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Novos angolanos e a poética das postagens



NOVOS ANGOLANOS E A POÉTICAS DAS POSTAGENS
NEW ANGOLANS AND THE POETICS OF POSTS
NUEVOS ANGOLEÑOS Y LA POETICA DE LOS POSTS

RESUMO:
Neste ensaio se estuda a poética das postagens de novos escritores angolanos no facebook. Ao mesmo tempo se contextualiza o aparecimento desta geração e se relaciona com o uso das redes sociais na atualidade.
PALAVRAS-CHAVE: postagens, poética, redes sociais.

ABSTRACT:
In this essay I study the poetics of the posts of new Angolan writers on facebook. At the same time I contextualize the appearance of this generation and I relate the respective formation with the use of social networks nowadays.
KEYWORDS: posts, poetics, social networks.

RESUMEN :
En este ensayo yo estudio la poética de las entradas de nuevos escritores angoleños en facebook. Al mismo tiempo contextualizo la aparición de esta generación y relaciono la respectiva formación con el uso de las redes sociales en la actualidad.
PALABRAS CLAVE : posts, poetica, redes sociales.


Contexto geracional

Até pelas autoridades é reconhecido que mais de uma geração em Angola se está a tentar formar em um contexto de completa falência do sistema de ensino a todos os níveis. Isso, compreensivelmente, conduziu vários escritores e pesquisadores mais velhos a preocuparem-se com a qualidade dos textos dos emergentes, os seus erros ortográficos e dificuldades de expressão (quer em português, quer em línguas nacionais), a total ausência de cultura geral e certo alheamento por figuras do passado literário ou artístico nacional, hoje desconhecidas para a maioria dos jovens. A resposta, porém, dos escritores que a esse título (ainda nobiliárquico entre nós) se vêm candidatando foi saudável e surpreendente.
Em primeiro lugar, a maioria deles encontrou formas associativas, corporativas, inicialmente espontâneas e depois, em muitos casos também, se criaram associações, como o Litteragris ou o Lev’Arte, algumas existindo já na prática antes da sua institucionalização, ou criação oficial, com data e documento.
Esta espécie de autogestão do desespero, do desconhecimento e da partilha de inquietações estéticas e intelectuais, dinamizou surpreendentemente a sociedade literária angolana. Esses jovens organizavam sessões, quer de trova (e, portanto, de improviso), quer de declamação (quase sempre mais dramatizada que atenta aos ritmos dos versos), misturando-se ambas ou não em performances só por vezes programadas – quer, ainda, de esclarecimentos acerca de poesia, crítica, teoria, escrita, literatura, filosofia. Tais sessões, realizadas nos mais variados locais e ambientes, atraíram muita juventude, reavivando o interesse por literatura e poesia.
Para tais jovens, as redes sociais constituíram oportunidade ímpar. Mesmo com acessos intermitentes à rede pública mundial, agora podiam ver respostas às suas dúvidas, completar uma formação deficiente, se não mesmo realizar, ab initio, uma formação literária no mínimo informada. Por elas – e graças à sua persistência – tiveram acesso a títulos famosos no mundo mas que não circularam em Angola, ou circularam só no período colonial. Por aí tomaram conhecimento da literatura universal, que lhes forneceu uma gama variada (embora aleatória) de recursos, procedimentos, efeitos e sugestões experimentadas depois em ‘quintal’, por assim dizer, em terreno próprio, local, em escrita, arte e lavra caseiras.
As redes sociais e a curiosidade, juvenil ou permanente, permitiram-lhes também diálogos frutíferos com escritores e críticos mais velhos, angolanos e estrangeiros. Alguns desses diálogos redundaram em cursos de escrita criativa em linha (on line se preferem). Em todos os diálogos trocaram (trocam) experiências, recolheram (recolhem) informações, apreenderam e apreendem conteúdos a partir de memórias vivas, ensinamentos e truques (não receio palavras simples) dos mais experimentados, bem como questões fundamentais e desafios novos mas espalhados pelo mundo. Isso lhes permitiu um nível de conhecimento muito mais amplo do que o proporcionado pelo colapso do sistema de ensino e pela escassa variedade de títulos que a sociedade angolana lhes oferecia. Tratou-se de um conhecimento feito sem a disciplina a que estamos acostumados, nós, que tivemos escola formal (e o adjetivo é muito significativo). Daí que se notem ingenuidades e amadorismos ainda, principalmente ao nível dos enquadramentos das informações críticas e das referências teóricas, por lacunas que não sustentam uma adequada contextualização. Mas a autoformação, sofrendo essa desvantagem (a mesma de personagens hoje muito discutidas na política mundial…), pode ter a vantagem de, com isso, permitir ligações que não nos ocorreriam, aos que tivemos ensino formal, por estarmos condicionados a conotações automatizadas e, portanto, convencionais. As involuntárias inconformidades e os improvisos na reflexão, que são perigosos para governar um país, em campo literário se tornam férteis e poucas vezes tóxicas.
Os paradigmas e conceitos estéticos e filosóficos, de que estes jovens tiveram notícia, diversificaram uma semiose de fronteira já de si complexa, a das cidades atuais de Angola, variada e com rápidos processos de crioulização, hibridação, síntese e sincronia, colagens e sobreposições, transplantes e transposição de limites conceptuais, genológicos e periodológicos.
O legado surrealista, por exemplo, que foi rejeitado até muito tarde na nossa literatura, por ser adjetivado como alienante pela crítica partidária, contribuiu para a reformulação dos procedimentos caraterísticos destes jovens, injetando-lhes uma indisciplina metafórica produtiva e transicional. O concretismo também, adotado na sua face mais dura talvez – a da experimentação de segmentações morfológicas, ou mesmo arbitrárias e lúdicas, aliando a prática extremada da cesura, do corte rítmico e versicular e da desnudação dos radicais e dos étimos, reconectados para constituição de novas sugestões analógicas e de reconceptualizações inesperadas. Os influxos de tais correntes aproveitaram-se, porém, pelos procedimentos que as caracterizaram e sem o devido contexto histórico, ou melhor, pulando a cronologia e adotando, com sentido criativo, o que podia ser útil, surpreendente, o que tivesse resultados estéticos eficazes, que prendessem o leitor, ou auditor, que lhe chamassem a atenção sem o desiludirem depois.
Em parte, o contributo filosófico recebido, mesmo em Luanda, chamava também a atenção para o trabalho filológico – no sentido que a filosofia traz ao termo. A situação cultural de Luanda, Benguela e de outras cidades, onde se confrontam e convivem línguas diferentes e com diferentes origens (africanas e europeias esmagadoramente), executadas por falantes cujos padrões de conhecimento são, no mínimo, oscilantes e cruzados, estimulava igualmente a reestruturação de palavras a partir das figuras de corte e costura radicalizadas por poetas concretistas e pensadas por filósofos de várias tendências do século XX (heideggerianos, alguns existencialistas, pensadores da chamada filosofia portuguesa, José Enes e um numeroso etc., incluindo gerações mais recentes ainda sorvendo as lições e propostas da mesma filosofia portuguesa).
Igualmente as diferenças e padrões entre géneros, literários ou discursivos, e modos de apresentação (com “modos de apresentação” refiro conceitos como os de verso e prosa, distribuição gráfica das palavras, criatividade gráfica, mímica), ao mesmo tempo, se desfizeram ou se transformaram.

