FERREIRA, JOSÉ DA SILVA MAIA – O CIDADÃO
TRANSATLÂNTICO
Francisco Soares[1]
RESUMO
A biografia de José da Silva Maia Ferreira o torna um dos prógonos do cidadão global, tanto quanto o Atlântico foi, no seu século, uma antecipação da globalização de hoje. Poeta, não tendo nós acesso à sua eventual autobiografia, suscita-nos, por esse motivo também, uma breve biografia.
José da Silva Maia Ferreira nasceu em Luanda, a 7.6.1827 (uma quinta-feira) e
faleceu no Rio de Janeiro de tuberculose mesentérica, tendo sido sepultado a
18.10.1867[i].
Ao longo de curta e agitada vida morou (por ordem cronológica) em Luanda,
Rio de Janeiro, Lisboa, Rio de Janeiro novamente, Luanda novamente, Benguela,
Luanda novamente, Nova Iorque e, por fim, Rio de Janeiro.
Filho do negociante homónimo (José da Silva Maia Ferreira) e de D.ª Ângela
de Medeiros Matoso (de Andrade Câmara) Maia, sua segunda mulher, descende, pelo
lado paterno, de famílias de Luanda (Angola; por via da avó paterna, Ana Maria
de Jesus) e da região do Porto (Portugal, por via do avô paterno, também ele
José da Silva Maia Ferreira). Pelo lado materno descende de famílias de origem
vária luandense e portuguesa (em parte, açoriana) de que há registo em Luanda
desde meados do século XVII.[ii]
Terá estudado no Rio de Janeiro (onde chegou com sete anos, a 16.12.1834) e
depois em Lisboa (1840 ou 1841 a 1844), no Lycée Parisien (que lhe imprimiu
dois desenhos: um retrato de D. Pedro I e uma cabana junto a um rio). Não se
sabe se chegou a matricular-se na Aula de Comércio (que se transformou, nesse
ano de 1844, em Escola Politécnica); nenhum registo o menciona, havendo porém
registos lacunares, especialmente no que diz respeito ao local de nascimento. Mesmo
que se tivesse matriculado não teria tido frequência significativa.
Regressou ao Rio de Janeiro em abril de 1844 (desembarcou no Rio a 19.4.1844, único passageiro do patacho[2] português Andorinha). O tipo de embarcação e o facto de viajar sozinho reforçam-me a suposição de que regressou de urgência, por falecimento do pai (a sua mãe era dada então como viúva, mas até final de 1843 há sinais da existência do pai, que desaparecem em dezembro desse ano). Tendo com a família resolvido os assuntos pendentes, partiu para Luanda (para onde embarcou, do Rio de Janeiro, a 12.6.1845, na barca brasileira Constança), iniciando carreira de funcionário público e negociante em seguida. Foi funcionário público em Luanda e Benguela. Desta última cidade se retirou, oficialmente “forçado […] por sofrer muito a sua saúde em tal clima”[iii]. É mais provável, porém, que houvesse questões políticas por trás da decisão, dadas as suas ligações ao grupo 'Jovem Luanda' e as denúncias de abusos e de sobrefaturação que fez, envolvendo nelas autoridades e negociantes. Entre outras funções exerceu a de Secretário interino da Comissão Mista Portuguesa e Britânica (para controlo do tráfico negreiro) estabelecida em Luanda (exerceu até 1847, quando chegou o Secretário efetivo) e os de Tesoureiro da Alfândega de Benguela, Oficial da Secretaria do Governo de Benguela, Escrivão das Descargas da Alfândega de Luanda. É bastante provável que tenha casado (ou amigado) com uma luandense e tido uma filha, que faleceu muito nova, em Benguela, onde se manteve ligado ao grupo Jovem Luanda (foi acusado, nesse âmbito, com os companheiros, de lusofobia). Na sequência de escândalo ainda por desvelar (talvez amoroso), foi demitido (a 25.1.1851) de Escrivão das descargas da Alfândega de Luanda pelo Governador Geral Adrião A. S. Pinto, com base na “participação oficial do Chefe de Polícia”, por ter “perturbado a ordem e sossego público de um modo indigno e escandaloso”[iv]. Pouco depois fugiu para os EUA (Nova Iorque), em maio de 1851, a partir do porto livre do Ambriz, então integrado num sistema de portos livres ou governados por africanos e que, anos mais tarde, seria conquistado pela colônia. Trabalhou no consulado português em Nova Iorque por iniciativa do diplomata, negociante, escritor e maçom Joaquim César de Figanière e Morão (ou Mourão), que representara Portugal na Comissão Mista Portuguesa e Inglesa e fora cônsul de Portugal no Brasil e sempre protegeu o nosso poeta. Foi agente de negócios (para a família Figanière e sua rede comercial) desde, pelo menos, 1852, realizando paralelamente algumas transações a título próprio entre Nova Iorque e Havana, principalmente de tabaco. Há menção ao seu nome importando seis escravos em um navio negreiro apreendido a um comerciante português com negócios no Brasil e nos EUA.
