Lembro-me do poeta que era dos nossos companheiros de convívio mais constantes: ele, o Dr. Edmundo Rocha, o Jorge Macedo e eu, quando vinha de Évora para estar com eles, ou para algum evento cultural, ou para a Casa de Angola – então exilada a subir para Sapadores.
Tinha um corpo largo, não era muito alto (um bocadinho cambuta mesmo), o cabelo de caracóis esticados, uma voz possante e um olhar de menino, com brilhinhos infantis quero dizer. É um dos melhores critérios para nos conhecermos: o do menino ou menina que assoma aos nossos olhos. Aquele era puro.
Quando o conheci, na velha Fac. Letras de traça modernista e páginas rançosas que emboloraram o modernismo, avisaram-me logo: cuidado, é muito chato, nós todos o evitamos. Como se houvesse no mundo chateza maior do que a daquela velha dama soturna e moribunda por esses anos sombrios… Asseguraram-me, porém, que, “ainda por cima”, estava sempre a elogiar os EUA e a criticar o MPLA, o que me deixou curioso, pois o supunha (pelos livros) nacionalista e de esquerda, enfim, da II geração nacionalista. Efetivamente - num tempo em que ninguém tinha coragem para fazê-lo - ele assumia que o modelo económico e, sobretudo, político norteamericano era melhor do que o soviético ou, genericamente, o 'socialista'. Lamentava, no entanto, os problemas sociais que esse modelo não resolvia. Sobre o assunto foi o que me disse, quando lhe relatei que o 'acusavam' disso. E disse-o depois de uma boa e sonora gargalhada.
Sempre, porém, que me falam mal de alguém, num primeiro momento retraio-me. Se não der ouvidos imediatamente vão fazer comentários a meu respeito, as mesmas pessoas que falavam mal dos outros. Então mostro respeito pelas opiniões e, com a experiência de uma vida de tímido, vou espiando a figura de que me falam, tentando aperceber-me da pessoa que nela se agita.
Realmente, percebia-se logo que tinha uma grande necessidade de falar, mas também de conversar. Como sempre me alugaram a cabeça por muitas horas eu fugia apavorado. Mas fixei-lhe a voz com o ritmo, a ondulação, a prosódia e alguns versos metidos pelo meio de qualquer happening cultural - ou seja: a despropósito, porque a nossa atenção não está voltada para aí, nem há silêncio para ouvir. Ele aproximava-se, falava, falava, eu procurava com os olhos uma saída de emergência, mas ressoava-me a voz. E ficava-me a pulguinha a coçar na orelha: talvez valha a pena conhecer este homem, só preciso de alguma paciência. Fiquei alguns dias na dúvida, até que o ouvi declamar. E mudei de imagem sobre ele. A personagem tinha mesmo interesse, importância, etimologia, sentido próprio.
Realmente, percebia-se logo que tinha uma grande necessidade de falar, mas também de conversar. Como sempre me alugaram a cabeça por muitas horas eu fugia apavorado. Mas fixei-lhe a voz com o ritmo, a ondulação, a prosódia e alguns versos metidos pelo meio de qualquer happening cultural - ou seja: a despropósito, porque a nossa atenção não está voltada para aí, nem há silêncio para ouvir. Ele aproximava-se, falava, falava, eu procurava com os olhos uma saída de emergência, mas ressoava-me a voz. E ficava-me a pulguinha a coçar na orelha: talvez valha a pena conhecer este homem, só preciso de alguma paciência. Fiquei alguns dias na dúvida, até que o ouvi declamar. E mudei de imagem sobre ele. A personagem tinha mesmo interesse, importância, etimologia, sentido próprio.
Não gostava especialmente da poesia dele, que associava muito ao realismo militante dos primeiros e segundos nacionalistas, um discurso cru, direto, seco. Mais tarde pude mudar também de opinião a respeito. Dentro do seu grupo de manifestação (e geracional) os poemas do Tomás Jorge, muitas vezes (além do típico sabor genuinamente angolano – da Angola urbana e suburbana do seu tempo), exalavam uma sugestão cósmica e filosófica profunda, englobante, configurada por um quase ou mesmo ateísmo enraizado, não em convicções ideológicas e prévias, mas em reflexões próprias e de alcance universal. Por outro lado, os seus poemas tinham ritmo personalizado, diferente dos poemas dos outros companheiros. Mesmo as escansões e os cortes rítmicos, ao mesmo tempo harmónicos e vincados, eram de um sopro muito próprio. Havia ali uma respiração e uma visão que tornam singular uma qualquer obra literária – para além do natural e comum senso de beleza. Tanto me bastou pra começar a apreciar vários poemas dele.
Com o tempo (muitos anos depois) notei que havia entre ele e o David Mestre uma estranha ligação. O David, crítico também da estética dos anos 50, dizia que não (com gesto e expressão muito sérios), que o Tomás era diferente, e pedia (olhando o chão) para ‘não mexer nele’, quer dizer, não criticar a poesia dele, não molestar o realismo dele, que eu veria com o tempo que tinha algo diferente. Eu nunca o molestei pelo realismo, nem por qualquer outro motivo, respeitava-o. Mas nunca tinha ouvido o David Mestre dizer para não criticar alguém, muito menos um poeta 'realista'. Isso estranhei, ficou-me também atrás da orelha.
