivo meramente lógico, numa estrita lógica dedutiva. A realidade artística dos crimes está validada pelo pacto e pela comunidade imediata de leitura sem qualquer apelo à crença animista, ou espiritista (segundo testemunhos pessoais, Augusto Bastos ter-se-ia aproximado do espiritismo no fim da vida, mas isso não estruturou já a sua escrita). O que não implica menor investimento nas questões identitárias, antes outra maneira de proceder à estratégica defesa de um espaço razoável de manobra para o grupo dos filhos da terra, assumidamente africanos – esse o objetivo comum com o Assis Júnior de Relato sobre os acontecimentos de Ndalatando e Lucala e da Liga Nacional Africana (1930).


Tendo isto em conta, retornemos ao nosso autor. Como acabamos de ver, a divulgação por folhetins era comum no tempo, assente que estava ainda a lei do mercado literário na empatia entre as opções estéticas do leitor e as do autor. A esmagadora maioria dos periódicos fazia gala em ilustrar as suas páginas com essas peças de vulgarização narrativa (e às vezes político-partidária) que detinham, naturalmente entre outras, a função de segurar uma fatia o mais vasta possível de leitores. Nesse quadro, diz Heron Alencar, citado por Mário António, que os ficcionistas dos jornais dominavam uma “técnica, muito sua, de interessar o leitor, de prendê-lo ao desenrolar da intriga. Esse segredo de manter a atenção do leitor presa à ação da história levou não poucos escritores de renome, na Europa, a utilizarem recursos técnicos próprios de folhetim, a fim de ganhar leitores” (Oliveira, A formação da literatura angolana (1851-1950), 1997, p. 183). Foram os casos de Augusto Bastos e de Assis Júnior, os mais destacados folhetinistas do seu tempo em Angola.

O folhetinista era levado a cingir-se a um formato não dispendioso, portanto normalmente curto, para cada episódio. Por sua vez o episódio tinha de formar uma unidade narrativa suficientemente completa para ser lida sem as outras e cativar mesmo o leitor que não tivesse lido as anteriores. No interior das cenas, ou no final, ou cumulativamente, havia que prender a atenção, ora adensando mistérios, ora remetendo assumidamente para o próximo número do periódico. Em resumo, isto implica uma estrutura comprimida, uma linguagem concisa e “prática”, e uma totalidade para cada cena que a tornasse autossuficiente, sem deixar de acordar a curiosidade do leitor para o que estava por vir.

O fecho dos episódios, apesar de os encerrar, tinha que deixar, portanto, algo em aberto, em suspenso. Isso é determinante para o estilo de um escritor. O autor apura, por causa dessas condicionantes, processos de suspensão diegética e de anúncio, ou profecia, da narração, nos termos em que Genette as descreve nas Figures III, uma espécie de manual aristotélico para a narrativa do século XX.

A transformação do folhetim numa série, por via da sua inclusão num conjunto de “aventuras”, é o passo a seguir pelo escritor quando as estórias são bem recebidas. Acostam-se dessa forma enredos em sucessão que, por norma genológica, devem ter um mesmo sentido de leitura, um “fio” que os una (seja o ambiente referencial, o posicionamento social do narrador, ou pelo menos uma personagem que se repete em várias estórias). Com um grau muito superior de homogeneidade e complexidade, é isto que acontece nas telenovelas hoje, que têm de satisfazer as mesmas condicionantes de receção, embora perante um gosto diferente, e através de recursos cénicos e suportes técnicos muito sofisticados. Num grau superior de literariedade e extensão, foi também assim que escreveu Ariano Suassuna o monumental Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, publicado em 1971 (Suassuna, 1972).

Foi entre o folhetim simples e a coleção de folhetos que se estruturou a dispositio, mesmo o macrotexto, das curtas narrativas de Augusto Bastos. Ele separava-as em “fascículos”, deixando bem claro na capa que os cadernos faziam parte de uma série, e apelando ainda, fático também, à leitura do número seguinte, anunciado na contracapa. Fez isso com a sequência «Os gigantes lusitanos através dos mares ou aventuras extraordinárias da epopeia ultramarina portuguesa». Esta, por sua vez, com a congénere «A vida nas selvas», integrava uma colecção «romantico-historica», onde se prolongava a contradição já notada em Pedro Félix Machado, de escrever ele um romance de análise social intitulado “romance íntimo”[69], pois “historica” remete para o conceito positivista de verdade que se irá representar no interior das obras, e “romantico” remete para uma época literária em que a simbolização dos sentimentos íntimos imperava sobre o realismo. Ambas as séries foram fortemente marcadas, nos paratextos, pelas funções fática e apelativa da linguagem, como disse.

Para além de marcar os números da série, e o título, no topo da capa repetia-se: “Publicação em fascículos”. No verso da contracapa solicitava-se: “Leia no próximo numero”. Depois indicava-se o título do número seguinte, o qual sugeria o cerne do episódio que relatava: Debaixo de um búfalo. No caso da série lusitanista, logo a partir do volume II, em vez de se chamar a atenção para o cerne do episódio, destaca-se uma personagem recorrente, “Pedro Galego”, que surge no título do “nº 2” com As proezas de Pedro Galego, e ressurge na contracapa d’A viagem maravilhosa, onde se anuncia “«O terror dos piratas» / Em que apparece em scena a sympathica e heroica figura de / pedro gallego”.

Não só nos envoltórios do livro encontramos o recurso. Também no decurso da narração deparamos com frases que obrigam o leitor a recordar-se do número anterior, e com outras que o remetem para o seguinte. Veja-se, por exemplo, A Vida nas selvas.

O folheto inaugural da série termina assim: “no próximo número contaremos ao leitor a origem das relações de amizade entre o jovem Nestor[70] e o seu companheiro de caça — o mucubale Cangombe” (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919, p. 16). Efetivamente, o “nº 2” finaliza em simetria com o primeiro, evocando a cena com a qual se iniciava o anterior: os dois amigos no quadro da família colonial reunida. Reforçando a coligação entre ambos os volumes, o narrador do segundo conclui elucidando-nos que “foi assim que se iniciaram as suas relações de caça e de amizade” (Bastos A. T., Debaixo de um Búfalo, 1919), como quem retomasse o fecho do livro inicial (e reativando, simultaneamente, recursos típicos da narrativa oral). É uma estrutura que se aparenta à que Mário António observou em Scenas d’África: “as imposições da produção folhetinesca parecem ter ditado a estrutura e o desenvolvimento do romance, cujo primeiro volume termina com um espaço de interrogação a que o segundo vai responder” (Oliveira, A formação da literatura angolana (1851-1950), 1997, p. 183).

Por sua vez, o texto interior do volume inaugural, no que talvez signifique o subsídio a um deslize, remetia já para o segundo, pois nele afirma a dado passo o narrador: “tinha passado esse dia da primeira aventura de Nestor” (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919, p. 5). Ora, até chegarmos a tal página, não deparamos com nenhuma aventura de Nestor, apenas com a crónica impessoal da colonização de Mossâmedes[71], a que o pai do autor ainda assistira, e da Huíla. Certamente que “esse dia” se refere ao episódio contado no número seguinte, cuja anterioridade diegética é claramente afirmada em relação ao tempo da intriga do primeiro volume.

O provável deslize nos alerta para que o autor investiu a posteriori na dispositio dos diversos números, trocando uma sequência linear (que já na altura era a comum em Angola, como se vê pela Nga Mutúri) por outra analéptica, depois de escritos os episódios que cada volume constitui, eventualmente compostos numa só unidade antes de publicados, de resto numa edição “popular”.

Não é só a dispositio dos volumes a ter significado aqui. A própria organização das séries em que eles se incluem diz-nos mais alguma coisa. A sequência das aventuras marítimas estava incluída em outra. Enquanto «A Vida nas Selvas» anunciava um conjunto intitulado “Aventuras Africanas”, a série «Os Gigantes Portugueses através dos Mares» integrava-se num segundo conjunto, subintitulado “Literatura Nacional” (no sentido de portuguesa). Os títulos dos folhetos da série africana, por sua vez, antecipam títulos da literatura colonial escrita pelos caçadores de elefantes, como a do livro do irmão de Teixeira de Pascoaes, João Teixeira de Vasconcelos (Vasconcelos, África vivida - memórias de um caçador de elefantes, 1957; Vasconcelos, Caçada ao búfalo, 1961 - atente-se na coincidência deste último título). E não deixam de remeter, no seu conjunto, para “scenas” de África.

