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Poemas de massemba

Massemba é uma palavra polissémica. O seu historial está resumido aqui e um bom exemplo, dos cantos que orientavam a dança, pode ser visto aqui também .  A massemba  - no conjunto do seu campo semântico e especificamente com o significado de festa, batuque, baile - tornou-se de referência central, incontornável, para a vida em Luanda no século XIX e, sobretudo, na segunda metade.  A dança evoca tanto passos europeus de danças de salão quanto passos locais e, no seu conjunto, um ritual de conhecimento com enamoramento, possivelmente com final feliz e sem sentido de posse ou de ciúme. Tendo isto em mente, comentando os poemas bilingues do século XIX em Angola, resolvi chamá-los de 'poemas de massemba' - apesar de só um deles (o do português Eduardo Neves) mencionar explicitamente o "batuque".  Que poemas são esses? O núcleo duro é constituído por três composições. A que julgo ter sido a primeira, foi publicada em 1878 no Jornal de Loanda , subscrita por João Eusébio ...

Então vamos beber água

Um mito recorrente, seja na 'África negra' ou para 'o resto do mundo', é o de que as canções tradicionais, as adivinhas, os provérbios, só devem ser interpretados por membros das comunidades tradicionais, iniciados (ou seja: preparados para a vida) nelas, pois só eles conhecem a 'verdadeira' mensagem e a correta interpretação dos textos orais, etecetera. Isso mais afasta que aproxima. Nas pequenas comunidades rurais, é comum que haja uma interpretação tradicional que encaminha e limita a leitura um sentido único, moralmente respeitável e conveniente para condicionar as crianças aos comportamentos que delas esperam os mais velhos. Em grandes cidades, porém, isso não sucede. No mundo globalizado também não. As interpretações estão libertas de condicionamentos prévios. Isso pode induzir em desvios de interpretação que a semiótica não aconselharia. Mas os desvios se corrigem por uma análise rigorosa do texto e das 'realidades' por ele convocadas. De resto, h...

Como estudar a formação de uma literatura - a angolana, no caso -

estabelecer fronteiras e datas e identidade fixa, ou compreender e conhecer como se foram formando textos, leituras, comunidades e, depois, sistemas literários nos vários países? Ou seja: por uma leitura identitária, militante, marcada, ou por uma leitura do processo de crioulização no qual as literaturas se vão formando a partir de contributos vários? COMO ESTUDAR A FORMAÇÃO DE UMA LITERATURA - A ANGOLANA, NO CASO https://www.youtube.com/embed/TW-YEOfRgnU Na sequência desse vídeo, tiram-se várias conclusões. A principal é a de que não se pode estudar uma literatura sem a perceber em diálogo, tenso e contraditório, com as outras. É claro que uma literatura própria tem continuidades próprias, aliás constantemente chamo a atenção para isso. São mesmo estas continuidades que entram em diálogo e se renovam conversando ou confrontando outras.  No caso da Literatura Angolana, houve outra literatura incrustrada no seu território, no território no qual a respetiva comunidade de autores e d...

Francisco Soares - Antologia lírica angolana: roteiro mínimo

A flor do bar de Tomás Vieira da Cruz

  Na introdução que escrevi para a edição da obra poética de vocação angolana de Tomás Vieira da Cruz ("poeta do amor e da África"), mencionava que "os seus primeiros poemas publicados em Angola, nos quais a referência africana é ainda escassa ou nula, seguem geralmente estruturas tradicionais portuguesas, como a da quadra popular." Em seguida faço uma nota e remeto para algumas referências, incluindo uma revista Desportine . Essa referência, metida no meio das outras, induzia em erro, levando leitores a pensar que se trataria de um poema (e, de facto, nessa publicação - como em Os Desportos , que se lhe seguiu logo - há poemas exemplificativos do que digo). Convém, portanto, esclarecer. A minha frase apontava (foco principal) as "estruturas tradicionais portuguesas, como a da quadra popular", mas também as peças nas "quais a referência africana é ainda escassa ou nula". Era a propósito da emergência de referências africanas, ainda escassas, qu...

Harpas eólias no Tombo de Cordeiro da Mata

No Novo almanach de lembranças para 1892 (p. 438) publica-se um poema, «Sob palmeiras», de J. D. Cordeiro da Mata. O poeta localiza-se no "Tombo - Margens do Quanza" (um pequeno porto, que servia para ligar e intermediar o comércio do interior com Dondo e Luanda). É um dos exemplares de uma curta série quase mística, se não mesmo mística, tendo o poeta passado nesses dias por alguma experiência interior importante. Lendo o poema se percebe o meu quase e o seu místico:  Como d'alma no intimo  eu t'amo, doce sombra!  Como o peito, de jubilo  pulsa – grato – n'alfombra!...  Oh! doce ar  que ao peito enfermo  de gosos ermo  vens vida dar;  deixa as harpas eólias os doces sons vibrar...  Que só de Eolo a musica  sabe o triste alegrar...  Oh! ar que passas célere  entre as franças arfando,  tu me deixas extactico  teus gemidos 'scutando...  Essa harmonia  angelical,  tem perennal,  p'renal poesia....