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Tomás Vieira da Cruz: revisão do colono

 

mas não só: um poeta é uma pessoa também, e este não tinha relógio:



O convite que me foi dirigido, por José Almeida, para falar sobre Tomás Vieira da Cruz, integrado na série Raízes matriciais da pátria, contentou-me, não só por se terem lembrado dele, da poesia angolana, e de mim. É que a palestra decorreria logo antes do lançamento do livro As trevas e os dias (seguido de Sonetos místicos assituados), o que me levou a pensar que podia, por esta vez pelo menos, debruçar-me sobre a poesia de Tomás Vieira da Cruz guiado pela sensibilidade e não por academicismo. Pensei, desculpem-me o atrevimento, em um poeta a falar de outro poeta.

Ao reler assim, desprevenidamente, os poemas de motivação angolana do colono de Constância, um fluxo de perceções assaltou-me com mais intensidade que habitualmente. Entre elas, sem dúvida, avulta a de que o seu tema principal (e quase único) é o Amor. Desenvolvido por motivos variados, que adjetivam de várias formas o substantivo, o que respira nesses versos e me parece que até estrutura os seus ritmos é, nem tanto o substantivo, mas o verbo amar, em tantas conjugações que uma simples fala não consegue abarcá-las.

Há uma relação intrínseca entre amar e descobrir. Um recuado poeta português, Francisco de Sá de Miranda, em soneto a vários títulos lapidar retratou muito bem – pelo espanto – essa relação. Cito apenas os primeiros versos e de memória:

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho

E vejo o que não vi nunca, nem cri

Que houvesse cá, recolhe-se a alma em si

E vai tresvaliando como em sonho.

 

Isto passado, quando me desponho,

E me quero afirmar se foi assi,

Pasmado, e duvidoso do que vi

Me espanto às vezes, outras me avergonho.

Tomás Vieira da Cruz não se avergonhou, mas também nele o amor e o espanto caminharam juntos. O facto de estarmos perante um poeta-colono leva-nos muitas vezes a esquecermos esse processo primordial que é o da descoberta e, mais, a descoberta pelo amor. Aliás: esquecemo-nos de que um colono-poeta é uma pessoa e que uma pessoa autêntica se gere pela sua descoberta.

Na verdade, a colonização não me interessa nada. Se alguém chegar à nossa casa, instalar-se e começar a dar-nos ordens, é pessoa que nos violenta. É um facto que a história do mundo é, também, uma história de colonizações, invasões e violências. A própria relação reprodutiva entre um homem e uma mulher pode ser vista assim, como uma relação colonial, invasiva, só que geralmente não violenta. Vejamos o processo biológico: um macho que, penetrando uma fêmea, radica nela suas sementes e essa fêmea procede a uma seleção rigorosa para, depois, trabalhar a semente escolhida criando um novo ser. Isto é que me interessa: não vejo competição nem esmagamento entre macho e fêmea, espermatozoides e útero, mas uma colaboração que se torna exigente no ponto preciso, decisivo, pelo qual a mulher responde. Assim também se fecunda a lavra de onde nascem os alimentos que nos sustentam. Nem todas as sementes vingam. Mas antes da fecundação da fêmea, o que se passou com o macho? Foi o espanto, a maravilha, o deslumbre que assegura a atração necessária, a voluntariedade ansiosa e prenhe. De outra forma ele passaria ao lado, sem ligar. Ela também se espantou, se maravilhou, preferindo aquele homem, não outro, na verdade a presa escolhe o caçador, é como se emitisse uma chama que o atrai fatalmente, ou seja, de facto. Nesse momento não pensa, mas pode conceber um poema extraordinário: há metafísica bastante em não pensar.

