Dizia Sidharta, pela voz de Hermann Hesse: "o oposto de cada verdade é igualmente verdade".
Não se tratava de relativismo fácil e mecânico. "Isso significa: uma verdade só pode ser comunicada e formulada por meio de palavras quando for unilateral. Ora, unilateral é tudo quanto possamos apanhar pelo pensamento e exprimir pela palavra. Tudo aquilo é apenas um lado das coisas, não passa de parte, carece de totalidade, está incompleto, não tem unidade."
Geralmente, quando usamos a palavra precisamos defini-la, usá-la com um, no máximo dois sentidos, intuitos e funções muito claros (pelo menos para nós). Em particular os discursos que pretendem representar, conceitualizar, discutir e fundamentar a verdade precisam de usar cada palavra num único sentido.
Essa é a morte da palavra, que a torna unilateral e, portanto, falível. Porque, lendo ainda Sidarta, cada coisa tem em si todas as coisas, incluindo o que foi e o que será. Portanto, uma palavra para falar de uma coisa precisa de ser igual, precisa de trazer em si todas as palavras, incluindo os seus significados anteriores e posteriores.
Essa palavra grávida é a palavra poética. Ela é multilateral, ambivalente ou polivalente, e reaproxima-nos dos arcanos - aquela espécie de chama ou fonte da qual brotam continuamente as várias manifestações de uma palavra, de um pensamento, de uma pessoa ou de uma coisa. Essa mesma fonte, arcaica, que também tem dentro, como o grãozinho do bigbang, todo o universo que dela vai manar.
Daí o sentido e a função da poesia. Não só, aliás, do que tradicionalmente chamamos de poesia, mas também do que chamamos pensamento poético, uma forma de exprimir e pensar que usa a palavra original - original quer dizer seminal, aquela que, ao ser ouvida, nos fala de tudo o que é e não é ao mesmo tempo.
Só assim podemos dar aviso uns aos outros de uma verdade que transcende o único meio que temos para falar nela: a palavra.
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