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Línguas e cognição na formação da literatura angolana


 A transformação de uma língua  em contextos plurilingues, ou multilingues, implica distanciamentos epistemológicos também, cuja consideração se torna necessária e vem alargar, por outra via, a perspetiva de Mário António acerca da formação da literatura angolana. Habitualmente, quando falamos na formação transcultural em contexto multilinguístico, não consideramos esse aspeto fundamental. Não costumamos reparar, ao falarmos em línguas e culturas em convívio, na relação do contexto multilinguístico e multicultural com o processamento cognitivo. Exploro com a brevidade possível essa hipótese de alargamento da perspetiva inicial de Mário António que, assim alargada, é familiar a outros ensaístas também. 

A compreensão das transformações cognitivas (periodicamente sinalizadas por metáforas e alterações sintáticas e morfológicas) precisa de um resumo rápido de como concebo, quer a cognição, quer a linguagem, bem como as relações entre elas. Para me explicar, parto do processamento cerebral das sensações produzidas a partir dos sentidos. Essas sensações são complexos de imagens em rede (imagens envolvidas umas com as outras) que a estrutura cognitiva começará por examinar e relacionar para que o nosso corpo saiba como responder ao estímulo que provoca a sensação (Damásio 2011). Por um desenvolvimento peculiar da espécie humana (frágil face a concorrentes mais musculados), fomos apurando e ampliando o alcance desse autorregulador de verificação e de projeção no imediato, que chamo de estrutura cognitiva (sem que o termo pressuponha um território fixo no qual o procedimento se limita; na verdade, ele se dá ligando várias regiões do cérebro de forma própria).

Outro procedimento, que a partir de um certo grau de complexidade se torna indispensável à autorregulação do corpo e da relação com o meio, é o linguístico. Podemos tomar a estrutura linguística por outro autorregulador, que verifica e projeta relações possíveis entre as redes de imagens inicialmente processadas pela perceção e pela cognição. Como, por limitações de memória facilmente compreensíveis, não podemos armazenar os triliões de imagens-estímulos que vamos produzindo na vida, organizamo-los por padrões e as nossas línguas, testando a perceção e a cognição, testam padrões – mantendo-os funcionais, mudando os que falham, para otimizar as nossas respostas. O nosso conhecimento, aquilo a que chamamos de conhecimento, fica então marcado por essa relação com o meio natural e com as línguas que usamos, ambos interagindo com o sistema social em que vivemos, de que também dependem sobrevivência e reprodução. Os primeiros critérios regulando as línguas e os processos cognitivos (os que nos fazem decidir por esta ou aquela tese, por este ou por aquele discurso) dizem respeito à sobrevivência e à reprodução, quer dizer, à continuidade, procurando ao mesmo tempo a homeostase. Nessas interações se forma uma ambiência semiótica (uma semiosfera), fortemente diagramática, ligada ao uso das línguas.

O ponto-chave para nós, estudando a formação crioula da literatura angolana, está nisto: conforme, com a idade, vamos ganhando consciência das variações e das diferenças entre línguas (logo, semióticas), o nosso cérebro, que desenvolveu circuitos próprios de processamento linguístico e de cognição, diferenciará cada vez mais o processamento cognitivo dos condicionamentos armazenados na memória de uma língua. A própria competência linguística se liberta do condicionamento a uma ou a outra língua. Como lembra Sónia El Euch, a “competência linguística – incluindo a competência lexical – em diferentes línguas forma um sistema unificado, diferente do sistema que rege a competência monolingue” (Euch 2011, 1392). Quer isso dizer que, seja qual for o contexto, o desenvolvimento cognitivo é, simultaneamente, inseparável do uso da língua e desenvolvido de forma autónoma. Tal facto nos permite, mais tarde, transferir com agilidade para qualquer língua os conceitos e as diagramações reformulados pelos diferenciações críticas, ainda que os limites impostos pelas estruturas linguísticas não permitam uma transferência transparente. Mas a transferência se faz a tal ponto que as diferenças entre línguas se tornam estímulos cognitivos e criativos processados em contrastes e semelhanças, aguçando-nos a cognição (responsável pelas teses e hipóteses) e a perceção (o laboratório para experimentarmos as ligações cognitivas e as expressões linguísticas), por tanto a imaginação.