O que nos une parte sempre da fidelidade ao espanto, se preferirmos, à descoberta. Olhamos e vemos algo que nunca tínhamos vislumbrado, nem, por tanto, sabíamos que houvesse “cá”. Também na história portuguesa e africana começo por me interessar pela descoberta. Uma dupla descoberta: os que na terra viram surgir um navio cheio de pessoas diferentes, da cor das almas, dos falecidos, das entidades; e os que nos navios encontraram, de carne e osso, de olhos esbugalhados, pessoas diferentes, da cor escura do barro fértil ou da noite imensa. Primeiro olharam-se espantados, antes ainda do medo e da violência, que são dois irmãos inseparáveis e mal-usados (o medo serve para avisar e não para matar; a violência vem de uma descarga operada pelo cérebro para que todo o corpo se defenda em face de uma agressão letal). Eu quero neste instante permanecer fiel ao espanto e não ao medo. E quero propor-vos uma imagem: a de um que chegou sozinho (ou seja: sem conhecer o amor) e a primeira pessoa que viu foi uma mulher negra.

Quando o poeta chegou a Angola vinha de Lisboa, onde fora ajudante de farmácia. Nascera no Ribatejo, como se sabe, numa vila cujo nome ainda se liga hoje a Camões e Vasco de Lima Couto. Trabalhou na antiga Botica do Azevedo, a terceira a abrir, em 1775, vinte anos depois do trágico terremoto e que hoje se chama Farmácia. Ali travou conhecimento com António Boto, modernista apreciado por Fernando Pessoa, quase luso-brasileiro, ou mesmo. Dessa convivência resultou conformação parcial dos próprios versos. Efetivamente, se compararmos, nos aspetos formais, as obras de um e de outro, percebemos rapidamente afinidades, que no plano dos conteúdos não se verificam.

É de Lisboa que vai para Luanda, em 1924. Pouco depois de chegar instala-se em Novo Redondo, hoje Sumbe, capital da província do Quanza-Sul e, por ali, convive com os progenitores do poeta paradigmático da lírica nacionalista angolana, Viriato da Cruz, amigo de seu filho, o também poeta nacionalista Tomás Jorge Vieira da Cruz. Sendo monárquico, segundo parece, interrompe o namoro angolano para ir à Península Ibérica lutar ao lado dos franquistas contra republicanos e comunistas. É, no entanto, essa aventura desmentida por alguns próximos familiares do poeta. Quem sabe? Não consegui deslindar. 

Na sequência da guerra civil espanhola compôs um pequeno livro, Vitória de Espanha, cujo título parece uma resposta a A vitória de França, de Guerra Junqueiro. Assim nos ajudou a conservar o espanto, pois em 1932 havia publicado o seu primeiro livro de motivação angolana, Quissange: saudade negra, e nele o que se destaca é justamente o contrário do que pensamos ao falar em franquismo: a criação de um novo ser, ou “raça”, a partir de dois outros diferentes, ou de “raças” diferentes.

A admiração prolonga-se na leitura dos poemas. Quem fala o faz assumindo-se colono e português. A representação do ‘outro’ e da ‘outra’ deriva nitidamente de um colono. E, no entanto, não só se fascina pela mulher negra ou mestiça como também admite um jogo com ela em que pode ser negado, renegado, vítima de desamor – ou seja, um jogo no qual não recorre à posição privilegiada de um colono, já bem colocado, sobre uma colonizada proletária. No entanto, a história da poesia portuguesa conhecia já, pela pena de Luís de Camões, as endechas a Bárbara escrava, às quais alguns destes poemas dão sequência…

Mas não só.

A reunião dos três livros de motivação angolana de Tomás Vieira da Cruz, sob o título geral Quissange: poesia[1], permite-nos uma comparação que se torna óbvia, quase simétrica também. No primeiro dos livros, a dedicatória é feita “ao povo africano / ao mundo africano”, sendo o primeiro poema dedicado a caraterizar a «Pátria minha», ou seja, o povo português. Nos outros dois, as dedicatórias são coloniais e os primeiros poemas são dedicados ou focados em motivos angolanos.

Tatuagem: poesia d’África, de 1941, abre com a dedicatória em forma de Louvor “aos portugueses de Angola” que “tombam e ficam na terra do esquecimento”, para onde foram “na ânsia de conquistarem” o que parecia fácil: o “amor” e a “fortuna”. Mas o primeiro poema chama-se «Negra». Começa com uma visão etnocêntrica:

Que estranha tatuagem Deus te deu,

vestindo-te da noite mais escura

que surgiu neste mundo e neste céu,

ó dramática e triste criatura!