Junto com a imagem que retive da sua declamação, porém, esta reserva do David me levaria a dar mais atenção ao Areal. David Mestre era como seu meio irmão. Defendiam-se um ao outro e falavam como velhos irmãos, uma estranha e inviolável solidariedade os ligava sem palavra. Lembro-me de que o David Mestre tinha sempre, na parede sob a qual gostava de se sentar, o retrato dos dois, lado a lado, e por cima o do poeta Tomás Vieira da Cruz. Uma vez a Moranguinho, na Charneca da Caparica, depois de uma conversa minha com o David, cheia de suspeitas caladas, ou ressumando nos interstícios, sobre a verdadeira paternidade dele, uma vez a Moranguinho, quando a sós, alertou-me: não vês as fotos?, olhas essas fotos aí, ele põe sempre juntas. É ele, o Tomás Jorge e o Tomás Vieira da Cruz. Já viste como são parecidos? E calou-se com um silêncio antigo.
Mas o David, modernista acérrimo e demolidor quanto a poéticas imediatistas (ou seja: visando efeitos práticos imediatos), quando lhe falei nesse caráter militante, cru, realista e por vezes panfletário da poesia do Tomás Jorge, sorriu-se como quem se vai desmentir e desmentiu-me a expetativa, mais uma vez: sim, de certo modo é, mas hás de ler melhor, com atenção. Não é bem igual aos outros, tem coisas ali que são muito interessantes.
No caminho para Évora, onde era professor, fui pensando naquilo e decidi reler o Areal. Lembrava-me da capa desde a adolescência, pois a minha mãe gostava desse tipo de poemas e comprava, sempre que podia, poetas angolanos. Mais tarde revi o livro na velha Fac. de Letras da Univ. de Lisboa, enquanto estudante. Não posso falar mal dessa velha Faculdade, hoje um tanto renovada e arejada. Não posso falar mal porque eles têm bons e muitos livros. Mas retorno às minhas pessoas. Olhei para o Areal furtivamente, ouvindo os comentários do prof. Manuel Ferreira, que lhe elogiava a militância clara mas desconfiava de uma postura pró-americana como um benfiquista desconfia de um sportinguista – ou, pior ainda, de um portista. Por esses dias havia de encontrar o voluminho num alfarrabista lisboeta, pouco tempo depois de o folhear ainda com as mãos do Inácio Rebelo de Andrade, que possuía também um bom acervo da época, incluindo alguma correspondência com os protagonistas literários de Luanda (o Luandino, por exemplo). Por acaso, colhi dispersos ainda em revistas de poesia portuguesas que não eram, geralmente, colaboradas pelos nomes canónicos nem por poetas angolanos, se excetuarmos raras vezes o M. António –
eu desconfio desses cânones, construídos geralmente por via negativa, por frases do tipo ‘esse não, é um chato’. Há frases que substituem a poesia, a leitura da poesia e o que, segundo Nietzche, temos em comum com os bois, para além de olharmos extasiados os palácios: a capacidade de ruminar (logo, de nos surpreendermos, porque é o espanto, ou o banzo, o que nos põe a pensar - e o espanto supõe a nudez mental ou descondicionamento).
Fui refletindo com a poesia dele, mastigando-a a pouco e pouco, retendo-lhe o sabor às vezes requentado mas, quase sempre, agridoce como as frutas da nossa terra. Áspero sabor mas que, no fim, deixa no paladar esse agridoce que nos faz voltar a colher o fruto. É assim que penso bem: como as ondas do mar, o pensamento vai e vem. Como quem se delicia, vou saboreando com o pensamento e com a respiração, atento aos sentidos interiores e à luz externa, vou recolhendo e apaladando a poesia ou a filosofia, muito lentamente, com vagar. Conforme viajava, caminhava, parava depois, com tempo, frente ao livro, pesava com o sabor das palavras o quilate, quiçá o discretíssimo diamante de um poema ou de outro – até aquele que ‘descobri’ na internet e ele escrevera na Lunda na década de 50.
Mais tarde fui dos que insistiram para que ele reunisse toda a sua lírica. Tentei fazer a ponte para que ele a publicasse na IN-CM, onde o Dr. Braz Teixeira se empenhava seriamente em constituir uma coleção que transmitisse uma ideia sólida e real da nossa cronologia literária. Falei com o Dr. Braz Teixeira e ele mostrou-se animado com a sugestão, pois conhecia e apreciava a lírica do Tomás Jorge. Depois de muitas hesitações pareceu-me que, finalmente, ele ia avançar para a publicação. Mostrou-me cópias de muitos poemas, que li e reli com gosto. Fiz-lhe poucos comentários, atrapalhado que andava com teses e intrigas académicas, cujo único efeito profundo é o de nos fazer perder tempo para nos defendermos ou nos explicarmos inutilmente. O que de resto me levou a, cada vez mais, deixar que falassem mal de mim à-vontade, assumindo as consequências. A maldade e a estupidez humanas não merecem nem uma segunda via.
