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Penumbrismos



Fica difícil, às vezes, classificarmos periodologicamente alguns dos nossos autores. Dou exemplos: Joaquim António de Carvalho e Menezes é neoclássico? Em pleno Romantismo? Joaquim Dias Cordeiro da Mata é ultrarromântico formalmente, em muitos motivos, tópicos e quase todos os temas, mas tem poemas e versos que são já, na temática e nos motivos, qualquer outra coisa que não Romantismo. Augusto Bastos é o quê? Um realista serôdio? Um antecipador do romance etnográfico de Óscar Ribas? O segredo da morta é um romance realista? Fantástico? Pós-realista? Animista antes do termo? Óscar Ribas, em Uanga, faz um romance realista? Realismo fantástico antes dos latino-americanos o fazerem? Ao som das marimbas é um livro modernista com laivos de negritude? Ou um livro negrista com laivos de classicismo europeu?

Há muitos mais exemplos a dar, como sabemos. Olhando para a questão, nasce uma suspeita: será que os períodos literários, tal como definidos na Europa em função da sua própria história, podem ser aplicados tal-qual a Angola? Por ser Angola? Por ser África? Por ter sido colónia? Ou simplesmente não se aplicam bem a todos os países com um percurso literário diferente dos do centro da Europa?

A dúvida resolve-se através de um pequeno esforço comparativo. Em Moçambique Rui de Noronha é um ‘poeta de transição’, nos anos 30-40, pois é já da geração seguinte em muitos temas, tópicos e motivos e é ainda de uma geração anterior na forma, como sucedeu com Geraldo Bessa Victor em Angola. Mas João Albasini (falo da sua literatura) é o quê? De transição também? Nesse caso Rui de Noronha é um poeta de transição entre outro poeta de transição e a geração seguinte? Ou Albasini é Realista? Naturalista?

Talvez Moçambique esteja então como Angola. Mas o que dizer de Portugal? Teixeira de Pascoaes é um poeta modernista? É um resquício de Romantismo? Miguel Torga não estará, pelas formas e pelos conteúdos, mais próximo da Claridade em Cabo Verde do que da Presença ou do neo-realismo em Portugal? Recuando agora mais: e Bocage? É, como Rui de Noronha e Bessa Victor, um poeta de transição? Alguns dos seus contemporâneos serão também? Como classificar as modinhas e lundus de Domingos Caldas Barbosa? E por aí vai a procissão fora do adro, mostrando que há uma espécie de percurso literário oculto às classificações canónicas. 

Mesmo por aí: Domingos Caldas Barbosa nasceu de um tal António de Caldas Barbosa. Foi este, português, funcionário da Fazenda em Angola, mais precisamente ocupou-se do “Officio de Tezoureiro das Fazendas dos Defunctos e Auzentes… dos reziduos do Reyno de Angola.” Isto entre 1731 e 1734, vários anos antes de falecer, no Rio de Janeiro, provavelmente Capitão e negociante abastado, solteiro ainda. A mãe era uma angolana, escrava do pai, que o acompanhou, grávida, quando este partiu para o Rio de Janeiro onde (ou no navio) nasceu o poeta – dado na Universidade de Coimbra como carioca nato. Talvez pela condição da mãe, num lugar preconceituoso e paradoxal (onde se misturavam e conviviam algozes e vítimas de preconceito), Caldas Barbosa nunca se refere a ela. Tinhorão soube, no entanto, que ela se chamava Antónia de Jesus e deve ter passado a “forra” a tempo de o filho não nascer escravo. 

Por essa ascendência Bocage, tentando destruí-lo numa das muitas polémicas pessoais que agitaram os árcades lisbonenses, escreveu que o dramaturgo e poeta era da “nojenta prole da rainha Ginga” e que seus “versos tresandam a catinga”, talvez por alguns erros de sintaxe, que se prendiam justamente com o cariz popular das modinhas e lundus em que se inspirou, ou que transcreveu. 

Sabe-se que foi estudar Leis para Coimbra com cerca de 23 anos e morreu em Lisboa a 9.11.1800. Nos arquivos da Universidade de Coimbra surge com o nome "Domingos de Caldas Barbosa" e os seus registos vão de 1.10.1763 a 1.10.1767, com matrícula em "Leis" a 1.10.1764. Nesses registos não se indica filiação e dá-se como lugar de nascimento o Rio de Janeiro, mas sem data. 

Terá sido um violeiro boémio e também frequentou a corte portuguesa (transversal ainda nisso). Tornou-se um dos poetas do fim do século XVIII em Portugal. Em princípio, seria neoclássico, ou árcade pelo menos foi (da Nova Arcádia). Publicou a sua Viola de Lereno em 1798 (vol. I) e 1826 (vol. II), portanto em pleno período neo-clássico. A sua poesia, porém, está cheia de improvisos e adaptações de canções populares, sendo que ele próprio tocava muitas delas com bastante gosto. Antes de haver Romantismo em Portugal ou no Brasil escreveu, ou publicou, versos assim:

Tem nhánhá certo nhônhô
Não temo que me desbanque
Porque eu sou calda de açúcar
E ele apenas mel de tanque.