E termina assim:

Sempre de negro, ó virgem caprichosa,

a tua boca é pétala de rosa

a noite do teu corpo perfumando…

 

e o teu olhar, humedecido e mole,

parece um brando sol, tal qual o sol,

parece mesmo o sol que está chorando!

A representação final é muito mais vivida e menos exótica do que a inicial. A cor da pele não se adjetiva como tatuagem, capa, vestido, acessório, acidental. É permanente e congénita (“a noite do teu corpo”). A musa é “virgem” e “caprichosa” – muito mais humana. A boca é uma “pétala de rosa” – clichê bem conhecido pelos poetas europeus escrevendo versos a musas europeias. E aquele olhar, embora a uma primeira leitura possa chocar o estrangeiro, pois se elogia alguém dizendo que tem um olhar “humedecido e mole”, reporta-se a uma expressão real e comum, que nos atrai na sua mágoa e na doçura, por isso reiterada em poemas coloniais e não coloniais e, no local, pelo menos desde José da Silva Maia Ferreira. Por outros versos de Tomás Vieira da Cruz será triste, envolvente, mas é o mesmo olhar que transfigura a cor perene em sol, o mesmo sol “que está chorando”. E quem viu tais olhares sabe do que ele fala. Quem não viu, imagina – ou escreve umas linhas comentando qualquer disparate pós- ou de- …

Ainda em Tatuagem, o poema seguinte chama-se «Bailundos». O elogio ao colono ficou na porta. É, como notaram muitos, uma representação fatalista dos bailundos:

Haveis de caminhar, sem caminhar,

que nunca terá fim o vosso inferno!

e até hoje parece que não teve. Mas o poema é uma recordação das comitivas de bailundos que iam negociar ao litoral,

         […] andando,

por carpetes de capim,

que eu não sei onde vão dar,

que eu não sei se têm fim

vencendo, altivamente, a luta forte

desta vida de ilusão,

procuram, inutilmente,

mais longe, sempre mais longe,

a Terra da Promissão.

Note-se, de passagem, a alternância rítmica: versos heptassilábicos intercalam, no meio, com um decassílabo heroico, de conteúdo conjugado ao ritmo (“altivamente”, “luta forte”, “vencendo”). Na estrofe seguinte já o decassílabo heroico não tem correspondência no léxico (“tristes”, “saudade”), exceto pela resistência dos mensageiros:

…Ó mensageiros tristes da saudade

que trago dentro de mim:

esse caminho é eterno

e a minha dor não tem fim!

Isto não vos recorda nada? Nem a saudade, nem o saudosismo, nem o sebastianismo, nem o próprio portuguesismo do autor? Ou seja: as caravanas de comerciantes bailundos, negociantes de longo curso, que ligavam o litoral a zonas recônditas de África, trazendo e levando os mais variados produtos, são vistas pelo mesmo prisma com que o autor se define a si e ao seu povo (o português). E carateriza-os mais como? Como lutadores, insistentes, procurando continuamente, quem sabe, o Império do Espírito Santo, aquele em que não será preciso trabalhar para termos tudo aquilo de que precisamos, em gozo livre da pena que herdámos, segundo a Bíblia, pelos pecados de Eva e Adão. Mas não só: dá-se também, pela “Dor”, a osmose entre quem escreve e aqueles de quem fala.

Pode alguém dizer: mas eram caravanas que também vendiam escravos. Eram, sim, em tempos recuados. E a denúncia da escravidão percorre muitos poemas desses três livros. Mas não só: passa pelo mesmo tipo de visão dos “mensageiros tristes da saudade / que trago dentro de mim”, reunindo numa só a saudade portuguesa e a saudade negra, afundindo-se numa densa tristeza entre banzo e nostalgia.

