Por favor, leiam até ao fim. Espero não gerar equívocos, mas, se não lerem na totalidade, não vão perceber o que digo. Percebem qualquer outra coisa, que vos pode ser útil, mas não foi isso que eu escrevi.
Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí eu
estarei.
Esta frase terá sido pronunciada por Cristo. Muito repetida,
presta-se a tudo. Por exemplo, para fundamentar ou legitimar a subordinação da
vida prática e religiosa, ou mística, a uma instituição muito centralizada,
rígida, policiadora das mentes.
Em meu nome, porém, é em nome de quem? Quem é aquele «eu»? Eu
sou Aquele que É. Para mim, esta é a única definição inquestionável de Deus e
que posso admitir que ele próprio a desse. Todas as outras são nossas.
Mas Ele também disse, em princípio, a frase que pus na primeira
linha. E também disse, em princípio, que vinha trazer um mandamento novo. Vinha
superar a Bíblia anterior – a partir dela, no que diz respeito às referências
discursivas; a partir da Sua divindade no que diz respeito à vivência que traz
e faz o Mandamento.
Qual é que foi o mandamento? Amai-vos uns aos outros. Não propriamente
nas orgias, isso já existia muito e ninguém esquecia no império romano. Mas ‘como
eu vos amei’.
Como nos amou Cristo? Não só trazendo-nos o Mandamento, vivendo
connosco uma vida só assim, em dádiva e liberdade. Mas também chegando ao ponto
de morrer condenado por pecados ou erros habituais entre os homens. Que erros? Os
de criar bodes expiatórios para destruir tudo o que se gere espontaneamente, em
vivência e liberdade, sem condicionamentos, ingenuamente, ‘em meu nome’. Porque
tudo o que foi feito assim, só por isso, já pôs em causa as estruturas e as
hierarquias dos poderes humanos.
Uma tal reunião é revolucionária, desmente e
desorganiza o poder. O que ensina, então, o Amor de Cristo ao se deixar
crucificar? Aparentemente, a resignação, mas, esquecidos que ficamos da origem,
a reSignação.
Qual o recado que nos traz? Se vos ameaçaram, não se amedrontem.
Se vos matarem, não matem. É o medo que mata. A fé (manter-se fiel, ou seja,
ligado, manter a ligação, portanto ser fiel ao amor), ela salva até da morte. Porque a Ele o mataram e continuou
vivo, até se mostrou de corpo e alma para que o víssemos e não duvidássemos e
depois é que se desmaterializou. Porque, se não partisse, o iríamos iconizar e
transformar em novo chefe. Deixem que vos matem, sejam coerentes até ao fim,
mantenham-se fiéis, ligados, amando e dizendo a verdade. Só o medo resiste. A verdade
afirma, pela palavra ou pelo silêncio. Se vos matarem vocês continuarão vivos e
eu também estou aí. Não se preocupem com mais nada. Cumpram, só, o novo
mandamento, a nova ordem: amai-vos uns aos outros. Não se preocupem com 'o resto'.
Quem está, portanto, reunido ‘em meu nome’? Os que se reúnem amando-se
uns aos outros, por amor, esse amor que se realiza independentemente do poder,
do medo e da morte.
Agora a segunda parte: vocês já repararam que, muitas vezes (e
principalmente entre pessoas novas, ainda não muito presas às preocupações e
aos medos da vida), quando se reúnem alguns (e algumas), mesmo ateus, em torno de uma obra,
de uma realização, por mais simples que seja, estando entre eles a falar e agir
naturalmente, ingenuamente, sem cartas na manga ainda, esses que se reuniram
realizam mesmo alguma coisa, geram dinamismos agregadores, são criativos e objetivos,
concretizam e inovam, afirmam, abrem perspetivas. Depois, é o depois. Geralmente
cada um acabará se fechando sobre a sua própria estória, com ideologia e
partido ou sem eles, e envelhece. Também geralmente se atrai, tal como bem intencionados, mal intencionados que, ao notarem aquele crescimento, tentam participar para controlar e dirigir a nova energia - com o que a matam e dividem os membros reunidos 'em meu nome'. Depois alguns (e algumas) recontam a sua estória sendo
geralmente pouco humildes, embora uns tantos disfarcem bem. Mas isso é depois e o
depois não me interessa, já todos conhecemos, não nos traz respostas, apenas
negações, nega a esperança, sobretudo.
Em momentos verdadeiramente revolucionários (ou seja: que nos encaminham
para as origens, a Origem), há qualquer fagulha disto que falo. Ainda que se
trate de ateus, seja qual for o partido ou a ideologia ou o ícone com que se
identifiquem nesse momento. Esses são os aspetos só aparentemente mobilizadores (ícone, ideologia, bandeira, partido) e, na verdade, os que vão travar o movimento.
O que, verdadeiramente, mobiliza nesse instante é estarem
reunidos colaborando com boas intenções, a do bem comum sobretudo. Isso é,
também, amarem-se uns aos outros. Ingénuos, dirão os céticos, sentados nas
confortáveis cadeiras amealhadas com um realismo de anos e anos, carunchosas
mas cómodas.
Sim. De facto, o problema está em que essas comunidades que,
momentaneamente, se organizam numa espécie de verdadeira estrutura
(autorregulando-se, com intenso dinamismo interno e interações imprevistas com os outros
sistemas, formando um conjunto atuante), essas comunidades e esses momentos não
têm maneira, pela sua ingenuidade, não têm maneira de se defender. Qualquer ataque
programado e centralizador rapidamente acaba com as boas intenções e destrói
essas células de liberdade e amor.
Mas se, para se defenderem, tais estruturas confiam
num poder coordenador, que se destina, somente, a evitar choques internos e fortalecer
o conjunto para evitar os externos, essa mesma confiança vai gerar a sua
destruição. Assim quando, por exemplo, um determinado poder acompanha um surto,
uma manifestação destas, insinuando-se enquanto companhia atenta e vigilante,
que visa verificar se ali não houve, mesmo, mal, ou maldade, logo em seguida o
surto acaba, o milagre se desfaz e os santos, continuando vivos, ficam no
desemprego (às vezes na prisão), os seus atos perdem brilho e se apagam, ou se orientam em qualquer
sentido mais miúdo, que se irá confundir com a legitimação de algum poder –
novo ou antigo.
Portanto, são momentos únicos, imprevistos, intransmissíveis e descontínuos,
além de transversais (e nessa medida é que desorganizam as hierarquias
instaladas).
É justamente aí que radica o sentido de outro tipo de mito: o do
Quinto Império, o da Terceira Idade (a do Espírito Santo, que na verdade já
começou com a partida de Cristo e, portanto, a entrega total da cena à terceira
pessoa da trindade cristã). O sinal de que ainda não chegámos lá é, justamente,
a descontinuidade dos instantes do Mandamento.
O que mantém a esperança e constitui matéria de fé é,
precisamente, a reunião ‘em meu nome’, ou seja, continuarmos a, inesperadamente
para os poderes humanos e até para nós próprios, nos reunirmos amando-nos uns
aos outros. O que, etimologicamente, não é ingénuo, mas em certa medida é
inocente, na medida em que não prevíamos, nem nunca sabemos como vai terminar.
Justamente o mesmo que se passa quando começamos um poema. Ou quando verdadeiramente o lemos.
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