Num mundo cada vez mais instável e inseguro, em que já não se sabe o que é realidade, nada mais prodigioso do que uma amizade que ultrapasse a contagem dos dias e sirva de justificação para a própria existência. Assim foi a amizade para José Manuel Capêlo.
Dono
de um caráter generoso — como o dos grandes guerreiros da vida e do pensamento
— tanto em seus cuidados quanto em suas expectativas em relação aos amigos,
dois dos seus gestos, entre outros, ficaram em minha lembrança. O primeiro
quando, preocupado com o meu relativo ostracismo, resolveu me publicar, por sua
própria conta, através da Aríon, sua editora em Lisboa, em 2002, sem, em nenhum
momento, comentar comigo sobre os custos da edição. O segundo quando voltou,
sobre dezenas de quilômetros já rodados em direção a Madri, para resolver, em
Lisboa, o problema de visto de um amigo comum que tinha vindo fazer um
doutorado em seu país.
Com
sua morte — logo no dia seguinte à sua última mensagem eletrônica por mim
recebida — se dissolve o vínculo mais vivo que me unia a Portugal e, através
dele, à sua grande poesia. Pois
Portugal, enquanto país que preza a própria memória, fez de José Manuel Capêlo
— o poeta e aventureiro do espírito, como lhe chamei certa vez — o herdeiro simbólico de dois povos: o dos
profetas e o dos navegadores.
E
a amizade, assim como a poesia, é sobretudo o reino da memória: todas as
coisas, uma vez existentes,em ambas permanecem, pois sem Mnemósine as nove
musas, e entre elas a da poesia, não conseguiriam se salvar da mais completa
mudez. E entre mim e José Manuel Capêlo a poesia era inseparável da amizade, e
foi essa correspondência, que delas resultou — permeada pela vastidão do
Atlântico — cheia de afinidades, surpresas, variações de humor e
idiossincrasias que, como um longo fio de vida e de memória, se rompeu para
sempre. E sem palavras me deixou, além das ciladas da vida, ante as ciladas
mais insuspeitadas da morte.
Nada
mais triste — mais até do que uma relação rompida em vida — do que uma
correspondência interrompida pela morte. Passamos então a saber que mais
importante do que aquilo que dizemos é aquilo que ficou por dizer. E o que
ficou por dizer é, para todos os efeitos, algo que nos ultrapassa. É quando o
peso da brevidade de tudo nos alcança com seu máximo poder de aniquilamento.
Atingimos, finalmente, a
consolação de intuir que a glória da amizade está na sua singularidade. Um
amigo nunca pode ser repetido, portador de uma unicidade não encontrável em
mais ninguém. Ninguém, portanto, vai repetir Capêlo na cadência da sua voz
carinhosa, em sua gentileza, em seus dons de sedução e em seus rompantes de
euforia ou de generosidade, para lá dos momentos de tristeza e de
irascibilidade que, por vezes, o acometiam, fazendo com que seus olhos se
enchessem da fúria dos mares e sua voz, de belo timbre, se transmudasse em
vibrações de tormenta...
Gostava, sobretudo, — ora
com ares transfigurados, ora entre gargalhadas e temores, — de partilhar seus
melhores sonhos. Pois, além de poeta, com diversas obras editadas, fez-se,
também, ensaísta e historiador, como autor de um alentado volume sob o título
de Portugal Templário, em que revela
uma profunda paixão pela história gloriosa dessa Ordem dissolvida, de maneira
cruel e traiçoeira, pelo conluio entre um papa pusilânime, Clemente V, e um rei
salafrário que atendia pelo nome de Felipe, o Belo, e reconstituída depois, sob
nova roupagem, na Ordem de Cristo, no reinado de Afonso I, em Portugal.
Não por acaso terminou
seus dias em Monte Maior, um dos redutos mais famosos da tradição templária no
Alentejo, cidade fronteiriça à Espanha. Entre “a substância das coisas e o
enredo dos homens” ele pôde dizer num magnífico poema à sua tia-madrinha Isabel
Gonçalves Capêlo: “a soma da realidade da vida desta terra que pisamos e
guardamos/é a existência: a eterna lembrança feita, na visão da sombra e da
luz”.
Poderia, mesmo agora,
quando se encontra no além de nós, dizer como Dom Quixote: “O meu repouso é o
campo de batalha”. E a sua luta de
templário remanescente continua, mas já sob os beijos da eternidade.
Recife, 03 de março de
2010
(Ângelo Monteiro é poeta e ensaísta. Seu endereço eletrónico:
-->angelo7@uol.com.br)
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