Retornemos ao primeiro poema do primeiro livro, Quissange: saudade negra, aquele em que Tomás Vieira da Cruz retrata o seu povo. Termina assim:

A morrer, a morrer, mas devagar…

olhando, ensanguentado, ao longe, o mar,

à cruz das caravelas já rendido…

 

E assim ficou, na minha história e raça,

à luz do poente, em ondas de desgraça,

num mar de sangue, um rei que anda perdido!

Não se rendeu à cruz das caravelas como rei nem como imperador, mas perdendo-se, neorromântico e saudosista, “olhando, ensanguentado, ao longe, o mar”. Ficou talvez remmoto esse olhar[2]. Agora vejamos como a transfiguração saudosa reaparece ligada à memória do infame negócio. Por exemplo no poema «Neta de escravos»:

Na praia do Quicombo olhando o mar,

como quem espera alguém que anda perdido,

a triste e linda Ébo, a olhar, a olhar,

tem lágrimas no rosto humedecido.

 

Foram-lhe dizer, e Ela, em seu cismar,

ouviu a narrativa: «foi vendido,

na leva dos que foram trabalhar

p’ras terras do brasil, o avô querido.

 

Que era o soba de toda a região…»

e agora, vê lá tu, não temos pão,

nós que tivemos os melhores mangais…

…………………………………………………………………

Pois isto, há muitos anos, foi assim…

E a linda Ébo, olhando o mar sem fim,

ainda espera quem não volta mais!

Tal qual uma portuguesa. Tal qual uma africana neta de escravos. É fácil aos leitores identificarem as intertextualizações deste poema com as passagens dos anteriores que citei. Convido-vos a fazê-lo antes de prosseguirmos.

 

Na abertura do terceiro livro de motivação angolana (Cazumbi: poesia de Angola, de 1950 e capa sóbria), a dedicatória é uma “Homenagem”:

A Dom Manuel Rodrigo de Sousa Coutinho (Funchal),

Fidalgo da Colonização Portuguesa em

África; e à memória do seu antepas-

ado Dom Francisco Inocêncio

de Sousa Coutinho, que foi

grande Governador

e ilustre Capitão

General de

Angola

Transcrevi a citação na íntegra, na totalidade, ou seja, abarcando a forma gráfica também, para além de todas as palavras, porque ela mostra ao mesmo tempo a assumida colonialidade e a assumida modernidade do poeta. Mostra, aliás, usando uma forma geométrica (um triângulo) que, tanto quanto os concretistas, ia buscar ao Barroco, período e escola apessoados e personalizados nas culturas lusógrafas, nos sermões do Pe António Vieira, nas estátuas do Aleijadinho e nos nomes figurados dos fidalgos congoleses, por exemplo D. Rafael Vale de Lágrimas, em 1625 assumindo o Ducado do Nsundi.

Se a dedicatória é claramente colonialista e colonial, o primeiro poema do livro chama-se e dedica-se «A Angola». E de que Angola se fala? De uma Angola real, bela, de que retiro estes versos do meio e do fim do poema. Primeiro, o meio:

E as flores dessas montanhas aromáticas,

céus e paisagens dramáticas,

são iluminuras

de apagadas criaturas

sepultadas nos caminhos

por onde a raça existe além desses caminhos.

Quem são tais criaturas? Podem ser colonos ou colonizados. Eu vi sepulturas, acaso?, na margem dos caminhos e não eram de colonos, mas podia ter visto a de um colono. Quer dizer: iguais no verso e no reverso. O poeta vê nelas, “apagadas”, “sepultadas nos caminhos”, o alongamento, portanto a perenidade, da “raça”. Qual? Podem ser as duas[3]. Os últimos quatro versos do poema, já na página seguinte e separados por pares, mantêm a ambiguidade, embora a palavra “legionários” e “novos trilhos” pareça remeter para os portugueses:

Caminhos que são almas legionárias

marcando novos trilhos…

 

Pátria continuada

na morte dos seus filhos!

Tanto quanto em D. Sebastião, tanto quanto no banzo da neta de um rei escravo.

