Aparentemente louvável a proposta de Vladimir Putin para que os licenciados russos sejam obrigados, durante a formatura, a ler 100 autores canónicos russos.
Mas uma tal proposta, eleitoralista sem dúvida (está integrada no caderno de propostas eleitorais do primeiro-ministro e recandidato à presidência), é feita por um político. Raramente os políticos possuem sentido estético apurado, é mesmo um desafio aliciante o de estudarmos as escolhas literárias dos políticos (o que eles efetivamente conhecem) e compararmo-las com as escolhas literárias dos poetas, dos críticos, dos universitários e da população em geral. Ouvi dizer que Hitler gostava de músicas líricas simples e lamechas; além de Ramalho Eanes (o único não-ditador desta lista) e Samora Machel, Salazar também admirava Miguel Torga (que mandou prender a pedido de Franco) e Pinochet Neruda (ao qual maltratou tanto quanto pôde, mesmo depois da morte). Será que os ditadores têm bom gosto literário?
Putin preza muito um autor que se limitava, nos tempos de Stalin, a fazer descrições elogiosas da natureza russa - para além de fazer o jornalismo da época. Penso que se chamava Mikhail Prishvin e a memória literária propriamente dita não guardou grandes sinais dessa personagem. Que entraria no cânone de Putin, claro...
O que interessa aqui é o estabelecimento de critérios para um cânone. A proposta de Putin aparece num 'ensaio' sobre a questão étnica na Rússia. Basicamente ele acha que é a cultura russa que traduz uma identidade supra-étnica, transversal, que garante a unidade do país. O cânone devia, pois, ser formatado em função da aproximação das obras a essa identidade.
Já conhecemos estes e outros caminhos idênticos: estabelece-se, em abstrato, uma identidade e subordina-se as obras literárias à identidade estatuída para dizer que é verdade o que escrevemos. Depois tenta-se obrigar os escritores a limitarem-se à tal identidade estatuída. A criatividade estética fica muito longe, é dos últimos critérios a considerar (identidade, função política da obra e outros que tais virão primeiro). De maneira que, no fim, teremos uma literatura que dá rosto a uma propriedade intelectual e estatalmente estabelecida, mas temos um cânone artístico ineficaz esteticamente, ineficaz naquilo que devia defini-lo: a arte.
Conhecendo, como conhecemos, as inclinações ditatoriais de Putin torna-se claro, mais uma vez, que a reivindicação de um cânone identitário único para a literatura está associada a projetos políticos totalitários - o que de resto já tinha acontecido com o nazismo.
E, mais uma vez, esse projeto totalitário (como também no caso do nazismo e no caso do fascismo) tem na origem e na base uma profunda influência socialista, marxista mais precisamente. Há qualquer coisa na ideologia marxista que leva os seus acólitos, com muita frequência, a tornarem-se nacionalistas no mau sentido da palavra, esse mesmo dos partidos que foram e são nacionalistas e socialistas, ou seja, nacional-socialistas. Como é o caso do Partido Rússia Unida que, também na esteira de outros, vai depois apagando o socialismo, trocado pelas alianças com grandes empresários fiéis ao 'sistema'.
Agora pergunto: mas, afinal, o que é que isso tudo tem a ver com a literatura? O mesmo que nada. Os caminhos do poeta não são nem exclusivos nem opressivos.
É caso de dizer que há político para tudo ou os políticos servem-se de tudo?
ResponderEliminarServem-se de tudo, é certo, servem-se também de todas as maneiras.
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