As duas séries bipartiam a obra do ficcionista em motivação “lusitana” e motivação “africana”, mostrando claramente a cisão extrema entre o filho da terra e o aportuguesado que viviam na mesma pessoa. Outra pessoa, o Fernando, muito racionalmente recortou o perfil de cada uma das possibilidades de expressão das máscaras que viviam nele; Augusto Bastos faz o mesmo com as duas pessoas que ele podia ter sido, se ele fossem dois. A primeira ficção de Augusto Bastos é, no entanto, no aspeto ideológico, uma cabal demonstração do ambíguo panorama mental que se apresentava aos filhos do país no entrechoque das diversas correntes de opinião e de interesses que o atravessavam — e, a cada passo, o torpedeavam, principalmente a seguir à Conferência de Berlim.

Esta bipartição, a divisão por pares, é, de resto, uma das características dominantes da narrativa do nosso benguelense, como passo a mostrar, agora que deixei mais detalhada a marca da estrutura de folhetim sobre a sua obra.

 

As duas séries de aventuras, que dividem a ficção publicada por Augusto Bastos nos anos 10 do século passado, ficaram sem sequência na década seguinte. Só no começo da terceira década do século o autor voltou ao folhetim e à narrativa, agora para inaugurar a ficção policial em Angola.

As Aventuras policiais do repórter Zimbro (1931-1932) constituem, de facto, o primeiro policial da literatura angolana. Porém, não foram até hoje tidas em consideração nas narrativas sobre a formação da nossa literatura. Isso deve-se ao facto de se terem ‘adormecido’, ou desaparecido. Explico-me:

Apesar de Júlio de Castro Lopo (que conviveu com o autor) e Geraldo Bessa Victor (que conheceu bem o autor) as referirem, a obra, se publicada em livro, ninguém hoje a viu, nem ninguém a comentou com detalhe, mostrando leitura aturada ou repetida do original. Entretanto, a passagem das Aventuras a livro parece confirmar-se nas páginas do Jornal de Benguela (Anónimo, 1932, p. 4):

Aventuras policiais do reporter Zimbro

O nosso presado amigo Augusto Bastos, que publicou, em folhetins, neste jornal, duas novelas policiais da sua autoria, resolveu mandar imprimir, em folhetos, a sua continuação.

O primeiro fasciculo, que acaba de ser publicado, intitula-se O Misterio dos dedos sangrentos, e constitui um dos mais notaveis trabalhos do afamado reporter Zimbro, que a fertil imaginação de Augusto Bastos criou e soube tornar imorredoiro.

A capa do interessante trabalho do nosso novelista policial vem animada com a figura insinuante do afamado reporter – detective – figura que se ajusta perfeitamente á ideia que dele se pode conceber, atravez a sua descrição, nas paginas animadas das suas novelas.

O Misterio dos dedos sangrentos encontra-se á venda na Papelaria de M. de Mesquita, onde se recebem pedidos.

Um fascículo, portanto, era vendido em Benguela em 1932, na papelaria do proprietário do jornal. Entretanto não se depara com esse registo em nenhuma biblioteca. Nas degradadas coleções de jornais da Biblioteca da Administração Municipal de Benguela, encontram-se duas aventuras e meia (as duas que a notícia refere, mais o começo de outra), publicadas sob a forma de folhetim, no Jornal de Benguela – um dos melhores jornais de Angola na primeira metade do século XX. A terceira aventura está pouco mais do que iniciada, sem sequência. Creio ser a que depois veio a lume em folhetim separado, e que o periódico anuncia.

As duas aventuras editadas no jornal, por todos estes motivos e porque ninguém mais ligou ao assunto, não mereceram nenhum estudo. Mas estamos agora em condições de encetá-lo, depois de as reencontrarmos e de as termos disponibilizado aos leitores. 

 

Estruturas paralelísticas e sua função

Quando escreveu seus contos policiais, Augusto Bastos era já um veterano do folhetim e da publicação em pagelas, cujo conteúdo se moldava pela forma, estrutura, e função do folhetim.

Não admira. Em primeiro lugar por motivos internos: o folhetim foi, talvez, o formato mais lido ao longo do século XIX em Angola. Foi também o mais praticado pelos nossos narradores, com destaque para o já referido Pedro Félix Machado. Nessa prática ainda, o jornalista benguelense acompanhava o curso global do romance popular do seu tempo (Hecquet, 2009, p. 401). Recordemos que, por exemplo, em 1904, Jaurès lançava o L’Humanité com destaque especial para essa secção, tendo nela publicado nada menos que Émile Zola.

Ao impulso ainda forte recebido pelo folhetim nessa época se juntava o gosto pelo mistério, pelo suspense, e pelas figuras retóricas que o sustentam. Ao fazer a viragem para o policial e os géneros de suspense, que se incrementa no período entre as duas Grandes Guerras, como já notara Fidelino de Figueiredo (Figueiredo, 1944), Augusto Bastos assediava o público europeu da colónia, sem deixar de mimar (é o termo) o público local, que seguia pelo mesmo diapasão.

Além disso, havia estímulos económicos. Na época, os angolenses usavam muito o folhetim curto, autênticas pagelas, com capas em que o papel tinha a mesma gramagem que no miolo. Era um produto barato, prático (de leitura breve, além de aliciante), legível e vendável em qualquer lado. Recorriam às pagelas para lançarem títulos rentáveis, assegurados por efeitos imediatos. A publicação, como no jornal, por episódios (cada folheto um episódio) ia garantindo, através do suspense criado sobre a estória seguinte, a fidelização dos leitores, que podiam dispor de alguns tostões por mês para comprar o próximo número. Não era só ambição literária, que também havia, mas uma via para arranjar um suplemento ou complemento financeiros. Augusto Bastos, com as Aventuras policiais do repórter Zimbro, foi dos mais estratégicos nisso: publicou duas ou três aventuras nos jornais da terra e, depois de criado o sucesso e o suspense em torno das seguintes, fez anunciar e fazer noticiar nesses mesmos jornais a saída dos folhetins-pagelas.

Isto não significa inexistência de um projeto e de um propósito literários. A comparação entre as várias narrativas escritas e publicadas por ele revela uma consciência literária definida, recorrente, conservadora, uma espécie de receita realista contextualizada e moralizadora, repetida na medida mesma do seu sucesso naquele modesto meio. Receita que, no entanto, se depurou das primeiras Aventuras (publicadas em 1917 e 1919) para as últimas (publicadas em 1931 e 1932), acentuando o cariz artístico e retirando as notas etnográficas ou históricas, que também não suscitava a diegese.

A receita vinha, segundo Hecket, dos tempos do Segundo Império francês, dominando a segunda fase do romance popular (até 1870). Nela, o herói extraordinário corrige os crimes e, portanto, repõe a ordem. Os crimes não são imputáveis à sociedade, mas a indivíduos sem escrúpulos. Trata-se, portanto, de narrativas populares ideologicamente conservadoras e é mesmo esse o nosso caso, embora com subtilezas que não podemos desprezar.

A principal característica da terceira fase do romance popular, existência de uma condenação injusta (ou, pelo menos, errada) de que o falso réu recupera (mais rapidamente) pelo bom exemplo dado nesse momento difícil, assiste à primeira das Aventuras policiais, intitulada A máscara azul. Aí se acaba descobrindo que uma segunda personagem usou a mesma máscara para se fazer passar pela primeira e a primeira tem, entretanto, um comportamento exemplar na prisão, que suscita a trágica piedade do leitor e corrobora a sua reabilitação moral, ao se descobrir o engano. Na segunda aventura, intitulada O sinal da morte, pelo contrário, o crime descobre-se, os seus autores são castigados, mas as duas inocentes vítimas (o pai, que morre; a filha, que fica órfã e só) sofrem a perda irreparável provocada pelo crime.

Lendo as aventuras do repórter Zimbro no Jornal de Benguela é possível identificar os fios de continuidade que ligam os vários folhetins do autor, além daqueles que derivam das regras do género. Uns são verbais, outros não verbais. Um deles é o da estruturação por pares, ou seja, uma estruturação não verbal. Podemos explorá-la centrando-nos na composição das personagens em pares, aspeto puramente literário, sem que seja intrinsecamente linguístico.

Em A vida nas selvas (1917, 1919) são dois jovens, um filho de colono vivendo no mato e um filho da terra de linhagem nobre e desapossada. Nas Aventuras extraordinárias da epopeia ultramarina portuguesa são Dois heróis de dezassete anos. Nas Aventuras policiais do repórter Zimbro são, também, dois: o próprio protagonista e o seu assistente, Manuel da Silva. Qualquer dos dois, por sua vez, tem uma dupla ocupação.

