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Antologia lírica angolana - roteiro mínimo


Em tempos não muito recuados, Luandino Vieira, no âmbito da editora nossomos, me sugeriu que fizesse um resumo de história da poesia angolana que atualizasse o Roteiro da literatura angolana de Carlos Ervedosa, naturalmente partindo dele. 

Pelas conversas que mantivémos em torno do assunto, penso que o projeto era o de fazer um roteiro mínimo, prático, útil, da poesia lírica angolana até aos nossos dias. 





Meti mãos à obra e pensava, inicialmente, criar uma equipa para o efeito, pois a matéria é vasta. Por várias vias o projeto se furou. Ao ver, em rede, uma abertura de concurso da UNICAMP, para edição de livros, pensei que, por aí pelo menos, a publicação de tal roteiro seria viável. Então retomei o projeto pessoalmente e rapidamente (na verdade, como vi tardiamente o anúncio do concurso, tinha só 13 dias para fazer tudo). As recolhas que vou fazendo para alunos e as recolhas de materiais em rede, incluindo antologias, em permanente pesquisa e arquivo de resultados, facilitaram-me a tarefa. O facto de me encontrar no Brasil e sem os meus livros (os que sobraram da saída última de Angola) dificultava algumas referências, mas pude superá-las com a memória e por vezes contactando amigos. O mais prestável desses amigos foi o poeta e jornalista Carlos Ferreira, Cassé, sempre pronto a contribuir para o estudo e divulgação da nossa literatura com empenho são e disponibilidade total. Aqui fica o meu agradecimento a ele. 

Entretanto concluí a proposta, coloquei a concurso e a obra foi aprovada. Eu mesmo já não esperava que fosse. Várias pessoas me avisaram de que não era provável e, mais ainda, porque me distanciava, de forma explícita, face à crítica empenhada, partidária, ideológica (étnica também). De facto, nós sofremos durante décadas com a imposição de um modelo de poesia partidária cuja caducidade os 'patronos' se recusavam a admitir. Os críticos literários e muitos colegas professores embarcavam na cegueira, para não perderem vantagens imediatas nem ganharem inimigos de peso. Acresceu que a emergência de conceções etnicistas e tribalistas, usando as temáticas da identidade com objetivos políticos reprováveis, hoje ainda quer promover a continuação da literatura empenhada, sendo que agora, em vez de 'o partido', o que temos é a etnia disfarçada sob diversos nomes. É por isso que, no nosso contexto, faz ainda sentido um esforço para ler a poesia sem pautas partidárias, distanciando-nos do empenhamento político para abrirmos uma perceção e adesão estética mais intensa e verdadeira. O contexto brasileiro é, no momento, completamente outro e veio reativar discursos líricos empenhados. As diferenças não são só de contexto, há no Brasil uma história da literatura empenhada que nos mostra diversidade e apuro estéticos, infelizmente sem comparação no caso angolano. Mas o contexto é muito forte neste Brasil, em face da perseguição burra, cega mesmo, até contraproducente, promovida por um governo e um presidente sem preparação para os cargos, visando destruir universidades que funcionam bem, ainda que tenham (como sempre) melhorias a realizar. Em face desse contexto grotesco e ditatorial, alguns amigos avisavam (a maioria são pessoas de esquerda, não me refiro a boutades de direitistas primários no twitter) que, então com esses distanciamentos antipartidários, era muito pouco provável aprovarem-me a antologia e menos ainda na UNICAMP. 

Na verdade, o problema nem sequer existiu, a questão partidária não contou para nada. A obra foi aprovada após submissão à apreciação 'cega' por pares, ou seja, segundo regras estabelecidas universalmente. Criam-se mitos malévolos em torno das universidades públicas e seus agentes principais e este breve episódio prova que não são verdadeiros. Após aprovação da obra, todas as alterações efetuadas se prenderam com aspetos meramente editoriais e técnicos (a revisão, por exemplo). Não sofri qualquer intereferência ideológica, nem pressão partidária, nem tentativas enviesadas de censura, ou de redirecionamento do discurso. Nada mesmo. E quem me conhece sabe muito bem como sou no que diz respeito a isso. Se a UNICAMP é marxista ou não, pouco me interessa. O que realmente me interessa é a necessidade e o objetivo da obra (divulgar aqui a poesia angolana cobrindo uma lacuna grave), o prestígio da editora e da Universidade, ao mesmo tempo que dar aos brasileiros uma visão atualizada da formação da nossa poesia. Quanto a policiamentos, mais ou menos twittescos, apenas merecem uma recusa frontal, como crimes que são contra a Humanidade.  

