De forma geral as relações entre política e literatura são vistas pelo prisma político-partidário. Ou se vê como a ideologia condicionou o escritor, ou como a obra veiculou e serviu de propaganda a uma ideologia, a um projeto político, ou ainda como ela organiza, para fins políticos, uma tese de leitura, crítica e superação social, ou como a sua linguagem e semântica revelam os condicionamentos ideológicos da época, etc.
Ao contrário do que faria supor a constante, ao longo da história literária universal encontramos muitos exemplos de quanto a literatura antecipa, ou conduz à inovação política sem ter sido previamente instrumentalizada para isso.
O que sucede por uma das três vias seguintes:
- Experimenta-se, põe-se à prova, uma ideologia criando mundos possíveis em que essa ideologia pode falhar ou triunfar; ao invés de, como a literatura partidária, exemplificar uma sociedade utópica, imagina-se como, onde e porque pode ela falhar, recorrendo a um procedimento que a Lógica da pesquisa científica de Popper tornou famoso.
- Pelo quesito da originalidade, ao inovar a linguagem criam-se e desfazem-se laços entre conceitos e relações de causa-efeito que não estavam previstos nos programas ou nos argumentos políticos, filosóficos, ideológicos.
- Dada a função social primária da arte, que é a de abrir as portas da perceção, contribui-se inesperadamente para alterar a nossa visão do mundo e, por consequência, projetos de organização social, programas políticos, utopias ideologicamente programadas. Tão inesperadamente quanto Poincaré ao trabalhar com as funções fuchsianas.
A partir daqui, uma função sem dúvida fundamental dos teóricos e dos críticos literários é a de levantar os exemplos em que isso aconteceu ao invés de tentar impor aos escritores soluções e posturas ideológicas prévias. A arte é intrinsecamente libertária e daí vem a sua maior contribuição para a humanidade.
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