Dentro das Aventuras policiais outros pares aparecem. Por exemplo: há dois médicos, há dois mascarados com o mesmo disfarce, há dois “negociantes e proprietários europeus” e dois “proprietários africanos”, há dois empregados de um comerciante brasileiro, há um duplo crime (roubo e homicídio), há um par de amantes a envenenar um comerciante rico lesando a sua filha (ou seja: os assassinos são dois e as vítimas são duas).

A pergunta que venho colocar agora é: para que servem tais pares na ficção de Augusto Bastos e, particularmente, nos “episódios” policiais? Sendo mais específico ainda: para que servem na composição das personagens dessas Aventuras ou Memórias policiais?

Vejamos o primeiro par (primeiro porque sempre, ou quase sempre, ocupa o centro da cena e condiciona o foco narrativo). O detetive Zimbro é um jornalista português que Bastos imagina ter vindo para Benguela para acompanhar os grandes exploradores como Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens. Na primeira dessas aventuras (A máscara azul), que então se titulavam Memórias (Memórias policiais do repórter Zimbro), cuja publicação começa a 2.11.1931, é-nos resumido o historial da chegada a Angola de Zimbro (p. 4):

Entre essas pessoas, que passaram a noute no[sic] camara ardente, encontrava se o reporter Zimbro, que para cá viêra de Portugal, enviado por um importante jornal de Lisboa, para o qual trabalhava e que o encarregára de, enviando-lhe periodicamente as suas notas de reportagem, trazer aquele jornal ao corrente dos trabalhos e sucessos das grandes expedições que a Nação á Africa enviára, chefiadas pelos nossos patrioticos exploradores Major Serpa Pinto, que atravessou o continente negro, de Angola á costa oriental, e oficiais da Armada Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, que nessa época, fizeram a viagem de Benguela ás terras de Iaca e mais tarde fizeram tambem a travessia da Africa.

O reporter Zimbro fôra companheiro de viagem daqueles três ilustres exploradores, de Lisboa a Benguela.

Seis dias mais tarde (11.11.1931, p. 4) avança que o repórter ia dedicar ao caso 

a sua atenção e aptidões policiaes, de que era dotado e de que em Lisboa já dêra exuberantes provas revelando-se um autentico e excepcional detective.

E acrescenta, poucas linhas depois:

Como enviado do grande jornal de Lisboa, trouxêra o reporter Zimbro importantes cartas de apresentação.

Em poucos mezes, relacionou se com as autoridades e com as principaes figuras da sociedade de Benguela, o que lhe facultava obter daquelas, sempre que lhe era necessario, as concessões convenientes, para seguir qualquer pista tendente a conduzi-lo á descoberta de algum crime e do seu autor, como por mais de uma vez sucedeu.

No capítulo (VI) e dia (12) seguinte nos apresenta o par do jornalista-detetive:

O reporter Zimbro aliára aos seus trabalhos de reportagem jornalistica e de investigação policial um rapaz africano, inteligente, vivo, chamado Manuel da Silva, com bossa literaria e que de cá costuma de tempos a tempos enviar umas cronicas para o «Jornal do Comercio e das Colónias», e para o «Diário de Noticias», e colaboração charadistica para o «Almanach de Lembranças», e com o qual o reporter lisboeta travou relações poucos dias depois da sua chegada a Benguela.

Rapidamente se estabeleceu entre os dois uma grande simpatia, tornando se amigos inseparaveis e tendo Zimbro encontrado em Manuel da Silva, que se tornou o seu braço direito em Africa, um bom e precioso auxiliar, um leal e dedicado colaborador.

... Como Cangombe e Nestor (nomes, aliás, conhecidos nas primeiras décadas da colonização do sul de Angola, um deles como exímio caçador). Por agora, não preciso dizer muito acerca deste par, além de chamar a vossa atenção para a tendência de adjetivar por pares também, uma tendência verbal convergente. Quanto ao resto, o leitor atento já reparou no mesmo que eu:

1.    Zimbro é português e vem de Portugal já reconhecido e recomendado; Manuel da Silva é “africano”, também jornalista e literato, escrevendo para periódicos portugueses;

2.    o português é o grande detetive e jornalista; o africano é o seu “precioso auxiliar, um leal e dedicado colaborador”;

3.    o português mantém a posição dominante que tem, de facto, na sociedade colonial; o africano instruído mantém a função coadjuvante que detinha na mesma sociedade.

Uma situação parecida encontramos, uma vez mais, em A vida nas selvas (O caçador de leões; Debaixo dum búfalo), onde o tratamento entre os dois jovens protagonistas assinala a posição dominante do filho do colono e a função coadjuvante do filho da terra, de resto confirmada em várias passagens e já referida atrás. Ambos, porém, revelam uma extraordinária inteligência, uma correta sensibilidade ao outro, o conhecimento da língua do outro e a partilha de valores.

O desnível indiciado pelo tratamento entre os dois adolescentes, ou pelo destaque actancial do repórter português, acontece apesar de, nas duas séries de Aventuras (e sobretudo na primeira), ambos os membros do respetivo par revelarem excecionais e idênticas capacidades. É certo que o repórter Zimbro vai muito mais longe e mais depressa que o seu assistente, como sucedia com Sherlock Holmes e Watson (par cuja primeira aventura foi publicada em 1887). Zimbro é mais experiente e viajado, mas Manuel da Silva é também “inteligente, vivo”, tornando-se ambos “amigos inseparáveis”. No caso de A vida nas selvas encontramos outro par de “amigos inseparáveis”, havendo maior preocupação em colocar as suas capacidades no mesmo patamar. Aí, porém, se trata do filho do colono já criado na terra e do filho da terra já crescendo com a presença colonial, ao passo que Zimbro é um reinol e Manuel da Silva cresce, não com a, mas na presença colonial.

Passemos ao segundo par destas “novelas policiais” (assim lhes chamou, também, o Jornal de Benguela na época). O segundo par mais importante para o caso é o dos “dois físicos da terra”, “o dr. Africano” e “o dr. Pinto”. Cada apelido nos remete para uma origem: o Dr. Africano (também escritor e polemista, o mestiço Leonardo Africano Ferreira, que estudou no Recife e em Lisboa) pertence às famílias da terra (no caso, de Luanda). 

Era irmão do antigo professor e advogado provisionario de Benguella – Henrique dos Santos e Silva

- outro polemista, que estudara em Portugal e cujo apelido se articula ao de uma prestigiada família angolense. Quanto ao Dr. Pinto, o nome nos remete para uma ascendência de cristãos novos portugueses – embora não seja obrigatória a conclusão, na verdade muito generalizada, e o que há mais é Pintos em Angola e Portugal sem qualquer marca de novos conversos. Na segunda Aventura (O sinal da morte) o par de físicos é constituído pelo mesmo Dr. Africano e pelo Dr. Semedo. Curvo Semedo era um apelido prestigiado, que os angolenses conheciam bem, incluindo na profissão de médico (então chamado “físico”). Na estória, o Dr. Semedo é o médico assistente do comerciante envenenado, mas não dá com o estranho caso, que só o repórter Zimbro, com o apoio de Manuel da Silva, irá deslindar. Apresentando uma grande seriedade e humildade, ele diz que precisa de consultar o seu colega, o Dr. Africano: “o meu ilustre colega é um físico abalizado” (BASTOS, 1931, p. 6). Claro, o que o torna mais abalizado ainda é que um médico português bem cotado afirme isso dele e, só por esta ilustração, já se vai percebendo uma das funções da criação de pares nos folhetins de Augusto Bastos.

Com os médicos encontramos o ponto de equilíbrio entre as duas componentes daquela sociedade colonial – a africana e a europeia. Ambos são bons “físicos”, a competência do Dr. Africano é reconhecida pela cidade e pelo seu colega Semedo, igualmente sério, dedicado, competente. Curiosidade biográfica, ambos são de uma ciência de que o repórter Zimbro e o próprio autor detinham alguns conhecimentos.

Um terceiro par a considerar é o duplo par de proprietários no começo de A máscara azul (1931). Entram em cena logo no princípio, deixando de ser úteis nos capítulos seguintes. Eis a sua entrada (p. 6):

Não tardou tambem que alguns visinhos mais chegados, atrahidos pela gritaria, e entre eles os antigos negociantes e proprietarios europeus Coimbra e Carmo, bem como os proprietarios africanos Antonio Lemos e Antonio Marques.