Uma das mudanças operadas no livro prendeu-se com o resultado final. Os editores aperceberam-se de que o resultado final era mais o de uma antologia do que o de um roteiro, ou de uma história mínima. Expliquei a génese do projeto para justificar o título que dava à obra. O que eu tinha feito, relativamente ao Roteiro de Carlos Ervedosa, para além da atualização dos dados e do distanciamento na perspetiva, era uma ordenação mais rigorosa da sequência. Mantive o carater sucinto da narrativa, a definição dos traços característicos ou interessantes por pinceladas rápidas e incisivas. Mantive também a prática dele de citar, quanto pudesse, textos, em vez de se estender em considerações. Dar lugar aos próprios poemas, se possível completos. O que fiz foi, também, ordenar a relação comentários-poemas de maneira a que os poemas viessem depois das considerações, em vez de entremeados com elas.

Como não pensava em uma antologia, reduzi os textos de cada autor a um, no máximo dois poemas, representativos o suficiente para ilustrar o que dizia dos poetas e das épocas. Quando com um só não conseguisse dar imagem da poesia do autor e dos traços que nela me parecessem interessantes, incluía uma segunda composição. O realce dado às obras em prejuízo de épocas e escolas e gerações vinha também do Roteiro de Ervedosa. Parece-me que ele privilegiava esse tipo de leitura, pessoal e apessoada.

Mas compreendi que os editores tinham razão. Colocando-se na perspetiva dos leitores, eles percebiam, como disse, que o resultado final era mais o de uma antologia do que o de um Roteiro ou História mínima. Por isso combinámos novo título, o mesmo que encima esta mensagem e me parece resumir bem as duas vertentes: há, de facto, uma antologia de poemas, são citados vários poemas inteiros, mas também há um Roteiro, ainda que mínimo. 

Assim produzimos um livro que, pelo preço, pelo número de páginas e pelo conteúdo se coloca num padrão acessível para quantos se comecem a interessar por poesia angolana, ou mesmo poesia africana escrita em língua portuguesa. 

O endereço da editora para compra do livro é este. Aí dá-se também acesso às primeiras 20 páginas. Aqui vou colocar a Introdução que lhe fiz, incluída nessas 20 páginas. Pode haver pequenas diferenças, porque a última revisão já não passei para word. Mas não são significativas, como pode conferir qualquer leitor interessado.


Gralhas: na p. 94, certamente por gralha, aparece escrito "articulado e confrontado com o misticismo" quando devia ser "miticismo", como facilmente se perceberá lendo o poema; na p. 102, 4.º verso, em vez de "cabeça de milho" é "cabaça de milho", como também facilmente se perceberá lendo. 



"O que o leitor vai ter entre mãos é um painel demonstrativo do percurso histórico da formação de uma poesia lírica angolana. Os primeiros sinais, de literatura escrita e da existência de autores e leitores, temo-los ao longo do século XVII e foi de lá também que tirei o primeiro texto aqui transcrito. Infelizmente, só voltamos a poder ler poemas angolanos a meio do século XIX, pois a preservação de papéis no nosso contexto era precária e, por outro lado, a maioria da documentação guardada deve estar nos arquivos da Igreja, provavelmente em Roma e Louvaina (Leuven), uma vez que a Igreja se responsabilizava pelo ensino e controlava a produção cultural até, justamente, o século XIX.

