... questões postas pela colocação do cigarro dentro da boca podem, afinal, ter uma pertinência cultural inesperada. Se não, veja o leitor:
Toda a infância é ingénua e inocente. Não deve ser fortuita
esta coincidência entre in-fância (não falar), in-génua (sem engenho) e
inocente (que não conhece).
Ao longo da vida vamos perdendo lentamente as ingenuidades
da infância e, com elas, a deleitosa inocência. Deixamos de nos assustar com
Chinganjes, deixamos de acreditar no Pai Natal, enfim…
Há ingenuidades, porém, que nos acompanham até muito tarde
na vida. Provavelmente porque se reportam a pequenas coisas, em geral sem
grande importância. Para mim, foi o caso das mulheres que fumavam com a parte
acesa do cigarro dentro da boca.
Hoje essa imagem (das velhas lavadeiras fumando assim)
lembra-me um verso de M. António, de cuja poesia gosto em boa parte por isso:
porque nos ensina aforismos que, ao longo da vida, vão recorrendo perante
situações muito concretas. A imagem em que penso é a de um mercado popular na
Turquia. O poeta em viagem, ao chegar ali, enumera os produtos à venda, retrata
o quadro metonimicamente e conclui que
[…] parte importante / Do que me liga à terra onde nasci / — Os gostos da infância — / Pertence também aos turcos.
Com ironia o diz, claro. Mas é a expressão de mais um
desmame – perdoem-me o disfemismo. Agora vem o resto:
Um dia levaram-me do Recife a Itamaracá e mostraram-me, lá
bem no cimo, uma terra que teria sido a primeira da zona onde os portugueses se
instalaram com os primeiros escravos. Chamava-se, talvez, Aldeia Velha. Sei
que, pouco antes de lá chegar, havia umas cubatas à minha esquerda e reparei que eram iguais às nossas. Numa delas estava sentada à
porta uma velha senhora de panos a
fumar com a ponta acesa do cigarro dentro da boca. Fiquei espantado: quantas
vezes estive convencido de que isso era só nosso, que eram tão nossas aquelas
velhas que fumavam assim que até me queriam ensinar a fumar assim, e aprendi,
mambos da terra, ou coisas da terra…
Pensei que talvez aquela senhora viesse ainda do tempo da
escravatura, ou os pais dela, portanto descendia de angolanos – razão pela qual
fumava assim. Depois do planeta dar mais umas voltas sobre si próprio e em
torno do sol, dei comigo em Luanda a ler a versão digital da autobiografia de
Gabriel García Marquez. Encontrei este pedaço de prosa sobre uma personagem feminina da sua infância, marcante e já velha quando com ela conviveu. Transcrevo:
[…] consumiendo sin sossego unas calillas de tabaco basto que fumaba al revés, con el fuego dentro de la boca, como lo hacían las tropas liberales para no ser descubiertos por el enemigo en la oscuridad de la noche.
Está visto, essa nossa maneira de fumar, “com o fogo dentro
da boca”, foi muito longe no tempo e no espaço. E é mesmo possível que tenha
tido origem aqui.
Comentários
Enviar um comentário
Comente