Todas estas mudanças, operando-se ao longo de um processo de autoformação, numa esfera semiológica fortemente interativa e intensamente globalizada, ao mesmo tempo que agregando e expandindo redes de contactos locais, algumas resilientes, permitem-nos verificar hoje quais os condicionalismos e as caraterísticas da nossa literatura anterior que se prolongam nesta. Por isso as tomo enquanto manifestações, não sei se de traços idiossincráticos, mas de inclinações, ou disposições cujo tónus é suficiente para que se mantenham por, pelo menos, mais uma geração à tona de água.
É antiga, entre nós, a vertente testemunhal (não partidária ou militante, mas testemunhal – o que permite incluir os testemunhos pessoais e heterodoxos, alguns desideologizados). Ela foi muito fortemente marcada pelos paradigmas estéticos das duas primeiras gerações nacionalistas (autores nascidos nas décadas dos anos vinte e trinta do século passado), as das Cultura (a ‘de’ Eugénio Ferreira e a do fim dos anos 50) e das Mensagem (de Luanda e de Lisboa). Republicada constantemente, inserida em manuais escolares, essa poesia continuou constituindo a referência inicial de muitas crianças e jovens que sentiam inquietações e aspirações literárias, ou de forma geral artísticas, uma vez que foram, nos tempos do partido único, as únicas memórias literárias circulando nas quase inviáveis estradas e picadas da ‘cultura nacional’. Por isso talvez, mesmo quando os critérios principais de composição e os paradigmas estéticos se foram transformando, ao inscrever um texto na série testemunhal o autor, por mais jovem que fosse, tinha consigo a marca da literatura militante revelada nas primeiras décadas do nosso nacionalismo. Fosse por resposta a tal marca, ou por continuidade, ela estava presente.
As gerações mais recentes (e vão duas) me parece que, embora sabendo da existência de um poeta que foi o primeiro presidente e escreveu qualquer coisa (um livro, um poema, um título) chamada “Sagrada esperança”, leram já muito pouco da literatura nacionalista e militante. Aliás, durante anos e anos não leram quase nada. Quando muito retiveram alguns versos ou imagens de poemas dispersos nas antologias escolares e dos entornos assegurados por uma leitura partidária imediata e panfletária, repetida até à exaustão nos raros periódicos permitidos. Além de conhecerem muito pouco dessa literatura, no começo da sua carreira (pois, entretanto, foram lendo essas e outras obras), a receção não seria acompanhada por uma preocupação crítica, ou artística, mas apenas pela repetição de slogans políticos muito básicos, por parte dos professores, a maioria deles também já sem formação para aprofundarem as análises em sala de aula. Isso trouxe por consequência que, hoje, quando escrevem peças testemunhais, ou as esboçam nos murais do facebook e de outras redes, os paradigmas e critérios de composição militantes tenham a mesma força (ou menos força ainda, porque desgastados pelas repetições) que outros valores e critérios de composição posteriores na nossa história literária e na história das nossas leituras literárias. De maneira que o horizonte de receção, do qual partem para redigir uma peça testemunhal, bem como a expetativa dos leitores a que se dirigem, não condicionam sua produção verbal a um paradigma ao qual se responde negativa ou positivamente. O paradigma foi pulverizado pela fraqueza do sistema de ensino, somada ao acesso livre a redes sociais em linha e leituras por elas possibilitadas. Esses horizontes tornaram-se, por consequência, heteróclitos, irregulares, diversificados e oscilantes, imprevisíveis. O que, por sua vez, aumentou as possibilidades de recriação da espécie.

