A compreensão das transformações cognitivas (periodicamente
sinalizadas por metáforas e alterações sintáticas e morfológicas) precisa de um
resumo rápido de como concebo, quer a cognição, quer a linguagem, bem como as
relações entre elas. Para me explicar, parto do processamento cerebral das sensações
produzidas a partir dos sentidos. Essas sensações são complexos de imagens em
rede (imagens envolvidas umas com as outras) que a estrutura cognitiva começará por
examinar e relacionar para que o nosso corpo saiba como responder ao estímulo
que provoca a sensação
Outro procedimento, que a partir de um certo grau de
complexidade se torna indispensável à autorregulação do corpo e da relação com
o meio, é o linguístico. Podemos tomar a estrutura linguística por outro autorregulador, que verifica e projeta relações possíveis entre as redes
de imagens inicialmente processadas pela perceção e pela cognição. Como, por
limitações de memória facilmente compreensíveis, não podemos armazenar os
triliões de imagens-estímulos que vamos produzindo na vida, organizamo-los por
padrões e as nossas línguas, testando a perceção e a cognição, testam padrões –
mantendo-os funcionais, mudando os que falham, para otimizar as nossas
respostas. O nosso conhecimento, aquilo a que chamamos de conhecimento, fica
então marcado por essa relação com o meio natural e com as línguas que usamos,
ambos interagindo com o sistema social em que vivemos, de que também dependem
sobrevivência e reprodução. Os primeiros critérios regulando as línguas e os
processos cognitivos (os que nos fazem decidir por esta ou aquela tese, por
este ou por aquele discurso) dizem respeito à sobrevivência e à reprodução, quer
dizer, à continuidade, procurando ao mesmo tempo a homeostase. Nessas
interações se forma uma ambiência semiótica (uma semiosfera), fortemente
diagramática, ligada ao uso das línguas.
O ponto-chave para nós, estudando a formação crioula da
literatura angolana, está nisto: conforme, com a idade, vamos ganhando
consciência das variações e das diferenças entre línguas (logo, semióticas), o
nosso cérebro, que desenvolveu circuitos próprios de processamento linguístico
e de cognição, diferenciará cada vez mais o processamento cognitivo dos condicionamentos
armazenados na memória de uma língua. A própria competência linguística se
liberta do condicionamento a uma ou a outra língua. Como lembra Sónia El Euch,
a “competência linguística – incluindo a competência lexical – em diferentes
línguas forma um sistema unificado, diferente do sistema que rege a competência
monolingue”
Quando nos criamos em situação bilingue ou multilingue, o
mais comum será tornarmo-nos pessoas bilingues ou plurilingues – ou, pelo
menos, usarmos uma língua com forte consciência dos aportes ou achegas de outra
ou de outras. Assim sendo, o processo de libertação dos processamentos
cognitivos em face das línguas começa mais cedo e esse foi precisamente o caso
das cidades angolanas onde a literatura nasceu, mesmo também o de Mbanza Kongo,
ou São Salvador, no tempo em que ali se manteve uma comunidade local de escrita
e leitura intelectuais, realizadas em latim, português e kikongo. Mas esse
distanciamento, essa autonomia da cognição relativamente às línguas, sempre se
opera, até por encontrarmos sempre, ao longo da vida, conceitos e sentimentos e
sensações que não conseguimos definir ainda na língua que nos serviu de berço.
Sempre haverá essa diferença entre o que intuímos, o que sentimos de nós
mesmos, o que pensamos e o que expressamos. É por isso muito profunda a
asserção peirciana de que nós nunca temos o significado completo dos signos.
Neste sentido, o quadro histórico e social em que se
desenvolveu a literatura angolana apurou a nossa estrutura cognitiva e a
inevitável independência dela face às limitações linguísticas em que se
examinam cognições intuitivas. Ora, citando ainda Sonia El Euch, o
“plurilinguismo envolve uma relação dinâmica entre línguas e culturas onde a
direcionalidade da influência é diversa.” Ou seja, não está garantido que uma
língua e uma cultura assimilam a outra, antes se assegura a multiplicidade
direcional das influências. Essa multiplicidade acentua dois aspetos: a
independência cada vez maior das operações cognitivas e das expressões afetivas,
por um lado; por outro a garantia de que o sujeito plurilingue, ou em situação multilingue,
se torna cada vez mais o sujeito da sua própria formação.