Os poemas escritos no decorrer dos dois últimos séculos foram já muitos e mostram a constituição de uma comunidade e de um sistema literários cada vez mais populosos. Os que se escreveram a partir da independência foram, talvez ainda, em maior quantidade que os anteriores. Isso me obrigou a conceber esta breve narrativa e antologia em dois volumes, dos quais o primeiro se apresenta agora, estando o segundo por fazer.

A data que vai separar o primeiro do segundo volume é política e poética.

Política, na medida em que vincada pelo fator independência. Tal fator determinava, para os poetas, uma pergunta fundamental: o que deve ou pode ser a literatura angolana? Depois da independência, formal, a pergunta mudou: o que vamos ser na literatura angolana?

Entre uma e outra perguntas houve, como era de supor, uma geração de transição logo antes de 1975 e outra revelando-se logo em seguida. A primeira, de autores nascidos ao longo dos anos 40 do século passado, se inclui neste volume; a segunda, de autores nascidos ao longo dos anos 50 do século passado, inaugurará o seguinte.

Como até 1975 não tínhamos um país formalmente constituído como tal, entendi que era justo colocar o subtítulo, exclusivo deste volume, Antes da nação – ou seja, antes da nação política.

*

Dito isto, breves notas para preparar a leitura desta sumaríssima narrativa ilustrada:
1.      A seguir a cada título de cada ‘verbete’ se expõe, resumidamente, as caraterísticas do que o título refere ou ilustra e que me pareçam de destacar.
2.      A seguir a cada título genérico, para que o leitor não fique agarrado a meras definições ou resumos gerais, ilustra-se cada época ou geração com os principais protagonistas, ou seja, aqueles nomes que nos deixaram uma obra que me parece ilustrativa. Só em raros casos excecionais incluí autores sem livro publicado ou organizado, pois a estruturação de um livro leva os poetas a reverem os seus textos em função de uma perspetiva de conjunto que vai defini-los para a posteridade.
3.      A seguir ao nome do protagonista se resumem as características interessantes da sua poesia e se explica a escolha de um ou dois poemas representativos, para que a produção pessoal se sobreponha à definição meramente esquemática de características e factos.
4.      A escolha dos poemas e dos autores evitou o critério político-partidário que, infelizmente, foi determinante na nossa crítica literária durante várias décadas (e, por vezes, ainda se tenta que assim continue). O que se pretende é apresentar um conjunto de poetas e poemas que valham pela sua obra e não pela partilha da militância. A inquietação estética revelada (ou escondida) por eles tornou-se, portanto, muito mais importante para mim.
5.      Outro escolho se evitou: inseparável das nossas oraturas, urbanas e rurais, ao mesmo tempo em que empenhada em mostrar uma cultura popular identificadora, a poesia lírica escrita prestou-se muitas vezes a leituras disfarçadamente exóticas. Ou seja: os poetas escreviam para sublinhar diferenças no seio das literaturas em língua portuguesa, mas, com isso, sem quererem, estavam a facultar material para que os poemas fossem lidos e valorizados pelos elementos folclóricos, estranhos, bizarros, diversos. Assim, por exemplo, o bilinguismo literário, os poemas imaginando quadros, situações e protagonistas rurais, os quadros evocando costumes e sabores específicos, rurais e urbanos, etc., eram bem recebidos por comentários tipo “tão lindo, tão diferente”, quando muito “são mesmo outras culturas”, enfim, “curioso”, “África é mesmo outra coisa”, “é preciso saber apreciar e valorizar a cultura dos outros, tão diferente da nossa”. Ora, tal África (uma das muitas) é muito semelhante a ‘nós’, seja esse ‘nós’ quem for, esteja onde estiver, pois o que muda é meramente circunstancial, a espécie humana é toda muito parecida – desde o tempo que nos comíamos uns aos outros em todo o planeta, coisa que hoje fazemos com maior subtileza. Por outro lado (e este é, para mim, o ponto principal) a poética dos respetivos autores era válida além dos motivos usados, era o trabalho artístico sobre eles que interessava reter e não se reparava nele quando se fixavam as atenções nesses pormenores, estáticos na receção, de exotismo ideologizado e, na verdade, neorromântico. A minha preocupação foi a de afastar esses poemas – que, sem dúvida, foram marcantes entre nós – e buscar outros em que o trabalho oficinal estivesse mais à vista, ou pelo menos não fosse tão mascarado pela localização referencial e pela petição político-partidária.
