Estava programada para hoje (e realizou-se) uma homenagem ao poeta nacionalista angolano Tomás Jorge. Infelizmente, impedimentos de última hora retiveram-me em Évora, pelo que não pude ler a comunicação que preparei, a convite do Dr. Edmundo Rocha. Transcrevo-a aqui para os leitores interessados:
Foi
com emoção que soube da homenagem ao nosso Tomás Jorge, à qual desde logo aderi
apesar da escassíssima disponibilidade. Emoção pelo amigo mais velho, pela sua
humanidade, pela sua autenticidade e pelo que, na sua poesia, o destaca dos
companheiros de luta e nação.
O pai
chegou a ser chamado o ‘príncipe dos poetas coloniais’, o grande lírico Tomás
Vieira da Cruz. Sempre nutriu por ele uma profunda admiração e um verdadeiro
reconhecimento. No entanto foi Tomás Jorge, desde cedo, um dos grandes vultos
do nacionalismo literário angolano dos anos 50 e 60, para além de declamador
possante, com acurado sentido do ritmo – que provavelmente herdou de seu pai.
Fez
parte da afirmação mesmo dessa poesia desde o início, por sensibilidade
nacionalista, pela amizade e companheirismo com Viriato da Cruz, sobre quem
escreveria o último texto publicado, um testemunho como ele, simples,
despretensioso, humano e profundo. Porém, como Viriato, António Jacinto,
Agostinho Neto e poucos mais, nunca abandonou a exigência estética nem o
sentido da modernidade artística. Por isso pôde, com a parte melhor da sua
geração, contribuir decisivamente para a atualização e globalização da poesia
angolana.
Entre
os dos seus companheiros de combate e poesia, os versos dele destacavam-se por
um ritmo próprio, que não era o da oratória política (como em Agostinho Neto e,
em parte, em Viriato da Cruz), era intrinsecamente poético. Era um ritmo
sensível às harmonias musicais mas dinâmico, original, inovador em muitas das
soluções técnicas, formais, que nos apresenta.
Também
se destacava pela acentuada preocupação filosófica. Nele a postura política
parece uma consequência da maneira prévia de compreender o mundo e a vida. A
preocupação filosófica não foi momentânea. Pelo contrário, é uma das
recorrências mais significativas da poesia de Tomás Jorge e os poemas datados
atestam-no, desde os anos 50 até aos últimos anos da sua vida. Por efeito de
época, reparou-se mais no engajamento político, partidário, nacionalista. Sem
dúvida que existe, é notório, tal como também sucedeu com todos os camaradas
seus. Posso resumir algumas das características notórias: a denúncia do colonialismo e da
injustiça social, diretamente ou pelo recurso a uma infância contrapolar – mas
universal; o realismo na representação; a fala simples, directa e localizada; a
crença no dia da Humanidade; uma linguagem reaproximada ao povo e uma memória
literária que textualmente se lembra do século XIX e da primeira metade do
seguinte.
O
que interessa num autor
é porém, a diferença que ele constitui, a razão
de ser do poeta, não aquilo que se repete entre ele e os companheiros. Os tiques
de geração ou de escola, registamo-los só para os distinguirmos dos que não
foram desse tempo, lugar, ou ideologia literária. Feito isso, o que interessa é
o que torna própria uma poesia, o que a retira da “banal lisibilidade” de que
fala Benjamin[1].
E o que nele
difere é justamente a inquietação filosófica.
Creio
que o poeta se apercebeu da importância e da diferença desses versos, que reuniu
quase todos em dois dos livros que integram a antologia Talamungongo, publicada em Luanda pela Kilombelombe. São eles Relâmpagos de silêncio e, justamente, Talamungongo!... «Olha o mundo!...», que
dá nome ao conjunto. Seguiu nisso os passos de Geraldo Bessa Victor, que isolou
sobretudo em Debaixo do céu a sua
poesia de preocupação filosófica e religiosa.
O
primeiro poema da antologia Talamungongo…
olha o mundo! onde se nota a propriedade
literária de Tomás Jorge tem por acaso um título que fazia prever o
contrário: «Quadro de infância». Ele estrutura-se sobre uma progressão que vai
da infância, particular (a sua) mas integrada, à reflexão que a saudade
suscita. Essa reflexão, quase aforística, dá sentido universal à recordação e o
sentido que dá não coincide com o que era de esperar:
No começo da grande
estrada da vida
Em que os sonhos
Os sonhos dessa idade
São a grande e única
realidade da infância.
Não
coincide porque reduz a realidade ao sonho e o que se propôs fazer a poesia
‘mensageira’ foi precisamente o inverso: reduzir o sonho à alegoria e,
por um tal processo, passar da alienação ao realismo.
A
poética mensageira estava hibridizada e globalizada. Uma das influências que
recebe e aviva tem origem no realismo socialista e na revolução russa de
Outubro. Deles escrevia Benjamin em 1927: “ainda na
época da guerra civil as controvérsias formais tinham um papel não
neglicenciável. Elas são agora reduzidas ao silêncio. E hoje a doutrina é oficialmente
que a matéria, e não a forma, decide da atitude revolucionária ou
contra-revolucionária de uma obra”.