A seguir a Angola, surge um dos mais famosos poemas do autor na época: «Colono». É esclarecedor para o que me trouxe a esta nossa fala. Na primeira parte ele retrata o colono como pioneiro, herói, mas humano, muito humano. Recorre a vários tópicos, ou lugares comuns, da literatura e da autorrepresentação coloniais:

A terra que lhe cobriu o rosto

E lhe beijou o último sorriso,

Foi ele o primeiro que a pisou!

Retenhamos isto: “foi ele o primeiro que a pisou”. Como pode? Não estava lá ninguém? Estava, mas, dos colonos, ele foi o primeiro a chegar e vê-a como (terra) virgem, que ele vai vencer:

Ele venceu a terra que o venceu,

ele construiu a casa onde viveu…

Retenhamos isto: ele venceu a terra, mas a terra o venceu. Morou na casa que ele próprio construiu, não mandou fazer e nem herdou. Mas ali, no chão com o qual fez a casa, a casa o venceu. O homem vence a mulher, e a mulher o vence. O caçador saiu para caçar – a caça chamou por ele. Mas ainda é cedo para estas metáforas, voltemos ao poema, que vale mais na leitura dos poetas apreciar a beleza:

Ele desbravou a terra heroicamente

Sem um temor, sem uma hesitação,

Hoje diriam vozes prosaicas: um macho alfa. Ontem nos diriam vozes épicas: o bravo herói. Passemos então, pouco a pouco, no ritmo espaçado que foi o dos versos, ao ómega do alfa e à comoção do invencível:

– terra fecunda que lhe deu o pão

E lhe floriu a mesa de tacula [4]

Mas quando olhava a imagem pequenina

– Senhora da Boa Viagem –,

que a mãe lhe pôs ao peito à hora da partida,

o Homem forte chorava…

Humano, inteiramente humano, contrário àquele adágio tão cultivado por esses anos, segundo o qual um homem forte não chora… Não chora enquanto luta, mas depois… é homem.

O poema prossegue pintando o retrato, que apesar de longo vale a pena citar:

Foi arquiteto e foi também pintor,

porque pintou de verde a sua esperança…

Esculpiu na própria alma um sonho enorme,

por isso foi também grande escultor!

 

Foi genial artista e mal sabia ler!

O que aprendeu foi Deus que o ensinou,

lá na floresta virgem, imensa catedral,

onde tanta vez ajoelhou!

Repare-se em duas ou três coisas de passagem: 1) prosaicamente falando, junta-se no retrato o mito do pioneiro ao do self made man, já globalizado a partir dos EUA, mas que existia na memória de muitos aventureiros bem sucedidos; 2) a floresta a imagina como virgem, seguindo uma aceção comum, porém que alinha bem com a visão erótica da terra colonizada e da mulher, virgem, que o venceu; 3) a floresta era, também, uma “imensa catedral”, onde ele ajoelhava. Porque realço isto? Por dois motivos: 1) a natureza erguida em templo, onde se reza, tópico trabalhado por Victor Hugo mas não só, depois e antes dele, porém ganhando aqui uma intensidade maior; 2) na sua tentativa de epopeia contemporânea, quase anti-epopeia, o Mayombe de Pepetela é essa floresta virgem, essa catedral, onde vai começar a luta pela independência e pela revolução socialista. Ou seja: a imagem ficou no imaginário dos escritores angolanos, ainda que por muitas vias saísse reforçada. E o colono?

Viveu a vida inteira olhando o céu,

a contar as noites

da lua nova à lua cheia.

Façamos uma pausa rápida: o colonizador não tinha relógios. E naquela terra se contava o tempo pelos ciclos da lua. O colono, afinal, contava o tempo como os colonizados. E o sol, por sua vez, aproximava a pele branca do colono da pele negra do colonizado, que o poema ainda não viu:

E o sol do meio dia lhe queimou a pele,

O corpo todo e até a alma pura.