Observação para notar entretanto é a de que os nomes das personagens aparecem também como duplos: dois europeus de quem sabemos só o apelido, começado por C em ambos os casos; dois africanos, de quem sabemos nome e apelido, começando ambos os nomes próprios por A. Mais um indício de que a estruturação em dois, em duplos ou pares, é muito profunda, e sistemática no processo criativo do autor.

É notório, ainda, que os comerciantes sejam europeus e faz sentido que, por isso, nos dê o seu apelido em vez do nome. Esse era um hábito no comércio (dominado por europeus), onde, geralmente, os apelidos davam nome às firmas e os comerciantes eram mais conhecidos e tratados pelos apelidos do que pelos nomes próprios (o tratamento pelo nome próprio implicava já uma proximidade maior entre os interlocutores). Os dois africanos são proprietários e não se nomeiam como comerciantes. Isto corresponde a uma distribuição  social comum na época.

Em A máscara azul, entre os proprietários, é um dos europeus que toma sempre a dianteira, faz as perguntas às personagens e, no geral, decide ou ordena. É também ele que, depois das informações e das sugestões de Vitorino, dá a ordem final de irem buscar “o Dr. Africano” a casa do comendador Lagos. A ordem final é dada a dois empregados do negociante brasileiro assassinado e roubado (Jacinto da Cunha – a maioria dos nomes das personagens é também constituída por pares). Por acaso, também estes dois operários são apresentados com nome e apelido, começando os apelidos pela mesma letra (M). Se, por aí, há coincidências assinaláveis, há uma diferença muito significativa: é que os empregados se limitam a cumprir, automaticamente, mecanicamente, as ordens, encaixando assim, por automatismo, a sua função diegética na norma que lhes estava prescrita por aquela sociedade.

Usando a ‘teoria dos papéis’ da Psicologia Social, observamos que o autor fez coincidir aqui dois tipos na atuação destas personagens: o papel desempenhado pelos pares corresponde ao prescrito e pode supor-se que, também, ao subjetivo (Almagia, 1998, pp. 62-63), mas o cumprimento das ordens por automatismo leva a pensar num comportamento amorfo, numa ausência de acordo subjetivo com a norma, ou seja, leva a pensar em mera e cega obediência, numa obediência à partida, na mera obediência à prescrição (do género: ao aceitar este emprego, é tácito que sigo as ordens que me dão sem pensar nelas ou, muito menos, me pronunciar acerca delas). Era de esperar, da parte de empregados e naquela sociedade, mas a coincidência torna-se notória (porque passa a incluir o tipo subjetivo) no caso de Manuel da Silva e de quase todos os coadjuvantes acima de um certo nível social (acima do nível mais baixo). Os diálogos entre Manuel da Silva e Zimbro, por mais de uma vez, espelham a perceção (e teste dessa perceção) do coadjuvante relativamente à imagem que ele pensa que o protagonista possa ter de si. O adjuvante experimenta-a no diálogo e, por isso, o diálogo permite manter a relação dos dois dentro de balizas que o coadjuvante assinala também. Essa é a sua margem, mínima sem dúvida, de participação na prescrição – correspondente à que detinha naquela sociedade. Pela concordância dos três tipos de papel (prescrito, subjetivo, e de concordância ativa), a que se dá o par principal do enredo, se provoca também a semiose utópica do folhetim, pois isso elimina qualquer conflito (Almagia, 1998, p. 64) por via da constituição de um grupo primário (Almagia, 1998, p. 65) que faz e negoceia (assim, limitadamente para o coadjuvante) a metonímia da ordem social.

A proliferação de pares, acontecendo com tanta frequência e nos mais variados níveis, denota sem dúvida uma espécie de mola criativa do escritor. Em qualquer autor podemos estudar esse tipo, quantificável, de mola criativa. O filósofo português Álvaro Ribeiro, por exemplo, tende a desenvolver os seus parágrafos por pequenos passos de raciocínio realizados em três etapas, uma espécie de repetição estilística das operações do silogismo. Num campo diferente, os informáticos criaram sistemas e programas complexos baseados em combinações as mais variadas com o número 1 (positivo) e o não-número 0 (negativo). Muitos poetas, ao contrário, centram-se nas unidades singulares, únicas, obsessivamente rodando em torno de uma personagem, um tipo de ação e de episódio, uma característica psicológica explorada até aos limites, uma metáfora-mãe para a qual as outras todas são conduzidas, enfim, tendem para compor por isomorfismo e isotopia, como as abelhas em torno do mel. No teatro, por uma regra que se universalizou (ou já o era antes de ser explícita), há o solilóquio (concentração da fala numa só personagem, à qual pode ser reduzida toda uma peça) e o colóquio, sendo que, neste último, habitualmente as personagens conversam por pares, embora haja muitas peças em que os diálogos entre três personagens (uma delas podendo ser coletiva – ou coro) se prolonga durante bastante tempo. Augusto Bastos, pela tendência que manifesta para números pares, aproxima-se do cânone teatral ao reduzir, em geral, os diálogos a duas personagens.

As razões profundas dessas molas criativas, a psicologia não se deparou com elas ainda, pelo menos até onde conheço. No caso de Augusto Bastos, o par marca forte presença mesmo na biografia: escreveu duas etnografias ou monografias (uma de Benguela, outra da Catumbela[72]), deixou-nos um par de aventuras africanas emparelhando com aventuras coloniais, casou-se duas vezes e das duas vezes teve filhos, esteve ligado profissional e politicamente a duas Câmaras Municipais, as suas parcerias profissionais foram sempre com mais uma só pessoa. Há, portanto, uma co-incidência, entre a recorrência da estrutura paralela na sua vida e na sua obra. Mas não sabemos o que leva um escritor a decidir-se por estruturas paralelas, ou isomórficas, ou triádicas.

Na obra literária, em princípio, uma tal recorrência não nos assinala só a mola criativa, nem é mera coincidência. Ela provoca uma semiose própria, permitindo e suscitando relações plausíveis e significantes com a realidade social, por analogia.

Se repararmos, tirando os pares de “físicos”, em todos os outros a composição por pares, para além de mola criativa do autor, apresenta-nos o quadro social típico da cidade colonial e de forma utópica.

É verdade que Benguela se dividia em, pelo menos, três grupos, por assim dizer sociais: o dos comerciantes e proprietários muito ricos (a 'classe alta'); o dos altos funcionários e profissionais de profissões liberais e comerciantes e proprietários que viviam desafogadamente (a 'classse média'); o dos pobres ou remediados, que era a maioria esmagadora da população, desde os serviçais e criados até microempresários, como hoje se diria. Também, classificando quanto à origem, tínhamos três grupos pelo menos: o dos vindos de fora; o dos que nasciam naquela cidade, ou nas cidades; o dos oriundos do interior, ou do ‘mato’. Geralmente se classificava, ainda, a população quanto à cor da pele, considerando-se três grandes grupos: brancos, mestiços e negros. As fronteiras entre estes vários grupos eram diluídas, porosas e eles se cruzavam. Apesar dos ‘rigorosos’ preconceitos e das injustiças, que desde o berço limitavam uns fisicamente e outros moralmente, era difícil, por vezes, saber se um alto funcionário estaria mais ao nível dos grandes proprietários do que dos médicos ou dos advogados, ou se estes não eram também riquíssimos proprietários e empresários; era difícil definir alguns como brancos ou mestiços (muitas vezes um mestiço claro e com cabelo mais liso passava por branco), definir outros como negros ou mestiços (muitas vezes se confundiam mestiços escuros, ou cafusos, e negros e, muitas vezes também - como no caso de Pedro da Paixão Franco e de Geraldo Bessa Victor - um negro tinha uma das suas origens num colono branco). Era mesmo difícil delimitar com muito rigor a fronteira a partir do local de nascimento, pois os filhos da terra e de colonos, havendo dinheiro, podiam nascer fora da colónia, mas viver ali sempre, indo só nascer fora. De igual modo, um filho de colono e um ‘filho da terra’ nem sempre se integravam no mesmo grupo em todos os outros aspetos, apesar de ambos terem nascido ali. Também entre os que nasciam no interior ou na cidade colonial a fronteira se diluía, muitas vezes um filho da cidade ia nascer, por acaso, no interior, e uma grávida vinda do interior podia ter um filho, por acaso, na cidade. Estas classificações são todas relativas, porque falamos de algo muito mais fluído que definido, a própria vida humana em decurso imprevisível.