Ou como estes:

Cuidei que o gosto de amor
Fosse sempre o mesmo gosto
Mas um amor brasileiro
Eu não sei porque é mais doce
.................................................
Coração, que tens com Lídia?
Desde que seus olhos vi,
Pulas e bates no peito
Tape, tape, tape ti; 

Coração não goste dela
Que ela não gosta de ti[1]

Ou, ainda, como estes, mais característicos da época:

Lereno triste
De Arminda ausente
Continuamente
Se ouve bradar

E que podiam, no entanto, aparecer num livro de Maia Ferreira em Angola, junto com uma declaração de fé tipicamente romântica: 

Eu não te apareço
Com rico surrão;
Mas meu coração
Maior valor tem

Que também podia aparecer no livro de Maia Ferreira - o que já me leva a desconfiar da possível influência de modinhas e lundús sobre a obra do nosso primeiro romântico...

Retornando ao dramaturgo e boémio luso-brasileiro, Assis Ângelo, numa recensão ao livro de Tinhorão (v. hiperligação acima), escreve:

Caldas Barbosa, tradutor de Voltaire e de outros grandes nomes da literatura mundial da sua época, foi o primeiro erudito […] que melhor traduziu e mostrou a alma brasileira em Portugal, cantando a graça das mulatas, os amores e a saudade que deixou para trás.

O que temos, então? Um neo-clássico? Um romântico? Um pré-romântico? Um Hölderlin?

Não. É mesmo um Domingos de Caldas Barbosa, poeta lusófono e lusógrafo.

As culturas lusófonas e lusógrafas eram culturas situadas nas margens das influências do centro da Europa, como a francesa ou a alemã (genericamente falando, pois nem havia Alemanha então). A periodização literária, começando a ser processada com rigor e sistema no centro da Europa, naturalmente refletiu o percurso literário dessas culturas centrais. Ainda levando em conta o seu rigor e sistema, bem como o facto de, ao longo dos séculos, os cânones literários serem primeiro definidos em França, Itália, mais tarde Alemanha e Inglaterra, depois importados para países como Portugal, essa classificação atraiu a si o interesse dos historiadores da literatura do resto da Europa, particularmente dos portugueses, depois do resto do mundo, particularmente dos brasileiros, angolanos, etc..  

Mas a cultura lusógrafa brasileira, angolana, etc., era uma cultura de margens também. Situava-se nas margens entre a cultura marginal europeia que era a portuguesa e as culturas locais, ou presentes no local, anteriores ou simplesmente paralelas ao ensino formal praticado nas colónias (culturas africanas, culturas ameríndias e uma mescla de cultura popular de marinheiro de múltiplos portos).

Esse fator – marginal – associado eventualmente a uma circulação mais lenta dos livros em tempos recuados (já não, por exemplo, na primeira metade do século XX), levou a que o percurso literário lusógrafo divergisse em relação ao da Europa central ao ponto de surgirem grandes escritores que não conseguimos inserir em nenhuma corrente literária já definida. É por esse motivo que deparamos com tantos casos de ‘transição’, na verdade de inclassificação periodológica (e genológica também), nos nossos países. Tantos que se justifica, relativamente a certas épocas, arranjar termos próprios para juntá-los e designá-los.

Para não esfarelarmos a verdade, teremos de realizar estudos comparados entre os vários países, criando termos e conceitos apropriados aos circuitos das margens do 'sistema-mundo' da época. 

Intuitivamente foram surgindo expressões mais e menos apropriadas, como ‘ultrarromantismo’ ou ‘penumbrismo’. Nelas tentamos incluir autores que, face à periodologia do centro da Europa, não teriam classificação, ou seriam sempre de transição. 

Mas o processo só ficará completo quando pudermos olhar as nossas histórias literárias de uma forma ordenada e sem que as exceções sejam mais ou maiores do que as regras, ou seja, quando pudermos olhá-las no seu continuum próprio. E, como disse, com uma visão englobante, incluindo comparativamente algumas produções literárias antigas do Senegal ou da África do Sul, por exemplo. O que também implica uma leitura comparada das várias literaturas lusófonas e, no nosso caso ou no de Moçambique, articulando-se essa comparação com a das literaturas africanas vizinhas ou com momentos similares nos séculos XIX e XX.

É todo um programa de leitura e de investigação que está por fazer.





[1] Note-se a alternância entre a terceira e a segunda pessoas do singular. 

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