A postagem

As possibilidades de recriação da espécie testemunhal eram potenciadas pelo facto de ela se inserir agora numa prática nova, a da postagem, género discursivo sem definição prévia (se formos além da necessária brevidade do texto, por vezes também não respeitada). Convém, por isso, pensar ainda no que é uma postagem nas redes sociais.
Não me preocupam todos os tipos de postagem, somente aqueles que se prendam com preocupações (ou, pelo menos, ambições) estéticas. Uma postagem pode ser um poema, uma anotação mais cuidada, uma crónica, um lamento, enfim, a postagem pode ir buscar a qualquer um género ou espécie anteriores o seu modelo. Isso lhe traz uma característica partilhada com o género lírico.
Para me explicar é preciso lembrarmo-nos de que o lírico era o género onde se colocava tudo o que não fosse epopeia, nem drama, mas apenas arte verbal. A sequência das frases é (por isso talvez) aleatória, fragmentária também. Não se choquem os clássicos e resilientes, é aleatória porque não tem de ser encadeada nem muito logicamente nem cronologicamente, nem por relações de causa e consequência, tem que ser encadeada só pelo funcionamento das analogias que nos garantem o sentido e o efeito. Claro, se por exemplo o poeta renascentista português escrevesse uma alegoria, tinha de seguir uma sequência minimamente estruturada, que parecesse lógica e natural, sobretudo quando compunha num tempo no qual a produção literária se condicionava por padrões rígidos e coletivos, assimilados a uma racionalidade formal. Ainda nesses casos, porém, a sequência de imagens visuais e sonoras que projetava sobre nós não tinha que obedecer a um plano de exposição regulado por mais do que a sugestão imediata que se pretendia criar no leitor e tal sugestão, visto que o pacto de leitura do género era regulado por analogias imprevistas, não precisava nem de relações causais, nem de sequências cronológicas. A sugestão era apenas condicionada por um padrão básico (nem sempre bem definido) próprio a cada espécie (não próprio do género, que não unificava as suas espécies ou tipos). Por exemplo, na alegoria, metade do poema consagrada à sugestão de um quadro ou episódio e a outra metade concentrada na descodificação moral desse episódio – algo semelhante ao que sucedia nas estórias da oralidade com lição de moral no fim. Mas não tinha de haver lógica nem cronologia ligando as duas metades, apenas codificação e descodificação.
A postagem tem a mesma característica do lírico hoje. Hoje é lírico tudo o que não seja narrativo nem dramático, desde que seja poético, artístico ou literário (selecione o leitor a etimologia que preferir). A postagem não tem de ser lírica, nem dramática, nem crónica jornalística, nem notícia, nem fragmento de diário, é só uma postagem, um pequeno conjunto de palavras alinhadas para leitura rápida, seja sob que forma for.
Sendo estes jovens formados em contextos híbridos, onde resiliência e globalização convivem aleatoriamente na maioria dos casos, ativadas por pulsos divergentes de um self ou ego desorientado no trânsito urbano, e tendo estudado num sistema de ensino que não lhes transmitia padrões discursivos rígidos ou bem definidos, a postagem tornava-se espécie discursiva própria para se expandirem livremente nas filas de trânsito. Por ela, postagem, não tinham de responder como poetas e podiam continuar a tentar sê-lo, falando na qualidade de escritores ou candidatos a escritores movidos ali só por um motivo pessoal, uma queixa, um testemunho, uma revolta contra qualquer acontecimento. Ou seja: exprimiam tudo o que quisessem, na sequência que lhes ocorresse no momento, mas demonstrando as suas aptidões para o que, em umbundo, se chama ‘as belas palavras’ – e isto foi Raúl David que me ensinou, conversando, em Benguela, não dá lugar a citações, ainda que haja dicionários de umbundo-português disponíveis em rede e com acesso aberto.