Não é só sobre a mulher africana que ele joga essa imagem de pele queimada, corpo “e até a alma pura”: é sobre si próprio enquanto colonizador. E não só. A reificação metafórica do herói prossegue, paradoxal, autêntica:

Foi médico na doença que o matou,

ao homem ignorado e primitivo,

que derrubou bravios matagais

e junto deles caiu,

como caem árvores sacrificadas

à abundância dos frutos que criaram…

Reparem nisso, o herói é também aquele que tomba com a vitória gerada pelo seu trabalho – como também no Mayombe, de Pepetela, o protagonista morre às portas do objetivo conseguido. Mas não só. O herói é, também, tanto quanto o colonizado, “ignorado e primitivo”. Os repetidores de serviço não leram estes versos. O colono, afinal, dizia de si próprio ser “ignorado e primitivo”, sabia que era assim. A osmose dos dois é processada logo a seguir a esse verbo criar, no plural, que se contrapõe ao verbo cair, no singular.

E a primeira mulher que amou e quis

foi sua inteiramente…

e era negra e bela, tal o seu destino!

e ela o acompanhou

como a mais funda raiz

acompanha a flor de altura

que perfuma as mãos cruéis

de quem a arrancou.

Deixemos outros falarem por clichês. O próprio poeta vai muito para além dos lugares-comuns a que também recorre. Ele, afinal, tanto quanto a terra e a negra, também era virgem (“a primeira mulher que amou e quis”) e foi nela que realizou completamente o amor pela entrega total dela, igual à dele no sentido em que se despiu da sua própria dor para amar. O destino do ocupante foi negro e belo como ela. Não vale a pena esperar pelo fim para dizer que se vai transformando o amador na amada por nela se encontrar a si próprio. Não precisarei também de recordar, nem o nome de Camões, nem o mito hermafrodita de Pessoa:

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

Mas a princesa de Tomás Vieira da Cruz não dormia. Não só: foi ela que o acompanhou na solidão imensa, foi ela a “funda raiz” e a “flor de altura” perfumando “as mãos cruéis / de quem a arrancou”. Tanta sensibilidade no meio de todo o machismo e colonialismo de que se possa acusar Tomás Vieira da Cruz, que os assumiu com a mesma naturalidade com que reconheceu a dignidade negra, a da mulher, e a crueldade das suas mãos.

Depois pode fechar o poema pela chave do pioneirismo novamente, mas agora com sentido novo: foi o primeiro, sim, no sentido de mais do que todos os outros. E sabia estar numa terra ocupada, numa terra de que, prosaicamente, doutrinários coloniais de outros países falavam como aquela que todos podiam ocupar. Porquê? Vê-se nos versos, que fecham com a morte do herói:

Foi o primeiro em tudo,

na Dor e no Amor,

na Honra e na Saudade,

porque nunca mais voltou…

 

E nas terras de toda a gente

e de ninguém…

– estranha criatura! –

 

…foi sua também

A primeira sepultura!

Porque nunca mais voltou. Naquela terra que ele próprio cultivou talvez ainda não tivessem sepultado ninguém… mas isso que importa agora? Importa-me a Dor e o Amor, a Honra e a Saudade, com maiúsculas. E que elas se reportam àquele pequeno e gigantesco sebastião do poema que nunca mais voltou, como o soba avô da linda Ebo fitando o mar. E, finalmente, me importa ainda mais o meu próprio espanto: a estranha criatura não foi o outro, o “descoberto”, mas o próprio, afinal, a descobrir-se.

Por esse poema também se percebe o quanto foi pelo Amor que ele descobriu a humanidade comum, pelo amor à mulher negra, ou mestiça, à filha da terra com toda a propriedade da expressão.

Vê-se e revê-se: o Amor é o verdadeiro móbil desta poesia. Percebe-se também que foi o grande móbil desta pessoa, desta personagem que subscreve Tomás Vieira da Cruz. Mas não só: o Amor até lhe modela os ritmos. Quem tenha acesso ao livro da Imprensa Nacional (portuguesa) que lhe reúne toda a poesia, verifique isto: os poemas de paixão, de atração, de repulsa, do momento vivo do espanto amoroso e do choque posterior, são ritmados por versos curtos, com tendência para se aproximarem das medidas de redondilha maior e menor, ao mesmo tempo que relatam episódios concretos. Versos musicais, a rima quase sempre os anima e harmoniza, ajudando a memorizá-los. O léxico e a sintaxe do português local herdam e aperfeiçoam, pela graça, os poemas bilingues angolenses do século XIX – de Joaquim Dias Cordeiro da Mata, o poeta negro do rio Quanza; de João Eusébio da Cruz Toulson, escritor mestiço de Luanda; de Eduardo Neves, o colono de Santa Comba que se africanizou no Dondo, junto às águas do mesmo Quanza.