À última da hora, com um sorriso de malandro inocente, o Tomás Jorge foi-me dizendo palavras que me levaram a perceber que ele ia recuar. Acho que ele preferia, por nacionalismo compreensível, editar em Angola e numa editora angolana. Apareceu-me mais tarde o Virgílio Coelho em Luanda, com ar triunfal e muitos decibéis acima da média, rindo e perscrutando-me com olhos de esguelha, a mostrar a grande antologia Talamungongo = olha o mundo. O poeta, finalmente, reunido para nós todos e com o grafismo e o rigor editorial do nosso candimba! Gostei. Para o Virgílio era mais um extraordinário sinal antropológico da ressurreição do reino do Ndongo, certamente e logo a partir do título… Para mim foi só a possibilidade de rematar o longo período de intermitência reflexiva sobre a lírica dele. Extrair-lhe, agora com maior definição, o que nele, sem deixar de ser nacionalista, coletivo, ou militante, era mais do que prometia a força humana mas se limitava, por imperativo de consciência, a representar essa força em toda a sua dimensão quase metafísica. O sentido filosófico inquietando muitos poemas, de uma filosofia que parecia conceber o mundo como um ateu mas numa visão cosmológica e holística, muito poética também, que parecia entrever – a pesar das distopias – alguma inominada ligação entre as coisas. Uma visão (a dele) que se foi tornando cada vez mais pessimista, não só com a desilusão face à política partidária, aos destinos do país. Um país onde um poeta com a sua dimensão e prestação nacionalista, nos últimos tempos, tinha que andar de candongueiro entre o centro e o subúrbio onde ficava à noite, já desconhecido, votado à categoria de lixo pelas agências de rating político-literário. Mas o Tomás era luandense de cepa, dava-se bem na viagem e, por vezes, era até escutado com respeito... Felizmente sobrevivia, quando estava na sua cidade, à custa de uns bons funjes de carne seca e de um razoável vinho tinto no antigo Kinaxixe, entre o fedor do lixo e o vento que vinha de antes da ilha para assoar um bocado as narinas. De modo que o lixo e a brisa reforçada no caminho nos arejavam com uma brisa forte vento que mais tarde o Abreu Paxe classificaria: fede de luz.
Era ali, no primeiro piso do Kinaxixe, que o sentia mais natural e contente, com o seu olhar menino outra vez rejuvenescido. Entre as velhas de panos que nos preparavam o funje e o nervosismo, urbano, constante, do Jorge Macedo, que nessa altura oscilava entre sentir-se perseguido pela polícia política do MPLA – imagine-se! – e fazer muitas perguntas a um jovem (que se dizia descendente da rainha Ginga - para o jovem era indiferente o G, o J ou o Nz, embora sublinhasse sempre que, nas nossas tradições, se dizia nz). As perguntas eram de um etnógrafo, sobre tradições kimbundo, anotando nuns pedaços de papel as respostas ansiosamente, para depois lhe dar uns trocos, que era ao que vinha o jovem. Discretamente, o mais velho Tomás se ria disso tudo, mas gostava do convívio, sim, que premiava com a sua gargalhada grande, sonora, feliz - "ninguém se ri como nós / nos ríamos", razão tinha o Mário António - grandes amigos ambos. E gostava de falar às velhas de panos, donas do sabor, ou melhor, do saber pelo sabor. E como sabia conversá-las e como elas o entendiam prontamente, com respostas na ponta da língua (afiada em quimbundo)!
Mergulho nessa refeição. Ê pá! Pescadinha de rabo a fugir da boca, vai-te lá lixar ó Xico, "saber pelo sabor", isso é muito antigo!, depois dizes que os outros é que são requentados, volta mas é depois, isso também já é uma distopia. Amanhã acabas de falar no Tomás Jorge. Por hoje chega. Vamos comer o funje, mazé.
Mergulho nessa refeição. Ê pá! Pescadinha de rabo a fugir da boca, vai-te lá lixar ó Xico, "saber pelo sabor", isso é muito antigo!, depois dizes que os outros é que são requentados, volta mas é depois, isso também já é uma distopia. Amanhã acabas de falar no Tomás Jorge. Por hoje chega. Vamos comer o funje, mazé.
Professor, não vejo botão para publicar no Facebook. Permite-me que o faça, ou não gosta de republicações, e menos ainda no FB?
ResponderEliminarObrigado.
Vergílio Frutuoso
Boa tarde. Não há qualquer problema em publicar. Vou ver se resolvo isso do botão. Abraço.
EliminarBoa tarde, mais uma vez. Olhe, se não tem o AddToAny ou outro parecido, clique com o botão do lado direito (ou esquerdo, conforme tenha o rato programado) sobre o título e copie o endereço da ligação ou qualquer outro dos procedimentos possíveis (pode enviar para o seu celular, por exemplo). Obrigado.
EliminarProfessor, muito obrigado pela autorização e pela "dica".
ResponderEliminarUma viagem com cheiro e sabores, prof.
ResponderEliminar