Dois exemplos

Não podendo falar de tudo ao mesmo tempo e tendo já definido, em termos gerais, a postagem, passo à análise dos textos escolhidos. Vou considerar apenas postagens testemunhais de dois destes candidatos a poetas (e somo-lo enquanto vivemos) para verificar o ‘estado da questão’.
Fica pressuposto que:
1.   Estudo similar voltado para a poesia lírica em verso de matriz amorosa, ou simplesmente não testemunhal, acarretaria possivelmente resultados diferentes;
2.   A análise foi reduzida a dois autores, ou seja, não será exaustiva. Pese embora isso, a pesquisa inicial foi mais vasta, tendo-se reduzido as postagens para efeitos deste ensaio;
3.   Na pesquisa geral e anterior, interessei-me por autores cuja definição literária, estética, padece de acentuada variação, quero dizer, ainda não cristalizou num perfil ao qual o posteiro se mantenha fiel. Outros há que, das mesmas gerações ou muito próximos delas (pelas datas de nascimento), avançaram antes e já revelam hoje maior estabilidade na seleção e uso de critérios e procedimentos estéticos.
Além disso, recorri a uma rede social apenas, a que neste momento me parece registar uma frequência maior de candidatos a escritores e de seus leitores. Outras há. Qualquer estudo que se pretenda sistemático e generalizador necessitará de consultar essas outras redes também (blogues, por exemplo, ou vídeos no youtube). O que fica, portanto, é a análise de uma sinédoque.