Por isso tudo ficaram na memória coletiva de muitos que viveram por ali, perdidos como quase todos, colonos e colonizados, os versos do sr. ajudante de farmácia. Posso dar dois ou três exemplos:

Os teus defeitos são graças

que mais me prendem, querida…

mistério de duas raças

que se encontraram na vida.

Ou

Quitandeira sem cuidados

à tua quitanda em venda

mandei hoje três recados,

pela Cassua Quilenda.

Mais adiante,

Quero dar-te em boa prata,

macutas de antigamente,

e mandar fazer cubata

onde tu vivas contente…

 

com muitas, muitas esteiras,

onde o teu corpo se vingue

das dolorosas canseiras

em que a volúpia se extingue.

………………………………………..

quero dar-te umas missangas

de pedrarias tão caras,

que sejam raro feitiço

nas tuas formas tão raras.

 

e quando tu fores minha,

ó linda pitanga em flor,

quero que sejas rainha

no Sabá do meu amor!

Ou, no poema dirigido ao feiticeiro:

Tu me enganaste e mentiste,

tu me disseste, naquele dia,

que ela me gostava,

que ela me gostava e me traía.

 

[…]

 

Tu me disseste, feiticeiro,

que ela me gostava,

que ela me gostava e me traía.

 

[…]

 

Tu me enganaste, feiticeiro,

mas se tu não me enganasses

eu morria!

Realizada e compreendida pelo poeta a osmose do Amor, que a todos iguala na felicidade e na dor, não sendo porém nunca igual a si próprio, pode escrever então, Tomás Vieira da Cruz, com seu kisange de saudade negra, o «Fado Kissende[5]» de suas queixas e coitas, no poema a seguir ao do feiticeiro:

Caminhando atrás de ti

Enganei-me nos caminhos,

Enquanto fui pisei rosas,

Mas regressei sobre espinhos…

 

Kissende dói

e é quase prazer a Dor

que dói do muito Kissende,

que me deste, meu amor!

 

[…]

 

Por tu seres fula, tão fula[6],

te chamam desesperada,

e tempestade no Sol

– e noite sem madrugada.

 

Kissende mata

e destrói minha ilusão,

que por ti chora sem fé

no altar desta paixão…

 

[…]

 

Mas tu não és a culpada

da minha culpa e ciúme…

A culpa foi do luar

e dos teus olhos de lume.

Muitos mais poemas podia citar, enquanto “Anoitece de repente, / No musseque Burity”. Mas não vim cá para isso. Para isso existe um livro onde estão todos.

Há, porém, outros de que preciso falar. É que o Amor tem seus deslumbres, tresvarios e seus quissendes, que o poeta grafa com K, na grafia oficial da União Africana hoje. Isso leva os poetas a momentos em que, recolhidos, refletem. Nesses recuos os versos tendem a alongar-se, o sopro é estendido, pausado, pensativo. Fazem-se as ‘contas à vida’ e ao que se passou. A saudade remonta com a distância e como que um mistério se anuncia. O banzo e o espanto se transformam quase na nostalgia de uma alquímica despedida:

Que o teu olhar de luar em noite calma,

tenha no seu mistério uma só lágrima

a recordar o Amor da minha Alma!


Que a tua boca, em oração fremente,

em palavras ou silêncios bem dispersos,

recite nesta hora, finalmente,

a triste melodia dos meus versos!


E nada mais te peço, à despedida,

e nada mais me atinge

– ó perdição sem norte –

morena esfinge

a quem dei a vida

e me deu a morte!