Evitando que a língua seja tão condicionante como se supunha, esse contexto e o processo que dispara aceleram a superação da dependência do conhecimento relativamente às línguas de berço. O que, lentamente, se vai realizar ao longo da vida (o descondicionamento da cognição face aos padrões transmitidos verbalmente pela geração anterior) é processado com mais intensidade num contexto bilingue, ou multilingue, inicial e num contexto de ‘choque’ de culturas ou de pulo tecnológico (o avanço tecnológico e a dificuldade das gerações mais velhas em se adaptarem a ele leva os mais novos a ‘descontarem’ algumas afirmações dos mais velhos e sua tradicional autoridade). Há toda uma gradação, como é lógico. Se conhecemos apenas algumas palavras, frases, metáforas, provérbios (ou máximas) e adivinhas de outra língua, não desenvolvemos tão rapidamente esse descondicionamento como quando dominamos bem as duas línguas. O bom domínio das duas línguas, por circunstâncias políticas, desde que o Marquês de Pombal proibiu o uso de documentos em português ‘mal escrito’, passou a ser um valor para a nossa comunidade urbana intermédia e para os colonos antigos. Isso manteve-se até ao século XX e à ditadura salazarista, que despromovia a língua local acintosamente. Por saberem 'como são as coisas', o bom conhecimento das línguas locais, ou da língua do ‘outro’, continuava sendo valorizado pelos missionários, pelos comerciantes ‘do mato’ ou dos subúrbios e por alguns intelectuais citadinos. Isso manteve o bilinguismo ou plurilinguismo angolanos, também praticado entre línguas bantos, não só entre línguas bantos e europeias. A língua portuguesa, entretanto, recebendo 'lições' de línguas bantos diversas abrigava, no solo angolano, um conjunto de referências por igual diversas que a tornava numa plataforma de síntese entre vários condicionamentos linguísticos prévios e pré- ou para- coloniais.
Como se processam as 'entradas' de conceitos, imagens e palavras bantos no português de Angola, ou as 'entradas' de uma língua em outra e de uma cultura em outra? Lotman estudou com bastante rigor essas passagens e para o vol. I de La semiosfera remeto agora o leitor, evitando saturar o texto com mais parêntesis, parágrafos e divagações. O que de melhor temos para
fazer traduções entre línguas é, precisamente, o que temos de melhor nas
estruturas cognitivas e linguísticas, um recurso muito usado pelos poetas: as analogias
(estabelecendo semelhanças), os contrastes (estatuindo as diferenças), as
metáforas (afinando semelhanças entre diferenças). Esses recursos experimentam
relações semióticas pela determinação dinâmica dos signos, acesas entre divergências
linguísticas. O caráter vivaz da argúcia poética vai corroer a língua dominante
com subtileza, cautela, porque toda a linguagem é vigiada e, portanto, o
sucesso da operação dependerá da subtileza e da perspicácia do novo sujeito.
Justamente, a subtileza e a
perspicácia são caraterísticas cognitivas que, percebendo-se ou exercendo-se
por vezes através das palavras, ativamos (ou teremos vantagem na sua ativação) pela
leitura de qualquer texto, ou seja, de qualquer rede de conexões, e que
traduziremos em diversas línguas a partir de uma cognição que lhes foge.
Nesta perspetiva se desfaz o cenário, dramaticamente
repetido, de um sujeito mutilado por usar a língua do colonizador. Ele, pelo
contrário, vai colonizar a língua do colonizador e o fará a partir de uma
cognição distanciada dos constrangimentos linguísticos coloniais ou
pré-coloniais. Isso pode ser uma vantagem. Sê-lo-á sempre que o colonizador, ou
o ex-colonizador, não dominar tão bem a ‘outra’ língua quanto o falante dessa
outra língua domina a do colonizador. Este sujeito plurilingue, que rapidamente
processa as suas sensações numa estrutura cognitiva descondicionada, torna-se
muito mais ainda o sujeito do seu próprio processo histórico, da sua biografia
cultural e literária. Nesta medida, substituo o cenário habitual do drama
linguístico pelo princípio lúcido resumido por Glissant numa frase proverbial: “toda a palavra é
palavra”. Escrita, nem totem nem tabu, ela pertence a todos, ou seja: todos a
usamos livremente – se quisermos.
É também neste sentido que digo que a nossa literatura,
quando não foi o resultado de uma cultura globalizada cafrealizando-se, ou da
cultura banto globalizando-se, é porque foi, como todas, o resultado da sua
própria formação, na qual a cultura portuguesa constituía uma das componentes
e, na fase inicial, a componente mandatária. Escrevo “mandatária” porque
fornecia os cânones (europeus, embora estes absorvessem também contributos
não-europeus), avaliava a sua aplicação, fiscalizava a passagem do local para o
retorno das naus ao circuito geral. Essa sua posição de vantagem não
determinava, porém, unidirecionalidade, nem assimilação de uma cultura, ou de
uma língua, por outra. Na medida em que o local vai tomando posse da língua, da
cultura e dos mecanismos de controlo, de vigilância, vindos nos navios, ele se
vai tornando o sujeito da sua própria formação e o seu desenvolvimento
cognitivo tem a vantagem de estar distanciado dos condicionamentos a que fica
sujeito o falante só de uma das línguas em jogo. Pela consequente vivacidade da
linguagem quotidiana e sua transferência para a escrita artística, o poeta
local irá inverter subtilmente as influências previstas pelo poder. A literatura
que produzir, a pouco e pouco (porque vigiada, se não seria processo mais
rápido), experimenta as condições dessa autoformação.

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