Um primeiro nome a considerar aqui é o de Fridolim Kamulakamwe (ou Kamolakamwe). Tem hoje quarenta anos, portanto não é tão novo quanto os meus netos. No entanto, o seu perfil coincide com o que venho dizendo. Além disso, deve ter nascido em 1979, ou seja, nasceu e cresceu e viveu, até há poucos anos, sendo Angola governada pelo mesmo partido e pelo mesmo presidente. Sofreu os mesmos efeitos de um sistema de ensino deficiente, embora nos seus primeiros anos o sistema ainda funcionasse. É certo que foi condicionado por uma ideologia restritiva, com circulação bibliográfica reduzida e policiada, mas funcionava.
Fridolim tem já longa experiência da trova, bem como da recitação dramática e performática de poemas. Os seus textos foram seguindo um percurso oscilante mas, de forma geral, ascendente. É nas mensagens colocadas na sua página do Facebook (uma delas: https://www.facebook.com/fridolim) que podemos encontrar exemplos do tipo de testemunho que menciono. Bem que no seu caso o testemunho tende a ser vincadamente político e, mesmo, partidário (manifestando simpatias pelo partido UNITA, de oposição, como também por Abel Chivukuvuku, antigo militante do mesmo partido e oposicionista destacado). O que me interessa, porém, não são tanto os conteúdos que veicula quanto os procedimentos que utiliza. Os conteúdos são discutíveis, sem dúvida, e não me refiro à sua simpatia partidária particularmente. Todos os conteúdos, aliás, são discutíveis e desde logo os do antigo partido único. Mas eu não compreendo a crítica como um exercício de discussão de conteúdos, ou de fixação e revelação de conteúdos implícitos e explícitos que nos caberia julgar. Entendo que o crítico deve julgar as conexões entre os conteúdos veiculados e os truques, ou recursos, usados para os veicular.
Para não irmos além d-os limites deste ensaio, passemos à análise de uma postagem, irónica sem dúvida, como a quase totalidade dos seus textos:
Deixo-vos a paz. A paz que eu e somente eu arquitetei. Não a dou como o mundo a dá: de bandeja. Deixo-vos a cadeira. Minha por direito-natural. Mas deixo os cofres vazios. Para que jamais alguém esqueça que a paz tem dono. Assim no princípio como no fim, o nada será convosco, até a consumação dos séculos, amém.
Marimbondo 28: 8
A postagem foi colocada no dia 6 de abril deste ano, às 14:04. O texto nos atira para diversas contextualizações.
Esta espécie de fábula ou de ironia, claro que não é desconhecida na história da literatura. A sua orquestração é que talvez seja, mais ainda em Angola, onde a literatura militante (o nosso termo de comparação) não se inclinou muito para ela. Vejamos como funciona.
O intertexto é bíblico (“Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” – João, 14:27) e cristão (“Sicut erat in principio, et nunc, et sempre et in saecula saeculorum, Amen.” – oração ‘Glória’). A personagem que fala coloca-se no lugar do salvador. Era disso, justamente, que se acusava José Eduardo dos Santos, o anterior presidente. Em conversas quotidianas se chegava a referir, por exemplo, o presidente como “Deus” e trabalhar com ele, ou com os seus amigos e próximos, era ‘trabalhar com Deus’, ou ‘estar perto de Deus’. Isto na ironia popular e quotidiana, claro.
Deus não assina, a Bíblia fala por ele. Em vez de assinar ou de localizar o contexto político, no lugar da localização e da assinatura aparece uma referência também ela imitação das menções à escritura sagrada. Em vez de um dos livros da Bíblia, coloca-se “Marimbondo 28: 8”. O ex-presidente nasceu a 28 de agosto de 1942 e todos os anos a celebração do seu aniversário dava azo a muitos festejos, organização de concursos, provas e desafios, enfim, ao mais variado tipo de comemoração, incluindo o habitual beija-mão para manifestar a fidelidade ao chefe, cerimónia que reunia uma despropositada fila de gente. Isso acontece em todas as ditaduras prolongadas e com culto de personalidade, não chocando com práticas de algumas chefias tradicionais e paracoloniais. Angola cultivava esse tipo de ditadura, quer no tempo do partido único, quer sob a máscara do multipartidarismo – condicionado pela continuação dessas e de outras práticas monopartidárias ainda.
Quando o seu sucessor subiu ao poder e se comprometeu a limpar a administração do Estado, combater a corrupção e o nepotismo, uma das frases alegóricas que usou e se tornou viral foi: “é preciso destruir o ninho do marimbondo”. Por isso aparece ali, em vez do livro da Bíblia e do número do versículo, o “Marimbondo 28:8”.
José Eduardo dos Santos foi também chamado e cultuado pelo seu partido – o mesmo do novo presidente – “o arquiteto da paz”. O texto reorganiza ironicamente essa referência, continuando a intertextualizar com a Bíblia.
As intertextualizações ligam a postagem, simultaneamente, a um contexto específico e a uma referência largamente globalizada. A Bíblia é referência de muitos angolanos, dada a popularidade das igrejas cristãs no país, que proliferaram nas últimas duas décadas da ditadura ‘democrática’. Ela tem, portanto, condições para estabelecer uma ligação para o povo e outra para o usuário do Facebook em qualquer parte do mundo. Parte dessa postagem, porém, apela a uma compreensão meramente local, a parte que venho de explicar e que diz respeito ao “Marimbondo”. Mas quem se interessa por literatura angolana e acompanha as redes ou grupos em que Angola se constitui referência temática, já conhece estes particularismos. Quem não conhece, pesquisa.

