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É ali já - é já ali

Numa passagem de Tudo isto aconteceu o pai de Óscar Ribas conta uma história passada com ele em Cabinda. No meio da narrativa afirma que "vocês sabem que, para o preto, não há distâncias"; ele perguntava, numa caminhada, se faltava muito para chegarem e a resposta era, invariavelmente, que "é ali já" - porém, o "ali" eram muitos quilómetros ainda (v. p. 148, 2.º parágrafo). 






No Alentejo contam-se muitas estórias em que um dos motivos é, precisamente, o alentejano a dizer que "é já ali" quando ainda falta muito para lá chegar. 


Isto é importante, porque revela uma noção das distâncias oposta entre um europeu de pele branca e um africano de pele negra. 


A explicação comum prende-se, no Alentejo, com a paisagem: plana, de vegetação pouco mais que rala, exceto nas serras maiores. Habituado à planície, o homem alentejano dizia estar próximo tudo o que via. 


Mas em Cabinda a paisagem torna-se diferente. Há floresta, relevo acidentado, fatores que barram a explicação 'alentejana'. Será o comércio de longa distância, largamente praticado em toda a África, explicação para isso? Nesse caso, como se pode compreender que o alentejano, pouco ou nada dado a isso, tenha uma mesma noção das distâncias que um habitante de Cabinda?


Várias hipóteses ou caminhos se abrem então para explicar que haja uma expressão comum, relativa às distâncias (encurtando-as), entre dois povos tão distantes:


1) será que em todos os desertos, semi-desertos e savanas os povos dizem o mesmo que no Alentejo?


2) será que todos os povos que apresentam uma percentagem de mais de 15% de genes 'negros' na sua herança biológica dizem 'é já ali' quando, afinal, ainda estamos longe?


3) será que todos os 'negros' dizem o mesmo que os de Cabinda e os 'brancos' só o dizem quando moram em regiões semi-desérticas?


4) será que essa noção do "já ali" é comum a todos os povos que praticam em rotas de comércio a longa distância?


Ou simplesmente é um acaso revelado pela comparação?

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