Transcrição do testemunho de Edmundo Rocha sobre a Fuga dos Estudantes Angolanos de Portugal em 1961, com pormenores e nomes sobre vários protagonistas e auxiliares.
Saúdo os organizadores da comemoração do quinquagésimo
aniversário da FUGA* de cerca de uma centena de estudantes africanos de
Portugal, respondendo assim ao Apelo da Direcção Provisória do MPLA em Conakry.
Saúdo também o Presidente Pedro Pires por ter acolhido em
Cabo Verde este evento histórico.
Exprimo o meu pesar pelo desaparecimento de numerosos
companheiros de luta, no decurso deste meio século.
Creio que a grande maioria dos participantes na Fuga não se
deu conta, nessa altura e mesmo hoje, dos esforços que foi necessário
desenvolver para que a fuga fosse possível. Esse assunto já foi descrito num
capítulo da minha obra O nacionalismo
moderno angolano, editado em 2003 e em 2008 (Dinalivros). Vou-me referir a
ele porque tem havido interpretações erróneas (organização da Fuga pelo PCP,
etc.) mas também para, nesta data, revisitar objectivamente o passado.
Em 1957, foi lançado o MAC (Movimento Anti-Colonial) dirigido
por estudantes das várias colónias portuguesas africanas – quatro Mais Velhos:
Agostinho Neto, Amilcar Cabral, Mário de Andrade e Lúcio Lara; e mais três
estudantes da Nova Vaga: Iko Carreira, Edmundo Rocha e Carlos Pestana. O MAC
desenvolveu um profundo trabalho de consciencialização e de mobilização de
muitos jovens na Casa dos Estudantes do Império e de trabalhadores no Clube Marítimo
Africano. Com a saída de Lúcio Lara para a Alemanha e de Agostinho Neto para
Angola, em 1959, o MAC foi perdendo vitalidade.
Sentiu-se então a necessidade em se criar um movimento de
raiz angolana. Foram promotores desse grupo: João Vieira Lopes, Gentil Viana,
Manuel Bento Ribeiro, António Pedro Filipe, Graça Tavares, e eu próprio,
Edmundo Rocha. Era também no seio da Casa dos Estudantes do Império e do Clube
Marítimo Africano que esse grupo desenvolvia acções clandestinas. Esse grupo mantinha
contactos com os dirigentes do MPLA em Conakry, através da embaixada egípcia em
Lisboa. Foi através desse canal que
recebemos, a partir de 1960, vários documentos importantes assinados: Mário de
Andrade, Viriato Cruz e Lúcio Lara. O M.E.A. tinha núcleos clandestinos em
Coimbra (Videira) e no Porto (Lima de Azevedo).
Logo depois do desencadear da luta de libertação em 4 de
Fevereiro de 1961, recebemos um Apelo dos dirigentes do MPLA, então em Conakry,
para que alguns estudantes fossem reforçar as insípidas estruturas do MPLA.
Após deliberação prolongada e face às dificuldades de comunicação com Conakry,
foi decidido enviar para fora de
Portugal dois elementos da Direcção do Movimento dos Estudantes Angolanos (M.E.A.), Graça Tavares e eu próprio, afim de
mais facilmente se porem em contacto com os dirigentes do MPLA e organizarem a
Fuga de alguns estudantes.
Saímos por Vila Real de S.to António e rapidamente
atingimos Niort, em França, onde fomos albergados por um amigo, Marc Antoine
Delanné. Foi daí que anunciámos a nossa saída de Portugal aos camaradas do
MPLA. A resposta do MPLA foi negativa, informando-nos de que não dispunham de
capacidades logísticas e de meios financeiros para custear tal operação e de
que devíamos juntar-nos ao Luiz de Almeida, então na Alemanha. Essa resposta
foi um balde de água fria e uma enorme decepção.
Luiz e Karen receberam-nos na sua casa em Birkesdorf-Duren,
tendo mais tarde sido alojados em Frankfurt em casa de uma simpatizante da
causa angolana. Entretanto Graça Tavares foi chamado a Conakry e fiquei sozinho
com a responsabilidade de executar a missão de fazer sair de Portugal os
estudantes africanos, que aí esperavam ansiosamente pelo resultado dos contactos
com o MPLA.