A peça não foi das mais sugestivas esteticamente que Fridolim publicou. Esta saiu já meses depois de se ter dado a substituição de um presidente pelo outro. O clima tinha se distendido e a peça vê reduzido o seu potencial dramático e acentuada a carnavalização dos intertextos. O mesmo não sucedia em postagens do autor nos últimos anos da presidência de José Eduardo dos Santos. As peças anteriores aproximam-se de uma publicada dois dias antes desta, a 4 de abril, às 21:34:
Abro a janela. É manhã. Aleluia. Faz sol. Não há água para beber. Quem precisa disso, com tanta paz no copo? Bebo da paz. Para espantar a sede. Amém.
A fome é teimosa. Mas temos paz para comer. Graças a Deus & Suas excelências. Viva a sábia orientação! Chegamos lá. Ao zero. Zero é número. Princípio e fim. Estamos endividados até ao pescoço. Dizem os invejosos. Felizmente a paz cura endividamento. Cura malária. Cura bronquite aguda. Cura colonialismo PRETUGUÊS. Aleluia.
A paz é estrada. Dá para navegar de olhos fechados. Bocas trancadas. Ouvidos encerrados. Quem precisa de estrada? A paz faz milagres. Oremos. O relógio tem pressa. Eu também. O futuro é perto. Com tanta paz, quem precisa de escola? Transporte público para quê? Hospital? Com paz ninguém mais fica doente. Aleluia. A paz é avião. A pé ou de táxi, com o dinheiro que falta, chegaremos ao futuro. Onde fica o futuro?
Pego no binóculo. Viro-o ao contrário. E o futuro é já qui. Aqui mesmo. Por trás do sanatório. Aleluia. A paz é tudo. Quem tem paz não precisa de emprego. Não precisa de roupa. Até pode andar nu. A paz é açúcar e sal é feijão. A paz é passaporte para as estrelas. Perguntem ao satélite que bazou. Preparar o lugar para a gente morar. A paz é medicamento é cobertor. Haja paz! Aleluia.
A paz não tem colesterol. Pode comer-se com garfo e faca. Mas com as mãos também dá. Com cebola picada, jindungo[1] e nfumbwa[2], a paz cuia[3]. Não causa ressaca e faz bem ao coração. Amém. Deus abençoe.
Anoiteceu. Século XXI. Não tenho luz elétrica. Mas isso não preocupa. Quem tem paz tem tudo. Até o nada. Aleluia. É um luxo chorar, com tanta paz para sorrir. Não é justo reclamar, com tanto 4 de Abril para meter na panela.
# Viste como?

Em seguida ao “#Viste como?” reproduz-se uma das famosas caricaturas (ou cartoons) publicadas regularmente pelo não menos famoso Sérgio Piçarra nas páginas do semanário Novo jornal – uma referência entre periódicos privados ao tempo. A caricatura refere o problema da corrupção nos hospitais e, portanto, ilustra um dos aspetos apontados por Fridolim. Mas vamos ao texto, muito próximo do padrão de certas crónicas jornalísticas, em que a nossa história literária foi muito bem sucedida.
Ele se realiza também no mesmo tom irónico e fabulador da postagem do dia 6 de abril. Precisamos igualmente contextualizá-lo, porque ele nos atira para o 4 de abril, o dia em que se assinou a paz definitiva entre a UNITA e o MPLA, pouco depois da morte de Jonas Savimbi. O anterior presidente foi compreensivo e até generoso com os vencidos (na verdade, esse acordo foi uma rendição da direção do partido opositor, que estava cercada e faminta). A partir daí se foi construindo essa propaganda que o apodava de ‘Arquiteto da Paz’, uma função quase divina, muito próxima da do Grande Arquiteto do Universo. Porém, depois da paz, os problemas mais graves que afetavam as populações, e que antes eram dados como consequência da guerra, ou sabotagem dos opositores, continuaram, quando não se agravaram. O aspeto geral das cidades melhorou um pouco pela construção precipitada de prédios novos, a limpeza das ruas dos centros das cidades, o incremento comercial e a cobertura efêmera das estradas antes picotadas pela incúria. Mas a água, os cuidados de saúde, a higiene ambiental, o fornecimento regular de energia elétrica, a manutenção das estradas (apesar dos muitos quilómetros asfaltados precariamente), isso tudo e mais alguma coisa continuou falhando no quotidiano do povo e sobretudo fora das vias principais. A corrupção, por sua vez, com o incremento dos grandes negócios, ganhou uma dimensão gigantesca. O projeto de pôr em funcionamento um satélite angolano, feito na Rússia, já depois do seu lançamento foi abortado, por uma sequência de falhas de comunicação inexplicáveis. Para segurança dos restantes satélites, o fabricante russo teve de cancelar o projeto e comprometeu-se a pôr em circulação novo satélite até 2020, sem custos adicionais para Angola. Por isso diz a postagem: “perguntem ao satélite que bazou” (bazou: foi embora).
Esta postagem, apresenta, em parte, os mesmos traços básicos da que primeiro transcrevi (intertextualizações com o discurso bíblico e a propaganda governamental, ironia, personificações). Ganha no entanto em ritmo e colorido, nas alusões pela sonoridade e não só por via lexical (por exemplo aproveitando o som de “Zero” – que se pronuncia Zeru – e “Zédú”, nome popular do antigo presidente; a frase, no entanto, remete para a «Renúncia impossível» de Agostinho Neto). Faz um jogo mais variado e sugestivo de ironias sobre dificuldades quotidianas e seu encobrimento pela propaganda oficial, adota muitas expressões de rua e recorre com maior frequência a figuras de estilo para macaquear a repetição mecânica da propaganda. O conjunto ganha também dimensão cronológica definida: um dia, desde a manhã até à noite.