É pela necessidade de examinarmos em pormenor as relações entre as diversas partes, ou cristalizações, que nos atemos a classes bem definidas, as quais derivam de generalizações e cortes sincrónicos operados em cima de um rio, de águas correntes, para operar sobre elementos artificialmente isolados. A base para isso é que havia pessoas que se definiam e se podiam definir (havia reconhecimento social dessa definição) como pertencendo aos mais poderosos, aos mais ricos; outras eram nitidamente quase escravos, muito pobres. Há, portanto, ‘substância’ social para cada grupo ou classe, não se conseguindo, porém, fronteiras definidas. Entretanto, para nos orientarmos em progressão geométrica no conhecimento do passado, erigimos as tais classes e grupos e, no caso de Angola, sempre falamos em três – o que julgo ter exemplificado bem.

Aí é que entram de novo os paralelismos de Augusto Bastos e marcam diferença. Nas suas ficções há a perceção de três grupos, sem definição muito rigorosa entre eles, mas os pares que vai constituindo como personagens para as suas intrigas estão afetados apenas a dois grupos: os dois mais endinheirados e bem colocados na escala social, havendo uma vaga correspondência dessa colocação com a cor da pele (com domínio da cor intermédia na classe intermédia e da cor mais clara na classe mais alta - na qual entretanto vemos proprietários "africanos"). A cor de pele é, por vezes, nomeada brutalmente, sobretudo quando se refere uma pessoa pobre, que está no fundo da escala social e é escura: “preto”, “preta” (o mesmo termo que usaram para designar a mãe do autor no registo de batismo). Os ‘indígenas’, ou ‘gentios’ – apesar de várias vezes se defender a sua dignidade e a sua cultura (sobretudo nos ensaios) – são também nomeados de quando em quando e com expressões diacríticas, tal como acontece em O segredo da morta, de Assis Júnior. O tratamento “preto”, ou “preta”, despersonalizam a figura, transformam a possível personagem num simples figurante (que não precisa de nome, faz parte do cenário) e num autómato (dado que apenas age, não se lhe trabalha a psicologia própria). Para a intriga destas Aventuras, os pobres e escuros formam o pano de fundo, o cenário por trás da ação. A intriga desenrola-se, claramente, no segmento colonial, adjuvado pelo intermédio, que se mistura com ele por intermitências. 

Os posicionamentos sociais, assinalados ao nível da expressão linguística, emparelhando com os enquadramentos de Augusto Bastos, eram típicos da sua própria colocação social, integrando-se nos “africanos”, “filhos da terra”, geralmente mestiços, ocupando uma função intermédia e podendo exibir um estatuto intervalar, com pelo menos um antepassado oriundo da Europa, ou do Brasil, ou branco – mas sempre antepassado proprietário, ou negociante, ou alto funcionário (militar ou civil, para o caso tanto faz) – e dominando, o intermédio ou africano, a língua, tanto quanto os códigos sociais da classe dominante (no caso: do colonizador). É neste sentido, julgo, que Augusto Bastos discursa perante o Ministro das Colónias em 1929 e que O intransigente (um jornal colonial) o adjetiva como “representante da população africana da cidade” (O Intransigente, 1929, p. 4).

No seu caso, como sabemos, era filho de um negociante e proprietário português, que enriquecera entre nós, benguelenses, e de uma menina da terra cuja origem desconhecemos (o processo que os une, um ‘hábito da terra’, é referido e descrito em qualquer das duas aventuras). A personalidade materna é, no mínimo, obnubilada pela ficção paroquial e nos escritos do autor. À mulher e à africana, nesse espaço e nesse tempo, não reconhecia a burocracia o completo estatuto de ser humano, com família, origens e personalidade a levar em conta. No registo de batismo a mãe era, apenas, a “preta Lauriana”, que não sabia assinar o seu nome. Quanto aos pais dela, “ingnora-se [sic] o nome dos avós maternos” (e ninguém lhe perguntou?). A madrinha tinha nome ‘cristão’: “Marianna Clara da Silva” (até mais de cristão novo…), sendo natural de Luanda. Podemos, portanto, aventar a hipótese de também a mãe do escritor pertencer a famílias angolanas da zona de Luanda, portanto não oriunda propriamente do ‘gentio’, do 'mato', mas daquela sociedade intermédia que vinha sendo constantemente espezinhada e, quando possível, proletarizada, a que pertenciam tanto Augusto Bastos quanto Assis Júnior, fossem eles mais escuros ou mais claros. Mas essa origem materna é mera suposição minha. De resto, a madrinha também não sabia ler – facto comum, mesmo nas grandes famílias angolenses do século XIX e apesar do avanço que teve o ensino, nas cidades coloniais, a partir do liberalismo. A mãe de Maia Ferreira, por exemplo (que se matrimoniou no ano de 1823, mas pertencia a uma família com juízes e letrados de várias gerações), não sabia ler e pertencia, no entanto, à mais poderosa rede familiar de filhos da terra nesse tempo, com ramificações para o Rio de Janeiro e, até, Recife, além das portuguesas (Pacheco, 1990; Soares, 2023).

Facto comprovado pelo seu labor intelectual é o de Augusto Bastos conhecer bem as várias povoações e populações do interior, a língua umbunda (umbundu) e as culturas populares dessas regiões – tanto quanto conhecia e dominava, mais que muitos colonos, os códigos, as ciências, as técnicas e a língua do grupo dominante. Ou seja: quer pela ascendência, quer pelo saber, ele se colocava também nas comunidades intermédias, ou de fronteira, das cidades coloniais angolanas e podia, se quisesse, dar uma personalidade ficcional a um indígena (como fez na série A vida nas selvas), tanto quanto a um colono pobre (podiam sê-lo os empregados de Jacinto da Cunha, como podiam ser africanos). Mas a visão, realista e conservadora, que nos trouxe dessas cidades, através dos pares de personagens que inventou, é a visão dos dois grupos onde se inseriam, por um lado, o seu pai e, por outro, ele próprio. O que torna mais estranho ainda que um terceiro grupo, ou classe, fique na qualidade de ‘massa’ anónima, agindo fora de qualquer personalização. Só a recorrência obsessiva do par pode, aparentemente, justificar esta redução, que no entanto se articula ao apagamento da mãe no registo de batismo e na obra, tanto quanto se articula às críticas ao elitismo de alguns filhos da terra feitas por Pedro da Paixão Franco em História de uma traição.

Não é, tão só, uma visão realista (apesar de Eça de Queiroz relegar ao mesmo pano de fundo as raras personagens pobres que refere – em muito menor número do que as de Camilo Castelo Branco). Por um lado, por ser redutora (reduzindo o panorama a dois grupos principais e uma espécie de sombra de fundo que era a vasta e vaga classe desfavorecida), não se dá aqui uma visão completa. Também não é realista por idealizar as relações entre os dois grupos, não sei se por utopia colonial ou se, como Assis Júnior, estratégia visando salvaguardar o que fosse possível da margem de manobra dos ‘filhos da terra’ nesses tempos.

Por isso nos mostra, sobretudo, europeus e africanos com habilitações e capacidades idênticas, trabalhando juntos em prol do mesmo objetivo (o desenvolvimento), corrigindo malévolas atitudes individuais, como tinha sido característico do romance popular no Segundo Império francês. Apesar da paridade, não toca (nem as suas personagens o fazem) no domínio dos europeus sobre os africanos, que o aceitam e se prestam ao papel de colaboradores, nem (menos ainda) no domínio dos ‘senhores’ sobre os seus, passe a metáfora, vassalos. Ele, que foi preso por nativismo, demitido compulsiva e ilegalmente da presidência da Câmara Municipal (Prefeitura) de Benguela, não quis arriscar mais. Ilustrava o que pretendia (que lhe reconhecessem a dignidade) através do respeito paradigmático de cada membro do par pelo outro. Esse respeito pela dignidade do outro assinalava a idealização da relação de subserviência com margem de manobra para os sub-servidos, através da lembrança do respeito mútuo, recordando aos colonos um dever urbano que os caracterizaria antes. Resulta, por isso, a redução a pares numa utopia colonial, como observou Cátia M. Costa (Costa, 2015). Sim, mesmo sendo apenas estratégica, a estratégia passava por criar essa utopia. Uma idealização cuja distopia a própria vida do escritor se encarregou de fazer...

Entretanto, o que me interessa mais aqui é verificar o que assegura, na constituição das personagens por pares e, portanto, artisticamente, o que cimenta ou solidifica a proposição do respeito ideal entre europeus e africanos. Quais os recursos artísticos que lhe garantem uma semiose da utopia imperial em versão africana.

