Dmitri Levitin publicou uma recensão crítica inteligente, escrita em defesa da especialização científica, a partir do livro de Peter Burke Masters of none. Na verdade, o que ele diz assegura mais a defesa do rigor e do conhecimento aprofundado das matérias, que exige muito tempo dedicado a um determinado assunto. Ele, porém, dá-nos a entender que se trata de especialização científica e que não se pode ser inter- ou multi-disciplinar sem prejuízo da exigência. A brevidade do texto não permitiu, possivelmente, que nos deixasse mais clara a sua posição.
O meu escopo não é, porém, esse. No final da recensão crítica ele resume de forma lapidar a hipótese teórica de Foucault:
According to this theory, knowledge is just another form of power and the history of knowledge is reducible to the history of power relations. Whatever one thinks of Foucault, there can be little question that the influence of a simplified version of this totalising idea has been disastrous, leading to a stymying of curiosity and the emergence of a rigid intellectual dogmatism. It is only the specialists, driven by their pedantic curiosity, who stand in the way of its suffocating tentacles.
Não me defino como um especialista, nem tenho musculatura social que sustentasse colocar-me "no caminho de seus tentáculos sufocantes".
A citação me interessa porque nos atira (ou pode fazê-lo) para um foco mais abstrato, porém não menos decisivo - mesmo para especialistas. Falo das relações entre conhecimento e poder. É claro que Foucault - e sobretudo a vulgata que o seguiu - reduz o conhecimento às relações de poder. E é claro para mim que uma tal visão reduz a teoria dele a uma ambição de poder intelectual (o que de mais apetecível os seus discípulos encontraram nela, mesmo e sobretudo os que dizem pretender o oposto). É comum, na política e na vida cultural, acusarmos os outros daquilo que vamos fazer de maneira pior ainda, mais crua, menos subtil.
As relações entre conhecimento e poder sempre me interessaram. A reflexão sobre elas constitui a base, o núcleo emissor de um livrinho que publiquei e ficou esquecido, como tantos outros livros que julgamos únicos, raros e sábios. Chamava-se Fábula da captação do elemento desvairado e hei de recolocá-lo em rede brevemente. Mas não vim cá para anunciar títulos próximos.
A teoria (ou visão geral) que orienta o livrinho é a de que as etimologias vislumbram ligações primordiais que, por isso mesmo, orientam o desenvolvimento das atividades humanas que suponham planeamento, antecipação, criatividade orgânica também (Levitin diria, com muitos dos leitores, 'convinha que o autor especificasse melhor o que pretende dizer com criatividade orgânica'). Orgânica, escrevo, no sentido em que estruturante. A visão etimológica, intuitiva, que forma as palavras originais é estruturante.
Hoje a neurobiologia permite afirmar, como fez António Damásio, que os processos criativos e cognitivos iniciam-se antes da linguagem verbal, do discurso artístico e do raciocínio lógico, alicerçando-se numa prévia sintaxe de imagens (alojadas por tipos, possivelmente, ou por tipos de ligações entre elas). É de uma tal sintaxe que ressaltam as metáforas etimológicas (ou, pelo menos, essa hipótese animou a feitura da minha humilde Fábula).
Ora, essas metáforas apontam para analogias apreensivas, quero dizer, ligações através das quais apreendemos relações estruturantes da vida e, por isso mesmo, do conhecimento que dela formamos. O 'salto' metafórico original é depois desenvolvido por sistemas de autorregulação, de verificação, de experimentação conhecidos como arte, filosofia, ciência, discursos organizados e racionais ou lógicos (ou seja: perseguindo uma proporção).
A teoria com que vamos percebendo ou compreendendo ou representando 'o mundo' (a vida em movimento) constitui o núcleo emissor (esta metáfora, Levitin, esclarece-se por si própria, no decorrer do texto) das atividades que supõem planeamento. Por isso há um parentesco próximo e não contornável entre tais atividades.
O parentesco próximo é a base para afirmações como a de Foucault. Reduzir esse parentesco ao domínio de uma atividade sobre todas as outras é pensá-lo ignorando o processo que as orienta desde o começo e vai criando os discursos numa interação constante entre vários géneros discursivos, por um lado, e a sintaxe nuclear por outro (sintaxe que não se conseguiria fixar, é dinâmica, embora apresente recorrências). Caso a gente mantenha em vista que o processo criativo já se começa a formular nas metáforas etimológicas, a gente percebe que elas revelam também relações de 'poder' e de conhecimento, a par, incluindo a intuição das raízes de cada 'poder' metaforizado.
Portanto, a história do conhecimento não é redutível à do poder, mas caminha a par dela e numa relação de cumplicidade que deriva da origem comum. Por isso o nobre é inseparável do gnosco em várias línguas indoeuropeias, e o ilunga é inseparável do kalunga em várias línguas bantos. Não porque quem tem poder sabe, mas porque não há poder sem conhecimento; o poder pressupõe, no mínimo, a sagacidade, ou seja, faro apurado. Por isso também, é possível afirmar o oposto do que prega Foucault: a história das relações de poder é redutível à história do conhecimento. E cada sistema político deriva de uma perceção profunda, estruturante e intuitiva da realidade humana e da realidade global em que esta se insere e com que se articula. Uma perceção etimológica.
Por isso, ainda, seria possível escrever uma obra que, a partir de metáforas etimológicas, abriria tanto para o discurso religioso, quanto para o poético, ou para a perceção de uma estrutura de poder. A experimentação da hipótese resultou na Fábula da captação do elemento desvairado.
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