Quando nos criamos em situação bilingue ou multilingue, o mais comum será tornarmo-nos pessoas bilingues ou plurilingues – ou, pelo menos, usarmos uma língua com forte consciência dos aportes ou achegas de outra ou de outras. Assim sendo, o processo de libertação dos processamentos cognitivos em face das línguas começa mais cedo e esse foi precisamente o caso das cidades angolanas onde a literatura nasceu, mesmo também o de Mbanza Kongo, ou São Salvador, no tempo em que ali se manteve uma comunidade local de escrita e leitura intelectuais, realizadas em latim, português e kikongo. Mas esse distanciamento, essa autonomia da cognição relativamente às línguas, sempre se opera, até por encontrarmos sempre, ao longo da vida, conceitos e sentimentos e sensações que não conseguimos definir ainda na língua que nos serviu de berço. Sempre haverá essa diferença entre o que intuímos, o que sentimos de nós mesmos, o que pensamos e o que expressamos. É por isso muito profunda a asserção peirciana de que nós nunca temos o significado completo dos signos.

Neste sentido, o quadro histórico e social em que se desenvolveu a literatura angolana apurou a nossa estrutura cognitiva e a inevitável independência dela face às limitações linguísticas em que se examinam cognições intuitivas. Ora, citando ainda Sonia El Euch, o “plurilinguismo envolve uma relação dinâmica entre línguas e culturas onde a direcionalidade da influência é diversa.” Ou seja, não está garantido que uma língua e uma cultura assimilam a outra, antes se assegura a multiplicidade direcional das influências. Essa multiplicidade acentua dois aspetos: a independência cada vez maior das operações cognitivas e das expressões afetivas, por um lado; por outro a garantia de que o sujeito plurilingue, ou em situação multilingue, se torna cada vez mais o sujeito da sua própria formação.

Evitando que a língua seja tão condicionante como se supunha, esse contexto e o processo que dispara aceleram a superação da dependência do conhecimento relativamente às línguas de berço. O que, lentamente, se vai realizar ao longo da vida (o descondicionamento da cognição face aos padrões transmitidos verbalmente pela geração anterior) é processado com mais intensidade num contexto bilingue, ou multilingue, inicial e num contexto de ‘choque’ de culturas ou de pulo tecnológico (o avanço tecnológico e a dificuldade das gerações mais velhas em se adaptarem a ele leva os mais novos a ‘descontarem’ algumas afirmações dos mais velhos e sua tradicional autoridade). Há toda uma gradação, como é lógico. Se conhecemos apenas algumas palavras, frases, metáforas, provérbios (ou máximas) e adivinhas de outra língua, não desenvolvemos tão rapidamente esse descondicionamento como quando dominamos bem as duas línguas. O bom domínio das duas línguas, por circunstâncias políticas, desde que o Marquês de Pombal proibiu o uso de documentos em português ‘mal escrito’, passou a ser um valor para a nossa comunidade urbana intermédia e para os colonos antigos. Isso manteve-se até ao século XX e à ditadura salazarista, que despromovia a língua local acintosamente. Por saberem 'como são as coisas', o bom conhecimento das línguas locais, ou da língua do ‘outro’, continuava sendo valorizado pelos missionários, pelos comerciantes ‘do mato’ ou dos subúrbios e por alguns intelectuais citadinos. Isso manteve o bilinguismo ou plurilinguismo angolanos, também praticado entre línguas bantos, não só entre línguas bantos e europeias. A língua portuguesa, entretanto, recebendo 'lições' de línguas bantos diversas abrigava, no solo angolano, um conjunto de referências por igual diversas que a tornava numa plataforma de síntese entre vários condicionamentos linguísticos prévios e pré- ou para- coloniais. 