 

Funcionais e convergentes

Quando falo em pares, é claro, penso em grupos de dois. A relação entre duas pessoas (em que se inspira qualquer escritor para constituir um par de personagens) assume vários aspetos, e daí podemos extrair vários tipos de pares. A tipologia que me parece funcionar nas Aventuras de Augusto Bastos é, primeiro, a de pares funcionais ou disfuncionais. Em geral, os pares estatuídos pelo escritor benguelense são funcionais e no preciso sentido em que, ambas as pessoas, estão envolvidas na mesma ação, com propósitos coincidentes, e colaboram, com sucesso, para a efetivação desses propósitos.

Os pares funcionais e disfuncionais podem ser convergentes ou divergentes. Um par funcional divergente é, por exemplo, aquele em que duas pessoas trabalham por métodos opostos e, até, com objetivos opostos, alcançando, porém, um resultado coincidente ou comum. Num campo diverso, o já citado par 0-1 (ou vice-versa) é um par divergente (negativo-positivo), mas funcional, na medida em que pela sua combinação se constroem estruturas complexas e funcionais. Um par divergente e disfuncional, esse, geralmente, é causa para divórcios…

Os pares de personagens apresentados por Augusto Bastos se mantêm, porém, convergentes e funcionais (em matemática, seriam pares 0-0’, X-X’ e não X-Y ou 0-1). Eles agregam-se com objetivos idênticos, possuem uma idêntica moral e dirigem-se para a mesma meta dentro da mesma cronologia, assegurando assim o alcance dos objetivos. A sua disponibilização como personagens estáticas, previsíveis dentro do modelo moral e costumeiro do autor e dos leitores, alivia a intriga, torna-a mais simples e garante uma atuação mais eficaz, sem recuos, dúvidas, protelamento de decisões ou de ações, problemas de consciência, tormentos filosóficos. São personagens ‘práticas’ e, também nisso, modelares para aquela sociedade, para os seus leitores previsíveis.

A tendência para a máxima redução, máxima economia de recursos e páginas também, típica do folheto como do cordel, estende-se à ação. De maneira geral, ela não se complica de qualquer outra forma. Há, somente, um tipo de final, que se protela, como no final dos concertos do fim do Romantismo, em que o remate, o fecho da peça, ia repetindo-se numa espiral de intensidade acrescida até parar bruscamente. Chegado ao desenlace, Augusto Bastos arrasta por um pouco o remate, acrescentando mais uma peripécia (por exemplo, a fuga do assassino de Jacinto da Cunha quando foi apanhado a primeira vez; o melodrama após a descoberta do casal envenenador em O sinal da morte – que termina com mais mortes), explorando ao limite a intensidade final da narrativa, a sua expectativa. Naquela sociedade complexa, diversa, tensa, tudo se passa como se existíssemos numa inteira normalidade e confiança, reposta sempre no fim. Desta forma, como no romance popular associado ao Segundo Império em França, garante-se, além da utopia, o costumismo e conservantismo desejado pela classe dominante. Prolongar o suspense final é, para além de usar uma tática folhetinesca, acentuar o inevitável retorno à normalidade social.

Um último fator importante havemos de levar em conta, relativamente a este ponto, que diz respeito à semiose utópica mas, igualmente, à conservadora – porque se trata aqui, um tanto contraditoriamente, de uma utopia conservadora. Como na cena em que os vizinhos aparecem depois da morte do comerciante Jacinto da Cunha (em A máscara azul), as ações e as decisões cabem geralmente aos europeus. Os africanos agem só por execução de ordens, ou decisões, dos europeus. A única exceção de relevo é a de Matilde, filha de um riquíssimo fazendeiro português e de uma mulher africana (aí é que Augusto Bastos aproveita para resumir e caracterizar o processo que lhe deu origem, igualando-se a Matilde nesse aspeto, como suas irmãs). Na qualidade de filha, vendo o pai (casado já com uma europeia, mais nova do que ele) morrer aos poucos, sem ninguém descobrir a causa da moléstia fatal, era necessário que tomasse uma decisão, que tivesse alguma iniciativa para salvá-lo. Mas a decisão que tomou foi a de pedir apoio ao repórter Zimbro. De acordo com os padrões ali reservados à mulher e ao africano, ela nada investigou ou descobriu por si própria, transferiu a ação para o protagonista, europeu exemplar (e nestas Aventuras há europeus nada exemplares), assumindo o papel de destinadora e, logo em seguida, passando a coadjuvante. É na função de coadjuvante, na esteira das indicações de Zimbro, que ela descobre a chocante verdade sobre o envenenamento do pai.

O realismo redutor e convencional (ou conservador) de Augusto Bastos assegura assim que a intriga se desenrole sempre entre europeus: eles é que decidem, eles é que protagonizam as ações boas e más, eles é que engendram os enredos e os descodificam, entre eles estão malfeitores e benfeitores, as causas das afrontas do Mal e das vitórias do Bem. Todo aquele enredo é uma ‘maka de brancos’. O que também reflete a realidade social envolvente e, por tabela, vai livrar as personagens intermédias de conotações negativas. Essas atuam sob orientação dos europeus moralmente louváveis. Se algum africano ajuda um malvado europeu, será da classe inferior, morando no subúrbio pobre onde se esconde o assassino e se mitiga a fome seja de que modo for, porque o miserável não tem quaisquer alternativas. A classe intermédia, na qual o autor se integra, é tendencialmente boa, só dá o seu contributo a favor do Bem. De onde uma leitura subtil pode concluir que um futuro melhor havia de passar por ela… 

A comunidade, ou grupo intermédio (em que o autor e Matilde e Manuel da Silva e o Dr. Africano se integram), estava em nítido recuo nesse tempo, mesmo em Benguela. Os censos populacionais indicam uma diminuição da percentagem de mestiços em face do aumento dos colonos e filhos brancos, e do previsível aumento dos "pretos" urbanos. Estes últimos acumulavam a miséria com as derrotas dos últimos reinos independentes, por exemplo o do Bailundo, com revoltas que serviram de alibi para acusar injustamente Augusto Bastos de organizar um movimento de ‘mata-brancos’. Por sua vez, a comunidade intermédia, na qual o escritor se integrava, como os ‘negros’, estava economicamente enfraquecida pelo fim do comércio da borracha, que dera autossustentação aos reinos umbundos (umbundu), especializados no comércio no interior de África, permitindo-lhes substituir os lucros do tempo da escravatura por algum tempo. A ocupação de postos de chefia no aparelho de Estado, coincidentemente, fugia cada vez mais das mãos dos filhos da terra – com honrosas e solidárias exceções. Os processos fraudulentos e ilícitos de apropriação de terras eram mesmo como descritos por Assis Júnior no Relato sobre os acontecimentos de Ndalatando e Lucala, reportados de quando em quando por algum artigo discordante no Jornal de Benguela, a propósito das revoltas do Seles e do Amboim. A altíssima taxa de juro do Banco Nacional Ultramarino reforçava o endividamento dos empresários e proprietários locais, enquanto a internacionalização do comércio, que eles não tinham condições para acompanhar, os asfixiava mais ainda. Finalmente, Norton de Matos representava, ao mais alto nível da hierarquia oficial, o intuito, agora republicano, de destruir o segmento crioulo de Luanda e Benguela, promovendo uma nova colonização, branca e europeia, que o salazarismo levará até onde lhe permitiram os seus medos (de que a população branca declarasse a independência), numa aceleração de branqueamentos (populacional, cultural, educacional, organizacional, administrativo, empresarial, eclesial) nunca antes vista.

Neste quadro, a realidade social de Benguela era gerida e movida pelas intrigas, decisões e ações dos colonos. O papel dos filhos da terra (já para não falar nos ‘indígenas’, com duplicidades estratégicas divergentes) era o de meros coadjuvantes (ou, quando muito, cautelosos e disfarçados oponentes) nessas intrigas a que se foi chamando, cada vez mais pomposamente, a construção do Império português em África. O que importava era a funcionalidade, mais que a identidade, era estar-ali, estar-com, estar junto ao colono, agindo com ele ainda que sem decidir, para manter algum espaço de manobra, de sobrevivência mesmo, que permitisse, na melhor das hipóteses, proporcionar estudos aos filhos e uma colocação razoável (intermédia) na administração pública. Nesse jogo de sobrevivência, junto ao novo poder económico e ao antigo poder político, os ‘indígenas’ eram a massa amorfa, indistinta, usada sem qualquer prurido pelos colonos e com a qual os filhos da terra não se podiam conotar, sob pena de serem acusados de ‘mata-brancos’ e de ‘selvagens’. A única forma de os ajudar era defender (em nome do Império, sempre) a sua ‘civilização’ pela extensão do ensino e do trabalho assalariado a todo o território da colónia.

