No seu livro Origens - cuja edição francesa é de 2004 - Amin Maalouf ensina-nos algumas coisas sobre a sua família e, por essa via, também sobre os últimos 150 anos, mais ou menos. O livro está cheio de boas surpresas e suscitou-me algumas notas. As notas cobrem apenas alguns aspetos, há muito mais a considerar a partir da leitura da obra. Mas, para já, são estas. 12, como o número dos Apóstolos de Cristo.
1. Li este livro de Amin Maalouf com expectativa e curiosidade redobradas:
depois de As Cruzadas vistas pelos árabes
– que nos ajudam a relativizar as versões ‘históricas’
sobre as Cruzadas; depois de Leão,o africano – a obra da nostalgia de Granada, que demonstra como uma
identidade pode funcionar no vazio quase até à paranoia; depois de As identidades assassinas – denúncia e
desmontagem feliz e concisa dos preconceitos e pressupostos em que se legitimam
muitas das guerras atuais; depois disso tudo, uma obra com o título de Origens só podia suscitar interesse[1].
2. Trata-se, exatamente, de um romance sobre a família de
Maalouf. Como romancista que é, o autor usa a sua arte para organizar os papéis
e as informações, que ficam sequenciadas de modo a sugerir uma impressão de puzzle, pouco a pouco se combinando sobre
uma linha temporal. Por isso o livro parece também seguir o modelo das sagas
familiares, do romance de família, ao mesmo tempo em que conta a história da
investigação feita pelo autor. A ficcionalização é artística sobretudo na
maneira de posicionar e transmitir cada episódio, cada cena – inserindo-se num
plano que parece natural mas deve ter sido criteriosamente planeado e seguido.
3. Alguns dos acontecimentos atuais, em particular a chamada ‘Primavera árabe’ e os conflitos no Líbano, depois da leitura do livro, tornam-se mais claros, mais percetíveis e familiares. Por exemplo: notamos que a revolta no Egito baseou-se em duas vertentes (penso que já na Tunísia tinha acontecido o mesmo) e, através do livro, percebemos que são duas correntes antigas no pensamento político árabe. A primeira (maioritariamente jovem) laica, ou pelo menos aberta quanto a confissões religiosas, que pretendia ver um país moderno, sem perda de identidade mas no qual a identidade faz parte da contemporaneidade modernizando-se, atualizando-se. Um país moderno também no sentido de livre, próprio e livre, desenvolvido, com níveis baixos de corrupção, de condicionamentos e de incompetência. A segunda vertente é já mais velha, embora remoçada com o neoconservadorismo dos anos 70, 80 e 90, que teve nos países islâmicos uma componente fundamentalista e autoritária dominante. A vertente islamista, moderada ou não, pode apostar num país moderno em alguns aspetos mas apela a forças obscurantistas e, portanto, acabará sempre por pactuar com níveis elevados de abuso de poder, de corrupção e de incompetência desde que o poder islâmico não esteja em causa (v., por exemplo, Faixa de Gaza). Estas duas vertentes existem (e combatem-se) no mundo árabe já desde, pelo menos, o final do século XIX.
4. A obra serve também para estudarmos algumas condições favoráveis ao aparecimento de escritores como Amin Maalouf. Desde que ela tem memória de si, na sua família conviviam, com outras profissões, escritores, professores, oradores. O seu pai foi jornalista e escritor. O seu avô paterno, para citar apenas dois exemplos muito próximos, foi poeta, professor, dramaturgo – para além de algumas coisas mais. Tinha bons contactos em Beirute, onde viveu também, era considerado e respeitado lá, como pedagogo, orador, intelectual e maçom. Viajou por vários países ao longo da vida. O neto nasceu e cresceu, portanto, num ambiente cultural e literário, já globalizado mas ao mesmo tempo radicado, numa família dispersa pelo mundo mas em contacto permanente, na qual a própria cultura escrita estava nas mesmas condições: globalizada e localizada, radicada e em interação com o mundo. Claro que isto, nascer neste ambiente, não implica ser escritor; mas falta só, para ser escritor, aquilo que os cristãos chamam de vocação e mais qualquer coisa, talvez talento – se é que há talento sem vocação e vocação sem talento.
5. O livro vai-nos colocando perante situações que, por virtude própria, nos levam a questionar e, ou, a responder a questões com que nos defrontamos hoje, já denunciadas em Asidentidades assassinas. Mostra-nos a relatividade de muitas das nossas certezas, a novidade de muitos países (como o Líbano) que julgamos antigos, ao mesmo tempo em que narra, como já disse, a própria investigação que vai levar ao autor, e aos leitores, a verdade possível acerca da família. Trata-se de uma verdade muitas vezes incómoda, que desmentia as versões oralizadas dos acontecimentos passados e reproduzidas religiosamente de casa em casa. Portanto mostra-nos que o caminho para o conhecimento é o caminho da investigação, da pesquisa própria e do raciocínio próprio, conjugando fontes e versões diversas apenas com o objetivo de tentar perceber o que se passou. À partida, pelo menos, tudo é possível, quem se interroga não se fecha na versão recebida. Nessa operação Maalouf seria um historiador se não fosse, mais ainda, um hábil tecelão de conjeturas que ajudam a tornar provável o que, aparentemente, era só contraditório. Mais uma marca de arte…
6. Mas a relativização que desde o início o livro me provocou não estava talvez na mente de Maalouf. Ele nos diz, logo no princípio, que a identidade será, no seu caso, a de uma família: não de um país, nem de uma religião, nem de uma ideologia, nem de uma etnia, mas a de uma família com vários países, religiões, ideologias e, quiçá, origens étnicas diferentes também.