Como se processam as 'entradas' de conceitos, imagens e palavras bantos no português de Angola, ou as 'entradas' de uma língua em outra e de uma cultura em outra? Lotman estudou com bastante rigor essas passagens e para o vol. I de La semiosfera remeto agora o leitor, evitando saturar o texto com mais parêntesis, parágrafos e divagações. O que de melhor temos para fazer traduções entre línguas é, precisamente, o que temos de melhor nas estruturas cognitivas e linguísticas, um recurso muito usado pelos poetas: as analogias (estabelecendo semelhanças), os contrastes (estatuindo as diferenças), as metáforas (afinando semelhanças entre diferenças). Esses recursos experimentam relações semióticas pela determinação dinâmica dos signos, acesas entre divergências linguísticas. O caráter vivaz da argúcia poética vai corroer a língua dominante com subtileza, cautela, porque toda a linguagem é vigiada e, portanto, o sucesso da operação dependerá da subtileza e da perspicácia do novo sujeito. Justamente, a subtileza e a perspicácia são caraterísticas cognitivas que, percebendo-se ou exercendo-se por vezes através das palavras, ativamos (ou teremos vantagem na sua ativação) pela leitura de qualquer texto, ou seja, de qualquer rede de conexões, e que traduziremos em diversas línguas a partir de uma cognição que lhes foge.

Nesta perspetiva se desfaz o cenário, dramaticamente repetido, de um sujeito mutilado por usar a língua do colonizador. Ele, pelo contrário, vai colonizar a língua do colonizador e o fará a partir de uma cognição distanciada dos constrangimentos linguísticos coloniais ou pré-coloniais. Isso pode ser uma vantagem. Sê-lo-á sempre que o colonizador, ou o ex-colonizador, não dominar tão bem a ‘outra’ língua quanto o falante dessa outra língua domina a do colonizador. Este sujeito plurilingue, que rapidamente processa as suas sensações numa estrutura cognitiva descondicionada, torna-se muito mais ainda o sujeito do seu próprio processo histórico, da sua biografia cultural e literária. Nesta medida, substituo o cenário habitual do drama linguístico pelo princípio lúcido resumido por Glissant numa frase proverbial: toda a palavra é palavra”. Escrita, nem totem nem tabu, ela pertence a todos, ou seja: todos a usamos livremente – se quisermos. 

É também neste sentido que digo que a nossa literatura, quando não foi o resultado de uma cultura globalizada cafrealizando-se, ou da cultura banto globalizando-se, é porque foi, como todas, o resultado da sua própria formação, na qual a cultura portuguesa constituía uma das componentes e, na fase inicial, a componente mandatária. Escrevo “mandatária” porque fornecia os cânones (europeus, embora estes absorvessem também contributos não-europeus), avaliava a sua aplicação, fiscalizava a passagem do local para o retorno das naus ao circuito geral. Essa sua posição de vantagem não determinava, porém, unidirecionalidade, nem assimilação de uma cultura, ou de uma língua, por outra. Na medida em que o local vai tomando posse da língua, da cultura e dos mecanismos de controlo, de vigilância, vindos nos navios, ele se vai tornando o sujeito da sua própria formação e o seu desenvolvimento cognitivo tem a vantagem de estar distanciado dos condicionamentos a que fica sujeito o falante só de uma das línguas em jogo. Pela consequente vivacidade da linguagem quotidiana e sua transferência para a escrita artística, o poeta local irá inverter subtilmente as influências previstas pelo poder. A literatura que produzir, a pouco e pouco (porque vigiada, se não seria processo mais rápido), experimenta as condições dessa autoformação.


(este texto é uma secção da ampliada e atualizada nota introdutória à Notícia da Literatura Angolana, de que venho preparando nova edição. Pode ser consultada essa introdução neste endereço; aí se encontra a lista bibliográfica onde estão referenciadas as obras que citei neste extrato).


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