Foi esta a posição comum a Assis Júnior e à Liga Nacional Africana (dos anos 1930) que Augusto Bastos retratou, com tanto realismo quanto conservantismo, nas Aventuras policiais do repórter Zimbro. Entretanto, numa coincidência mais com a sua biografia, fez a ação passar-se em 1879. Tratava-se de colocar a ação dos pares num período no qual os filhos da terra, apesar de tudo, detinham ainda uma posição na hierarquia da cidade colonial. É por isso que, a partir dos mais variados motivos, Augusto Bastos nos expõe o que era a vida naquele tempo, sublinhando implicitamente (não chega isto a ser um paradoxo, sublinhar implicitamente) as relações respeitosas entre colonos e angolenses, que se foram deteriorando até ao ponto denunciado por Assis Júnior em 1917 e, pouco antes, na Voz de Angola clamando no deserto (1901).

Assim o autor nos propõe um grande par, implícito sem dúvida, o par ‘antigamente-hoje’, que é distópico e divergente, mas se poderia tornar funcional caso o ‘antigamente’ pudesse corrigir o ‘hoje’ – uma utopia, sem dúvida, mais ingénua que a maioria das outras. Era um ‘antigamente’ mau, de dominação, mas uma dominação mais atenuada, em que os filhos da terra tinham papel, ou seja, margem de manobra – o que deixara de acontecer entretanto. E, nesse aspeto, seria produtivo igualmente fazermos a comparação com O segredo da morta, que se passa, mais ou menos, na mesma altura, no Dondo. Em ambos os casos, porém, o par distópico, disfuncional e divergente pode ser apresentado a uma sociedade colonial e preconceituosa como lembrança intencional, maneira subtil do subordinado chamar a atenção do chefe para a despromoção de que tem sido vítima, apesar das suas qualificações e prestações.

 

Francisco Soares, Porto, 11 de abril de 2026. 
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NOTAS

[1] Como realidade psicológica em movimento, a semiosfera corresponde mais à forma da espiral. Uso porém o termo tal como conceituado e nomeado por I. Lotman (Lotman, 1996).

[2] Que não era politicamente um conservador, assumiu-se um seguidor de Eudóxio César Azedo Gneco, protagonista mais saliente do primeiro Partido Socialista Português.

[3] Atente-se ao título: Relato, como os documentos seiscentistas. A correlação não é fortuita, pois o texto possui uma estrutura que recorda a dos relatos.

[4] Há colegas que estranham que se use, em textos de pretensão rigorosa, de âmbito académico, vocabulário comum, quotidiano, vulgar. É um erro de comunicação deixar de usá-los. O que se pretende será também rigor linguístico, rigor no uso e definição dos termos (que o próprio uso num texto refaz). A palavra ‘bitola’ tem uma semântica bastante clara: medida, padrão, forma fixa, dimensão convencionada. O modernismo começou por investir contra bitolas, padrões, formas fixas, mas a receção e o re-uso do modernismo – como sempre acontece – fixaram padrões de comportamento, soluções estilísticas, linhas vermelhas e azuis, enfim, fixaram um novo padrão, bitolaram a revolta, com o que a asfixiaram. Os escritores angolanos das primeira quatro décadas do século XX preferiram manter a padronização prévia, reformulando-a pontualmente, sem a desestruturarem.

[5] Sempre quer dizer ao longo do tempo. Momentaneamente a não fizeram alguns angolenses, inaugurando ou reforçando as reivindicações de independência.

[6] Augusto Bastos morre em 1936; na verdade essa onda começara antes e com ele contribuindo decisivamente, no que aos filhos da terra diz respeito.

[7] Janeiro de 2026.

[8] Fizesse, embora, renascer das cinzas outro título.

[9] Governou Benguela de 9 de abril a 22 de novembro desse ano. Loforte fez o índice dos números e conteúdos do BO de 1863 a 1866 (Pombo], 1934), na sequência do trabalho de Luís António de Figueiredo. Um quase homónimo (“José Loforte”) foi capitão-mor de Inhambane, pelo menos nas décadas de 1860 e 1870. Uma Dona Ana de Aguiar Loforte foi sepultada no cemitério do Alto das Cruzes, no último terço do século XIX, sendo filha de Manuel Alves de Castro Francina (morreu de tuberculose pulmonar, com 27 anos; ou era filha de uma Loforte, ou se casara com um Loforte, pois era casada e… parda). Isto parece implicar a ligação de Loforte aos filhos da terra. O sobrenome pode ser de origem italiana. Um Luís Carlos Loforte, “Alferes do Batalhão da Infantaria de Linha”, fora nomeado, a 10.9.1851, “para a 3ª Divisão de Golungo Alto”, sendo exonerado de Comandante da 3ª Divisão do Golungo Alto pelo mesmo governador, a 15.6.1852.

[10] Nome polémico ainda nesses anos, chefiou vários concelhos e a sua atuação foi referida várias vezes em A Civilização da África portuguesa, de Monteiro de Castro e Alfredo Mântua. Por denúncias feitas contra ele, teria perseguido vários cidadãos, enquanto chefe do concelho do Golungo Alto, como se refere no n. 10 do periódico. Confronte-se também com os comentários a um ofício do “sr. Loforte” no n. 15 desse periódico.

[11] Entre os nomes aparecem os de Augusto José Moreira Bastos, Manuel Tadeu Pereira Bastos e Eduardo Braga. Eduardo Braga viria a tornar-se bastante rico também, um tanto polémico, e teve por advogado Pedro Félix Machado (Machado, sd), para se defender de falsas acusações a que me refiro neste texto. O abaixo-assinado saiu no jornal O Mercantil, de José Pinto da Silva Rocha, que por acaso havia servido uns anos antes nos Armazéns Nacionais de Benguela, nomeado a 19.7.1866.

[12] O jornal de José Pinto da Silva Rocha vinha na sequência d’A Civilização da África portuguesa, recolhendo nos anos iniciais colaborações de vários dos envolvidos n’A Civilização, como Urbano de Castro e Pinheiro Baião.

[13] Conforme publicação no Boletim oficial 52 (27.12.1873), p. 610.

[14] BO 1 (1888.1.7), p. 15 ; BO 6 (1888.2.11), p. 98.

[15] BO 22 (1888.6.2), p. 368.

[16] BO 9 (1889.3.2), p. 151-152.

[17] Embarcação á vela, rápida, fácil de manobrar, usada desde o século XVII por essas caraterísticas. Havia muitas em Angola, servindo para navegar em percursos curtos, junto à costa. Podia servir, o cutter, para levar mercadorias da sua e de outras fazendas até Benguela, onde seriam vendidas.

[18] BO 23 (1896.6.6), pp. 366-367 ; BO 24 (1896.6.13), pp. 380-1.

[19] Na lista de nomes da leva de 1849, de colonos vindos de Pernambuco, surgem José Pereira Bastos e Maria Joaquina Pereira de Bastos, mas não Manuel Tadeu, que, a julgar pelas datas indicadas, contaria seis anos de idade, ou cinco (dependendo do mês em que nascesse). Nesse caso teria ido com os pais, mas o seu nome não surge nessa lista, nem em nenhuma das seguintes.

[20] Não confundir o largo de Santa Justa com o lugar onde se encontra o elevador de Santa Justa. Na última rua das que se cruzam com a de Santa Justa (que saí direita do elevador), a rua dos Fanqueiros, é que fica o largo de Santa Justa e o Pelicano situava-se aí, na rua dos Fanqueiros, onde ficava uma igreja dedicada à Santa. Quando Augusto Bastos nasceu, o Pelicano era muito bem frequentado, nele se alojando a alta nobreza e a mais distinta burguesia. Localizava-se onde antes funcionara o Teatro D. Fernando (1849-1860), no lugar da dita igreja de Santa Justa, que deu nome ao largo. O edifício do teatro foi destruído para se construir aquele em que se instalou o hotel. Confira-se os dados na hiperligação https://restosdecoleccao.blogspot.com/2023/11/theatro-de-d-fernando-em-lisboa.html e bibliografia lá referida, como na Lisboa d’outros tempos, de Pinto de Carvalho (Tinop), vol. I («Figuras e cenas antigas»), impresso em Lisboa, pela Parceria A. M. Pereira, em 1899.

[21] Por gralha está lá “milhares” em vez de “militares”.

[22] Recorde-se que a figura de Henrique de Carvalho era “simpática”, a de Geraldo António Victor “imponente”. A do repórter Zimbro, por acaso talvez, une atributos das duas, sendo dado como robusto e também de “simpática figura”.