7. Surpreendeu-me esta proposição. A nossa identidade é múltipla: familiar, eventualmente ligada a um país ou dois, a um percurso político, a uma crença ou descrença estruturante, e sobretudo a uma vivência pessoal que nos vai construindo a imagem de nós próprios pelas sensações e memórias que recebe do nosso corpo e que processa no nosso cérebro. Acima de tudo a minha identidade é pessoal. Em parte vem daí a minha simpatia (relativa, moderada e já antiga) pelo personalismo cristão.
8. Mas a surpresa derivou também de o autor, que habilmente nos leva a desconstruir os condicionamentos hoje conflitantes, agressivos e egoístas, não decompor desde logo o próprio conceito de família. Prudentemente coloca por título a palavra Origens – no plural. Origens mas não famílias, quanto a isso ele fala da ‘nossa’, diz que ‘nós’ somos assim, usa expressões como ‘entre nós’, ou equivalentes. Tudo como se ele tivesse uma família, como se pudéssemos substituir, não direi a pátria, mas a nossa identidade por um apelido.
9. O que me parece é que não temos família, mas famílias – pelo menos todos os que não descendem por eugenia. O que Maalouf chama de família faz, em parte, sentido: um núcleo familiar inicialmente radicado num só lugar, uma “casa” – termo que usa e explica, religando-nos à raiz beit – presente entre nós no apelido Barbeitos, ou seja, da casa, da casa grande. Mas ‘casas’ onde se incrustam por casamento novos elementos. O núcleo organiza-se em função de um apelido principal (em geral é só um) e depois fala-se em ‘ramos’, ‘partes’, ‘lados’, ‘costas’ e castas, etc. Mas, para cada membro da ‘família’, há dois progenitores e cada um deriva, em princípio, de outra família que não a do parceiro. Por isso há famílias e não há, propriamente, família no sentido que Maalouf imagina aqui.
10. Parece-me, portanto, mais aproximada a representação do fenómeno pela metáfora da rede: não há uma família (apenas núcleos), há redes familiares, interagindo ou não entre elas. Ou talvez a metáfora da cidade, feita de várias casas, ruas, quarteirões, bairros. Os adolescentes organizam-se temporariamente em pequenas tribos, ou pequenos bandos, em função justamente da rua ou do bairro; por seu turno os mais velhos, entre eles os de uma identidade familiar, que está incrustada noutras, dizem que ‘aqui nesta casa não há disso’, ou ‘nós [a nossa família] não fazemos isso’, etc. Às vezes um determinado ‘ramo’ toma posição predominante no meio social em que vive e na própria ‘árvore’ genealógica; naturalmente que, nesse contexto, os restantes ‘ramos’ ligam-se ao predominante reclamando pertencerem àquela ‘família’ e, momentaneamente, silenciando os outros lados ou costados.
11. O leitor, portanto, tem pai mas também tem mãe. O pai teve também duas ‘raízes’, origens, e a cultura que ele passa para o filho é já uma síntese de duas culturas familiares diversas (que podem ter mais, ou menos, em comum, reclamar-se de uma tradição comum, mas que possuem hábitos, costumes e até ‘nominhos’ em parte só seus). Amin Maalouf aliás, principalmente no final, aponta dois momentos ou casos da família, muito próximos dele, em que o casamento juntava na verdade duas tradições familiares (o do pai e o do avô, se não me engano). O centro dessa cultura familiar é ele próprio e cada irmão pegará nesse património tornado comum (o do pai e o da mãe), uma mistura de memórias genéticas e culturais, cada um vai perceber o magma herdado de forma própria, amassa-o de novo de forma própria, personalizada, acrescentando-lhe o que é, foi, só seu. Assim compreendemos que as famílias (não direi família) são construtos sociais e mentais que se processam centralmente na personalidade individual, de que o avô Botros é o ícone dentro desta narrativa.
12. A narrativa está, aliás, muito centrada nessa figura singular e carismática, Botros. É quase que centrada nele. Não fora isso e lá surgiriam mais referências a Maalouf espalhados pelo mundo. Incluindo o lusófono. Pois Amin Maalouf refere um parente que partiu para o Brasil, onde morreu por motivos políticos e, quase a fechar, fala de primos em várias partes do mundo incluindo São Paulo. É, portanto, bastante provável que viesse a falar de um parente seu que não figuraria como herói numa história familiar: Paulo Salim Maluf.
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