Eu disse que esta postagem se aproximava mais das antigas, dos últimos anos da presidência de José Eduardo dos Santos. Ainda assim, as diferenças são notórias. Ao cuidado do leitor, transcrevo uma, de 20.2.2013:
fartei-me de me fartar das coisas das descoisas das loisas dos usos e abusos de com que então. E sem medo do medo, rumei ao encontro de todos encontros, no mais rio de mim. padeço de uma busca, cuja vontade abeira a loucura. mas diante dos espelhos sou uma cidade em ruína: já não creio no que me dizem esses profetas de papel. vou-me embora para dentro de mim. à vós deixo: esta música apátrida, colorida com as virtudes de um engano maiúsculo, esta feira dolorida timbrada com os instintos de noturno soprano. demito-me da dança que me ofereceis solícitos: vou-me embora para bem dentro de mim: à vós deixo as mulheres que me roubastes, as igrejas que acalmaram minha rebelião diante do vosso vício de roubar sem remorso, sem nada deixar aos cães q fazem a arte das cidades, deixo-vos este verso inverso para gáudio de perverso universo. fartei-me de me fartar das mentiras agudas q fazem ciência ao cancro dos jornais, das vossas aulas magnas de ensinos falsiformes para consumo de defuntos no cano da pátria. vou-me embora: para Respública do eu.
 De tal forma são notórias as diferenças que não suscitam chamadas de atenção. Somente sublinho

  1.as aproximações a modelos de ‘escrita automática’, feitas pela ausência de pontuação, ou pela pontuação caótica, ou pela palavra sem maiúscula inicial a seguir ao ponto final;

2. a renovação desses sinais acrescentando-lhes uma grafia própria de quem escreve com muita pressa (por exemplo reduzindo “que” a “q”, como nos apontamentos dos universitários; ou também sem ter tido tempo de corrigir o “à” pelo “a”, como no caso da anáfora “à vós deixo”, ambiguizada assim a frase [à voz deixo e a voz deixo]);

3. o gosto pelo jogo de palavras alicerçado na sonoridade e na morfologia;

4. a intensidade metafórica, vivificada por metáforas vivas e analogias de longo alcance;

5. a carnavalização do discurso político pelo uso abusado e impróprio, ou descontextualizado, de palavras nele comuns, agora aplicadas à rejeição personalista, ou individualista, da falsificação da vida;

6. a intertextualização, mais uma vez, com a lírica de Agostinho Neto.

Mas o que mais me interessa aqui é o próprio recorte literário da postagem. Se virem bem, não é uma crónica, seria quando muito uma crónica poética; não é exatamente um poema em prosa, embora seja poético e tenha características de prosa; não é também um panfleto ou denúncia política e não deixa de ser isso tudo, como ainda arte literária. Este caráter de magma, associado à surrealização da linguagem, contida e viva ao mesmo tempo; a sua potencial imprevisão; a sua intensidade metafórica ao serviço (também) do propósito político renovam completamente, não só o nosso padrão do texto-testemunho, também o nosso padrão de poesia política. O testemunho da postagem, sem deixar de apontar claramente alvos políticos, atém-se a uma estesia que os mais velhos, dos tempos do nacionalismo, consideravam necessariamente alienada, hermética, distante do povo e da verdade – e que no entanto permitiam num poema de Agostinho Neto que deve alguma sobra refrescante a Sartre. Postagens como esta nos mostram que não, que justamente a postagem testemunhal e delirante pode constituir o contrário de um discurso alienado ou solipsista, renovando o paradigma. A viragem para dentro da “Respública do eu” não passa de simulação que visa rasteirar o adversário, atirar-lhe areia para os olhos. Agostinho Neto fez uma simulação parecida logo no primeiro dactiloscrito de «Renúncia impossível», anulando-se, ou declarando que se anulava. Tais simulações, aparentemente levando-nos para nós próprios e rejeitando o mundo, ou pelo contrário aparentemente anulando-nos para não termos de aceitar esse mundo, são na verdade rejeições e denúncias do estado de coisas afundando a dignidade e a sobrevivência do coletivo país. São maneiras figuradas de declarar a vida impossível assim.