[23] V. os números de 9 e 16 de Julho.

[24] Filho de um poeta muito conhecido, e jornalista, em Luanda, hoje desconhecido e que, no começo da sua vida colonial se postou contra José de Fontes Pereira, Carlos da Silva e outros, pelo seu nativismo. Chamava-se Alberto Correia, o pai. Penso que a rua Alberto Correia, em Luanda (Vila Alice), mantém o seu nome até hoje. Alberto Correia de Freitas Silva e Carvalho, homem de famílias nobres portuguesas, nasceu a 4 de janeiro 1861 no Porto. Poeta, jornalista e agrimensor, viveu a maior parte da vida em Angola, por cá teve seus numerosos filhos e faleceu em Luanda, onde foi sepultado, a 17 de junho de 1941.

[25] V., por exemplo: 112 (17.4.1914)  116 (8.5.1914), p. 1.

[26] De 2 para 3 de junho (Victor 1975, 16). O episódio foi retratado em O angolense, em dois artigos citados aqui (sob o mesmo título: «Para a história das intentonas»).

[27] Segundo Cátia Costa, a 28.9.1912 subscrevera (ou escrevera) “Mensajem do grupo de africanistas residente na Catumbela”, que publicou a “29 de Janeiro de 1913 no Jornal de Benguela, aquando da visita do então Governador Geral, Norton de Matos” (Costa, Augusto Bastos: discursos intercomunicantes entre o real e o ficcional 2011, 137, AAVV, Mensajem do grupo de africanistas residente na Catumbela 1913). Era mensagem em que se declaravam portugueses “de coração”, ao mesmo tempo que africanos e africanistas. A mensagem era cordata mas com reivindicações e a simples apresentação de um texto em nome de um grupo africano levantava suspeitas.

[28] Centrada na crise da borracha e na proposta de medidas para a sua superação.

[29] “o grande libertário russo, intransigente adversário do militantismo e da sua ação nefasta, que sempre tem combatido nas suas obras soberbas” (Anónimo, Kropotkine e a guerra 1914).

[30] Augusto Bastos anota em nota assinalada por asterisco: “Vêde a ironia!”.

[31] Geraldo Bessa Victor diz que ele recebera na infância e na adolescência “a base de princípios conservadores” (Victor 1975, 16).

[32] Seria, “pela sua maneira de ser e de agir”, sensível “às correntes ideológicas mais progressistas, consideradas de «esquerda»”. (Victor 1975, 16)

[33] Ficou preso oito dias apenas (apenas se levarmos em conta a gravidade da acusação, que logo se verificou não ter fundamento, e as prisões dos nativistas a norte, sobretudo António de Assis Júnior, amigo de Augusto Bastos). Não só foi curta, a rápida soltura terá beneficiado do apoio de colonos maçons, integrantes da mesma kuribeka de Bastos, animada ou reestruturada sob orientação remota de José de Macedo. Foi também rápida a recuperação e reinserção profissional, comercial e política, imediata quase (Costa C. M., 2014, p. 56).

[34] R. Verneau o cita como antropólogo a propósito dos Quiocos (Cokwe), numa recensão a um livro de A. A. Mendes Correia na revista L’Antropologie (Verneau 1916, 474).

[35] A investigadora portuguesa Cátia Míriam Costa encontrou, no Arquivo Histórico Ultramarino, uma pasta relativa ao nosso autor, muito elucidativa no que diz respeito à sua prisão. Segundo a pasta, “Augusto Bastos presidiu a uma comissão que tentava manter no seu posto o governador do distrito de Benguela em 1917, ano em que se deram as primeiras prisões e mais incisivas repressões sobre os nativistas em Angola, com maior incidência para a cidade de Luanda.” A investigadora lembra que era governador-geral Norton de Matos. Os dados foram recolhidos depois na sua tese de doutoramento (Costa, 2015).

[36] Que, no entanto, sempre manteve as páginas do jornal abertas à colaboração de Augusto Bastos.

[37] Benguela, 26.6.1914, p. 2.

[38] Incluindo em colaboração que antecede essa n’O comércio de Benguela. Leia-se também a conclusão do artigo «Lição do Passado», cujo mérito o colocou na posição de editorial (A. Bastos, Lição do Passado 1914): “incitamento à agricultura europeia e indígena pela propriedade titulada” e “resolução da questão do braço indígena”.

[39] As três barras oblíquas indicam mudança de página, duas barras mudança de parágrafo e uma barra mudança de linha.

[40] Livro de Atas da CMB, fl. 247.

[41] Id., fl. 212-v.

[42] Id., fl. 239-v.

[43] Id., acta da sessão de 3-2-1922, fl.105r.

[44] Fl. 106v do livro de Atas desse ano.

[45] Fl. 106r do livro de Atas desse ano.

[46] Fl.107r do livro de Atas desse ano.

[47] Jornal de Benguela, n.º 17, 28.04.1916, p. 4.

[48] Ata n.º 133, fl. 9 do livro de Atas desse ano.

[49] Fl. 223 do livro de atas relativo a esse ano, sessão de 15.12.192.

[50] Fol. 212v do livro de atas relativo a esse ano.

[51] Fl. 209v do livro de atas relativo a esse ano, sessão de 17.11.1922.

[52] Fl.134v do livro de atas relativo a esse ano.

[53] Fl. 138v. Recorde-se que Luís Gomes Sambo deixou em Angola uma descendência ilustre até hoje. Era, também, ervanário, exercendo a medicina natural.

[54] Livro de Atas relativo a esse ano, fl. 232v.

[55] Id., fl. 239r.

[56] N.º 11, 17-03-1916, pp. 6-7.

[57] Livro de Atas relativo a esse ano, fl. 201v

[58] Livro de Atas relativo a esse ano, fl. 228r.

[59] Id., fls. 228-v e 229-r.

[60] Id., fl. 234r.

[61] fl. 234v.

[62] 2 pequenos volumes, um de 1917, segundo Gerald Moser (AAVV, 1986) – Cátia Míriam Costa indica 1919 (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919) – e outro de 1919 (Bastos A. T., Debaixo de um Búfalo, 1919). Título completo da série:

[63] Em 1919 também. Título completo da série: Litteratura nacional / Os gigantes lusitanos através dos mares / ou / Aventuras Extraordinárias da epopeia ultramarina portuguesa / Colecção histórico-romântica. Destes apenas encontrei e consultei o primeiro número da série, Dois heroes de Dezasete anos, passado no norte de África (Bastos A. T., Dous heroes de dezasete annos, 1919).

[64] Estas já em 1931-1932.

[65] V., mais à frente, a referência a Fernando Reis. Leia-se a propósito o capítulo «Literatura colonial : de colonizadores ou de colonizados?», incluído por Mário António em A formação da literatura angolana (pp. 219 e ss) (Oliveira, A formação da literatura angolana, 1985, p. 219ss).

[66] O Caçador de leões, p. 5.

[67] A escolha de dois jovens para protagonistas acentua a preocupação didática da obra, num recurso (o de espelhar o leitor-alvo no protagonista) que Pepetela vai recuperar em As aventuras de Ngunga, uma ficção que nasce, pelas próprias palavras do autor, para servir ao mesmo tempo de manual linguístico e moral aos mais novos que estavam nas zonas controladas pelo mpla.

[68] p. 8. Note-se como esta narrativa se estrutura toda em função da leitura, obediente ao género que a modeliza, o do folhetim. Aqui, o que o amigo é levado a pensar é o que se deseja que seja o leitor levado a pensar.

[69] Lembre-se as “poesias íntimas” que fazem a autobiografia lírica de Arcénio de Carpo, ou seja, o Dedo de Pigmeu. O íntimo de P. F. Machado designa o próprio segredo que liga duas das principais personagens.

[70] Nestor é referido como “lavrador” em Mossâmedes (designação lata), por Francisco António Pinto, que reporta a memória dele como caçador mítico, tendo morto, em poucos anos, 16 leões (Pinto, 1888).

[71] Da qual fez parte, recorde-se, no começo, o pai do autor.

[72] Esta constava do espólio do historiador (e administrador colonial), republicano e liberal, Armando de Freitas Zuzarte Cortesão, que foi administrador colonial em S. Tomé (1917-1918) e criou o Boletim geral das colónias, que dirigiu até 1932. Opositor ao salazarismo, engajado e ativo, exilou-se em Inglaterra. Era irmão do, mais conhecido, historiador, médico, professor e, também, oposicionista Jaime Zuzarte Cortesão. Armando Cortesão possuía muitos livros sobre Angola.

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