If you write a poem with the aid of a thesaurus, you will almost inevitably look like a person wearing clothing chosen by someone else. I am not sure that a poet should even own one of the damn things.
(Mark Doty)
Segundo se tornou comum pensar a partir, principalmente, do Romantismo europeu, cada língua, conforme vai sendo falada por um povo, vai-se estruturando ou reformulando em função das vivências desse povo e registando o perfil espiritual de uma pátria. Até que ponto isso fundamenta uma filosofia ou uma poesia identitária?
Perante as premissas românticas era então compreensível que os intelectuais e poetas, preocupados com uma cultura e literatura identitárias, buscassem na língua, ou nas línguas, faladas (ou escritas) pelos seus povos, a chave para uma filosofia própria, uma poesia própria, enfim, uma cultura escrita e erudita diferente de todas as outras.
Para além do nítido desvio que muitos desses intelectuais fazem (preocupando-se mais com o ser diferente ou próprio do que com a verdade, ou a eficácia estética e ética - medidas pelo alcance universal de uma obra), há outros aspetos preocupantes neste alicerce dos nacionalismos - que não me parece de todo desprezível ou, mesmo, infundado.
Passo a colocar a minha dúvida:
Se a linguagem é uma plataforma de interação entre o homem e o meio ambiente, entre uma pessoa e as outras, bem como de uma pessoa consigo própria, as línguas é consequente que mantenham durante muito tempo marcas desse uso da plataforma. Elas são, neste aspeto, como que a memória da linguagem.
Mas, se é por isso que nos identificam, pela vivência que os nossos antepassados tiveram aqui, então, por isso mesmo, a língua herdada não exprime a nossa identidade atual. Porque já não somos os mesmos e o mundo já não é o mesmo.
Desenvolvo:
Se elas assumem tal cariz, então é preciso que se renovem constantemente pelo uso da linguagem no presente para continuarem a identificar-nos. Nesse aspeto, as etimologias, os provérbios e adivinhas, enfim, as memórias das palavras e das frases é de perguntar até que ponto nos servem se ficam presas ao tal passado que registam. Acho que nos servem por duas vias:
1) porque, precisamente, nos dão notícia de sabedorias anteriores e, caso saibamos explorá-las, também de uma sabedoria ou tradição universal que se fragmentou conforme a humanidade se foi espalhando pelo mundo;
2) porque nos ajudam a perceber as decisões dos nossos antepassados.
Visto isto, repito a dúvida:
Se as línguas nos servem por esses dois motivos, se elas nos identificam por um passado supostamente comum, então elas não nos servem para mais nada hoje. Face aos dias de hoje - completamente diferentes a partir da revolução tecnológica, da globalização dos mercados e da informação, da revolução cibernética - face aos dias de hoje as línguas que herdámos tornam-se quase línguas estrangeiras.
Escrevo quase por um motivo sério: seriam totalmente estrangeiras se não as olhássemos na sua interação presente, se não as mudássemos em função da linguagem de hoje. A etimologia dá-nos o contrapeso, funciona como base para comparação, mas é a atualidade que nos dá a verdade presente da palavra.
Então quer dizer que, cientes embora desse tesouro que as línguas nos guardam, elas identificam-nos pelo registo que nelas fazemos da nossa atualidade, só em pequena parte consequência de um passado comum.
Pode parecer chocante para alguns o que escrevo, mas olhem à volta e para vocês mesmos: como estamos vestidos? que deuses e crenças conhecemos? quantas visões do mundo sabemos que existem? quantos tipos humanos? como nos comunicamos todos? como nos deslocamos? com que velocidades vivemos? como nos lavamos? quantos, quais e de que origens são os livros que lemos e as músicas que ouvimos? gostamos ou não de cinema? podemos viver sem telefone (portanto, sem comunicação imediata com os outros)? como nos amamos (mesmo fisicamente)? e, até, como respiramos (em ambiente condicionado, não é?, de ar condicionado ou aquecedores)?
Precisamos bem mais de um bom mecânico e de um bom técnico de ar condicionado do que de um bom curandeiro, ou de alguém que nos ensine como capinar.
Portanto a nossa identidade fica formatada por um dia-a-dia e uma vida social que já não tem quase nada a ver com o que formatou as nossas línguas e justificou o apreço identitário em que as tínhamos. Os nossos problemas quotidianos, o alcance das nossas inquietações e pesquisas, desenvolvem-se e resolvem-se depois de uma profunda transformação no modus vivendi da humanidade. Mais ainda: desenvolvem-se numa constante transformação, mesmo, do nosso modus vivendi atual, que muda rapidamente.
O passado é hoje pouco mais do que um fantasma. Do qual apenas extraímos os óleos essenciais, porque também já temos laboratórios, não precisamos da casca toda da árvore, que nos trará efeitos secundários hoje em dia completamente evitáveis. Efeitos equiparáveis às limpezas étnicas ou raciais, praticadas na cultura de um povo ou na figura das suas crianças.
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