POLINDO A PEDRA NO PAÍS DOS HOMENS PACIENTES
A erupção de José Luís Tavares na vulcânica e marítima paisagem da literatura cabo-verdiana vem se afirmando como uma das mais extraordinárias revelações da sua já longa história.
Nascido em 1967 e começando a publicar com a primeira geração pós-independência, podemos dizer que ele resume, assume, transforma, transtorna e reestrutura a herança cultural e poética da qual sai um perfil propriamente cabo-verdiano e intrinsecamente universal.
Ainda que o poeta não se repita de verso para verso, Coração de lava é também uma sinédoque de toda a lírica do autor, acrescentada pela convivência intensa e desdobrada com as excelentes fotografias de Duarte Belo. Intensa e desdobrada, mas não direta. Esta convivência carateriza-se por uma total independência entre a imagem visual e a imagem verbal. Melhor dito: ambas vão beber à mesma fonte, a da sintaxe das imagens, anterior ao pensamento, à palavra e à máquina fotográfica. Essa fonte de onde mana, com emoção, toda a poesia, incluindo aquela que nos é trazida pelo olhar cósmico do fotógrafo.
Quando entra na linguagem verbal, a de José Luís Tavares concretamente, o imaginário original se desempenha das dívidas da memória e do raciocínio desenvolvendo sequências rigorosas, densas e inquietantes, de cuja gestação o próprio poeta fala, quando nos diz que atravessa
o estilo demoradamentecom
o sussurro fiel da névoa nas escarpas
nada mais denso e difícil de perfilar que a névoa; nada mais claramente definido que as escarpas em contraste com a névoa.
Se a linguagem tem esta configuração, rigorosa e densa, o discurso propriamente dito percorre desde o chão cabo-verdiano até às profundidades do mar e às alturas mais subidas para nos deixar, ao fim de cada poema, uma sugestão totalizante, cósmica e cosmogónica, associada a um sentido universal e profundo do humano. Com o que se casa perfeitamente ao âmbito cósmico, mítico (e humano por ausência) das fotografias de Duarte Belo. O fecho dos versos desempenha, na sugestão holística do poema, um papel fundamental, verdadeiras chaves de ouro dele saindo para abrir caminho sobre ondas e desertos.
Usando ritmos de grande fôlego e uma constante metaforização, a textualização das imagens é constituída ainda por uma intensa intertextualização, com sinapses apontando:
- A uma tradição universal, ao mesmo tempo filosófica e poética.
- A uma diacronia cabo-verdiana, que recupera a reminiscência das Hespérides e o que de melhor houve até se levantar a voz altíssona e profunda dos Exemplos de João Vário e a própria geração dos seus companheiros dos anos 80 e 90.
Essa intertextualização é, sem dúvida, um traço forte na poesia de João Vário e da geração de José Luís Tavares, toda ela uma geração de releitura e reanimação do discurso poético pelo transcurso peregrino dos coletores de analogias.
Em José Luís Tavares a intertextualização é, porém, mais fortemente reflexiva (como em João Vário), de pendor filosófico e de uma dimensão a tal ponto humana que a grandiosidade da nossa espécie é devolvida à sua condição mítica, a mais verdadeira de todas porque a mais poética.
Chega-nos então o poeta na curva de mais um dia
E hoje falaremos desse humano património
Que outrora acolhemos com indulgência.
Hoje, porém, abriremos a noite
Com seus olhos límpidos de espanto estrangeiro e peregrino
Humano aceno da vida viandante, homem-país
Da pátria profunda que o poema edifica para ti
Vertigem realmente sentida nas alturas
Ascendidas pelo cordão do verbo
Atravessando a fresta do céu nú
Quando à tarde tudo morre a Ocidente.
Luanda, 26-6-2015
(texto lido quando da apresentação de Coração de lava em Luanda, UEA, 26-6-2015)
(texto lido quando da apresentação de Coração de lava em Luanda, UEA, 26-6-2015)
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