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As noites de Boaventura


Noites de vigília, de Boaventura Cardoso, é um romance crucial para a História de Angola e da Literatura Angolana. Passo a explicar porquê e quem tiver a oportunidade de ler o livro certamente vai concordar comigo.

1.   Não é tanto pelo estilo. O estilo do autor, neste livro, apura-se mais uma vez. Por exemplo, o trabalho sobre a linguagem torna-a ligeiramente mais leve, de leitura mais corrente, sem abandonar as suas principais características, que a inscrevem numa linha de subversão linguística de inspiração popular que, vindo embora de uma componente do Ulisses de Joyce (e, para nós, de Guimarães Rosa), tem uma tradição própria já em Angola, desde Luandino Vieira até Ondjaki, manifestando-se principalmente na prosa narrativa mas ainda na poesia em verso, logo desde João Maria Vilanova e suas Vinte canções para Ximinha (1971).
Dentro desta vertente estilística da nossa literatura a prosa narrativa de Boaventura Cardoso ocupa, sem qualquer dúvida, um lugar muito seu. Aqui ela se entrega mais ao prazer estético, deixando por exemplo metáforas e outras figuras de estilo desenvolver-se apenas pelo efeito de beleza, sem que sejam necessárias à exposição lógica do assunto, pelo contrário imitando alguma redundância das conversas populares, redundando informação e acrescentando intensidade poética.

Outra característica é a da substituição dos adjectivos por substantivações qualificadoras e conotadoras – e não só por substantivos. Veja-se, por ex., “a tradição no constante dos hábitos” (onde “constante”, um adjectivo, sai substantivado pela aplicação da preposição «em», funcionando como se escrevêssemos “na constância dos hábitos”). Isso acontece com maior notoriedade nas perífrases. Leia-se, p. ex., na p. 11: “amigo de quem há muito não tinha sequer resumo de notícia”, ou seja: amigo distante, ausente, aquela massa alongada de palavras substituindo uma simples que as diria todas. A adjetivação pode fazer-se ainda por advérbios de modo, locuções adverbiais, além destas perífrases substantivantes. O adjetivo tem, geralmente, a vantagem da síntese. E esta não é uma prosa sintética, na linha aliás de uma tendência relativamente recente de vários dos nossos melhores prosadores, como Manuel Rui Monteiro e até José Eduardo Agualusa.

Um exemplo, ainda, concilia os dois traços de estilo de que falei, a substantivação perifrástica e a manutenção de figuras por mero efeito estético: “na corrente do tempo passava o ano de dois mil e três, lento – o tempo se desfiando na ampulheta”. Reparem que o autor não tem pressa, escreve 2003 por extenso, e depois acrescenta uma figura que só esteticamente se justifica, pois não chega a introduzir qualquer informação, qualquer nova referência, nada.

Parece, portanto, que a leveza maior conseguida por via do ritmo ainda mais apurado da sua prosa suporta uma intensificação estética mesmo que desligada da informação referencial – o que inscreve esta narrativa numa tendência barroca já presente em outros nossos escritores, de géneros vários, tanto quanto na linguagem de corte das soberanias tradicionais – por exemplo a do Reino do Congo, ou do Kongo.

2.   A grande novidade, para a Literatura Angolana, vem do conteúdo.
A figura do reencontro, a perseguição de elementos passíveis de reconciliar a comunidade nacional, dominam toda a estória. É preciso dizer antes que o romance nos narra, simultaneamente, o processo através do qual o MPLA conseguiu ter Luanda nas mãos e conduzi-la à independência e o processo ou tentativa de reconciliação após a guerra. O primeiro é protagonizado por um ex-bandido convertido ao projecto do partido; o segundo é protagonizado pela mesma personagem e por uma vítima dessa conquista interna de Luanda, que depois se alistou nas fileiras da UNITA. O primeiro é nortenho, o segundo é sulano – ainda vivendo em Luanda.

Os dois ex-antagonistas que se reencontram estiveram em lado opostos, lados ou partes que se destruíam mutuamente, mas agora reencontram-se para trabalharem juntos na defesa dos ex-combatentes. Essa é uma figura que aparecera já nos Patriotas de Sousa Jamba e que, de vez em quando, ressurge fugazmente na nossa literatura narrativa. Um símbolo do reconhecimento e da vontade de união ou reunião de todo o povo angolano, agora com problemas comuns – aqui assumidos explicitamente – voltando-se uns com os outros para o como enfrentar os problemas comuns.

Essa figura formará a cena inicial mais forte do romance, abrindo como leit-motiv toda a intriga que se desenrolará para os nossos olhos. Ela é, literariamente, o motivo principal do romance.


No desenvolvimento do motivo principal, o dono da narrativa, que geralmente cede a voz ao protagonista de 1975, abre espaço para a voz do antigo antagonista e deixa, portanto, que alguém vindo da UNITA e do Sul exponha a sua versão dos acontecimentos. Aqui, nesta espécie de bipartidarismo literário, é que se encontra o aspecto mais inovador das Noites de vigília. Creio ser a primeira em que isto acontece numa narrativa angolana com a autenticidade, verossimilhança e extensão com que sucede aqui. Porque até na exposição e assunção dos erros o protagonista é sincero, ou seja, o autor revela tudo sem que nos pareça haver alguma espécie de auto-censura. Para um escritor empenhado partidariamente, cuja biografia política é de todos conhecida, o gesto é mais ainda de saudar. 


Luanda, 14 de Maio de 2014.

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