Foi então que Desidério Costa e Luiza Gaspar, estudantes
angolanos na Alemanha, nos abriram a primeira porta: o bispo protestante de
Frankfurt. Este dirigiu-nos para o Presidente da Assembleia Mundial das Igrejas
protestantes, o bispo Black, em Genebra. Fizemos a viagem no “carocha” do Luiz
de Almeida. O bispo Black tinha exercido o magistério em Angola, estava
alertado pelo início da guerra colonial e foi receptivo ao nosso pedido. Transmiti-lhe
os contactos em Lisboa com João Vieira Lopes e a operação Fuga estava lançada
e… escapou-nos das mãos. O organismo operacional foi a CIMADE, dirigido por Jacques
Beaumond e apoiado por três jovens operacionais americanos: David Pomeray,
Howard Kimbal e William Nothingham, que conduziram os autocarros.
Esta operação, altamente secreta,
realizou-se em fins de Junho de 1961, foi dirigida por João Vieira Lopes, que
coordenava o M.E.A. e a equipa da CIMADE. Em cerca de dez dias, vários grupos
dirigiram-se para a fronteira luso-espanhola, aí embarcaram em dois autocarros
conduzidos pelos operacionais americanos e dirigiram-se para a fronteira
franco-espanhola e daí para a sede da CIMADE em Paris, onde foram albergados.
Vários dirigentes angolanos, Viriato, Mário, Eduardo Santos,
e guineenses, Amílcar, foram a Paris e tiveram contactos com os estudantes,
tentando orientá-los segundo os seus desígnios.
Jonas Savimbi conseguiu aliciar os jovens estudantes protestantes.
Alguns deles, Dr Liahuca e Pedro Sobrinho, juntaram-se à FNLA em Leopoldville.
Luís de Almeida, tendo visitado o grupo em Paris, nessa
altura, informou-nos da urgente necessidade em se organizar uma Associação de
Estudantes das Colónias Portuguesas, afim de se conseguir obter bolsas de
estudo.
Foi, no entanto, a viagem de uma delegação de um grupo de
estudantes das colónias portuguesas, para participar em Moscovo no Fórum
Mundial da Juventude, em Agosto de 1961, que nos permitiu estabelecer os
contactos e apoios junto da União Internacional de Estudantes, das Associações
estudantis da África do Norte e da FEANF, afim de se realizar o Congresso
Constitutivo da União dos Estudantes das Colónias Portuguesas (UGEAN).
Tendo sido eu o mandatado para a organização desse evento
histórico, em Marrocos, para aí me dirigi, tendo conseguido os apoios, não só
da recém-criada CONCP, dirigida pelos meus amigos pessoais Marcelino dos Santos
e Aquino de Bragança, como também dos dirigentes estudantis e pelo governo
marroquino.
Entretanto, em Paris, alguns jovens decidiram encetar uma
viagem rocambolesca que os levou ao Ghana, onde foram recebidos por N’Khrumah.
A criação da UGEAN foi muito importante para se obter bolsas
de estudo e outros apoios aos jovens estudantes que tinham fugido de Portugal e
tinham absoluta necessidade em acabarem os seus cursos. Foi assim possível
obter esses apoios e bolsas de estudo em numerosos países de Leste, União
Soviética e R.D.A. e em países ocidentais, Estados Unidos, Alemanha e Holanda
através do organismo estudantil, COSEC.
O primeiro presidente da UGEAN foi Desidério da Costa. No
final do Congresso, realizou-se o casamento do Desidério com Ruth Neto,
apadrinhado pelo próprio Rei de Marrocos.
Após o Congresso da UGEAN, alguns destes jovens partiram diretamente
para Leopoldville e foram imediatamente integrados no Corpo Voluntário de
Angolanos de Ajuda aos Refugiados ((CVAAR). Foi o caso do João Vieira Lopes, do
Rui de Carvalho, do Boal, do Videira, do Pestana e do Edmundo Rocha. O corpo
clínico do CVAAR agrupava dez médicos e vinte enfermeiros. As equipas do CVAAR
prestavam apoio médico e assistencial às populações angolanas ao longo da
fronteira .
Muitos dos estudantes que foram acabar os seus cursos
juntaram-se ao MPLA, ao PAIGC e à Frelimo , anos depois.
Ao longo dos anos, outros grupos de estudantes foram saindo
de Portugal, tendo sempre recebido da parte da CIMADE e da UGEAN um apoio
significativo, tanto na obtenção de bolsas de estudo como na integração nos
movimentos de libertação, reforçando as suas fileiras e elevando o nível da
luta de libertação.
Lisboa 18.06.2011
Edmundo Rocha
Texto subscrito por João Vieira Lopes
*Colóquio organizado em Cabo Verde, para o qual o texto foi escrito na impossibilidade de o autor aí se deslocar. Agradeço a Edmundo Rocha a amável cedência do texto.
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