Avançar para o conteúdo principal

Literatura e antecipação

 

De forma geral as relações entre política e literatura são vistas pelo prisma político-partidário. Ou se vê como a ideologia condicionou o escritor, ou como a obra veiculou e serviu de propaganda a uma ideologia, a um projeto político, ou ainda como ela organiza, para fins políticos, uma tese de leitura, crítica e superação social, ou como a sua linguagem e semântica revelam os condicionamentos ideológicos da época, etc.

 

Ao contrário do que faria supor a constante, ao longo da história literária universal encontramos muitos exemplos de quanto a literatura antecipa, ou conduz à inovação política sem ter sido previamente instrumentalizada para isso.

 

O que sucede por uma das três vias seguintes:

  1. Experimenta-se, põe-se à prova, uma ideologia criando mundos possíveis em que essa ideologia pode falhar ou triunfar; ao invés de, como a literatura partidária, exemplificar uma sociedade utópica, imagina-se como, onde e porque pode ela falhar, recorrendo a um procedimento que a Lógica da pesquisa científica de Popper tornou famoso.
  2. Pelo quesito da originalidade, ao inovar a linguagem criam-se e desfazem-se laços entre conceitos e relações de causa-efeito que não estavam previstos nos programas ou nos argumentos políticos, filosóficos, ideológicos.
  3. Dada a função social primária da arte, que é a de abrir as portas da perceção, contribui-se inesperadamente para alterar a nossa visão do mundo e, por consequência, projetos de organização social, programas políticos, utopias ideologicamente programadas. Tão inesperadamente quanto Poincaré ao trabalhar com as funções fuchsianas.

 

A partir daqui, uma função sem dúvida fundamental dos teóricos e dos críticos literários é a de levantar os exemplos em que isso aconteceu ao invés de tentar impor aos escritores soluções e posturas ideológicas prévias. A arte é intrinsecamente libertária e daí vem a sua maior contribuição para a humanidade.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Plínio Palhano

Plínio Palhano é um desses extraordinários criadores pernambucanos cuja obra fica mal conhecida fora de um círculo ou circuito estrito. Desde poetas como Carlos Pena Filho, ou Alberto Cunha Melo, ou Ângelo Monteiro e Lucila Nogueira, até este artista plástico a arte e a literatura de Pernambuco, particularmente de Olinda-Recife, continua a constituir uma experiência instigante para estudiosos e apreciadores. Talvez recursos como a Internet estejam subaproveitados por alguns destes criadores artísticos. Atualmente foi colocada em rede uma mostra significativa, que vale mesmo a pena visitar, de quadros de Plínio Palhano. Para ela remeto os visitantes do blogue. É só clicar em Plínio Palhano