Quando
o realismo socialista se espalha nas comunidades literárias lusófonas é já isto
que recebe da mãe-Rússia. Claro, com as honrosas excepções que sempre (e
felizmente) há, a dominante era essa: não interessa a forma, o valor poético
mais alto é a ‘revolução’, que transmite para a colectividade proletária os
instrumentos da cultura devidamente mastigados e manipulados. Ora, ao controlo
do Partido basta que a mensagem não se desvie da norma estabelecida pela
Ditadura e isso garante-se por uma rápida lisibilidade.
No
entanto, há uma implicação que não costuma ser considerada: por mais que se
diga que a forma não importa, na verdade o realismo socialista está ligado a
opções formais muito claras. A fácil percepção da mensagem (por sua vez
estabelecida oficialmente) exige compromissos técnicos também. Porque era
preciso manter uma linguagem e um estilo próximos do receptor, que não
produzissem ruídos na comunicação com ele. O ruído, o excesso, o estranhamento,
eram consideradas formas decadentes do Ocidente que não contaminavam, nem o
socialismo, nem o prático espírito ‘africano’ associado à oralidade, numa perspetiva que vemos
hoje como redutora.
Daí a linearidade ideológica, diegética e discursiva do realismo socialista,
creio que não só o angolano. Por isso também, a evolução de Luandino Vieira
acabou isolando-o no seio dos seus companheiros. Aparentemente apenas em termos
de estilo, mas a mudança é mais profunda, acompanhando os novos modelos
estilísticos ambivalências ao nível da mensagem que sobressaem em Nós, os de
Makulusu e João Vêncio:
os seus amores.
Digo ambivalências, não ambiguidades, e digo ambivalências porque ali se
abandona a linearidade própria de A vida verdadeira de Domingos Xavier, aliás ao nível da intriga também, não
só da mensagem ou da exposição. O tratamento psicológico das personagens
principais torna-se muito complexo e, com isso, cria reservas à leitura linear,
redutora e hiper-dirigida. Justamente a fala-escrita de Luandino em João
Vêncio está mais próxima do discurso fragmentário, aparentemente caótico,
do sonho e da poesia lírica.
Ora
«Quadro de Infância» contempla o que Mário Pinto de Andrade, falando sobre
Mário António, chamou de “crise intimista”, com a agravante de remeter para aí
toda a verdade. Esse e outros poemas de Tomás Jorge parecem dizer-nos,
evidentemente, que ser nacionalista, comprometido, não implicava defender o
realismo, o particularismo, nem a submersão da pessoa na colectividade ou a
neutralização do desejo reprimido pela razão vigiada.
Tomás
Jorge também não alinhou impensadamente ou automaticamente na ideologia
dominante entre os nacionalistas da época (por isso não entrou no Partido
Comunista Angolano, nem deu o seu acordo, ou nome, ou poema, à viragem do
regime pós-independência para o bloco soviético). Mas fê-lo sem entrar em
negociatas, fraquezas de espírito, sem se fechar em qualquer outra ideologia de
reação. Continuou a ser poeta, essencialmente poeta, desprendido, não ligando
ao desprezo, à indiferença, ao ghetto
a que o votaram as famosas circunstâncias. Aparecia por si próprio e isso lhe
(nos) bastava.
Amava
com autenticidade e sentido crítico a sua pátria e, em particular, a sua
mátria: a velha e viva cidade de Luanda, a Loanda de outros tempos e de hoje, a
cidade dentro das suas cidades como lembrou poeticamente Jorge Macedo. Quando a
revisitou, nos últimos anos, andava de hiace,
de candongueiro, nesses pequenos
táxis coletivos onde há lugar para pessoas a mais, cuidados a menos, calor
sufocante, insegurança total, maus cheiros, bagagens atravancadas aos
solavancos sobre nós, condução alucinante e suicida, enfim, tudo menos
comodidade. Passeava anónimo pela sua Luanda, vendo-se impotente perante a
pobreza e feiura da nova cidade. Comia um bom funge no Kinaxixe, antes do
edifício ir abaixo em nome de um centro comercial novo. Com Jorge Macedo, às
vezes comigo, provavelmente com outros amigos, brincava, usando a voz
altissonante, brincava com todos e chamava cada coisa pelo seu nome, ali, no
meio do povo, anónimo como os outros todos, incluindo nós. Estava com a mesma
naturalidade com que ia almoçar à 4.ª F.ª com o Virgílio Coelho e o Macedo
junto à Sagrada Família, no Veneza – a convite, porque o dinheiro não lhe
chegava. Apesar dos amigos fiéis, a pátria por que lutou ignorou-o. Mesmo no
fim, quando tanto precisava de ajuda. Ainda assim ia lá, mentalmente ia lá
todos os dias desde a manhã até à noite, não podia passar sem ela. E
humildemente se apresentava só com a sua pessoa naquela cidade esburacada,
violenta, impiedosa. ‘Esses cotas são loucos’, diziam os miúdos, candengues
nossos aqui. Mas isso, naquele tempo e neste, entre cinzentos fraques a 33º à
sombra, isso mesmo já não foi pouco.
Francisco
Soares
Benguela, Março 2010.
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