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Uma professora régia em Luanda em 1885, seu ilustre filho e respetivo progenitor: o governador Ferreira do Amaral; novela curta


O Ofício 147, de 13.4.1885, feito em Luanda, informava o ministro e secretário de Estado da Marinha e Ultramar do embarque, "para o reino", da “professora régia, Augusta Frederica Smith Chaves”. Ela nascera c. 1850 (talvez em Moçambique) e falecera em 1923, ou depois desse ano. 

Seu irmão, António Maria Smith Chaves, nascera em Moçambique em 25.7.1849. Os pais foram António Manuel Chaves e Rita Frederico Smith Chaves (esta, com ascendência inglesa). O irmão estudou no Liceu de Coimbra, pelo menos no ano letivo 1868-1869. “Em janeiro de 1877 foi destacado para servir em Angola na qualidade de desenhador de 2ª classe, das obras públicas da província. Foi exonerado do cargo de desenhador das obras públicas de Angola por portaria de 13 de agosto de 1880, e nomeado desenhador da direção das obras públicas de Cabo Verde por portaria de 25 de abril de 1881.” Desenhou a planta da cidade da Praia. No entanto, em São Nicolau (onde residia) foi-lhe passado passaporte para Luanda, em 5.7.1889, quando ele tinha 40 anos. Aí a sua profissão define-se como “condutor d’obras públicas” e na mesma linha, com tinta diferente, escreve-se “em Luanda”. Na página seguinte se apontam as “causas prováveis da emigração”: “vai exercer a sua ocupação no caminho de ferro de Ambaca”. Não levava família. Em anexo ao passaporte junta-se um “certificado” da “Relação de Lisboa”, que atesta ser ele casado e confirma os nomes dos pais, a ocupação e a idade (40 anos; o registo criminal é de 4.7.1889, pelo que ainda não teria mesmo 40 anos se nascesse em 1849)[1]. 

Esta professora teve um “filho natural” (ou “ilegítimo”) com o governador Francisco Joaquim Ferreira do Amaral; o filho chamou-se João Maria Ferreira do Amaral (n. 14.7.1876 [São Julião, Lisboa], f. 11.3.1931, Lisboa), nascido antes de o governador se casar (foi o segundo filho ‘natural’, a primeira sendo de outra mãe; o governador casou-se a 12.9.1880). O nome era o mesmo do pai do governador. Este filho foi coronel de Infantaria, comandante da PSP, ocupando postos e funções com destaque na hierarquia militar e social portuguesa. A biografia do filho pode ser lida aqui. Cerca de três meses depois de ele nascer, o pai chegava a Macau como comandante da canhoneira Tejo, tornando-se ainda nesse ano o comandante da respetiva Estação Naval. É de supor que os pais se tivessem conhecido, amado e reproduzido (soi-disant) em Lisboa mesmo. 

Significativo é que este Ofício, “do Secretário-Geral, Guilherme Gomes Coelho, pª o Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar”, datasse do penúltimo ano do mandato de Ferreira do Amaral como governador de Angola. É de supor que, mesmo depois do casamento, mantivessem relações ilícitas e que o filho tivesse estado em Angola também. Sintomático, talvez, é que também o irmão passasse a Cabo Verde em 1881, mas estava previsto que fosse em 1880, quando oficialmente o governador o exonerou para passar a Cabo Verde; nesse ano (1880), em setembro (cerca de um mês depois da exoneração do irmão da professora), o pai da criança casou-se em Lisboa com outra pessoa que não a mãe; em 1882 assumiria como governador de Angola. Com todo o imbróglio, porém, beneficiámos de uma “professora régia”.


RReferência da imagem.




[1] O autor do verbete no e-viterbo é Fernando Pires. 

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