Na sua itinerância terá estado ainda em Cabo Verde, Bissau (Guiné-Bissau),
talvez na Gâmbia, em Espanha e pode ter passado por Inglaterra também. Manteve
contactos comerciais e familiares, ao longo da vida, com Angola e Brasil.
Intermitentemente manteve contactos com membros da elite portuguesa, alguns dos
quais conhecera enquanto estudante (a maioria deles estudara na Escola
Politécnica depois da sua partida de Lisboa).
Não se relacionou com o Partido Conservador no Brasil, nem qualquer outro,
apesar de um parente próximo de sua mãe ser uma das figuras salientes desse
partido (Eusébio de Queirós Coutinho Matoso da Câmara). Seu irmão mais novo (já
nascido no Rio de Janeiro), que foi médico na guerra do Paraguai, se tornou
professor de História no internato do Ginásio Nacional (ou seja, no Colégio D.
Pedro II), e produziu um manual de História do Brasil adotado para as escolas
“de instrução secundária”
Nos meios
literários, ou culturais e jornalísticos, os seus contactos o relacionavam, de
forma geral, com a terceira geração romântica lusógrafa (e, por via dessa, com
a segunda – de João de Lemos e de Gonçalves Dias), incluindo muitos que foram,
para além de literatos e jornalistas, políticos. Elenco alguns nomes, sobretudo
portugueses, mas também brasileiros e luso-brasileiros: António Freire de Serpa
Pimentel, Casal Ribeiro (José Maria Caldeira), Raimundo António de Bulhão Pato,
João d’Aboim, Luís Augusto Palmeirim, Ricardo Guimarães, Emílio Augusto Zaluar,
A. P. da Costa Jubim, José Maria da Ponte e Horta, Francisco Maria Bordalo. A
opção política da maioria destes amigos, em Portugal, era pelo Partido
Regenerador; vários deles foram ‘setembristas’, colaborando no periódico A Revolução de Setembro (Lisboa,
1840-1901) e Casal Ribeiro foi republicano até à sua conversão (relativamente
tardia) à monarquia liberal.
A carreira
jornalística de Maia Ferreira não foi prolífica, centrando-se em crónicas, a
maioria enviadas de (ou escritas em) Nova Iorque e Havana, sobre assuntos
políticos locais ou sobre hábitos locais (estas mais raras). Iniciou-a já
residente nos EUA, remetendo colaboração para o Jornal do Comércio e o Correio
Mercantil – ambos do Rio de Janeiro. Colaborou também na edição de 1856,
feita em Filadélfia, do Lippincott Pronoucing Gazeteer (1856), organizado por um seu cunhado estadunidense [v].
A vida literária
de Maia Ferreira iniciou-se no Rio de Janeiro, a partir de contactos com o
poeta e jornalista português, aí exilado, João d’Aboim. Por via desse poeta e
jornalista português, amigo de Gonçalves Dias, nos anos de 1848 e 1849, publicou
na Lísia poética, de José Monteiro Ferreira, juntamente com o seu amigo
(brasileiro) A. P. da Costa Jubim. Ainda no Rio de Janeiro e em 1849, o seu poema
«A uma menina» (datado de 29.4.1849) saiu nos Harpejos poéticos em maio [vi];
entre os colaboradores desse ano do periódico se incluiu Manuel António de
Almeida, o autor de Memórias de um sargento de milícias. Publicou também
no Boletim Oficial do Governo Geral da Província de Angola, em 1849,
poemas homenageando o novo governador (Adrião Acácio da Silveira Pinto, que
depois lhe foi adverso), D. Pedro de Alcântara, D. Fernando II e D.ª Maria II.
No jornal O Peneireiro, de João d’Aboim, publicou ainda o poema «O
exilado» (em 1855, ano da fundação do jornal), que deve ter sido composto
durante a viagem que o levou do Ambriz até aos EUA (não se sabendo se terá
passado, entretanto, por Lisboa). O poema seu publicado no Novo almanaque de
lembranças luso-brasileiro para o ano de 1879 deve ter sido enviado por um
desconhecido, na sequência de uma publicação idêntica assinada por outra
pessoa, pois o poeta falecera doze anos antes.