6.      Por todos os motivos acima expostos me preocupei em definir as características estéticas dominantes ou interessantes, ignorando as outras, e fazendo tábua rasa dos currículos políticos dos autores – que se encontram profusamente em rede.
7.      Enquanto escrevia, citei livros ao correr da pena, sem preocupação de ser exaustivo. Caberá aos professores e especialistas acompanharem os leitores interessados num aprofundamento da bibliografia também. Esse é um exercício complementar, sobretudo para os alunos, investigar outros títulos sobre os mesmos assuntos, em particular os disponíveis em rede.
8.      Normalmente, este tipo de livros inclui, no final, uma extensa e inconsequente lista de títulos. Inútil porque, de tão extensa, o leitor se perde pelo meio e se fatiga; inútil, ainda, porque a maior parte dela não está disponível para um leitor comum, mesmo na maioria das bibliotecas universitárias. Achei preferível e mais honesto referenciar apenas os textos a que recorri no momento, com a mesma naturalidade com que a nossa mente seleciona umas imagens e não outras para virem à consciência (talvez não seja necessário citar agora António Damásio) – e muitas vezes falha nas escolhas, que outros completam.
9.      A bibliografia surge em dois modos: espalhada pelo livro, ao fim de cada poema, sob o título genérico (mas não absoluto) de “Bibliografia mínima” (onde se indica pelo menos um livro que deva ser lido, não necessariamente o melhor, mas o mais acessível ou o mais completo, ou, pelo menos, o mais representativo); no final, na lista de obras citadas, aparece o resto.
10.  É certo, porém, que, hoje, qualquer pessoa copia o nome do autor e, por vezes, também o título de uma obra, colando-os depois em um motor de busca e fazendo a pesquisa a partir daí. Neste novo contexto, a bibliografia serve apenas como indicador inicial e mínimo, havendo mesmo ensaístas, como Denis Dutton, que se limitam a indicar uma parte da bibliografia por palavras-chave para busca. Acho que vamos nessa direção, tanto mais que, em uma edição digital, a bibliografia pode ser em boa parte substituída, com vantagem, por hiperligações.
11.  Este brevíssimo historial literário, para se fazer, beneficiou de muitas outras leituras que não foram citadas e algumas delas eram fundamentais, estando incorporadas há muitos anos. As mesmas razões que me levaram a separar a obra em dois volumes, me levaram a conceber um terceiro volume só dedicado à bibliografia mais importante para se estudar a história da poesia lírica angolana e para esse terceiro volume remeto o leitor interessado em algum ponto impreciso no futuro. Aí conto juntar as referências aos principais livros para estudo, as hiperligações dos textos disponíveis em rede e as palavras-chave para pesquisa.
12.  O intuito geral com que o livro foi concebido resume-se a servir de introdução ao assunto, sobretudo para leitores brasileiros, mas também para todos os leitores lusófonos. Entre esses leitores, os estudantes ganham natural destaque, embora me preocupem outros. Há, também, os que precisam de uma informação rápida e inicial para depois seguirem sua curiosidade ou necessidade ou conveniência (por exemplo jornalistas). Não circula, por agora, nenhum manual, nem nenhuma antologia, atualizados e com distribuição significativa, que sirvam de introdução à história da poesia lírica angolana. Tendo eu percebido, quer no Brasil, quer em Angola, quer em Portugal (países em cujas universidades lecionei e leciono), a necessidade de um resumo atualizado para o professor recomendar aos alunos, decidi-me a assumir a tarefa. Se se criar aquela ‘água na boca’ pedindo um pouco mais e vislumbrando um caminho, terei conseguido o meu objetivo principal, o de suscitar e orientar a curiosidade sobre o assunto.


Francisco Soares,
Rio Grande – RS,
Fevereiro de 2019." 




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