Passo a outro posteiro do Facebook, “Gonçalves Handyman Malha (Kizela)” como se apresenta na sua página. A postagem anterior nos mostrou o caráter híbrido dessa espécie nova, com tom surreal e intensificação de metáforas vivas, muitas delas de longo alcance. O que transcrevo em seguida apresenta-se no modo versicular, em sugestão de ‘poema’ (continuamos a usar este vocabulário impreciso). A razão que me levou a trazê-lo foi demonstrativa: pretendo mostrar que o novo procedimento abre uma via com dois sentidos rumo ao que habitualmente chamamos de poesia. Não só as práticas poéticas anteriores, especialmente as que vinham dos anos 80 do século passado, influíram sobre estes jovens; não só as leituras da literatura global, antes desconsiderada pelos realistas, influíram sobre eles; também a premência da postagem tornou funcionais os procedimentos estéticos alternativos aos do neorrealismo, como a fragmentação, a metaforização violenta, a colagem, revertendo-os a favor do texto testemunhal. Assim, por essa tabelinha, o texto testemunhal regressa em força ao poema continuando uma linha de montagem surrealizante e fortemente analógica, inaugurada nos últimos anos do período colonial e vincada nos poetas revelados em livro só após a independência (revelados, ou seja: nunca tínhamos ouvido falar neles antes, eram novos demais para isso). Característica, ainda, comum às duas postagens mas muito mais marcada nesta, é a do despudor da linguagem, também constante em muitas outras postagens de jovens poetas, ou candidatos a poetas, nessa rede social. Os nossos autores neorrealistas e seus seguidores evitavam, geralmente, esse despudor, tal como o disfemismo bruto. Não deixa de ser interessante que, por um lado, a linguagem se vista com analogias surpreendentes e, por outro, se dispa com disfemismos exatos e palavras cruas. Ambos os fatores, afinal, concorrem para tornar o testemunho uma denúncia, cada um por sua via.
Fica o poema, com seu quê de crónica, em postagem publicada a 29 de abril, às 17:51 no mural do poeta:

corre-me o coração entre os dedos
vilas sobressaltam no meu umbigo
sou catástrofe amarelo no vento
escravo da enviesada paz
uma insólita miséria se multiplica
no esconderijo dos meus versos
grito
tal grito invade o gemido de uma
mulher com costas viradas ao deserto
volto a gritar dentro do meu eco
finjo ser palavra enigmática na
cachoeira hermética desta pátria
agora mijo
in consciente do rio que me aleija
nascem em mim pedras com
                                      [braços aguçados
cabeças de águas engripadas
são anjosdemônios[4]
míseros dedos de poder teso
trocam seus sonhos pelo meu mijo
seus pénis apodrecem por dentro
-- é isso que somos
sacos de seca nos pratos mudos
inquilinos artesãos de fome nas
pontas dos seios inundados
obrigam-me escrever sobre a pele
da zunga[5] a última tesão de mijo
de olhos vendados como a justiça
mijo
abro a boca vomitando hienas[6]
minha alma se levanta sobre
minhas terras abandonadas
como se a esperança encarnasse
nas reticências dos meus versos...
.
[a última tesão de mijo]
Handyman Malha, in "livro dos açoites".

(https://www.facebook.com/goncalveshandyman.malha.7)


(texto publicado na revista Mulemba. Vol. 11, n.º 21 (2019). Rio de Janeiro: UFRJ. doi: https://doi.org/10.35520/mulemba.2019.v11n21a31274; consultável em https://revistas.ufrj.br/index.php/mulemba/article/view/31274. Revisão de texto em 28.2.2020)




[1] Piri-piri, malagueta, pimenta vermelha, pimenta da Índia.
[2] Folhas comestíveis.
[3] Sabe bem, cai bem, dá gosto.
[4] Repare-se que a palavra demónios está com acento brasileiro (demônios), o que parece indiciar uma prática de corte e colagem (hoje diz-se copy-paste), muito frequente entre poetas…
[5] Venda ambulante. Do verbo kúzunga, andar às voltas, circular, rodopiar.
[6] Na tradição banto (ou bantu) a hiena figura o mal, a brutalidade, a força (por vezes a cobardia), mas também a sagacidade (graças ao olfato apurado e à dentadura afiada).

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