A sua única obra
impressa foi feita em Luanda, sob o título Espontaneidades da minha alma: às
senhoras africanas. O título intertextualiza com homónimos e dedicatórias
semelhantes em outros títulos da época e, em particular, o Livro da minha
alma, de João d’Aboim, dedicado “às senhoras brasileiras”. Não se sabe ao
certo se a finalização do livro se deu no final de 1849 ou no princípio de 1850
(há poemas datados já deste ano). Foi impresso na tipografia do Boletim
oficial e terá constituído uma edição de autor. Trata-se, tanto quanto se
saiba até hoje, do primeiro livro de poemas escrito por um filho da terra
e publicado em Angola.
Pela data e
pelas características estilísticas emparceira com outros títulos que lançam o
ultrarromantismo português e as segunda e terceira gerações românticas
brasileiras. Regista muitas influências francesas (Chénier, Hugo, Delphine
Girardin, entre outros), bem como de Almeida Garrett e de Gonçalves Dias (todas
comuns aos vários românticos). Revela um domínio hábil dos jogos rítmicos (sobretudo
de instáveis acentos e cesuras internas), das rimas, dos modelos estróficos
vigentes na então nova escola e das figurações enunciativas (sugerindo quadros
enunciativos e flexões pessoais ambíguos ou totalmente fictícios mas, como de
regra entre românticos, autobiográficos na aparência).
A representação
do feminino na sua poesia se reparte entre estereótipos europeus e mulheres
definidas por traços psicossomáticos ligando-as à autenticidade, aos olhos
escuros, a uma tristeza profunda, à meiguice, à naturalidade.
Chegou a
imprimir um prospeto anunciando as Memórias íntimas dum africano, mas de
tal obra não veio nada mais até nós, pelo que pode nem se ter concretizado, ou
ter-se perdido entre os papéis da sua família brasileira – caso ele tenha
levado algum esboço ou manuscrito consigo ao regressar ao Rio de Janeiro. Visto
que uma parte do espólio norte-americano não foi revelada, existe ainda a
esperança de lá se encontrar o manuscrito dessa autobiografia. Em carta ao
irmão Luís de Queirós, enviada de Nova Iorque, diz ter abandonado a poesia nos
EUA, em razão da vida prática para que teve de se voltar. Em carta à mulher,
escrita de Havana, descreve a sua nova crença ou ideia de Deus e do mundo em
termos claramente maçônicos.
Segundo o n.º 290 (p. 3),
do Correio mercantil de 21.10.1867 (uma 2.ª F.ª), foi sepultado no Rio
de Janeiro, no dia 18.10.1867 “José da Silva Maia Ferreira, africano, 39 anos,
casado. Tubérculos mesentericos.” Entretanto erraram a idade, porque teria quarenta
anos e quase quatro meses. O resto parece confirmar-se…
REFERÊNCIAS
FERREIRA, J. da S. Maia. Espontaneidades
da minha alma: às senhoras africanas. Intr. e org. Francisco Topa. Porto:
Sombra pela Cintura, 2018.
FERREIRA, J. da S. Maia. “A uma menina.” Harpejos
Poéticos ou Coleção de Poesias Modernas, de Diversos Autores, Rio de
Janeiro, Maio de 1849.
MAIA, Luiz de Queiroz Mattoso. Lições
de história do Brasil: proferidas no internato do Ginasio nacional pelo
respectivo lente. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1880.
PACHECO, Carlos. José da Silva Maia
Ferreira: o homem e a sua época. Luanda: UEA, 1990.
REDAÇÃO. “Obituário.” Correio
Mercantil, Rio de Janeiro, p. 3, 21-10-1867.
Rougle, William. “José da Silva Maia
Ferreira: poeta angolano, correspondente brasileiro, homem de negócios
americano.” Colóquio / Letras, Lisboa, n. 120, pp. 184-188, 1991.
[1] Prof. Visitante do PPG-Letras da Univ. Federal de Rio Grande.
[2] Um tipo de veleiro com
dois mastros, muito leve, ágil e raso, nem brigue nem escuna. Começou por ser
um navio de guerra destinado à vigilância e inspeção das costas e dos portos.
[i] Correio mercantil, 1849, p. 3.
[ii] Pacheco, 1990,
extratextos.
[iii] Pacheco, 1990, p. 256.
[iv] Pacheco, 1990, p. 257.
[v] Rougle, 1991, pp. 184 e
188. Topa, 2018, p. 8.
[vi] Ferreira, 1849.
NOTA: Texto da comunicação apresentada na mesa Dicionário eletrônico da imprensa literária em língua portuguesa, no âmbito do 12º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos / 5ª Jornada de Literatura, História e (Auto)biografia, dia 9-11-2020, 16h (Ligação para o Programa; ligação para os Anais).
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