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Filinto Elísio


Há dois Filintos, e Elísios, nas literaturas de língua portuguesa...



O padre Francisco Manoel do Nascimento (1734-1819) tornou-se famoso com o poetónimo Filinto Elíseo e é tomado como referência da língua portuguesa, que depurou com a sua poesia. Também se considera um acabado modelo do neoclassicismo português. 

Apesar disso, depois do Bocage, foi o poeta que mais influenciou as gerações seguintes. António Feliciano de Castilho, um romântico com formação básica neoclássica, bem como o grande poeta parnasiano brasileiro Olavo Bilac e seu companheiro Guimarães Passos, afastaram-se explicitamente dessa influência. Em contraste, foi admirado por Alexandre Herculano e Almeida Garrett - os cofundadores do romantismo lusitano - e, de forma geral, pelo domínio, pureza e vernaculidade da língua. 

Foi admirado pelo poeta brasileiro Gonçalves de Magalhães também, que lembra o exilado e patriota em Paris, onde o conheceu. Gonçalves de Magalhães é o principal poeta da introdução do romantismo no Brasil, embora (como Garrett e Herculano) sofresse de uma formação neoclássica.

Na perspetiva de Fidelino de Figueiredo, a marca de Filinto Elíseo deve ter-se confinado “estritamente na influência estilística”. Acredito que o crítico português tenha razão para dizê-lo. Entre nós, a haver, é também do mesmo cariz. É-me difícil ainda, neste momento, delimitar com precisão a influência de Filinto Elíseo na poesia angolana, mais ainda na africana de língua portuguesa. Há talvez algo do seu estilo (o que do estilo dele passa para Alexandre Herculano) em dois poemas do cónego A. J. Nascimento publicados no Almanach de lembranças e versando temas universais através de sóbrias referências locais. 

A. J. do Nascimento abre com um texto seu o famoso livro Voz de Angola clamando no deserto, que marcou a reação protonacionalista da comunidade crioula angolana aos preconceitos e avanços do colonialismo desenfreado na abertura do século XX. Ele era nessa altura, como recorda Mário António, uma figura patriarcal para a comunidade angolense. Foi amigo e biógrafo de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, para além de professor reputado e influente. Por várias vezes se viu contrariado pelas autoridades coloniais e as contrariedades me parecem derivar da sua firme ligação à terra, ao hinterland, ao povo e à elite angolense. Discreta, mas firme a ligação de que falo. 

Para além do estilo, outro fator tê-lo-á tornado simpático aos primeiros românticos, incluindo entre eles angolenses. Filinto foi dos que menos apelou às personagens de papel oriundas da literatura greco-latina e que não tinham nenhuma correspondência viva – estavam mais mortas que as línguas onde nasceram. Por justas razões a sua poética passava, portanto, para o bojo do próprio romantismo, que rejeitou liminarmente as referências, explícitas e estruturantes, aos deuses e às figuras da literatura clássica estilizadas. Ora, essa poética neoclássica sem personagens de papel, mais próxima do português vernáculo, transcrevia tragédias de “João Racine” (1639-1699) e de La Harpe (1739-1803), cartas de Voltaire, uma elegia de Tibulo (“a doçura de Tibulo” – notava Marcial) e de Longino (o sublime), enquanto “recapitulava em epístolas críticas a estética de Horácio”. A todas estas obras encontramos referências suficientes nas bibliotecas e jornais de Luanda, Rio de Janeiro e Recife-Olinda, estes últimos dois portos de onde vinha muita bibliografia para os filhos da terra também.
É portanto bem possível que Filinto Elíseo tenha influenciado mais autores angolanos e que circulasse no mercado bibliográfico lusógrafo.

Muitos anos depois disso, nasce em Cabo Verde, na cidade da Praia, Filinto Elísio Correia e Silva que, para além de várias outras coisas, é poeta. O seu nome foi se afirmando gradualmente no cenário bibliográfico de Cabo Verde e vários críticos fora das ilhas atentaram já na sua obra, flagrando aspetos diversos - e, em alguns casos, com olhares que pedem mais prudência.

Não conheço com pormenor a sua obra já publicada. Vou lendo esparsamente alguns textos e o meu interesse pelo poeta vem crescendo gradualmente. Pude ler com tempo e atenção o livro Li cores & ad vinhos (Lisboa: Letras várias, 2009). É um livro que pede uma aproximação calma, atenta, com olhar disponível. Á partida e no princípio há uma série de referências a amizades e mestrias, convívios, vinhos e licores que parecem exaltar a boemia literária ultimamente tão esquecida nas grandes capitais - onde a vida já não dá para isso, dizem.

Se tais palavras podem criar uma expetativa báquica, ao começarmos a ler os poemas podemos ficar ligeiramente desiludidos. A nossa memória cultural pode, porém, recuperar Omar Khayyám (1048-1131) - poeta largamente traduzido na lusografia, entre outros por Manuel Bandeira, e admirado (entre outros também) por Fernando Pessoa. Já o grande poeta sufi, que foi também um matemático e geómetra brilhante, conjugava perfeitamente dois valores estéticos aparentemente contraditórios: o cultivo das metáforas do vinho e do prazer exercido por versos regrados e contidos, como se as regras técnicas fossem leis rituais que permitissem reter a inspiração dionisíaca sem perder a vitalidade verbal.

Temos em Angola um exemplo extremo desse caminho bífido. Na sua lírica David Mestre - por demais conhecidas as suas boemias - realizou uma progressiva iniciação ao silêncio, à contenção verbal e ao rigor formal. Em Moçambique teve um ícone dessa linhagem poética, Rui Knopfli. 

Penso que podemos inscrever a poesia do Filinto Elísio caboverdeano nesta ilustre tradição. Os poemas de Li cores & ad vinhos apelam justamente à contenção do leitor, obrigam-no a parar e meditar, a reler frases que ligam versos, ou que são golpeadas cirurgicamente por cortes rítmicos. Contrariamente ao que já li, escrito por um crítico honesto que se dedica ao estudo das nossas literaturas, não direi que se destaca nesta poesia (a julgar apenas pelo título presente) a metaforização ousada, de largo alcance, surpreendendo-nos e evidenciando-se pela capacidade para encontrar uma semelhança entre objetos ou seres contrastantes. Acho que, pelo contrário, nesta lírica as metáforas, como os ritmos, são sóbrias, contidas e cingidas por um percurso espacial de perfil definido e transmissível. O que resulta num efeito estético duradouro e sereno.

O que há nesta poesia, quase dois séculos depois do homónimo português, é um sentido lúdico da linguagem que, por vezes, rompe com a sobriedade que destaquei. Sobressaem nesses momentos as aliterações, as ambivalências homófonas, algumas técnicas de colagem cruzando alusões cosmopolitas e locais - entre outros procedimentos poéticos. 
Há também, naturalmente, uma linguagem quotidiana (mas que não recusa referências mais longínquas), que hoje domina de certeza mais de 90% dos poemas publicados no mundo. 

Há, ainda, uma nítida sensualidade (que Filinto não recusaria há 200 anos e que já preparava despindo-se das deusas de papel), liberta como não podia deixar de ser depois da revolução sexual das últimas décadas.

Apesar disso, sente-se ao longo de quase todos os versos a contenção, talvez me admitam, a contenção lúdica do lirismo do autor.

Longa vida, por tanto, ao destino Elísio.


(Relendo agora, lembro-me de um terceiro Filinto Elísio: o de Meneses, da geração neorrealista da Certeza. Merecia constar neste rol).

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