Também a morena esfinge morreu pelo afastamento dele, tantas vezes. Como no Fado. Os versos da triste melodia não mais eram só dele. Também os ritmos seus e de Angola e do mar se misturavam com os olhos da triste e linda Ébo. Repare-se neste canto, por exemplo:

O batuque a gritar, p’la noite fora,

vai acordar ao céu lindas estrelas…

E o mundo ignora, todo o mundo ignora,

tanto motivo para novas telas!...

……………………………………………………………………

Gemem ngomas, amorosamente…

Chingufos e marimbas, num delírio,

também sofrendo, voluptuosamente,

cantam as terras virgens do exílio.

 

Cantai ó raça triste, ó raça brava,

bailai o vosso baile de fogueiras,

que eu também canto, em minha lira escrava,

os murmúrios saudosos das palmeiras!

Penso desnecessário continuar a chamar a atenção para esta e aquela passagem, para as evocações que atiçam... Toda o espanto glorificado em osmose gera o novo canto bípede, o duplo rosto do amor e da ilusão, da dor e da luxúria. Preciso é vermos que o mar, o mesmo mar sebástico e de Ebo, o mesmo mar unindo os esqueletos dos escravos e dos senhores em seu fundo vivo, é agora o «Mar Africano», a quem o poeta há de ensinar

[…] embora tristemente,

a cantar como eu, ó mar profundo,

minhas canções de amor, amor doente,

que me arrastam, vencido, pelo mundo.

 

Hei de ensinar-te, assim amargamente,

esse triste rosário moribundo,

que tu hás de cantar, ardentemente,

no teu pesar imensamente fundo.

É nesse mar africano, de uma África onde o mesmo nome designa a morte, o mar e Deus – Kalunga – é nesse mar que ele agora projeta a osmose já realizada humanamente com o povo dali:

Depois, irei ouvir o teu cantar,

feliz de ouvir em mim a voz do mar

e o mar sentir em si meu coração…

 

Quero por companheiro de amargura

o mar, o meu poeta sem ventura,

que, não me sendo nada, é meu irmão!

No entanto ainda não é tudo. Nunca é tudo quando se fala e escreve por palavras despidas. Por isso há parábolas e fábulas. Mas às vezes os poetas – esses de quissange e muamba, em quem

A minha Lira mulata

tem acordes tão amantes,

que eu julgo serem de prata

as suas cordas vibrantes

– esses, “lusíadas dum sonho de amargura”, poetas “caminhando sem destino” e sofrendo o destino comum da “raça negra”, em raros e felizes instantes esses poetas parece que resumem tudo num soneto, de dez em dez sílabas heroicas, como n’

A ÚLTIMA BATALHA:

 

Amei, eis o meu crime – amei de mais!

Amei com a loucura de quem ama

Ao fogo destes climas tropicais,

Onde o amor é a perpétua chama.

 

Que nos abrasa o coração em ais!...

Amei no mesmo sonho em que se inflama

A tortura dos grandes vendavais,

Que em nosso sentimento se proclama!...

 

E nesse grande amor eu fui traído,

E nesse meu querer fui tão vencido

Qual lutador, em vida, torturado…

 

Vencido e prisioneiro em luta ardente,

Prisioneiro da glória, que não mente

– a glória eterna de vos ter amado. –

 



[1] Reeditado em Lisboa pela IN-CM, em 2004.

[2] Com dois mm.

[3] De acordo com a vulgarização da ciência e do conceito de raça no fim do século XIX, Tomás Vieira da Cruz usa ainda a palavra de maneira que pode equivaler a povo.

[4] No caso tipo de madeira, de que também se tirava tintura, entre vermelha e castanha. Era muito apreciada porque resistente (aos fungos e ao tempo), bela na cor e na textura.

[5] Kisende, em quimbundo, segundo António de Assis Júnior, significa “calcanhar”; em sentido figurado, “patada”, “coice”. Aqui se refere à negaça feminina, estudada, sabida, de que também decantaram os citados poetas do século XIX.

[6] De uma cor escura, entre mestiça e negra.

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